Um Balanço das Eleições Municipais de 2020
Por Mateus Holmo França, Guilherme de Lima, Guilherme Lemos, Rodrigo Souza Alves
Depois de alguns dias dos resultados das eleições municipais de 2020, um balanço pode ser feito de modo mais preciso, afastado das emoções – boas ou ruins – que resultaram do pleito. Uma coisa se mantém clara: a direita foi quem mais ganhou espaço nesta eleição. O PP, PSD e o DEM foram os partidos que mais cresceram em relação ao número de vereadores e prefeitos. Além desses, o Republicanos, o Avante, o Podemos, o PSL, o PL e o Patriotas – todos esses, ao nosso julgamento, à direita (seja esta centrista ou extremista) – também cresceram. <https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2020/eleicao-em-numeros/noticia/2020/11/29/mdb-encolhe-mas-lidera-ranking-de-prefeitos-eleitos-pp-e-psd-crescem-e-ocupam-2a-e-3a-posicoes.ghtml>
A esquerda e os partidos mais tradicionais da antiga polarização (PT, MDB e PSDB) tiveram seus números reduzidos, mas o grande impacto, indiscutivelmente, foi sentido pela esquerda com destaque para o PT: perdeu 183 prefeituras, amargando nenhuma conquista nas capitais, mas sim o retorno do partido a um patamar muito próximo ao da década de 1990. <https://www.poder360.com.br/eleicoes/pt-recupera-poder-nos-grandes-centros-mas-fica-abaixo-do-resultado-de-1996/>. O MDB, ainda que tenha apresentado perdas consideráveis, mantém-se forte: 784 prefeituras com perda de 251 em relação a 2016. O PSDB talvez seja o caso mais ambíguo, pois ainda que tenha cedido espaço a uma nova direita (de 785 para 520 prefeituras), obteve uma nada desprezível vitória no estado mais importante economicamente do país. Estaríamos diante de um possível cabo eleitoral para Dória visando 2022, a eminência parda da campanha e gestão Covas?
O cenário que se concretiza parece ser um de “enfraquecimento” do bolsonarismo, mas ver os resultados da eleição dessa forma pode ser um tentador e perigoso equívoco. O projeto de Bolsonaro – e, por extensão, dos militares, pois são esses os que de fato governam – vai além de meras vitórias eleitorais, pois este, na verdade, busca ser um catalisador do aprofundamento da dependência (e subserviência) do Brasil ao capital transnacional. Não apenas busca administrar o capitalismo nacional, mas acelerar a venda de nossos patrimônios e forjar a destruição de nossa soberania nacional.
O fato desse projeto ter sido normalizado durante anos em nosso país – desde a operação Lava Jato – torna qualquer posição de centro, não combativa, um mero aval para a continuidade desse projeto entreguista, e as posições de direita tornam-se cada vez mais comuns, pois são as únicas que oferecem algo que aparenta ser uma solução. A hipótese que a mídia hegemônica tenta imprimir na opinião pública – não sem antes contar com o incrível “timing” de reforço de narrativa da suposta trincheira oposta – é a de que “vale tudo para substituir o bolsonarismo” – qualquer semelhança com as eleições nos EUA, deste ano, NÃO deve ser lida como mera coincidência.
Em outras palavras, “a esperança vai vencer o medo” é um “revival” da “civilização contra a barbárie” de 2018 <https://www.facebook.com/1019106646/posts/10215620515598824/>, em que “esperança” e “medo” abrem espaço para um fisiologismo partidário muito inclinado à direita, normalizando tudo aquilo que se opuser ao bolsonarismo – e por oposição, aqui, entenda-se enquanto bravata, porque a agenda entreguista é a mesma.
Esse, inclusive, parece ser o fruto envenenado que alguns setores progressistas estão tentados a morder: digerir as eleições do último domingo como sintoma de uma dupla derrota do bolsonarismo e do lulopetismo é cair em mais uma das operações psicológicas do consórcio golpista: a boa e velha cismogênese.
Por outro lado, é precoce afirmar que a esquerda foi plenamente destruída, ou que o PT foi substituído por algum outro partido como o PSOL ou o PDT – este último, ainda, em vias de constituir uma aliança programática com o PSB, segundo partido com prefeituras (252) de uma pretensa centro-esquerda. O que podemos dizer é que a esquerda, em geral, caminha a passos largos para seu abismo, se continuar com um discurso que não toca, de fato, nas feridas de nossa sociedade, e não aceita os erros cometidos nas administrações anteriores – erros estes que, de modo algum, relacionam-se à autocrítica oportunista que a direita demanda desde o golpe de 2016.
Fica, (não) vai ter Boulos: lições para se tirar de São Paulo
A disputa que teve grande destaque na mídia foi a de Guilherme Boulos (PSOL) e Bruno Covas (PSDB), em São Paulo, o coração do capitalismo brasileiro. Seria interessante ver a vitória do candidato psolista uma vez que sua campanha, indubitavelmente, impressionou. Mas alguns dos compromissos com as elites de São Paulo que Boulos fez durante a campanha foram, no mínimo, alarmantes. E com a situação da atual câmara de vereadores da cidade, seria extremamente difícil que seu governo realizasse avanços concretos.
É inegável que a campanha de Boulos em São Paulo foi um destaque em relação às da esquerda no resto do país. A conquista de votos feita por ele e por seus apoiadores no primeiro turno, superando as alternativas entre esquerda e centro esquerda, demonstra o caráter popular que sua campanha teve neste processo eleitoral. Tudo isso ocorreu na capital de um estado fortemente conservador, governado pelo PSDB durante boa parte de nossa história recente (desde 1995).
O comprometimento de sua base com a militância pelo projeto de Boulos e os anseios de boa parte da população de São Paulo, convencidas a votar no PSOL por um projeto de esquerda alternativo aos do centrismo tradicional, demonstra que esse projeto – pintado pela mídia como algo radical – conquistou o eleitorado que busca alternativas à velha política. Mesmo com uma projeção inicialmente baixa para o segundo turno, Boulos superou os números da rejeição que lhe eram estimados, conseguindo aproximadamente 40% dos votos válidos.
A mídia também não poupou esforços para diminuir a força de sua campanha. Por mais que muitas figuras da mídia e de seu partido tenham – equivocadamente – caracterizado o candidato como a principal e nova liderança da esquerda em âmbito nacional (substituindo Lula e o petismo), Boulos foi constantemente constrangido em inúmeros debates. O episódio mais escancarado disso foi no debate promovido pela UOL/Folha, no qual a repórter Thais Oyama propositalmente ataca Boulos na última pergunta da sabatina – geralmente separada para considerações finais – deixando meros 6 segundos de tempo para a resposta de uma pergunta extremamente complexa <https://www.brasil247.com/midia/apos-repercussao-negativa-thais-oyama-pede-desculpas-a-boulos>.
Apesar de seus méritos, é válido discutir sobre alguns dos problemas da campanha desse candidato para desencorajar falsas esperanças, mas especialmente incentivar um debate mais qualitativo sobre a construção de seus projetos futuros.
Boulos afirmou durante sua campanha, em uma reunião com as elites comerciais de São Paulo, que não se deve esperar dele “nenhum tipo de demonização do setor privado” <https://www.esquerdadiario.com.br/Qual-o-significado-dos-compromissos-de-Boulos-na-reuniao-com-os-baroes-do-comercio>. Houve também um manifesto de 50 empresários que lhe declararam apoio, o apontando como “o único candidato capaz de salvar o capitalismo de sua crise econômica” <https://congressoemfoco.uol.com.br/eleicoes/boulos-ganha-apoio-de-empresarios-e-investidores-veja-o-manifesto/>. A “centralização” do discurso (típica do bom-mocismo da esquerda liberal) e a busca pelo apoio das elites, certamente é uma compreensão do atual momento histórico e da fraqueza atual da esquerda, mas o problema é que esse compromisso implica que os verdadeiros problemas que assolam as massas não vão ser resolvidos tão cedo. Não devemos nos preocupar em salvar o capitalismo, e sim, superá-lo.
A atuação da esquerda e a sua formação de consciência social não devem se limitar apenas ao período eleitoral. É necessária uma estratégia de formação política que vá além das eleições, para que alianças que futuramente venham destruir o próprio governo por dentro (vide os governos petistas) não ocorram. A necessidade de uma coalizão com os algozes da população para uma conquista eleitoral não seria uma vitória política, mas mostra que a esquerda ainda não conseguiu construir um programa político coerente. Caso Boulos fosse eleito, encontraria uma câmara de vereadores majoritariamente de direita, com pelo menos 38 vereadores de oposição <https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/eleicoes/2020/noticia/2020/11/16/camara-de-sp-62percent-dos-vereadores-foram-reeleitos.ghtml, o que claramente limitaria suas ações como prefeito. Portanto, ainda com a sua vitória, iria precisar negociar mais ainda com a direita.
Mesmo fazendo uma campanha que conseguiu unificar a esquerda em uma das capitais mais importantes de nosso país, Boulos teve que se comprometer com as figuras que anteriormente prometeu regular, regulação essa que, em geral, traz benefícios para o bem das classes exploradas. Não apenas isso, a própria estrutura de nosso governo já demonstrava que seriam necessários acordos e negociações com setores mais conservadores da sociedade, para que houvesse um avançar nas pautas prometidas no programa do candidato (que muito provavelmente seriam alteradas).
A sua nova proposta de conciliação, tendo, nessa eleição, como um dos seus elementos principais a promessa de apoio ao baronato paulista, provavelmente foi o que levou a mídia a elencar Boulos como a nova liderança da esquerda para a eleição de 2022: esquerda essa considerada – e vendida – pela mídia como “radical”. Essas movimentações indicam uma queima das posições “extremistas” – atualmente a socialdemocracia da esquerda liberal e o neoliberalismo ultraconservador bolsonarista – a favor de uma candidatura mais “moderada” – que na verdade é uma sequência do neoliberalismo, apenas de modo mais “humanitário” – encarnada em uma frente ampla.
Abstenções: fim ou recomeço?
Precisamos considerar as consequências desses resultados em uma escala além da disputa eleitoral. O projeto de entrega de nossas riquezas e de nossa soberania nacional ainda tem sequência, e a população demonstra cada vez menos confiança no processo eleitoral. O número de abstenções foi o maior da história recente, e por mais que isso possa ser atribuído à pandemia, o isolamento social não está sendo respeitado ,e o número de abstenções não deixa de ser relevante <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/11/abstencoes-brancos-e-nulos-superam-votos-de-1o-colocado-para-prefeito-em-483-cidades.shtml>.
Nesse sentido, as abstenções apresentam-se enquanto sintoma de uma “antipolítica” – a que, inclusive, em partes, elegeu Bolsonaro – que embora de apolítica não tenha nada, indica uma necessidade não correspondida de uma superação da atual organização social, econômica e política. As eleições não são um fim, e mesmo que fossem, valem-se enquanto uma consequência da organicidade política, não o contrário.
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