O Príncipe e a Finança

Por Sônia Scala

Breve trecho extraído de “O Príncipe” de Nicolò Machiavelli, publicado em 1532.

A melhor solução para o príncipe, vindo do exterior, que quiser atacar e se apropriar de um país, é criar colônias nesse lugar, de modo que estas sejam praticamente a chave desse país. Porque é necessário ou fazer isso ou manter no lugar exércitos e infantaria. 

Nas colônias, o príncipe não gasta muito. E sem que precise gastar nada, ou gastando muito pouco, pode manter essas colônias. E somente OFENDE aqueles que forem prejudicados,- aqueles a quem forem tirados os campos e as casas para dar aos novos habitantes (…) E esses que ele prejudica, visto que permanecem dispersos e pobres1, nunca conseguirão prejudicá-lo. Já os outros não serão prejudicados e, por isso, logo se acalmam. 

E, além disso, terão medo de cometer algum erro que faça o príncipe intervir sobre eles também, como o fez com os que foram espoliados. 

Para concluir, essas colônias não custam nada, são mais fiéis, ofendem menos, e os prejudicados, sendo pobres e dispersos, não conseguem causar problemas, como já disse antes. Porque é preciso notar que os homens, é necessário mimá-los ou destruí-los, porque eles se vingam das ofensas leves; já das ofensas graves não conseguem se vingar. Assim, o dano que se inflige a um homem, deve ser tal que corte pela raiz a possibilidade de vingança2.

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Maquiavel desenvolveu relevante atividade política, diplomática e militar na República de Florença entre 1498 e 1512. Tempos em que reinos e repúblicas se conquistavam com armas e soldados mercenários, com traições, alianças, complôs. Tempos em que a posse do território era concreta, com fronteiras físicas precisas e dominadores de nomes pronunciáveis. Tempos em que as cidades atuais da Itália eram, cada uma delas, um reino ou uma república independente (República de Veneza, Ducado de Milão,  República de Firenze,  Reino de Nápoles, Estados Papais – Roma) cada uma delas disputada, objeto de ataques militares, guerras, conquistas, reconquistas, alianças, complôs, acordos e traições, levados a cabo pela França e Espanha, Estados Papais, ou por elas mesmas, contra elas.

Político, diplomata e escritor, na juventude Maquiavel aproximara-se da aristocracia de Florença. Foi nomeado em 1498  Secretário da Segunda Chancelaria da República de Florença onde detinha o controle de toda a comunicação e de toda a atividade política e diplomática.

Quando os ventos mudaram de direção – retomada do poder por parte da família Medici (família dos maiores banqueiros da Itália de então) – foi preso, torturado e em seguida anistiado.

Na tentativa de obter algum novo cargo junto aos novos senhores, escreveu, entre outros, ‘O Príncipe’, dedicando-o a Lorenzo de’ Medici, senhor de Florença:

“Desejando me oferecer a Vossa Magnificência com um testemunho de minha submissão, não encontrei em meus cabedais coisa a mim mais cara ou que tanto estime quanto o conhecimento das ações dos grandes homens, apreendido por meio de uma longa experiência das coisas modernas e uma contínua lição das antigas as quais tendo, com grande diligência, longamente perscrutado e examinado, e, agora, reduzido a um pequeno volume, envio a Vossa Magnificência”.   

Literatura, experiência e política como sedução. Mas a sedução falhou. Só bem mais tarde Maquiavel voltaria a participar de missões militares, e por pouco tempo. Os Medici foram expulsos de Florença em 1527; a república foi novamente instaurada, mas Maquiavel não conseguiu nem mesmo se candidatar a Secretário da República, porque suspeito de colusão com os Medici.

“O Príncipe” é considerado (não sem controvérsias) um tratado de ciência política destinado aos governantes – repleto de estratégias como essa das colônias -, um tratado que separa a moral da política (o que escandaliza muitos e explica o uso do termo “maquiavélico”), e  escrito com “gélida objetividade e certo cinismo”.

E quem somos nós para discordar, cinco séculos mais tarde, nós que vivemos exatamente nessas mesmas colônias de que fala Maquiavel, com o agravante de que o Príncipe hoje é a Finança sem rosto, sem nome, sem limite? Como reagir a esse inimigo de certo modo invisível que escapa, que não tem corpo definido, por tê-lo em excesso?

Sônia Scala é tradutora juramentada e colaboradora da Rádio Expressa.

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1 Grifos nossos

2 Tradução livre da edição italiana de 1814, pág. 8 e 9.

 

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