Sobre Religião e Política – O Incrível Caso da Bolha

Por Niobe Cunha, para o Duplo Expresso

Acordou ainda estava escuro. Tomou um banho de pingos porque tem que economizar água, o governo pediu. Vestiu a roupa de domingo, requentou o café e saiu mastigando o resto de pão. Dia e hora marcados pra pedir perdão e seguir a semana quites com o Divino. Ticou na agenda alguns pecados a menos e seguiu em frente.

Toca a campainha, a outra corre a atender, quem sabe o amante resolveu voltar: “Você já conhece Jesus?” Com cara de poucos amigos, pensando no que tinha a fazer, nas contas a pagar, no ingrato que sumiu há mais de 10 dias, nem sabe o que respondeu a aquelas duas bondosas senhoras gordinhas de saia comprida. Fechou a porta e voltou para sua vidinha infernal.

“É ele: o Diabo, Sete-Peles, Capiroto, Sem Pé, Coisa Ruim, Rabudo, Tinhoso, Chifrudo, Cramunhão, Cabrunco, Ferra-Brás, Pé de Bode, Temba, Zarapelho”. Poderia ser a escalação de um time de futebol de várzea. Mas era o pastor, agitando a bíblia no ar, em fúria santa, clamando arrependimento no meio da praça. Arrependa-se de alguma coisa e tudo ficará bem. Foi de volta para o trabalho preocupado se deveria se arrepender de trabalhar de domingo, pra engrossar o salário, afinal domingo deveria ser dia consagrado.

Todo “santo” dia surge uma nova oportunidade de conquistar um lote no céu. Não precisa de empréstimo do BNDS, de financiamento, de avalista. Basta sentar em algum banco duro junto com outras pessoas que buscam a salvação da lavoura e repetir freneticamente a palavra “amém”. Pode inclusive ter algum tipo de frêmito corporal que empresta certa dramaticidade e certamente o “Altíssimo” deve se sensibilizar ao ver os corpos descontrolados, atirando-se ao chão para em seguida erguerem-se purificados e mais leves. Esse deus aí é um pouco surdo: é preciso gritar. Esse deus ai anda lado a lado com seu anjo caído: mais se fala do Danado do que do Salvador.

Mas a oferta é grande: a venda de vassouras ungidas, a doação espontânea de parte do salário para obras, quebrar imagens santas na tela da TV em alta definição, apedrejar representantes da macumba, satanistas, e ultimamente a mais sofisticada de todas: o depósito de voto em urna (sagrada!). Vote no pastor e conquiste um espaço privilegiado no condomínio celeste. Vizinho de porta de Nosso Senhor Jesus Cristo. Uns mais ousados já avisaram: “Estamos excomungando o Papa Francisco e essa sua conversa mole de pobre pra cá e pra lá”. Pobre sempre da ibope e se conforma com sua condição rapidinho.

Assim o país reescreve sua Carta Magna. Onde antes se lia laico, hoje se ameaça em nome do Divino, da família, do cacete a quatro – ops, perdão. Na cabeceira da grande corte, também chamada suprema, um Jesus já exausto, silencioso e crucificado, tentando entender discursos “data venia, vossa excelência pensa que está falando com seus capangas?”. Jesus só consegue reagir quando ouve dos capa-preta: “Aqui mora a verdade e a justiça”. Mas está literalmente pregado na cruz, definitivamente. O deputado esbravejando cheio do “espirito santo” no Congresso diante dos “fiéis” distraídos em seus celulares, promete o paraíso na terra desde que sua conta corrente cresça como os lírios do campo. Quando levantam os olhos dos seus smartphones, dividem piscadelas na hora de escolher entre Jesus e Barrabás, clamam o povo para a “libertação”, a “palavra”, o depósito em conta numerada. O país da Sodoma e Gomorra, segundo consta, virou um grande confessionário, sob o clamor do “arrependa-se, confesse seus pecados para alcançar a salvação”. Trocamos nossos suados e tímidos direitos pelo incômodo mas necessário cilício* a arranhar nossa dignidade. Nossa parte nessa pantomima é sofrer, eles dizem. É preciso atravessar bravamente esse fogaréu do inferno, chamuscar nossa pouca esperança pra chegar gloriosos ao Reino do Céus. Cansada dessa conversa, ontem eu fui até o cartório pra ver se encontrava a tal procuração de Deus, firma reconhecida, tanta gente falando em seu nome. Me chamaram de louca e me mandaram fazer uma novena: arrependa-se, infiel! O pastor Cunha, quando ainda não tinha que comer ovo frito de marmita e horário para banhos de sol, avisou: “Deus tenha misericórdia dessa nação!”

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* Cilício é um substantivo masculino, que significa: 1. Antiga veste ou faixa de crina ou de pano grosseiro e áspero usado sobre a pele por penitência; 2. Cinto ou cordão eriçado de cerdas ou correntes de ferro, cheio de pontas, com que os penitentes cingem o corpo diretamente sobre a pele.

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