Coronavírus: rumo à “estagflação” e ao desemprego generalizado

Por Alejandro Acosta

A crise sanitária do Coronavírus coloca os trabalhadores perante um número crescente de contágios e mortes. O Brasil é o país do mundo onde a crise tem crescido mais rapidamente.

O Coronavírus é grave, apesar de haver outras crises sanitárias ainda mais graves sobre as quais não se fala nada. Por exemplo, no ano passado morreram quase dois milhões de pessoas no mundo por tuberculose e um milhão e meio de crianças por diarréia. E as mortes por câncer, por desnutrição, guerras, contaminação ambiental ou estresse por causa das pressões nas empresas?

A peculiaridade da crise do Coronavírus é que tem sido acompanhada por uma das maiores campanhas de propaganda de todos os tempos. Por que?

O objetivo dos grandes capitalistas é camuflar a maior crise capitalista de todos os tempos. Os resgates das grandes empresas somam, somente nos Estados, aproximadamente quatro anos da produção anual do Brasil, com a perspectiva de que até o final do ano pelo menos, dobre.

O capitalismo, como sistema de produção, não funciona mais. O problema central é que a produção funciona por meio de cadeias produtivas mundiais, com processos altamente socializados, mas os resultados são apropriados por um número ínfimo de grandes empresários, que nem sequer trabalham e que potencializam seus lucros na especulação financeira, que hoje movimenta recursos muito superiores aos das atividades produtivas.

Como avança a crise no Brasil?

Recentemente, o governo federal brasileiro destinou R$ 1,250 trilhões (quase o que gasta em um ano, fora os pagamentos da dívida pública) para salvar o sistema financeiro da crise. Se encontra em processo de aprovação a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 10-2020 que permitirá que o Brasil resgate bancos e grandes empresas norte-americanas nos Estados Unidos. O que isso significa?

Os Estados Unidos e as grandes potências buscam salvar-se da crise repassando o que puderem para os países neo-coloniais como o Brasil. Os métodos preferenciais são os mais parasitários possíveis, com mecanismos abertos de espoliação financeira.

Avança rapidamente no Congresso a aprovação da Lei de Securitização (que entrega à especulação financeira os orçamentos públicos), a Lei da Concessão Onerosa (que entrega os melhores campos de petróleo a troco de nada) e as “privatizações” a troco de pinga de 450 empresas públicas.

Há poucos dias, o Dr. Paulo Guedes, o Chicago Boy que atua como ministro da Economia, declarou que o governo brasileiro usará a emissão de dinheiro para cobrir os rombos fiscais, o que coloca que o Brasil, assim como a América Latina de conjunto e o mundo, caminham rumo à hiper inflação com depressão econômica, a chamada “estagflação”, por causa dos gigantescos resgates do grande capital.

Devemos lutar pelos nossos empregos e as nossas vidas

Os empresários querem que os trabalhadores voltem a trabalhar, que tomem ônibus lotados, que o comércio volte a funcionar, mas que não haja protestos. Uma espécie de estado de sítio permanente e mundial, usando como motivo a crise sanitária do Coronavírus.

Desde o dia domingo 25 de abril, os chilenos voltaram às ruas e enfrentaram a repressão sob a palavra de ordem “Se devemos trabalhar, podemos protestar”. No Chile, a pressão sob os trabalhadores aumentou, com maiores descontos na saúde e nos fundos de pensão, mais desemprego e a perspectiva da miséria generalizada.

A política do imperialismo norte-americano para a América Latina é aplicar um enorme ataque contra as condições de vida que possibilitem a movimentação de parte das cadeias produtivas da China, e da Ásia, para o seu quintal traseiro.

Os perigos colocados são enormes e crescente. Junto com os ataques econômicos, aumenta o fechamento do regime e a repressão, aberta e velada. São vários os projetos de leis que tramitam no Congresso, de maneira quase clandestina, com o silencio da autodenominada “esquerda”, que na realidade aplica uma política de direita; ao crescente fechamento da Internet, se soma a legalização até dos esquadrões da morte e o enquadramento como “terrorista” de qualquer atividade de oposição.

A disparada do desemprego nos Estados Unidos

O desemprego oficial nos Estados Unidos, a maior potência mundial, disparou dos 4% para os 12% da força de trabalho. Na realidade, é do 40%

De acordo com os dados oficiais, no último mês e meio, mais de 30 milhões de trabalhadores entraram com pedidos de seguro desemprego.

De acordo com os dados oficiais, a força de trabalho total nos Estados Unidos é de 164,6 milhões de pessoas. Portanto, 30 milhões equivale a 18% do total oficial. Considerando que o desemprego em fevereiro era muito camuflado pelas estatísticas e que não era de 4%, mas que superava os 20%, hoje temos uma taxa de desemprego superior aos 40%, ou 10% abaixo dos 50% que levaram ao colapso da República de Weimar, na Alemanha em 1933, e à ascensão do nazismo.

Alguns dos truques estatísticos

De acordo com o BLS (Escritório de Estatísticas do Trabalho), órgão do governo norte-americano responsável pela estatísticas relacionadas ao mercado de trabalho, mais de 100 milhões de trabalhadores norte-americanos não possuem emprego formal e 20% das famílias não possuem um único membro que esteja empregado. Seriam mais de 80 milhões famílias, das quais, mais de 16 milhões não têm nenhum dos integrantes empregados; oito milhões de “desempregados” e mais de 92 milhões de trabalhadores que “não fazem parte da força de trabalho”. Esses números são muito superiores (27 milhões a mais) aos 5,48 milhões e 69,27 milhões registrados respectivamente, no mês de abril do ano 2000.

O BLS só considera como trabalhadores de período parcial àqueles que, em algum momento, tiveram um emprego com 40 horas semanais e que, posteriormente, foram cortadas para menos de 34. Nesta situação se encontrariam quatro milhões de trabalhadores. Mas, na realidade, há nove milhões de trabalhadores de período parcial que são candidatos a empregos de período completo, e que não o têm porque não o acham.

O BLS não considera os jovens que estão ingressando no mercado de trabalho, que demandariam aproximadamente 150.000 vagas adicionais por mês. A população carcerária também não é contabilizada, apesar de somar mais de três milhões de pessoas, devido a ser tratado como um negócio privatizado. Também não são considerados os trabalhadores que são obrigados a trabalhar por conta própria nem os trabalhadores aposentados de forma compulsória.

 

O reino do “sweatwork” (trabalho do suor)

A crise capitalista tem levado a fortes processos de terceirização e à migração de unidades produtivas para países onde a mão de obra é muito mais barata, como os países asiáticos e o México. Os remanescentes do parque industrial encontram-se em crescente estagnação. O chamado sweatwork, trabalho por produção e sem direitos legais, tem crescido enormemente; é o que predomina. O sonho dos capitalistas norte-americanos é rebaixar os salários dos trabalhadores ao nível do Estado do Mississipi, onde a média é “apenas” 80% maior que a média dos salários dos trabalhadores industriais chineses. No último período, nem sequer os lucros do parque industrial direcionado à produção de armamentos e à indústria de segurança (o chamado complexo militar industrial) têm continuado crescendo em ritmo ascendente, apesar do direcionamento de mais de 60% dos gastos públicos para este setor.

A maior parte das novas vagas de emprego adicionadas, na realidade se tratam de vagas precarizadas. Sete de cada oito dos “novos” empregos que foram adicionados à economia nos últimos seis anos são empregos de tempo parcial. Esse é um dos motivos que tem levado à queda vertiginosa dos ingressos. Mais de 60 milhões de pessoas dependem da ajuda do governo para sobreviver e quase 50 milhões recebem ajuda para comer.

De acordo com o último censo, mais de 50 milhões de pessoas, ou 18% da população, vivem em situação de pobreza. Destas, 15,5 milhões seriam crianças, um aumento de 28% em relação ao ano 2000 e de 10% em relação a 2008. As cidades com as maiores taxas de pobreza seriam: Detroit (36,4%), Cleveland (35%), Buffalo (28,8%), Milwaukee (27,8%), St. Louis (26,7%), Miami (26,5%), Menphis (26,2%), Cincinatti (25,7%), Philadelphia (25%).

A metodologia do censo usa os mesmos critérios estabelecidos em 1956, e deixa de lado componentes, que têm se tornado críticos a partir da administração Ronald Reagan, na década de 1980, tais como os gastos com assistência médica, educação, transporte, cuidado com as crianças, e outros, devido à privatização generalizada dos serviços públicos. Segundo análise da Academia Nacional de Ciências, considerando alguns desses fatores, o número de pessoas pobres seria de 52.765.000, ou 17,3% da população, e o número de crianças pobres seria de 24%, ou 18,8 milhões.

De acordo com os resultados de um estudo feito pela Universidade de Columbia, publicado no jornal American JournalofPublic Health, e que contempla o período de 1983 a 2007, mais de um milhão de mortes anuais podem ser atribuídas a causas relacionadas com o aumento da pobreza e as diferenças sociais, que têm se acentuado a partir de 2000.

A partir da promulgação do chamado PatrioticAct, no início da década passada, a população carcerária passou de 500.000 pessoas em 1980 para aproximadamente três milhões, em primeiro lugar, por causa de ter se tornado uma fonte de lucrativos lucros por causa da privatização. Adicionalmente, existem quase 10 milhões de pessoas indiciadas nos Estados Unidos.

Mais de 35 milhões de pessoas não possuem acesso à saúde e 60% das falências de pessoas físicas têm como causa as contas médicas; 75% dessas bancarrotas são de pessoas que possuíam planos de saúde.

Alejandro Acosta, Editora do Jornal Gazeta Revolucionária

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