Militância Z – Descobrindo a política contra a Doutrinação da TV 

Apenas flashes da minha memória infantil sobre as eleições de 89 

 

Nos idos do final dos anos 80, a professora da primeira ou segunda série pediu que criássemos um jingle para um candidato de mentirinha, uma criança da turma, escolhida pelos alunos. Geralmente ganhava o aluno que destacava-se em liderança e comunicação. A intenção era fazer uma simulação de eleição, já que próximo daquela data realmente haveria eleições presidenciais e governamentais. Apesar da pouca idade, recordo-me de coisas talvez banais, mas que minha mente de criança guardou para a minha mente de adulta. A mesma mente, de certa maneira. Talvez com um pouco de imaginação misturada com realidade.

 

Lembro-me de Collor versus Lula. Collor era o homem que andava de jet-sky e que sei lá por que motivo falavam riam de algo que passou na televisão a respeito de “algo roxo”. Ele praticava cooper ao redor de um lago. É a imagem que tenho daquilo que era mostrado na TV. E foi o que minha mente apreendeu. A televisão comunicava de maneira extremamente perspicaz, desde os desenhos feitos para vender brinquedos, até campanhas eleitorais. Anos mais tarde inclusive, escreveu Gilberto Dimenstein “Como não ser enganado nas eleições”, o que tornou-se leitura escolar.  

 

Mas voltando ao aprendizado sobre eleições na escola, o que hoje leva-me a reflexão é o fato de que aquela representação não compreendeu debate sobre propostas. Não foi explanado, nem da maneira mais simples sobre democracia e constituição, sendo que aquela era a primeira eleição pós ditadura do Brasil. Havia um peso gigantesco sob a situação vivida naquele momento. Passávamos por um marco histórico na nossa frágil e recente democracia, hoje ainda mais demolida. De criança, recordo-me de tantas coisas, das músicas das campanhas daquele ano, dos jornais, do rosto dos candidatos, por que pensar que na nossa idade não pudéssemos compreender o que realmente significava um processo eleitoral democrático.

 

O meu olhar de adulta com 37 anos ao rememorar a “musiquinha” criada na escola para o candidato da sala de aula, faz-me pensar no princípio do marketing político. A escola apenas repetia a televisão. E foi isso o que me foi ensinado a respeito das eleições quando aos sete ou oito anos fizemos uma simulação de voto. Havia urna, havia o que representava o secreto, embora cada sala seguramente votaria em seu próprio candidato. Tudo bem, foi um exercício lúdico para adentrar no assunto mais falado no país naquele momento. Mais falado além da inflação, da subida dos preços, das dificuldades diárias.

 

Não fui uma criança que se envolvia ou participava, não por pirraça. Tinha dificuldade de relacionamento interpessoal e atividades com envolvimento de muitas pessoas deixavam-me acuada. Entretanto, não por isso, o pensamento, aqui posso dizer crítico, fazia-me entender que tudo aquilo um tanto ridículo, pela obviedade do candidato a ser votado. A atividade era obrigatória, e aprendi ali que o voto também era, meio sem querer. O lúdico, sim ensina. E talvez tenhamos perdido a chance de fortalecer nas crianças daquela geração, minha geração, o desejo pela mudança, ou pela permanência dela. A importância da luta contra a ditadura. Tanto foi “ensinado” naquele período, então porque não na democracia se estávamos aos pés da liberdade de expressão?

 

Acredito que o que aprendi realmente sobre eleições foi em casa. Minha família nunca denominou-se classe média, embora tivéssemos televisão e geladeira. Lembro do livro escolar falar em classe A, B, C, AB, BC. Princípio de geografia humana. Já era o empregar de uma ideologia enfraquecedora de classes, divisora entre quem tem mais e quem tem menos. Eram os valores que hoje são e estão.

 

Meus pais sempre relataram suas origens, dificuldades, necessidades extremas de sobrevivência. Eu e meu irmão tínhamos certa noção de que trabalhar era difícil,  assim como adquirir dinheiro. Caso pedíssemos algo de desejo de criança, perguntávamos aos nossos pais se era caro, se seria possível comprar. Ou nem pedíamos, nunca nos excedíamos. Sabíamos que os tempos eram difíceis. Mas pra mim, era simplesmente difícil. Eu não tinha comparação de um antes e depois. Praticamente nasci no que se chamou de Estado Democrático de Direito. A Constituição Federativa do Brasil nasceu quando nasci. Eu nem sabia que o terror da ditadura estava colado ao nosso tempo. Parecia-me uma conquista antiga. Fotos e vídeos em preto e branco. Eu era uma criança com menos de 10. 

 

Aqui falo de lembranças infantis, do presidente Sarney aparecendo na TV com o seu jargão “brasileiros e brasileiras”. Meu pai falava imitando, eu repetia sem saber que se tratava de ironia pura. Era um momento de possibilidade de mudança naqueles difíceis tempos, vindos de outros difíceis tempos, nascidos de difíceis tempos. A história do Brasil foi e é construída disso. Para os mais pobres, sempre tempos difíceis.

 

Eu ouvia sobre eleições não apenas na escola e em casa perguntas sobre aquele momento eram respondidas. Eu sentia no peito a esperança do Lula, como herança familiar, sim. Sem a menor vergonha de dizer. “Brilharia uma estrela”. Fui achincalhada na escola por dizer-me petista, ou nas minhas palavras da época, por dizer simplesmente que gostava de Lula e preferia ele a Collor. Estudava em uma escola particular por meio de bolsa e do esforço absurdo dos meus pais que sempre colocaram o estudo em primeiro lugar. Era um valor familiar carregado nas costas com o sofrimento: estudar nos traria uma segurança e estabilidade financeira maior.

 

Os pais dos alunos da minha escola em sua maioria eram “colloridos”. O irmão mais velho de algum deles dizia que votaria nele porque ele era bonito. Eu não entendia. Mas o que ele dizia aparecia na TV. 

Por que votariam num homem feio que diziam bonito, que gostava de esportes e que “caçaria marajás”.

_Mãe, o que é marajá? 

Pobre mãe, hoje penso. Explicar o que era marajá e explicar tudo. Fui e sou a menina dos porquês. Sem fase. Perguntei durante infância, adolescência, vida adulta.  Eu não consegui a tal palavra “marajá” e continuava a perguntar o porquê de tudo. 

 

Trazendo para os dias de hoje, é estranho e absurdo que digam que escolas doutrinem crianças com o comunismo, o marxismo, seja o que for. Que professores estejam dispostos a tal doutrinação e que como escrito no plano de governo do atual presidente Jair Bolsonaro, isso iria acabar. Leio as apostilas do ensino médio de quando estudei e é claro o liberalismo econômico exposto como salvação. Os livros de história eram tendenciosos quanto a história, rasos e amenizavam a exploração escravista, entre outras coisas. 

 

 

Sou de uma geração de pessoas que são um tapeware vazio, fácil de serem preenchidos, porque não possuem memória, criticidade e possuem uma necessidade de serem preenchidos. O que foi que nos faltou para acreditar com tanta facilidade em notícias falsas? E nisto baseou-se a eleição de 2018. Além de currais eleitorais igrejas neopentecostais com membros que acreditam nas mentiras do “messias” batizado em Israel. Um projeto que vivenciei em parte na passagem da adolescência para a vida adulta, mas que não percebi na época a gravidade do que se tratava. Pastores candidatos subindo ao púlpito com a promessa de que Deus estaria no “poder”. Líderes espirituais usando de sua autoridade para arrebanhar votos. E como isso foi feito! Simplesmente nojento de se ver, desculpem-me a palavra.

 

A Igreja com projetos eleitorais de curto, médio e longo prazo. Elaboração da tomada do poder com uma linguagem que arrebanhou a juventude com cânticos incríveis, superproduções de shows, palestras e vendas dos chamados “artigos evangélicos”, além da criação de líderes poderosos em suas palavras, influenciadores no brasil inteiro. Era a palavra de Deus, afinal Linguagens diferentes apresentando o mesmo projeto da Igreja no Estado, como uma necessidade e ordenamento bíblico.

 

Mas não era sobre isso que falava. Deixando as lembranças adolescentes e na verdade misturando sentimentos agora de uma grande derrota perante uma cegueira. Essa derrota, desde o golpe atual eu senti na garganta e de maneira muito amarga. Porque guardo no peito uma alegria triste: a lembrança da imagem do meu irmão desenhando uma estrela vermelha e colando do lado de fora da porta da sala de casa. Aquele desenho de criança, imperfeito, porém cheio de esperança. Ele cantava a música Lula-lá. E foi um momento tão emocionante, é uma lembrança que transborda emoções diferentes, não sei se por tudo o que aconteceu em seguida. Uma lembrança que me aperta o peito e traz lágrimas. Talvez pela “esperança singela” do rosto de um menino. Uma esperança que me contagiou.

Nunca tire a esperança de uma criança. 

Ainda que tenha ganhado a eleição o tal caçador de marajás. Hoje sei o significado. Mas prefiro a lembrança da espera infantil por um bom futuro.

Hoje sei com certeza que a Esperança tornou-se Luta. 

 

Marcele Luize, jornalista e escritora.

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