A rendição e a opção por sermos iguais no terreno ocupado

Por Wellington Calasans, para o Duplo Expresso

A palavra rendição pode e deve ser entendida como algo muito mais profundo do que a frieza do significado a ela atribuído. Quando recorremos à página Wikpedia, por exemplo, temos a rendição tão somente como uma terminologia militar que representa “a renúncia ao controle sobre território, combatentes, fortificações, navios ou armamentos para uma outra potência. Uma rendição pode acontecer pacificamente, sem luta, ou como resultado de uma derrota em batalha”.

No caso do Brasil, devemos transcender a este conceito simplório. Precisamos assumir a nossa parcela de culpa na construção deste nível de degradação que nos permitimos chegar. Preguiça? Ignorância? Ganância? Traição? Todos esses. Mas apenas identifica-los não nos ajudará a entender o problema. A caça às bruxas não faz sentido algum quando condenados e algozes estão no mesmo patamar. Fracassamos como sociedade e por isso perdemos a pátria que nos foi dada para cuidar.

É preciso reconhecer a derrota. Isso gera um turbilhão de sentimentos negativos, mas é o único caminho racional para impedir a repetição ou formação de novas práticas que conduzam a novos fracassos. A ciência e arte chinesa Feng Shui é oportuna para esses momentos. Aprender com as perdas para que sejamos vitoriosos no futuro. Este é o ensinamento para evitarmos a lúgubre prisão ao passado, onde o lamento ocupa toda a vida.

O Brasil e os brasileiros estão condenados à pequenez. O nível de ignorância, má-fé, ganância, sabujice, etc. são tão extremos, quase um resgate do contraste da escola barroca, que acabam por convergir para o mesmo ponto, mas por motivações opostas: a destruição de uma Nação. Mais grave é saber que a construção mal havia começado. Agora, sob terra arrasada e salgada, teremos décadas de trevas, aprofundadas por obstáculos impostos através da necessidade de luta pela sobrevivência, inerente aos seres vivos.

Por covardia, medo, ingenuidade ou qualquer outro deslize, perdemos a democracia, a soberania, a identidade, o respeito ao outro. Vivemos manipulados por falsos problemas que dispersaram a resistência, a luta, pelo que verdadeiramente importa. Entrega da energia e setores estratégicos, destruição dos direitos trabalhistas e educação pública, somados à invasão da justiça na política, compra de votos, etc. são alguns ingredientes desta indigesta realidade que permitimos ser construída.

Alguns políticos chegaram mesmo a pensar que conseguiriam ser eternos nos cargos somente narrando as tragédias diárias. Não houve luta política, mas isso não é culpa exclusiva dos políticos. Todos os brasileiros, ricos ou pobres, com estudo ou analfabeto, são culpados. Condenamos a terceirização de empresas e serviços, mas ignoramos que a nossa consciência foi terceirizada por uma imprensa manipuladora, por discursos vazios de políticos, pela falsa sensação de “dever cumprido” a cada prisão anunciada espetaculosamente na imprensa, pela crença em juízes visivelmente mal intencionados. Somos uma farsa e pagamos o preço disso.

O Brasil como o conhecíamos, como sonhamos, acabou! É preciso que encontremos novas culturas para a plantação e colheita de boas sementes. Lutar para que o pouco terreno fértil que ainda nos resta (é preciso antes encontrá-lo) possa ser usado para a construção de uma nova Nação. Lamber as feridas, estudar e preparar as condições para que os netos dos nossos filhos sejam gratos por termos lutado em silêncio, na dor, para que eles tivessem um país para cultivar e chamar de seu.

Não houve luta! Não há derrota! A opção pela rendição foi a única que restou aos ignorantes, gananciosos, preguiçosos, entreguistas, corruptos, isentões, analfabetos políticos. Somos todos culpados. Somos todos iguais no terreno ocupado chamado Brasil.

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Wellington Calasans

Jornalista, Radialista, Ativista Político, Sonha com um Brasil parecido com a Suécia e uma Suécia com o sol do Brasil, o sonho é livre.