O significado da Organização de Cooperação de Xangai no mundo atual

Participação do professor Lejeune Mirhan no Duplo Expresso de 24 de janeiro de 2019 está aqui:

 

Por Lejeune Mirhan*, para o Duplo Expresso

Introdução

Existem hoje no mundo dois tipos de instituições. As que defendem e fazem de tudo para preservar o sistema atual, capitalista financeiro, militarizado e unipolar. E as outras, que estão no campo que venho chamando de resistência, ou seja, defendem a multipolaridade do mundo, alternativas à hegemonia do dólar como moeda única de comércio internacional e alternativas para a chamada financeirização do capital. Ainda que nem todas defendam o socialismo como melhor alternativa a esse sistema. Venho escrevendo sobre isso há tempos. Quero aqui tratar em maiores detalhes o significado e o papel da Organização de Cooperação de Xangai.

Adapatado de “Projeção Ortográfica da Eurásia” por CC Keepscases (2015)

 

As origens da OCX

 Em 26 de abril de 1996, foi realizada na cidade de Xangai (China), uma reunião na qual participaram cinco países apenas, todos eles da chamada Eurásia: A própria China – anfitriã da reunião –, a Rússia, o Cazaquistão, o Quirquistão e o Tadjiquistão. Esses países ficaram conhecidos à época como “Os Cinco de Xangai”. A grande finalidade desse encontro foi a de assinar um tratado de Aprofundamento e Confiança Militar.

Registre-se que, nessa época, a Rússia ainda estava em um período de transição do fim do socialismo e ingresso na chamada economia de mercado. Quase nada tinha a ver com a Rússia atual, regida pelo comando de Vladimir Putin. Registre-se ainda que o mundo vivia uma espécie de auge da unipolaridade, em função tanto da vitória dos EUA na primeira agressão ao Iraque em 1991, quanto pelo o fim da URSS nesse mesmo ano. Portanto, há apenas cinco anos. Não havia contraponto à essa potência imperialista. Nesse sentido, essa reunião por si só foi de grande importância.

Um ano depois, em 1997, esses mesmo cinco países decidem assinar um novo tratado, desta vez versando sobre a redução de forças militares entre suas fronteiras comuns. O significado disso é bastante claro no sentido de reduzir gastos de energia militar em locais que se fazem fronteiras com países amigos, ou seja, com quem, em tese, não iria invadir nenhum dos signatários do tratado. Assim, os gastos e esforços foram deslocados para outras áreas. Algo parecido com isso foi feito em 1939, no chamado Pacto Ribbentrop-Molotov, que assegurou algum fôlego para a então URSS – sob o comando de Stálin – se preparar melhor para a agressão nazista que se sabia iminente. No caso presente, acho que jamais ocorrerá conflitos entre esses países.

Três anos depois, em 2000, os mesmos países assinam protocolos e dizem ao mundo para que sigam esse exemplo. Que jamais interferirão nos assuntos internos dos países signatários do Tratado de Xangai. Não importa quais fossem os argumentos, é preciso respeitar a soberania dos países (era uma época que se falava muito em “direitos humanos” apenas como pretexto para que algum país fosse agredido militarmente). Falava-se em “intervenções humanitárias” (sic) para se evitar que governos tirânicos massacrassem seus povos. Pura falácia! No ano seguinte, os EUA agrediriam o Afeganistão (onde permanecem até os dias atuais) e, em 2003, agrediriam o Iraque pela segunda vez (ficaram lá nove anos).

“Estados Membros da Organização de Cooperação de Xangai” por © Shangai Cooperation Organisation

 

Objetivos

 Por fim, no dia 15 de junho de 2001, também na cidade de Xangai, foi formalizado a constituição do Bloco, que passou a se chamar Organização de Cooperação de Xangai – OCX (ou Shangai Cooperation Organization – SCO no acrônimo inglês, pois Xangai escreve-se com “S”). Atentem ao fato que, apenas cinco meses depois, ocorreram os atentados às torres gêmeas nos EUA.

Vários e amplos são os objetivos dessa cooperação internacional, com mais ênfase nos aspetos militares e econômicos. Listo a seguir os principais:

  1. Cooperação militar com vistas à segurança nas fronteiras dos países membros;
  2. Combate ao terrorismo nacional e internacional;
  3. Combate ao separatismo; e
  4. Cooperação econômica.

Este último aspecto diz respeito à uma perspectiva de criação de moeda (ou cesta de moedas) alternativas ao dólar para o comércio internacional. Nesse aspecto, o bloco chamado BRICS tem essa perspectiva desde que, em julho de 2014 no Brasil, criaram um banco de desenvolvimento e debateram essa mesma temática da moeda alternativa. É preciso ressaltar que a China e a Rússia, com alguns países bilateralmente, já comercializam petróleo em suas próprias moedas, quais seja, o Yuan e o Rublo. O Irã também tem feito isso com o Rial.

Quanto à cooperação internacional, vários estudiosos e analistas apontam de forma clara que os objetivos desse bloco, no que diz respeito às questões militares, visa prepararem-se para uma contraposição frontal com a OTAN – a organização militar sediada na Europa e comandada pelos EUA.

Nessa mesma reunião, eles decidem ampliar o bloco que, até então, tinha apenas cinco países. Admitem como membros plenos o Uzbequistão, a Índia e o Paquistão, e como membros observadores a Mongólia e o Irã. Isso significa uma imensa faixa de terras em toda a Ásia. Como podemos ver na tabela a seguir, esse bloco de oito países (considerando apenas os membros plenos) significará 40% de toda a população terrestre, 25% do PIB do planeta e 7% de suas terras.

 

A Questão Militar e das Forças Armadas

Ainda na mesma tabela, podemos observar as colunas de soldados na ativa e de soldados na reserva em prontidão para serem convocados. Ou seja, um conjunto de jovens que já foram soldados e que podem ser convocados a qualquer momento. Os quatro pequenos países praticamente não possuem exércitos. Mas, China, Rússia, Índia e Paquistão possuem quase cinco milhões de soldados ativos e o mesmo número na reserva, de forma que seu contingente militar atinge 9,5 milhões de soldados.

Já os Estados Unidos possuem 1,35 milhão de soldados na ativa e 810 mil na reserva. Isso totaliza 2,1 milhões de soldados em condições de luta. Dessa forma, vê-se que o bloco possui cinco vezes mais soldados do que os EUA. No entanto, sabemos que em termos de capacidade militar, especialmente por mar e pelo ar, a superioridade dos EUA é muito maior. Até por causa do valor que eles gastam em atividades militares. Enquanto todo o bloco dispende US$350 bilhões de dólares em seus orçamentos militares, os EUA gastam, sozinhos, U$611 bilhões de dólares todos os anos. Na verdade, a soma de todos os gastos militares de todos os países não atinge o que, sozinho, os Estados Unidos gastam ao ano.

Tenho certeza e convicção de que ainda iremos ouvir falar muito desse bloco militar e econômico chamado OCX. Aguardem.

 


* Lejeune Mirhan é sociólogo, escritor e analista internacional. Foi professor de Sociologia da Unimep (por 20 anos). Presidiu a Federação Nacional dos Sociólogos do Brasil (1996-2002).  É colaborador dos portais Fundação Grabois, Vermelho, do Duplo Expresso, B247, entre outros, e da revista Sociologia, da Editora Escala.

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