Poder, Governo, Informação | Parte 3 de 3
Por Pedro Pinho*, para o Duplo Expresso
O Poder manda, o Governo executa, a Informação ilude.
Terceira Parte: A Informação
Os vinte anos que medeiam a descoberta da fissão nuclear e o lançamento do Sputnik I (1938-1957) foram de extraordinária importância para a vida humana. Foram os anos da energia nuclear, do conhecimento aeroespacial e da mudança no conceito e usos de informação. Neste artigo vou me limitar à informação. Como passou a ser tratada após os trabalhos inaugurais dos matemáticos Norbert Wiener (“Cybernetics or Control and Communication in the Animal and the Machine”, The M.I.T. Press, 1948, Cambridge) e Claude Shannon e Warren Weaver (“The Mathematical Theory of Communication”, University of Illinois Press, 1949, Urbana).
Ao prefaciar a 2ª edição de “Cybernetics”, em 1961, Wiener escreveu:
…As noções da informação estatística e da teoria do controle eram novidade e, talvez, até tivessem chocado as noções à época (1948) estabelecidas. (“The notions of statistical information and control theory were novel and perhaps even shocking to the established attitudes of the time”)
Por que o capitalismo industrial – o poder naquela época –, não soube se apropriar da riqueza de aplicações que a teoria da informação descortinava, tal qual seu opositor, o capitalismo financeiro, o fez?
Só posso constatar que o industrialismo – capitalista e socialista – restringiu ao trabalho, à robotização, sua compreensão da informação (comunicação e controle). O que chamo banca (o sistema financeiro) viu muito mais aplicações e recursos na separação suporte/semântica na informação, como denominaria o matemático francês Louis Couffignal (“Les Notions de Base”, Gauthier-Villars, 1958, Paris).
O modelo apresentado por Shannon tratava da difusão de mensagens quanto ao suporte. Suas preocupações eram as codificações/decodificações e o meio físico, com os ruídos inevitáveis e as redundâncias necessárias. A influência destas mensagens nos receptores estaria no âmbito de outras disciplinas, como ficou evidenciado no importantíssimo encontro de 1962, em Royaumont, perto de Paris, sobre o “Le concept d’information dans la science contemporaine” (Conceito de Informação na Ciência Contemporânea).
Além de Norbert Wiener, este encontro acolheu o historiador Giorgio de Santillana, o sociólogo Lucien Goldmann, o pedagogo Helmar Frank, o microbiologista e Prêmio Nobel André Michel Lwoff, o engenheiro e físico Abraham Moles, os filósofos François Bonsack e Gilles-Gaston Granger, os matemáticos Henryk Greniewski e Louis Couffignal, entre outros.
John R. Pierce (“Symbols, Signals, and Noise: The Nature and Process of Communication”, Harper and Brothers, 1961, NY), no último capítulo deste seu livro – “Back to Communication Theory” (De Volta à Teoria da Comunicação) –, face à riqueza de soluções abertas pela teoria da informação, escreve que “é certamente maravilhoso que uma nova noção possa contribuir para a solução de tão larga gama de problemas”, como da linguagem, da psicologia e das artes.
Vejamos um caso prático, absolutamente possível da aplicação, desta separação da mensagem na votação, sem comprovação, em “urna eletrônica”, como feito no Brasil. O tratamento da mensagem é estatístico, o que permite, por exemplo, a cada três grupos semântica/suporte idênticos, introduzir uma variação na semântica, ou seja, para o mesmo suporte computar outra semântica (nome de outro candidato). Os exemplos seriam numerosos e fraudariam a vontade popular de modo técnico, com a aplicação dos recursos da teoria da informação. Talvez seja a razão do poder judiciário, que melhor do que qualquer outro advoga os interesses da banca no Brasil, seja o que mais se opõe ao voto impresso.
Também a banca percebeu a contribuição destas descobertas para a pedagogia colonial. Forma de dominação tradicional, utilizada pelos poderes para manter os colonizados ou dominados sem capacidade de refletir sobre suas situações ou alterá-las.
A banca passou a ser dona de grande número de empresas de comunicação de massa e a influenciar também a indústria cultural, que estava em crescimento extraordinário com o filme colorido para o cinema (1935) e a televisão (1939). Foi, por conseguinte, com as armas fornecidas pelas teorias apresentadas nos anos 1940, que a banca passou a conquistar cada vez maior poder até dominar, não só a economia, mas a política, o psicossocial dos povos, e os próprios governos a partir de 1990.
Foram também as possibilidades abertas pela teoria da informação que possibilitaram a ciência da computação, os estudos sobre fractais e tantas outras tecnologias e ferramentas, colocadas neste século XXI à disposição dos que tenham recursos para utilizá-las. Podemos afirmar que este conhecimento, apropriado pelo capitalismo financeiro, tornou-se mais um elemento de concentração de poder.
Nas últimas eleições nos Estados Unidos da América (EUA) e no Brasil, foram inúmeras as acusações de interferências, nem sempre lícitas ou controláveis, no processo de convencimento dos eleitores. Surgiram “demonstrações” da ação de empresas, como a Cambridge Analytica, de personalidades como seu fundador Steve Bannon, dos usos dos whatsApp, das fake news pelas redes virtuais e outras aplicações da teoria da informação.
Tudo, no entanto, pode ser resumido no controle que o poder da banca exerce sobre os sistemas de informação e das comunicações. Há a ausência indesculpável dos Estados Nacionais sobre esta sua responsabilidade frente aos cidadãos e, ouso afirmar, sobre a própria humanidade.
No Brasil, o estadista Presidente Ernesto Geisel bem tentou, pelo Estado com a Cobra[DE1], e pela empresa privada com a Itautec, promover a capacitação brasileira. Teve êxito, pois o Brasil chegou a construir, com tecnologia e materiais nacionais, os minicomputadores. Se não tivesse ocorrido o golpe de 1979 e a destruição do sistema de informática nacional, talvez meu caro leitor não estivesse escravo da Apple, da Microsoft, da Samsung, do Windows e de toda esta invasão estrangeira na informação brasileira. Ainda nos anos 1990, a Marinha de Guerra desenvolvia linguagem com base no Linux. Não sei como estará agora, com tantos governos da banca desde então.


Vejamos outro aspecto da comunicação, o psicossocial, que acontece agora, no momento que escrevo este artigo. “Acusam” um filho do General Hamilton Mourão, funcionário concursado há 18 anos no Banco do Brasil, por ter sido escolhido para cargo comissionado, para o qual preenche os requisitos.
Um ingênuo leitor apontaria o PT ou “as esquerdas” pela divulgação e pelos ataques. Claro que há bobos e maus-carateres para isso. Mas a quem interessaria, mais do que a qualquer outro poder, esta farsa?
O Vice-Presidente representa, na heterogênea composição do Governo Bolsonaro, a única força que pode se opor à banca: os militares.
Entre os principais representantes do capital financeiro, está o Ministro da Economia, que responde a processos pelos eventuais atos ilícitos que teria praticado no cassino ou no “mercado”. Parece-me evidente que, tendo a banca o controle dos meios de comunicação, um ataque ao General Mourão, como para outros militares no Governo (não no Poder, como já espero ter deixado claro nos artigos anteriores) surjam a conta-gotas.
Não seria o caso do General Augusto Heleno, no uso das atribuições de seu Ministério, investigar as informações produzidas pela banca? Ou apenas se considera oposição as estilhaçadas esquerdas, se estas já não se acumpliciaram com a própria banca, como pensam alguns bem informados e bons analistas da imprensa virtual?

CONCLUSÃO
Não tenho a paranoia de ser dono da verdade. Muito ao contrário. Permanentemente me interrogo sobre as conclusões a que chego, confiro-as com outras, principalmente opostas. Porém, o mais de meio século de diferentes experiências profissionais, a formação acadêmica também diversificada, permitem-me colocar, mais do que respostas, as perguntas que suponho adequadas ao Brasil deste século.
São, entre várias, as que apresento no título destes artigos: Quem é o poder? Quem executa suas ordens? Como sabemos o que ocorre?
Espero ter aberto, a outros mais capazes e igualmente interessados no Brasil, esta mesma curiosidade.
Seria muito gratificante começar a ler outras perspectivas, outros rumos de pesquisa, para o esclarecimento maior, mais completo.
É como concluo estas reflexões.
* Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado.
* * *
Nota [DE1] – Um pouco da história da Cobra – Computadores e Sistemas Brasileiros está neste artigo do Poder Naval, intitulado “A Marinha e o Desenvolvimento da Informática no Brasil”.
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