Por que Índia ignora sanções dos EUA e une-se ao Irã

Da Redação do Duplo Expresso,

3/6/2018, Pepe Escobar, Asia Times

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Prestem toda a atenção ao que a ministra de Relações Exteriores da Índia Sushma Swaraj, disse depois de se reunir com o ministro de Relações Exteriores do Irã Javad Zarif, no início dessa semana, em Nova Delhi:


”Nossa política exterior não é feita sob pressão de outros países (…) Reconhecemos as sanções da ONU e não reconhecemos sanções específicas por países. Tampouco observamos sanções norte-americanas em outras ocasiões.”

Depois de Rússia e China, também do grupo BRICS, a Índia nem deixou dúvidas. E há mais. A Índia continuará a comprar óleo do Irã – seu 3º principal fornecedor – e está interessada em pagar em rúpias, pelo banco UCO estatal, sem exposição aos EUA. A Índia comprou 114% mais óleo do Irã durante o ano financeiro até março de 2018, que no período anterior.

O comércio Índia-EUA alcança $115 bilhões/ano. Em comparação, o comércio Índia-Irã é de apenas $13 bilhões/ano. A Índia pode crescer impressionantes 7% em 2018 e alcançou um PIB de $2,6 trilhões, segundo o FMI, superior ao de França, Itália, Brasil e Rússia. Para continuar a crescer, a Índia precisa muitíssimo de energia.

Assim, para Nova Delhi, comprar energia iraniana é questão de segurança nacional. Combine isso com a obsessão de passar à frente do Paquistão, e é claro que aí se tem uma interconexão complexa de geopolítica e geoeconomia.



A ampla parceria Índia e Irã gira em torno de energia, corredores de conectividade para investimentos, banking, seguros, portos e navegação e – crucialmente – a iminente possibilidade de fazer tudo com rúpias e rials, deixando de lado o EUA-dólar.



Índia-Irã já negociam em euros – o que já é um primeiro passo para se livrarem do longo braço do Departamento do Tesouro dos EUA. Os dois países ainda usam o sistema [de compensações internacionais] SWIFT. Assumindo-se que a UE não ceda na violação unilateral dos EUA, que se retiraram do tratado nuclear iraniano, as importações de petróleo da Índia não serão sancionadas.

Se assim for, o passo dois será turbinar ainda mais o já florescente comércio em rúpias e rials para o front de energia – facilitado pelo fato de que Teerã investiu em upgrade e aperfeiçoamento dos seguros para sua frota de navios-tanques.



A estratégia de energia do primeiro-ministro da Índia Narendra Modi, do Partido Hindu nacionalista Bharatiya Janata [Party], BJP, não surpreendentemente, tem de cobrir todos os fronts: energia solar, eólica, petróleo e gás. O Irã não é o único ponto crucial dessa estratégia; há também a Ásia Central, e Nova Delhi espera ansiosamente começar a importar petróleo e gás do Turcomenistão, transitando, sem dúvida, por Irã e Cazaquistão.

Nova Delhi, precisa de modo absoluto de pleno acesso ao gás natural de Pars Sul, os maiores campos de gás do planeta; seja pelo gasoduto IPI (Irã-Paquistão-Índia), aquela novela infindável do Oleogasodutostão, seja, mais plausivelmente, do Golfo Persa até o Oceano Índico.

Entra o Comando Indo-Pacífico

Também não surpreendentemente, o Santo Graal para a Índia também tem relação com o Irã: o investimento até aqui de $500 milhões no porto Chabahar, no Oceano Índico, além da conclusão da ferrovia Chabahar-Zahedan.



Chabahar é o ponto inicial da versão indiana das Novas Rotas da Seda, ligando a Índia ao Afeganistão e Ásia Central, sem passar pelo Paquistão.



Para o comércio indiano, uma rota marítima direta ao Irã e dali, por terra, para a Ásia Central, incluindo acesso direto à riqueza mineral do Afeganistão, tem valor absolutamente inestimável.  Um memorando trilateral de entendimento assinado há dois anos prevê investimentos de $21 bilhões: $9 bilhões para todo o projeto Chabahar e o resto para desenvolver a mineração de ferro no Afeganistão.

Se o Irã, para Pequim, é nodo firme nas Novas Rotas da Seda (ou Iniciativa Cinturão e Estrada, ICE) e elo essencial no projeto da integração da Eurásia, Teerã também está sendo cortejada por Nova Delhi como um contragolpe a um dos principais projetos da ICE, o Corredor Econômico China-Paquistão (CECP).

Não surpreende portanto que o Ministério de Relações Exteriores em Nova Delhi não se canse de louvar o corredor de conectividade Índia-Afeganistão-Irã, “da cultura ao comércio, das tradições à tecnologia, dos investimentos à Tecnologia da Informação, de serviços a estratégica e do povo à política,” nas palavras de Swaraj.

O contragolpe de Washington até aqui foi trocar o nome do PACOM –Pacific Command [Comando do Pacífico], que inclui Índia, China, Mongólia, Sudeste da Ásia, Austrália, Antártica, de fato, todo o Oceano Pacífico – para “Indo-Pacific Command” [Comando do Indo-Pacífico], para bajular Nova Delhi. Mais que isso, o movimento alinha-se com a estratégia para o Indo-Pacífico adotada pelos “Quad” – EUA, Índia, Japão e Austrália – mal disfarçada ação para dar continuidade à contenção da China, parte do “pivô para a Ásia” do governo Obama.



Ainda não se sabe como o governo Trump poderá ‘punir’ Nova Delhi por não interromper o comércio com Teerã. No caso da Rússia – também sob sanções – a pressão é incansável. A Índia foi encorajada a não comprar da Rússia os sistemas S-400s de defesa aérea. A desculpa nem tenta ser sutil: porque “complicaria a interoperabilidade” com forças dos EUA e “limitaria (…) o grau em que os EUA se sentiriam confortáveis para trazer à Índia novas tecnologias”, nas palavras do presidente da Comissão das Forças Armadas da Câmara de Representantes, Mac Thornberry (R-Texas). Nova Delhi anunciará a decisão em outubro.

A Cúpula da Organização de Cooperação de Xangai em Qingdao, China, dia 9 de junho, será arena privilegiada para discutir todas essas questões. Rússia, China, Índia e Paquistão, como membros plenos, lá estarão; e Irã e Afeganistão como atuais observadores, bem próximos de serem convertidos também em membros plenos. É claro que China, Rússia e Índia, membros da OCX e países BRICS, recusar-se-ão a isolar o Irã. E não há o que o Comando Indo-Pacífico dos EUA possa fazer para mudar isso*******

 

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