A verdade vencerá – O povo sabe por que me condenam

Por Niobe Cunha para o Duplo Expresso

Sexta-feira, 16 de março de 2018, calor de 30ºC em Sampa, trânsito de Sampa, ainda toda dolorida com os fatos recentes. A vida não tá nada fácil, mas há resistência. Trocentos compromissos, falta de trabalho, pendências. A manhã todinha tumultuada pra me liberar a tarde: Luiz Inácio LULA da Silva – A verdade vencerá, no auditório do Sindicato dos Químicos com o Rubens Rodrigues Francisco.

Que horas você vem? (pergunta o Rubens)

– Vou adiantar as coisas aqui em casa e te encontro às 16:30h lá na porta.

16h30 bateu e eu ainda na função. Caramba!

– Já tou indo, Rubens, guenta aí!

Deu 17 horas e com algum estresse eu estava lá. Rubens era o terceiro da fila. Já havia travado relação com os “compas”, comprado os exemplares dele e meu (gratíssima), e retirado senha. Fui chegando, encontrei amigos queridos na fila e fui indo ao encontro do Rubens. Perguntam minha idade:

– Maior de 60?

– Ainda não, mas só faltam 9 meses…

– Então fica na fila!

Finalmente abriram o auditório fomos sentar lá na frente, tudo certinho. Logo alguns se aproximam para o momento celebrities:

– Vocês são do Duplo Expresso? Poxa, acompanho vocês, “tamo” junto. Gostei muito do Jogo de Damas. Tá calor hein? Vamos tirar uma selfie?

Viramos todos íntimos.

– Quer um gole de água? Trouxe amendoim. Tá servido?

Conforme o auditório lotava, o ar-condicionado parecia desistir de nós, até que estavam todos (incluindo a mim) empapados, abanando com as mãos como se isso adiantasse, mas firmes no propósito: a verdade vencerá!

Com atraso e calor, começam discursos de jornalistas e apoiadores, palavras de incentivo. São amorosas, são gritos de guerra, são exaltadas. Daí vem ele e começa a magia: o calor vira afeto, corrente, unidade. A espera de quase duas horas virou um estalo de tempo, alegria, respiro. Impressionante a força de algumas presenças.

Lula consegue espaços onde se acreditava não haver mais um centímetro. Caminha de um lado pro outro no palco como se falasse sozinho, com ele mesmo, ensimesmado. Ao mesmo tempo, fala com intimidade, com cada um que estava ali para assisti-lo com o alerta da esperança.

Aconteça o que acontecer, vocês têm que saber: eu estou na luta! Não adianta tentar calar a minha voz, porque eu falarei pela voz de vocês. Não adianta tentar encurtar o meu espaço, porque eu andarei pela perna de vocês!

Recado dado. A gente retomando o fôlego depois de uma semana das mais tristes dos últimos tempos, em que nos sentimos esvaziados de qualquer possível alegria. O luto é luta. Então, vambora!

A fila para os autógrafos começava lá no quinto andar e descia serpenteando até o terceiro. Camaradagem do cansaço:

– Quer água?

O calor não dando tréguas. Chegada na primeira trincheira:

– Desculpe, dois livros precisa de duas senhas.

– Mas só nos deram uma. (Justifico com um frêmito de voz)

Então só entra um!

– Vai nessa Rubens! (Resigno-me)

Agora imagina você, eu ali, há poucos metros, depois de quatro horas e uma quase desidratação induzida, exausta, olhando pra cara do segurança e ele:

– Você não entra!

Comecei um pequeno e inofensivo motim:

– Porra! Viemos aqui defender justiça para Lula e eu vou ser injustiçada de não poder vê-lo?

Sim, as vezes lanço mão de frases de efeito pra tentar sensibilizar almas aprisionadas em ternos e gravatas e colarinhos suados, contratadas para dizer “não”. O segurança:

– Minha filha nasceu hoje e eu estou aqui, não pude vê-la ainda…

Putz! Festa na fila, parabéns ao novo papai, e eu emburrada.

– Tá vai, parabéns, é muito bom ser pai! Mas ainda é injusto comigo!

Nisso, Rubens – o causídico – já acostumado com esses percalços, impetrou um habeas corpus, elaborou um amicus curiae, com um bailar de data venia-pra-cá, data venia-prá-lá, e dali a pouco vem alguém lá de dentro e me chama pra entrar. Rubens não é fraco não! Ele tem cantado várias bolas, mas parece que não querem ouvi-lo. Eu me dei bem por confiar nele.

Agora eram só alguns metros. Já via Lula cumprimentando, autografando, beijando, abraçando, a fila andando, o coração tum-tum-tum. Todo tum-tum-truncado. É agora:

– “Presida”, posso fazer uma proposta indecente?

– Pode, vocês podem tudo! (Lula fala olhando dentro dos olhos da gente, reparei isso porque meu pai sempre diz que isso é importante)

– Vambora tomar um café em alguma embaixada? Esquece esse negócio de STF, de instituições funcionando…

– Olha, eu bem que tou querendo. Hahahahaha!

Só por isso, ganhei um segundo abraço. E mais um beijo.

– Se você preferir a gente toma uma cachaça, que eu também gosto de cachaça. (Arrisquei meu ás…)

– Você é que tá certa! (Responde ele, agora mais animado)

Rimos muito, e nos abraçamos muito, e tudo muito. Assim foi com as cem pessoas que estavam na fila. Olho no olho, café, livro, cachaça, afagos, refúgio em alguma embaixada. Era quase 22:30h, eu estava exausta e atrasada para um último compromisso ainda, e me obriguei a recusar uma cerveja com o Rubens. Cada um foi para um canto: eu, Rubens, Lula. Minha cabeça seguiu leve com a certeza de que estou do lado certo da história.

Que noite!

 

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Agradecimentos e congratulações à editora Boitempo, Ivana Jinkings, Mauro Lopes e todos os jornalistas que trabalharam no incrível documento histórico-jornalístico “A verdade vencerá – O povo sabe porque me condenam”.

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