Bidimbo! – Sistemas de Escrita Africanos

Já ouviu falar disso?

Não? Então descolonize-se antes que seja tarde demais.

Por Spírito Santo (sob autorização), para o Duplo Expresso

…Nós sabemos que a África não foi a única origem da escrita, mas a sobrevivência desta prática depois do fim das civilizações do Vale do Nilo manteve-se forte no continente. A lista certamente incompleta de sistemas de escrita africanos já descobertas é muito forte e importante, não há dúvida de que existiram outros sistemas de escrita que desapareceram durante os 500 anos de destruição do continente.

Além disso, é interessante observar o que esses sistemas de escrita estão ainda muito enraizados no vale do Nilo, o que reforça a noção de unidade e identidade negra na região. Assim, sem querer ofender os ideólogos ocidentais, a África não teria apenas uma tradição oral, mas igualmente uma tradição escrita.

Titio, depois deste texto, ainda apenas beliscando o assunto, instigado pela descoberta recente da existência de dezenas de ideogramas denominados “Ve-ves” e as belíssimas bandeirolas de paetês ambos sistemas de signos do vudu haitiano entre outras instigações irresistíveis, acrescentaria algumas pimentas neste tempero.

Logo de início ressaltaria que os processos de expansão no tempo e no espaço das culturas africanas originais – como é o caso do Egito – por força de migrações motivadas por guerras, razões climáticas extemporâneas e motivações as mais diversas e em todas as direções do continente, era óbvio se supor que sistemas de escrita ancestrais espalhariam-se pela África, como todos os outras sistemas gráficos se espalharam em outras partes do mundo.

Logo, supor uma África negra inteiramente ágrafa ou, por outro lado, superestimar o papel da escrita como parâmetro de superioridade no âmbito das civilizações humanas, inferiorizando aquelas culturas onde, além da escrita, a oralidade é também considerada um sistema de comunicação e transmissão de conhecimento eficiente, não passa de rematada tolice, pura babaquice intelectual.

Imagem esq:“L’artiste ivoirien devant l’alphabet qu’il a crée” (O artista marfinense em frente ao alfabeto que ele criou) por © André Magnin (1996) | Imagem dir: “Frédéric Brumy Bouabré enseignant l’alphabet bété à Marcory‐Anoumabo” (Frédéric Brumy Bouabré ensinando o alfabeto bété em Marcory-Anoumabo) por © André Magnin, Abidjã | CIV (1995)

Assim, avançando seja rumo ao norte (com a formação da civilização grega, segundo Heródoto) ou para o sul (com a suposta criação do império de Monomopata com suas grandes e enigmáticas muralhas), para o centro-oeste, com a grande civilização desenvolvida no que é hoje os Camarões, origem remota da cultura Bakongo, berço da Angola atual (origem da chamada escrita kongo, estudada pelo cubano Bárbaro Martinez-Ruiz), ou seja para o oeste remoto, próximo ao Atlântico (com, por exemplo as culturas do Benin, da Nigéria e do Gabão atuais) os sistemas de escrita tradicionais jamais desapareceram da África, não tendo sido esta linguagem, absolutamente inventada ou mesmo introduzida no continente pelos colonialistas europeus.

Ao contrário, foi comum na África colonial até o pós escravidão (fim do século 19, até as décadas de 40 e 50 do século 20) a invenção de dezenas de novos sistemas de escrita originais, baseados em experiências ancestrais associadas.

O silabário ou escrita Bamum (Camarões) foi inventado pelo rei Ibrahim Njoya, do povo bamum em 1896. Esse rei também coletou muitos manuscritos que continham a história de seu povo e usou sua escrita para compilar uma ‘’farmacopéia’’, para criar um calendário e para guardar registros de leis. Ele também construiu escolas, bibliotecas e uma gráfica.

(Importante se ressaltar neste caso que as origens remotas da cultura Kongo – BaKongo – num processo de migrações contínuas ocorrido entre os séculos 10 e 12 de nossa era – localizam-se, exatamente no sul do Camarões.)

A primeira versão dessa escrita Bamoun incluía 465 símbolos. O rei Njoya simplificou essa escrita muitas vezes até que chegou ao silabário A-Ka-U-Ku que é escrito da esquerda para a direita. Essa escrita apresenta 73 sílabas, mais 42 combinações, 10 numerais, 5 pontuações. Os tons são indicados quando necessários por sinais adequados.

Escrevo, logo leio

Swahili: ler = kusoma; escrever = Kwandika

Lingala: Leia = kotanga; escrever = kokoma

Bambara (língua mandinga): Leia = kalan; escrever = Sebe

Hausa: Leia = karatou; escrever = rouboutou

Fulani: Leia = djangougol; escrever = windougol

Logo surge a pergunta que não quer calar: Como cinco entre as línguas negro africanas mais importantes do continente, definiram em vocábulos originais os atos da leitura e da escrita sem fazerem uso de ideogramas ou palavras árabes ou europeias?

Como, afinal estes povos conseguiriam definir o que significa ler e escrever se não lessem e escrevessem? Este simples detalhe da evolução da linguagem humana parece provar, quase sem sombra de dúvida, o óbvio: a leitura e a escrita eram sim havidas e sabidas na África negra bem antes das invasões europeias.

Os estudos sobre este tema, muito complexos, estão bem avançados no exterior, notadamente pelo esforço de etnólogos, antropólogos, filólogos e linguistas africanos e europeus como o congolês Benseki Fu Ki.Au (veja no trabalho dele o impressionante cosmograma bakongo decifrado) a zairense (agora democrata-congolesa) Clémentine Faïk-Nzunji Madyia, o belga Jan Vansina, o estadunidense Robert Farris Thompson (um precursor), entre tantos outros.

Imagem esq: “A Voodoo design drawn by the priestess for each voodoo ceremony” (Um desenho de vudu feto pela sacerdotisa a cada cerimônia de vodu) sem autor, HAI (1950)  | Imagem centro: “Os Quatro Ciclos do Cosmograma Bakongo” por © Revista Digital Terreiro de Griôs (2017) | Imagem dir: “A Continent Carved Up, Ignoring Who Lives Where” (Um continente dividido, ignorando quem vive nele) pelo New York Times por © C.I.A. + William Reno + Northwestern University (2011) – clique no mapa para ampliá-lo

Estes estudos, contudo, estão bastante atrasados no Brasil por causa, entre outros motivos dos renitentes e arcaicos preconceitos que ainda predominam nas ciências sociais do país (o rançoso racismo acadêmico para os íntimos) que considera as memórias africanas para cá trazidas pelos escravos, hibridismo impuro, sincretismo reles, subproduto cultural de povos inferiores, primitivos e incivilizados.

De acordo com a historiografia ocidental, o sábio Bruly Bouabré (na foto que ilustra este post) que se juntou a seus ancestrais, em janeiro de 2014, seria o inventor da escrita Bété da Costa do Marfim. Ele teria criado, sozinho em 1948, 448 sinais silábicos desta linguagem a ponto de ser possível escrever histórias com eles. A escrita Bété é pictográfica, ou seja, contém desenhos como na escrita egípcia e a escrita Mende, de Serra Leoa.

Um estudo mais aprofundado demonstra, sem dúvida nenhuma que existem sinais comuns nos sistemas de escrita da África negra. Bruly Bouabré, obviamente, não era um inventor da escrita Bété, mas sim um iniciado, que aprendeu a dominar esta escrita com seus antepassados.

Uma excelente referência – esta já mais próxima de nós, brasileiros – é o especialista cubano em história da arte (com especialização em África e Centro América) Bárbaro Martinez-Ruiz que estuda o tema dos sistemas de escrita africanos, a partir de fragmentos do sistema tradicional de escrita Bakongo (bidimbo) sobrevivente na cultura cubana e caribenha (“firmas“) principal ligação entre a cultura africana na diáspora centro americana, e suas prováveis origens na região do antigo Reino do Kongo, com eixo centrado em Mbanza Kongo, antiga e histórica capital do reino, circunscrito, quase que inteiramente no que conhecemos hoje como República de Angola, além de partes do Zaire (agora renomeado como República Democrática do Congo) e da República do Congo atuais.

Titio generoso recomenda também – com insistência – muita atenção para o complexo sistema filosófico e de escrita afro-haitiano conhecido como “Ve-ve” (busque na rede por “Ve-Ve”, interessantíssimo livro do franco-haitiano Milo Rigaud, o maior especialista no tema) com sua provável ligação com o sistema de escrita bakongo (entre outras misteriosas e mui antigas ligações), principalmente pelo fato surpreendente de alguns de seus signos esotéricos, estarem misteriosamente contidos no âmbito da Kimbanda do Brasil (aquela umbanda bastarda, “do mal”) , sob o nome de “pontos riscados” (no Haiti como aqui, cada ponto é riscado, desenhado no chão do terreiro com um pó específico).

“Veve Symbols of the Vodoun Loa” (Símbolos Ve-ves dos Espíritos do Vudu) por © Mr. P.’s Mythopedia (sem data) – clique na imagem para vê-la ampliada

Há sim, tudo indica, uma ligação fortuita entre estes sistemas de signos africanos todos, ligação menosprezada por aqui por conta dos preconceitos acadêmicos citados.

Existe, aliás, acabo de perceber assim ao garimpar imagens – e surpreendendo-me cada vez mais – uma intimidade gráfica, imagética inquietante entre o Vudu do Haiti, chegado nas Américas, em parte via Benin e a desprezada Kimbanda, para os tolos um ramo impuro da Umbanda, ambas (Umbanda e Kimbanda) com fortes raízes angolanas, remotas origens bakongo, por suposto.

Muito ainda a ser estudado para se encontrar a lógica desta história de tantas ramificações, embaralhada que foi pela escravidão, pela diáspora. O pó soprado desta magia da escrita africana, contudo, se espalhou por ai, mas não se dissipou. Escrita que é não se dissipará jamais.

Bem, enfim são estes, por enquanto, os amplos sinais bibliográficos, meio areia movediça, meio saco sem fundo, que a intuição do Titio tem seguido. Você pode segui-los também, pinçando links, associando ideias, queimando pestanas. O jogo das descobertas está posto, o chicotinho quente-frio está queimando.

(Para quem sabe ler, um pingo é letra).

 

agosto 2014

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Antônio José do Espírito Santo é Músico, Pesquisador e Escritor. Estudou teoria musical em curso dirigido pelo Maestro Guerra Peixe. Projetista de Arquitetura formado pelo Senai, Escritor, Artesão e Arte Educador.  Leciona na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) desde 1995, onde criou e coordena o projeto de extensão universitária Musikfabrik – espaço permanente de investigação, pesquisa e exercício da linguagem musical em seus variados aspectos.

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