Um pouco de Sociologia evitaria a falta de educação do governo Bolsonaro

Aqui o extrato do comentário de Thais Moya no Duplo Expresso de 15/mai/2019:

 

Por Thais Moya*, para o Duplo Expresso:

Não sou fã de Bourdieu, sociólogo francês, mas reconheço que ele fez um ótimo trabalho quando teorizou sobre Educação.

Foi com ele que entendi que a população trabalhadora não “surta” e se revolta contra a opressão capitalista devido ao ideário de que é possível melhorar de vida estudando.

Ou seja, milhões de pessoas vivem de forma pacífica a exaustiva rotina de acordar de madrugada, pegar duas horas (ou mais) de trânsito, trabalhar oito horas, chegar em casa à noite, em troca de algo: um salário insuficiente para viver dignamente! Tudo porque possuem a confiança de que a formação escolar/universitária garante ascensão sócio-econômica e, sendo assim, ao menos, seus filhos e netos terão a chance de não ter a mesma “vida de merda” que eles.

Esse ideário é um dispositivo fundamental para manter a coesão social dentro do sistema liberal, marcadamente dependente da crença no mérito. Portanto, por mais que o governo queira sucatear a educação pública para beneficiar interesses corporativos, é essencial que desenvolva seu plano (maquiavélico) por meio de uma narrativa que não abale, ou melhor, não apague a luz no fim do túnel chamado “educação”.

Bolsonaro tem feito exatamente o contrário! E com requintes de crueldade, o que tem chocado até seus eleitores.

Seu governo, além de ameaçar tornar o sistema público economicamente inviável por meio de restrições orçamentárias, tem ridicularizado a educação, por meio de ataques a professores, alunos, livros, museus, pesquisas, etc.

Tal caminho leva o imaginário social ao obscurantismo em suas duas definições principais, e nesse caldeirão fechado, sem a válvula de escape da crença de que o futuro vai ser melhor, o povo entra em desespero e sai do referido transe cotidiano e pacífico.

Em outras palavras, a “horda” que, todo dia, se atropela pelos túneis do metro, se espreme nos corredores de ônibus, toma chuva e vento nos pontos de onibus; quando entende que o governo quer acabar com seu sonho, mesmo que inatingível, do combo “diploma + status + salário alto”, é assaltada pela consciência política de sua situação material degradante.

A consequência disso, quase sempre, é a revolta popular, contexto de crise que o Poder, desde que foi inventado, se desdobra para evitar e conter.

Já está mais do que evidente que Bolsonaro e sua equipe são um bando de incompetentes. Portanto, seria ingenuidade esperar que consigam entender a complexidade dos parágrafos acima. No entanto, servem para provar que Sociologia e Filosofia Política são fundamentais para qualquer sociedade, pois, sem elas, erros rudes são repetidos, colocando no limbo não só a estabilidade do Governo, mas também a Economia, o Mercado, a Tecnologia, dentre outras áreas entedidas como “produtivas”.

Só idiotas úteis não enxergam e são incapazes de valorizar o potencial imensurável das Ciências Humanas, Educação e Filosofia.

#15M
#TsunamidaEducaçao
#Sociologia #Filosofia

 

Referências
BOURDIEU, Pierre. Reprodução cultural e reprodução social. In: BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2013. pp. 295-336

Maquiavel, N. O Príncipe. 3ª ed. totalmente rev. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

 


* Thaís Moya é doutora em Sociologia com pós-doutorado em Ciências Sociais, além de comentar todas as terças-feiras no Duplo Expresso.

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