“Rei posto, rei morto”: ou sai candidato ou Lula já era – e também o Brasil

Por Romulus Maya, para o Duplo Expresso

Há uma disputa surda no PT entre, de um lado, aqueles que junto aos anseios unânimes das bases defendem a candidatura Lula de “A a Z” e os que, do outro, (ainda) articulam o tal do “Plano B”. Entendam: com a largada queimada em fevereiro pelo grupo que construía a candidatura de Fernando Haddad – “de fora pra dentro” – “Plano B” virou expressão maldita. No entanto, a ideia de articular uma “alternativa” a Lula segue firme, embora francamente minoritária. Sua (nem tão) nova encarnação é a formulação “levar a candidatura de Lula ‘até onde der’”.

Sim, pois o que significa exatamente “até onde der” – onde se admite, por óbvio, que pode “não dar” – senão o velho “Plano B”?

Afinal, por definição, “Plano B” é aquele de que se lança mão na impossibilidade de realização do “Plano A”, o plano (supostamente) prioritário. É o step a que o motorista recorre depois de dirigir com o pneu antigo “até onde dava”.

Certo?

(entrevista do ex-Presidente do PT Rui Falcão ao Jornal da Gazeta – 14/mar/2018. Integralidade aqui)

A(s) pergunta(s) do milhão: o que, exatamente, seria “até onde der”? Quais os fatores – objetivos – a indicar que “não daria mais”? Qual seria, exatamente, o marcador disso? Quem aferiria se “ainda dá” ou “não dá mais”?

Mais algumas perguntas:

Nesse exame, qual a perspectiva a ser privilegiada?

(1) A de uma “bem-comportada” participação do Partido dos Trabalhadores nas eleições? Ou seja, sem bater de frente com as “instituições” que ditam (conforme a conveniência) as “regras” (sic)?

(2) A perspectiva de Lula e da sua defesa contra a caçada que lhe é dirigida?

(3) A perspectiva da defesa do interesse nacional e popular?

A avaliação do Duplo Expresso é a de que em verdade, estrategicamente, (2) e (3) – i.e., Lula e o interesse nacional – acabam por se confundirem. E a de que, também em verdade, ambas se chocam com (1). I.e., com o “PT escoteiro”, o PT do “sim, senhor”.

Evidentemente, do ponto de vista republicano, a luta política deve priorizar o interesse nacional e popular. O que o Duplo Expresso afirma é que, na atual conjuntura, isso se confunde com defesa incondicional da “pessoa física” – e política – de Lula, com vistas a manter o seu cacife como interlocutor incontornável do Golpe – nas suas dimensões interna e externa – para a definição de uma nova “pax” pós-Constituição de 1988 (que não mais existe).

Deveria ser óbvio, mas parece que muitos desconsideram a dimensão geopolítica do Golpe – vítimas que são de crônica deficiência que acomete a análise política no Brasil. Limitam-se a narrar condicionantes locais que, em verdade, muitas vezes apenas traduzem linha mestra que vem de fora. Tomam pelo todo apenas parte: o verniz paroquial que recobre as investidas hostis. Compreensível. Afinal, trata-se da manifestação mais tangível: noticiário “editorializado” da Rede Globo, abusos de Sergio Moro em sequência, TRF (3×0), STJ (5×0), STF (com “jogo” sequer marcado porque a dona da bola recusa-se a coloca-la em campo), etc.

Como disse, é compreensível. Mas é também indesculpável para quem, de fato, se propõe a jogar o campeonato para ganhar. E não apenas para cumprir a tabela e, assim, com a sua participação e “fair play”, possibilitar ao outro lado levantar o caneco no final.

Ora, a pergunta que a tudo deveria anteceder é:

– Por que a perseguição a Lula?

Sim, é certo que a elite brasileira – míope, jeca e pedante – tem um problema pessoal com o ex-Presidente. E também com o seu sucesso, tomado como ofensa pessoal. Nunca percebeu – ou melhor: nunca aceitou – o grande ativo político que encarna. Dentro e fora do país. A elite brasileira trabalhou, desde o início, para inviabilizá-lo. E agora vê próxima das suas mãos a oportunidade de riscá-lo dos livros de História, para que não venha a inspirar, com o seu exemplo, novas subversões da “ordem natural das coisas”. A de 500 anos.

– Mas e a Finança transnacional?

– E o Deep State americano, o seu braço armado?

Têm eles um problema pessoal com Lula?

Dão-se por satisfeitos com – a pessoa física de… – Lula afastado do processo político?

Sem se importarem com quem vencerá as eleições de 2018?

E o programa a que dará execução?

Se a Finança transnacional e o Deep State americano tinham um problema pessoal com Lula, disfarçaram-no muito bem. Quando Presidente, sentava-se à mesa com os poderosos, chamado que era para, entre outras, reuniões do G8 e do Fórum Econômico Mundial.

É evidente que o problema da Finança transnacional e do Deep State é com o que o Presidente Lula representa:

– A emancipação do Brasil.

Lula encarna-a até em nível “biográfico”: aquele que saiu das mais profundas camadas da brasilidade e que, fugindo à “regra”, falava de igual para igual com os donos do dinheiro – e das armas. Na dimensão geopolítica, a Finança e o Deep State antagonizam, isso sim, a política externa “ativa e altiva”, montada na plataforma de um projeto de desenvolvimento econômico e tecnológico autônomo.

A elite brasileira, escravocrata, opõe-se com vigor a, entre outros, o Bolsa-família, a valorização do salário mínimo, as faixas subsidiadas do Minha Casa Minha Vida e o Luz para Todos. Ou seja, a todas as medidas que visavam a dar uma face menos desumana ao “capitalismo” brasileiro – sem sequer se aproximar de tocar as suas estruturas.

Mas e o sistema internacional?

Ele realmente se importava com o comprometimento de pouco mais de 2% (!) do orçamento da União com o Bolsa-família? Quando a metade (!) do mesmo é comprometida com o pagamento de juros?

Evidente que não. Tanto é assim que o programa de transferência (mínima!) de renda arrancou elogios de organismos internacionais e até mesmo da bíblia da Finança: a revista The Economist.

O problema do sistema internacional é com a perspectiva de mudança da inserção do Brasil no mundo: BRICS, seu banco de desenvolvimento (rivalizando com o Banco Mundial), seu fundo de reservas (rivalizando com o FMI), a “ousadia” de fazer comércio e investimento em suas moedas (rivalizando com o dólar). E mais UNSASUL, CELAC (uma OEA sem EUA e Canadá) e relançamento do MERCOSUL, dando novo impulso à integração regional sul e latino-americana – o que dificulta a tática do Império de “comer pelas beiradas” no Hemisfério. Tudo isso montado no cacife de um projeto autônomo de desenvolvimento econômico, com, entre outras coisas, a construção de “campeões nacionais” e o apoio à sua projeção internacional; o combate ativo, por indução do Estado, à tendência de reprimarização da economia brasileira; e o desenvolvimento de tecnologia autóctone (veículo lançador de satélites – VLS, programa nuclear/ Pro-sub, tecnologia do pré-sal, Embraer, etc.) a disputar mercado no mundo.

É extrema ingenuidade estratégica – para dizer o mínimo – acreditar que o sistema internacional chegou até aqui para permitir que um “Plano B” qualquer, um novo “poste”, digamos, dê sequência – “por procuração” – à obra de Lula.

Pobre “Plano B”!

Quanto tempo duraria na cadeira diante do assédio concertado do sistema internacional e da elite brasileira sem contar com os predicados que abundam em Lula – carisma, destreza na articulação política, comunicação direta com o povo, legitimidade para arbitrar conflitos sociais numa quadra de acirramento do conflito distributivo?

Bem, a não ser que “Plano B” – ou agora o tal “Lula (somente) até onde der” (?) – signifique não apenas uma alternativa à “pessoa física” de Lula, mas também à sua “pessoa jurídica”, à sua obra política: a emancipação do Brasil.

Parece óbvio, mas me sinto obrigado a repetir:

– Tão logo Lula indique um sucessor, um “dauphin”, o sistema internacional investirá com tudo para erradicar “o cara”.

Invertendo o ditado, “rei posto, rei morto”!

A única razão pela qual ainda não se ousou violência ainda maior contra Lula (há, pelo menos, 8 processos!) é a sua capacidade – i.e., desde que conte com a fidelidade e o respaldo absolutos do PT! – de colocar em xeque a farsa armada para 2018. A manutenção da sua candidatura – chancelada pelo teimoso “Sr. povo” – em desafio aberto a um Judiciário capturado por interesses antinacionais e antipovo é o que mela a narrativa de “as instituições estão funcionando normalmente”. E de “eleição 2018: a festa da democracia” (!)

Lula – atenção: cuja construção levou “apenas” 30 anos! – é o nosso único escudo efetivo para resistirmos ao assédio concertado do sistema internacional e da elite brasileira. A facilidade com que implodiram o “poste” anterior, Dilma Rousseff, é autoexplicativa. E deveria, por si só, desencorajar toda e qualquer articulação de (um novo) “Plano B”.

Insisto:

– Apenas caso “Plano B” – ou “Lula até onde der” (?) – signifique tão somente uma “alternativa” (vã!) à “pessoa física” de Lula – e não à sua “pessoa jurídica”, à sua obra política: a emancipação do Brasil.

Com o lawfare de que é vítima, Lula foi empurrado para a candidatura por aqueles que se pelam de medo do seu poder simbólico: a lembrança de um passado glorioso e a esperança de um futuro que o resgate. Para o bem e para o mal estamos todos no mesmo barco de Lula. Caindo ele, caímos todos. Em uma sequência que deveria ser óbvia!

É por essa razão – e não por idolatria ou culto à personalidade – que o Duplo Expresso é Lula “de A a Z”. É pelo Brasil!

Aliás, nada mais adequado do que o nome do perfil do ex-Presidente no Twitter:

@LulapeloBrasil!

Mas e a recíproca?

É verdadeira?

– “O Brasil por Lula”?

(“O PT por Lula”?)

Como sustentamos acima, esse deveria ser o caso nem que apenas por egoísmo, já que estamos todos nós, patriotas, inexoravelmente no mesmo barco dele. Para o bem e para o mal.

Aliás, isso lembra Sócrates:

– Se o desonesto soubesse a vantagem de ser honesto, ele seria honesto ao menos por desonestidade!

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  • “Sem poder de barganha, Plano B’ seria o fim de Lula” (16/mar/2018)

 

  • “Sem ‘Plano B’ de B’ola nas costas: eleição sem Lula é fraude! Ou não?” (12/mar/2018)

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Continuação em:

Lula candidato “sim ou sim” – o inadiável enfrentamento do golpe do Judiciário

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Romulus Maya

Advogado internacionalista. 10 anos exilado do Brasil. Conta na SUÍÇA, sim, mas não numerada e sem numerário! Co-apresentador do @duploexpresso e blogueiro.