Julgamento de Julian Assange: caiu a máscara do Império

Por Pepe Escobar

“As palavras se distendem,
estalam e muita vez se quebram, sob a carga,
Sob a tensão, tropeçam, escorregam, perecem,
Apodrecem com a imprecisão (…)”
T.S.Eliot, “Burnt Norton”[1]*

O conceito de “História em construção” foi levado a extremos, no que tenha a ver com o extraordinário serviço público que nos presta Craig Murray, historiador, ex-diplomata do Reino Unido e ativista de direitos humanos.

Murray – literalmente e em nível global – está agora na posição de nosso homem na galeria pública, e vai documentando em detalhes vívidos, dolorosamente, o que pode ser definido como o julgamento do século, no que tenha a ver com a prática do jornalismo: o tribunal canguru que julga Assange em Old Bailey, Londres.

Concentremo-nos em três dos relatos de Murray essa semana – com ênfase em dois temas interligados: o que os EUA estão realmente acusando, e como a mídia corporativa ocidental ignora os procedimentos do julgamento.

Aqui, Murray relata o exato momento em que caiu a máscara do Império, não com estrondo, mas num gemido:

“Na terca-feira, o governo norte-americano decidiu partir para briga, quando explicitamente declarou que todos os jornalistas são passíveis de acusação nos termos da Lei Antiespionagem (ing. “Espionage Act”, 1917), pela publicação de informação sigilosa.” (itálicos meus).

“Todos os jornalistas” significa todo e qualquer jornalista legítimo, seja qual for a nacionalidade, operante em seja qual for a jurisdição.

Interpretando o argumento, Murray acrescentou, “o governo dos EUA diz agora, explicitamente, em pleno tribunal, que esses repórteres podiam e deviam ter sido encarcerados, e que doravante o governo norte-americano assim agirá. O Washington Post, o New York Times e toda a “grande mídia liberal” dos EUA não estão presentes aqui para ouvir e noticiar (itálicos meus), por causa da ativa cumplicidade deles na “adulteração” de Julian Assange, até desumanizá-lo, até convertê-lo em coisa, cujo destino pode ser ignorado. São realmente tão estúpidos a ponto de não compreender que eles serão os próximos?

Humm… São.”

A questão não é os autodeclarados paladinos da “grande mídia liberal” serem estúpidos. Não estão cobrindo a farsa em Old Bailey porque são covardes. Têm de preservar aquele dito “acesso” – puro delírio! – aos intestinos do Império – o tipo de “acesso” que permitiu a Judith Miller “vender” a guerra ilegal contra o Iraque em incontáveis primeiras páginas, e permite ao super oportunista Bob Woodward, serviçal da CIA, escrever seus livros de “insider”.

Aqui, nada para ver

Antes, Murray já detalhara o modo como “a mídia hegemônica está-se fingindo de cega. Há três repórteres na galeria da imprensa, um deles um estagiário e outro representante da National Union of Journalists, NUJ. O público continua com acesso restrito, e grandes ONGs, dentre as quais a Anistia Internacional, PEN e Repórteres Sem Fronteiras, continuam excluídas fisicamente, impedidas também de assistir online.”

Murray também detalhou como “os seis que fomos autorizados a assistir da galeria pública, vale anotar, temos de subir 132 degraus até lá, várias vezes por dia. Como sabem, meu coração não é de confiança; estou com John, pai de Julian, que tem 78 anos; e outro de nós usa um marca-passo.”

Por que, então, é nosso “homem na galeria pública”? “Não menosprezo, não, absolutamente, os esforços de outros, quando explico que me sinto obrigado a escrever o que escrevo, e com tantos detalhes, porque se não for assim, os fatos vitais básicos do mais importante julgamento desse século, e o modo como está sendo conduzido, passarão quase completamente escondidos do público. Fosse processo e julgamento genuínos, quereriam que o povo assistisse a tudo, não reduziriam ao mínimo a audiência, seja física, seja online.”

A menos que muitos em todo o mundo estejam lendo os relatos de Murray – e de bem poucos outros, mas muito menos detalhados –, aspectos imensamente importantes ficarão para sempre ignorados, além de tudo que tenha a ver com o assustador contexto do que está realmente acontecendo no coração de Londres. O fato principal, no que diz respeito a qualquer jornalismo, é que a mídia corporativa ocidental ignora o fato principal.

Vejamos, por exemplo, a cobertura do Dia 9, no Reino Unido.

Nenhuma matéria no Guardian – que não pode mesmo cobrir o julgamento, dado que o jornal, por anos, só fez caluniar Julian Assange, sem qualquer limite, e demonizá-lo com fúria.

Nada tampouco no Telegraph – íntimo do MI6 –, e apenas uma nota, da Associated Press, no Daily Mail.

Um artigo curto no Independent, mas só porque uma das testemunhas, Eric Lewis, é diretor da empresa Independent Digital News & Media Ltd, que publica o jornal.

Durante anos, o processo de degradar Julian Assange e de coisificá-lo, reduzi-lo a coisa, a ente subumano, baseou-se em repetir um punhado de mentiras, e repeti-las muito, até que se tornassem verdades. Agora, o pacto de silêncio em torno do julgamento opera o quase milagre de expor, afinal, a verdadeira face dos “valores” liberais e da “democracia” liberal.

Com a palavra, Daniel Ellsberg

Murray oferece contexto absolutamente essencial para o que Daniel “Papéis do Pentágono” Ellsberg expôs com muita clareza como testemunha.

Os documentos da Guerra do Afeganistão, publicados por WikiLeaks, foram bastante similares aos relatos que o próprio Ellsberg escreveu sobre o Vietnã. O contexto geopolítico é o mesmo: invasão e ocupação, contra os interesses da absoluta maioria dos invadidos e ocupados.

Murray, ilustrando Ellsberg, escreve que “os arquivos da guerra expuseram um padrão de crimes de guerra: tortura, assassinato e ‘esquadrões da morte’. A única diferença, desde o Vietnã, foi que aquelas práticas já estavam agora tão generalizadas, que foram declaradas como Top Secret.

Esse ponto é muito importante. Todos os “Papéis do Pentágono” eram de fato Top Secret. Mas, muito importante, os papéis de WikiLeaks não eram Top Secret: na verdade, eles não tinham distribuição restrita. Não eram, portanto, na verdade, tão ‘sensíveis’ quanto o governo dos EUA alega hoje que seriam.

Sobre o vídeo Collateral Murder, já lendário, Murray detalha o argumento de Ellsberg: “Ellsberg afirmou que o vídeo realmente mostrou um assassinato, incluído o metralhamento deliberado de um civil ferido e desarmado. Ninguém jamais duvidou de que foi assassinato. Toda a dúvida está no adjetivo “colateral”, que implicaria “acidental”[2]. O que foi realmente mais chocante sobre isso foi  que a reação do Pentágono àqueles crimes de guerra está conforme as “Regras de Engajamento”. Que permitiam assassinatos.”

A acusação não consegue explicar por que Julian Assange reteve nada menos que 15 mil documentos; como dedicou muito tempo na edição dos documentos que foram publicados; nem por que ambos, o Pentágono e o Departamento de Estado, recusaram-se a colaborar com WikiLeaks. Murray: “Dez anos depois, o governo dos EUA ainda não consegue apresentar o nome de um indivíduo, um, um, que fosse, que tenha sido realmente prejudicado por documentos publicados nos WikiLeaks.”

Prometeu Acorrentado 2.0

O presidente Trump fez duas conhecidas referência públicas ao WikiLeaks: “Amo WikiLeaks” e “Não sei nada sobre WikiLeaks”. Isso nada revela sobre como, num futuro hipotético segundo mandato, o governo Trump agiria, caso Julian Assange venha a ser extraditado para os EUA. O que se sabe, sim, é as mais poderosas facções do Estado Profundo o querem “neutralizado”. Para sempre.

Senti-me obrigado a mostrar o suplício de Julian Assange como o de um “Prometheus Bound 2.0” (“Prometeu Acorrentado”, port. aqui).

Nessa dolorosa tragédia pós-moderna, a principal subtrama gira em torno de golpe mortal contra o verdadeiro jornalismo, no sentido de “dizer a verdade ao poder”.

Julian Assange continua a ser tratado como criminoso extremamente perigoso, como Stella Moris diz num tweet.

Craig Murray entrará possivelmente para a História, como personagem central num coro muito pequeno de cidadãos que alerta para as ramificações da tragédia.

Parece também que a tragédia é como comentário de tempos passados que mostraram, diferente do poema de Blake, um Casamento do Inferno com o Inferno: GGaT que se casou com OCA (Guerra Global ao Terror do governo de Bush Filho; que se casou com Operações de Contingência Além-Mar do governo de Barack Obama).

Julian Assange está sendo condenado por expor crimes de guerra que o Império cometeu no Iraque e no Afeganistão. Mas no final tanto barulho e fúria pós-11/9 não deu em nada.

Na verdade, vê-se uma metástase e o pior pesadelo do Império: a emergência de um fenomenal concorrente de duas cabeças: a parceria estratégica Rússia-China.

À espera, há um exército de futuros Assanges: “Não aqui a escuridão, neste mundo de agitadas vozes”[3] (T.S. Elliot, “Burn Norton”). *******

Pepe Escobar é analista de Geopolítica e colunista do Asia Times.

*Com permissão do autor. Artigo originalmente publicado no Asia Times, em 18 de setembro de 2020. Tradução de Vila Mandinga

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  1. * Epígrafe acrescentada pelos tradutores. T.S.Eliot, “Burnt Norton” (de Quatro quartetos, trecho inicial da parte V, in Obra completa, vol. I – Poesia. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. São Paulo: Art Editora, 2004).
  2. A Pragmática Linguística, que estuda “o que se faz com as palavras”, ajuda a compreender o que há de impreciso no adjetivo ‘colateral’: no contexto daquele tiroteio, o significado desse adjetivo depende necessariamente de se conhecer a intenção, o projeto, o plano, o objetivo, de quem atirou. Dado que não se pode conhecer tudo isso, o significado desse adjetivo faz uma afirmação que não pode ser demonstrada; assim sendo, a boa lógica exige que se rejeite o adjetivo, e expressamente impede que seja aceito como descritivo e factual. (NTs)]
  3. T.S. Elliot, “Burn Norton”, Quatro Quartetos. Aqui, a trad. de Maria Amélia Neto, 3ª ed. São Paulo: Ática, 1983). Outra vez, como tantas vezes acontece no caso de autores colunistas ilustrados, muito se perde na tradução. O verso em inglês é “Not here the darkness, in this twittering world” (literalmente, para leitores de inglês: “nesse mundo que chilreia [como pássaros]”. “Nada de escuridão, aqui, nesse mundo que tuíta”, afinal, bem poderia ser uma tradução atualizada para o português do Brasil, 2020 [NTs].

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