Diários da Pandemia: Na Tríplice Fronteira (AM)

Por Augusto César Nunes Alves

Hoje, 5 de junho, ultrapassamos os 1000 casos da covid-19 em uma cidade de 40.000 habitantes do estado do Amazonas, na tríplice fronteira. Ela simplesmente não resistiu as suas próprias limitações. O controle das contaminações se seguiu, mas não evitou a disseminação da doença que, como se fosse um raio, veio em conjunto com a chegada de mais uma parcela do auxílio emergencial.

Porém, as medidas de restrição que foram decretadas no município, esbarram na falta de condições para controlar a execução das mesmas no gigantesco território de 8.793 km² (do tamanho de alguns pequenos países europeus), boa parte dele localizado na zona rural.

Os comunitários (indígenas e não indígenas) estavam, por decreto municipal, proibidos de sais da comunidade, para evitar que se contagiassem com os casos crescentes da doença na zona urbana. O número de ocorrências da covid-19 na comunidade girava em torno dos 200 casos.

A partir do último dia 18 começou o novo pagamento do auxílio emergencial e as pessoas arrumaram um jeito de ir à zona urbana da cidade vizinha (que tinha um índice de contaminação ainda maior – cerca de 500 casos). Ambas as cidades ficam na fronteira e deveriam ter aporte das várias instituições sediadas aqui. Infelizmente, essas as contribuições têm sido reduzidas.

Canoa da comunidade chegando à zona urbana, com crianças, jovens, adultos e idosos amontoados.

É clara a decisão de permitir os fluxos migratórios destas populações flutuantes. Isto foi determinante nos índices na região. Com o abandono das prefeituras, que com suas limitações técnicas e logísticas não conseguiram evitar o pior, as equipes de vigilância de saúde foram guerreiras e dedicaram-se ao máximo, mas é impossível controlar uma fronteira só de um dos lados. O prefeito da cidade colombiana de Letícia, Jorge Luis Mendonza, declarou de forma clara, no último dia 25, sobre o presidente Jair Bolsonaro:

“Não quero dizer de uma forma grosseira, mas parece que o presidente Bolsonaro não deu a importância que a epidemia exigia (…) Então, ficou essa janela aberta entre nós e o restante do Brasil. Foi por esse ponto que o vírus penetrou nessa zona tão isolada”. 

A manchete dos jornais foi “Prefeito acusa Bolsonaro por contaminação em seu país”. A notícia despertou a ira da tropa de choque bolsonarista no Brasil inteiro, inclusive na região, mesmo que muitos soubessem da inação das instituições federais aqui presentes.

Vejamos, no dia 17 de março o governo federal colombiano já havia decretado o fechamento na fronteira, os vôos de Letícia para Bogotá foram bloqueados e a região, que é isolada, estaria com certa segurança. Mas, do outro lado da fronteira, os fluxos estavam mantidos para passageiros vindos de avião, lanchas e barcos, infectando todas as cidades do interior, como ficou claro no Atlas produzido pela UFAM (Universidade Federal do Vale do São Francisco).

 

Canoas vindas da comunidade aumentam a propagação da covid-19.

Então, não há o que discutir: as ações ineficientes foram, infelizmente, determinantes para a contaminação e os óbitos na região. Mas, agora, as medidas são de abertura das cidades! O Amazonas decidiu abrir seu comércio, segundo um protocolo que se dizia gradual, mas que foi interpretado pela população como a “abertura de uma barragem”. Entretanto, o decreto estadual prevê apenas um plano,pensando somente em Manaus, esquecendo o momento epidemiológico distinto, entre as diversas regiões deste “país” chamado Amazonas. Sem nenhum estudo epidemiológico ou planejamento que garanta segurança na reabertura, os prefeitos, pressionados, estão cedendo e as ruas cheias. O desrespeitos às normas mínimas de distanciamento garantirão que os adoecimentos e falecimentos se mantenham em alta. E assistiremos, infelizmente em breve, mais cenas de terror.

Eu desisti. Simplesmente fui convencido de que a visão pela eugenia foi à da maioria. Não é só isolar-se em casa na campanha #fique em casa, mas é a questão: sem ter quarentena, é necessário respeitar as recomendações. Simples, sem decreto, só pelo sentimento de não transmitir, de se importar com o outro. Depois de saber de idas às filas de banco, a mercados e as festinhas de pessoas que estão em período de transmissão, me pergunto onde está nossa humanidade?

Falavam que não era pra ter quarentena, que apenas as medidas de distanciamento bastavam. E agora? Com as medidas de distanciamento e sem quarentena, por que não cumprir? Porque não nos importamos com o outro, com a possibilidade de transmitir um vírus mortal a outra pessoa. Esse sentimento me fez desacreditar da humanidade. Ontem durante o serviço, tive minha última decepção: estava tentando controlar a fila de um banco, quando percebi que as pessoas estavam com suas senhas nas mãos e cada uma tinha uma ordem de atendimento. Mas elas insistiam em ficar amontoadas, colocando a si próprias, e os funcionários, em risco.

Alguns comentavam sobre a tão sonhada imunidade de rebanho. Esse termo é usado quando, através da vacinação, conseguimos imunizar uma certa porcentagem da população. Assim,  mesmo quem não tomou a vacina estaria protegido, devido aos contatos estarem no sistema vacinal. Falar e agir como se pudéssemos atingir essa tal imunidade, sem levar em conta a quantidade de óbitos que precisamos ter para alcançá-la, é considerar que algumas vidas são menos importantes.

As equipes se deslocaram às comunidades indígenas e os problemas aumentam pela introdução de uma cultura importada. Os indígenas estão claramente se negando a respeitar as medidas, assim como estão resistentes a receber tratamento.

Uma criança estava doente e as equipes de saúde tentaram iniciar o tratamento dela. Foi em vão, pois eles queriam resolver a enfermidade da criança apenas com orações. A equipe foi recebida por uma grande aglomeração que impediu a execução da retirada da criança ao serviço hospitalar necessário.


Tentativa das equipes de saúde e segurança levar a criança enferma, há mais de 7 dias, para tratamento médico, com negativa da comunidade.

Vale ressaltar que até mesmo um culto, com 400 pessoas, foi realizado na comunidade indígena. Mesmo após denúncias, a resposta da Policial Federal, responsável pelas ações em áreas indígenas, foi iniciar um inquérito para apurar a responsabilidade do pastor (que também é coordenador da FUNAI na região). Então imaginem a mensagem recebida pelo conjunto da população… Mas o inquérito foi aberto (nossa, impressionante!). Porém, nenhuma ação do MPF e da Polícia Federal foi realizada e tudo permaneceu como estava.

Uma segunda onda da epidemia é esperada e teremos que conviver com ela, porque escolhemos a morte dos vulneráveis.

 


Centro de Benjamin Constant, no Amazonas

Augusto César Nunes Alves é expressonauta e trabalha na Vigilância Sanitária em Benjamin Constant (AM).

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