Um general na oposição: Santos Cruz e o Brasil das operações psicológicas.
Por Guilherme Lemos.
“O meu voto é para o Bolsonaro. O Bolsonaro representa a democracia, representa a liberdade. O Haddad representa a ditadura, representa o fascismo, representa nazismo, racismo… divisão do país em cores, regiões, etc. Então é a hora da opção ‘O Gigante Acordou’. O Brasil vai votar Bolsonaro que é para reverter essa situação e tirar o atraso do tempo perdido com toda essa gente corrupta” (https://fb.watch/2ta3hm_jCn/).
Foi assim que o general Carlos Alberto dos Santos Cruz manifestou apoio à candidatura de Jair Bolsonaro em 2018, em um vídeo realizado especificamente para ser compartilhado nas redes de apoio ao candidato do Partido Social Liberal.
Em setembro daquele mesmo ano, no mesmo dia em que Bolsonaro havia sido esfaqueado em Juiz de Fora-MG, o general da reserva voltaria às redes para afirmar muito mais que sua amizade de longa data com o presidenciável (https://www.youtube.com/watch?v=8fz10n4fffI). Entre a defesa do “programa de governo” baseado no “combate a corrupção”, no “combate do roubo do dinheiro público”, na “recuperação dos valores” e do “patriotismo brasileiro”, Santos Cruz, mesmo após poucas horas do ocorrido e sem que nenhuma investigação tivesse se iniciado já se encontrava em condições de afirmar que Adélio Bispo era “participante ativo de organizações políticas”, um “comunista declarado nas redes sociais” e que aquela situação se tratava de um “crime premeditado” e com atuação de outras pessoas mais.
Ao todo quase dois anos se passaram desde estas declarações, Santos Cruz assumiu e foi exonerado da Secretaria de Governo e hoje é interpretado pela imprensa e pelo público em geral enquanto um “crítico ferrenho” ao governo de Jair Bolsonaro (https://veja.abril.com.br/politica/ex-ministro-de-bolsonaro-se-torna-critico-feroz-da-gestao-do-presidente/), chegando a instigar manifestações como a de João Pedro Stédile (https://twitter.com/stedile_mst/status/1338462306469081089), um dos fundadores do Movimento Sem Terra (MST), que definiu o general enquanto “a mais alta autoridade das FFAA” e uma voz que definindo o que era prioritário ao Brasil faria frente a “todas as enfermidades causadas por esse governo insano e genocida”. Segundo Stédile, teria faltado ao general somente ter gritado o famoso “fora Bolsonaro!”. Isto é, uma liderança do MST precisou definir para os seus seguidores o que era prioritário ao país através da voz de um general que em 2018 realizava aquelas declarações transcritas acima.
Mais do que um fenômeno isolado, as manifestações de Santos Cruz desde sua saída do governo refletem muito menos sua postura oposicionista do que um importante posicionamento estratégico de benefício aos militares que fazem o governo Bolsonaro. A estratégia se repete: um fato originário do governo toma os jornais e as redes do país enquanto assunto a ser debatido, Santos Cruz emerge na imprensa ou em seu Twitter para realçar os contornos da “narrativa crítica”. Por narrativa crítica entenda-se qualquer formulação discursiva que não visa os militares do governo.
No entanto, embora sempre apresentado na imprensa enquanto ex-ministro de governo, Santos Cruz em sua conta no Twitter além de utilizar o nome “General Santos Cruz” é o único militar que ocupou/ocupa cargo no governo que não se auto define em sua “bio” (https://twitter.com/GenSantosCruz)). General Augusto Heleno, por exemplo, se apresenta enquanto “General de Exército e Ministro de Estado Chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República” (https://twitter.com/gen_heleno) – curiosamente a patente de general antecede o seu cargo de ministro. Já Hamilton Mourão se apresenta enquanto “Vice-Presidente da República e presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal” (https://twitter.com/GeneralMourao), deixando a patente apenas para o nome do perfil. Outros exemplos poderiam ser citados, como é o caso do general Luiz Eduardo Ramos que ao contrário dos outros aqui citados preferiu usar como nome de perfil “Ministro Luiz Ramos” (https://twitter.com/MinLuizRamos), sem citar nem mesmo na “bio” a sua patente de general. Mas nos interessa aqui ressaltar que Santos Cruz, ao contrário de todos esses, não somente não se define em sua “bio”, mas também é o único que utiliza enquanto foto de capa uma fotografia sua com a farda do Exército Brasileiro e a famosa boina azul da ONU.
O general parece assim chamar a atenção para sua carreira militar podendo nos instigar a recuperar suas passagens pelas operações de paz da ONU (no Haiti) e no Congo ou até mesmo sua participação na intervenção federal no Rio de Janeiro em 2018. No entanto, nos interessa aqui ressaltar um elemento que possa elucidar o seu papel estratégico de benefício recorrente aos militares do primeiro escalão do governo. Nos referimos aqui às operações psicológicas.
Tais operações fazem parte da doutrina do Exército Brasileiro e, portanto, é presumível que tanto os militares do governo quanto o próprio Santos Cruz tenham conhecimento e saibam se utilizar de tais operações. Neste contexto, o Exército define em um de seus manuais (https://pt.slideshare.net/DanielFXA/manual-de-campanha-operaes-psicolgicas-c-454) as operações psicológicas enquanto “[…] um conjunto de ações de qualquer natureza, destinadas a influir nas emoções, nas atitudes e nas opiniões de um grupo social, com a finalidade de obter comportamentos predeterminados”. Desta forma, não será por acaso que a “propaganda” se constitua enquanto um instrumento poderoso das operações psicológicas.
Propaganda, neste contexto, significará a “[…] difusão de qualquer informação, ideia, doutrina ou apelo especial, visando gerar emoções, provocar atitudes, influenciar opiniões ou dirigir o comportamento de indivíduos ou grupos, a fim de beneficiar, direta ou indiretamente, quem as promove”, sendo ainda dotada dos seguintes princípios: a) credibilidade; b) coerência; c) significância; d) positividade; e) permanência; f) adequabilidade e g) oportunidade. O fato significativo é que se observarmos as declarações de Santos Cruz tanto por seu conteúdo quanto pelos contextos em que são proferidas poderíamos encontrar o gabarito de uma “propaganda” fruto de operação psicológica.
Isto é, por ter tido uma carreira de prestígio enquanto militar e por ter saído do governo Bolsonaro por não concordar com “ações imorais” e “antiéticas” de Carlos Bolsonaro e o famoso “gabinete do ódio” (https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/demitido-em-2019-santos-cruz-foi-alvo-do-gabinete-do-odio,5197bafa2a824ea1634682a0b36a016cxcokk76i.html) , Santos Cruz engendra automaticamente credibilidade, significância e adequabilidade, ou em outros termos, sua voz é passível de ser massificada e, portanto, explorável por meio da imprensa de forma permanente e oportuna, e é aqui que entra a relevância de que toda semana Bolsonaro ou seus ministros “falem barbaridades” para que Santos Cruz possa explorar a coerência de seu discurso enquanto militar defensor da moral, da ética e, sobretudo da democracia e das instituições (https://twitter.com/GenSantosCruz) de forma a dar opiniões independentemente do que foi dito e de quem disse (adequabilidade), mas sempre de forma positiva: afinal, a suas falas não são a defesa dos “interesses do Brasil, [d]a economia, [d]a segurança e [d]a estabilidade”? (https://twitter.com/GenSantosCruz/status/1332721127949524994).
É importante ressaltar que Santos Cruz somente é um “personagem possível” no Brasil atual porque toda semana Bolsonaro ou um de seus ministros dão declarações passíveis de críticas. Seriam passíveis de críticas porque são necessariamente desencadeadas para exercerem este papel, havendo “planejamento” em tais declarações, ao contrário do que afirmou o general (https://www.youtube.com/watch?v=Q5b-NBbiydU). Uma coisa é clara: atualmente os princípios da “propaganda” das operações psicológicas só podem ser desencadeadas porque temos o Palácio do Planalto e os ministérios povoados por uma infinidade de “homens-bomba” (https://epoca.globo.com/brasil/bolsonaro-tem-papel-de-causar-explosao-para-permitir-acao-reparadora-de-militares-diz-antropologo-24467387).
Por outro lado, o benefício aos militares do governo emerge quando Santos Cruz utiliza de sua inserção na mídia para afirmar reiteradamente que a política não entrou na caserna (https://istoe.com.br/tentam-arrastar-as-forcas-armadas-para-a-intervencao-militar/) ou que os militares no governo não representam a instituição (https://oglobo.globo.com/brasil/interpretacao-de-que-forcas-armadas-sao-um-poder-moderador-completamente-equivocada-diz-santos-cruz-24462778). De fato, seria difícil para um general saber se a política entrou na caserna com mais de 2.930 militares da ativa nos Três Poderes (https://www.poder360.com.br/governo/militares-da-ativa-ocupam-2-930-cargos-nos-tres-poderes/) e mais de 8.450 militares da reserva ocupando ministérios, comandos e tribunais militares (https://www.poder360.com.br/brasil/8-450-militares-da-reserva-trabalham-em-ministerios-comandos-e-tribunais/) – talvez o general precise de alguém que lhe mostre a soma dos números.
Se não bastassem os números, talvez poderíamos mostrar a este “crítico ferrenho” da politização das Forças Armadas os dados da operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) atualmente utilizada na Amazônia ou mesmo os dados da intervenção federal no Rio de Janeiro da qual o próprio Santos Cruz participou.
No caso do RJ os recursos destinados às forças de segurança do estado foram em parte revertidos em compra de equipamentos de uso exclusivo das FFAA e em reformas de instalações militares fora do Rio de Janeiro (https://piaui.folha.uol.com.br/os-desvios-da-intervencao-militar/). Teria alguma declaração a dar o general acerca de uma intervenção da qual ele próprio participou? Para não falarmos do uso político da intervenção e de seu benefício à eleição de Bolsonaro, processo já descrito por bibliografias especializadas[1].
Mas e a GLO na Amazônia? Onde as FFAA apresentam um orçamento que “[…] corresponde a mais que o dobro do orçamento anual para combate ao desmatamento de órgãos ambientais e da verba para o monitoramento por satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)” (https://piaui.folha.uol.com.br/388206-2/), para não falarmos dos recursos utilizados em portas de “padrão mogno”, “tinta premium” e os pisos de porcelanato comprados para certos batalhões de infantaria fora dos limites da Amazônia Legal. Talvez esse seja o benefício de se ter quase 12 mil militares no atual governo.
Além disso, poderíamos nos deter nos dados de gestão da pandemia por parte do Exército e do atual ministro da saúde, o general da ativa Eduardo Pazuello. Quanto a este tema, segundo Santos Cruz, (https://canaisglobo.globo.com/assistir/c/p/v/9098436/) problema aqui não seria um militar da ativa exercendo cargo político com autorização do Comandante do Exército, mas sim na “gestão do governo”, o qual teria “politizado” a cloroquina e agora a própria vacina, excetuando de qualquer responsabilidade o Comando do Exército que pagou quase seis vezes mais pelos insumos de produção do medicamento se comparado com o contrato firmado em 2019 pelo Ministério da Saúde para a aquisição destes mesmo insumo (https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/05/preco-que-governo-paga-pela-materia-prima-da-cloroquina-explode.shtml?origin=uol). Medicamento este que o Exército tem mais de 400,1 mil comprimidos em seu estoque, o qual está parado por falta de demanda dos estados e que vencem em junho de 2022 (https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/2020/11/16/sem-demanda-nos-estados-400-mil-comprimidos-de-cloroquina-encalham-no-exercito). Se não se lembrasse desses dados talvez Santos Cruz poderia mencionar que o Ministério da Defesa já comprometeu 98% dos 531,3 milhões de reais que o governo federal lhe permitiu empregar no combate à pandemia e que parte deste orçamento foi utilizado na compra de caminhonetes que provavelmente serão entregues quando a pandemia já tiver acabado (https://piaui.folha.uol.com.br/os-negocios-da-pandemia/).
Aliás ainda sobre a pandemia, Santos Cruz poderia ao lado de suas “críticas” à fala de Pazuello de que “um manda e outro obedece” (https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/10/22/e-simples-assim-um-manda-e-o-outro-obedece-diz-pazuello-ao-lado-de-bolsonaro.ghtml) e sua defesa de que “HIERARQUIA E DISCIPLINA, na vida militar e civil, são princípios nobres”, poderia ter emendado que a politização frequente das Forças Armadas – processo do qual o próprio general faz parte – coloca em risco a própria existência de tais “princípios nobres” e, portanto, da própria instituição militar como um todo. Teria Santos Cruz e seus colegas de fato aprendido o que significam tais princípios? (https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2018/11/cadete-ides-comandar-aprendei-a-obedecer.shtml).
A pergunta que fica é: Santos Cruz utiliza sua inserção na imprensa para abordar tais temas? Ou talvez em sua conta no Twitter? Ou todas as suas falas pretendem guardar todos esses temas embaixo do guarda-chuva da “não politização das FFAA”? Que não fossem nem abordando tais temas específicos, mas que o general ao menos verbalizasse o mau exemplo daqueles 12 mil militares envolvidos até o pescoço em política. Mas como esperar tal posicionamento se o próprio general é cogitado como candidato para 2022?
Nos parece que nem a imprensa, nem o público em geral, nem mesmo aquele especializado estão sendo capazes de perceber que no Brasil da guerra híbrida e das operações psicológicas os atores aparentemente assimétricos ao governo não passam de manutenção da rede militar de poder que emergiu em 2018. Ou se recusa essas assimetrias ou veremos todas as quartas-feiras novos personagens como Santos Cruz surgirem na cena pública, como é o caso do general e ex porta-voz da presidência, Otávio Santana do Rêgo Barros (https://twitter.com/blogdonoblat/status/1324033136909537281).
Afinal, com quantas quartas se faz uma guerra híbrida?
[1] LEIRNER, Piero C. O Brasil no espectro de uma guerra híbrida: militares, operações psicológicas e política em uma perspectiva etnográfica. 1 ed – São Paulo: Alameda, 2020.
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