As Verdadeiras Amarras de Lula e o Sequestro do Brasil

Por Thais Moya*, para o Duplo Expresso:

Uma das amarras mentais de Lula é sua família. Ou melhor, o receio de que façam mal aos seus familiares. Não esqueçamos que seu primo de primeiro grau – Sandoval –, foi assassinado horas antes dele ser preso, em abril do ano passado. Muitos dizem que foi um claro recado dado e compreendido, que pesou na decisão dele entregar-se. Para não falarmos na morte de sua esposa, que sucumbiu diante da perseguição incessante que sofreu.

Arthur era muito próximo do avô. Nasceu durante o tratamento quimioterápico de Lula, o que intensificou a relação entre os dois. Neto e avô moraram juntos por um tempo. Inclusive, era do garoto o iPad raptado por Moro, quando invandiram a casa do ex-presidente, numa manhã de março de 2016.

Em quase todos os discursos, Lula afirmou que provará sua inocência, principalmente para seus netos. E repetiu na despedida diante do caixão de Arthur. Sua relação familiar sempre foi atravessada pelo seu legado político e, ultimamente, sequestrado em uma solitária, Lula tem alimentado um compromisso moral com seus descendentes. Compromisso que, paradoxalmente, visa reforçar sua dignidade enquanto estadista injustiçado e proteger sua família de mais agressões.

O ex-presidente foi sondado algumas vezes, nos últimos anos, para que assumisse uma culpa que não tem. Ou, para que abandonasse seus direitos políticos e sua candidatura a presidência principalmente. Em troca, deixaria de ser perseguido e preso. As últimas e recentes ofertas são acerca de uma possível prisão domiciliar. Lula repudiou todas as chantagens.

Eis que o imponderável assume o protagonismo dessa epopéia, e seu neto querido falece em questão de horas, colocando em xeque qualquer noção de poder e controle de ambas as partes.

Os algozes de Lula se vêem tão apequenados diante dele que precisaram criar um esquema de guerra para mantê-lo isolado e mudo. Ficou evidente: Apesar de todo planejamento do Golpe para manter-se em pé, Lula ainda é o seu calcanhar de Aquiles. A tal ferida aberta que, cedo ou tarde, será fatal para esse grupo que roubou o Estado Brasileiro.

Por outro lado, Lula foi atropelado pela realidade de que todo seu esforço atual não foi capaz de salvar seu neto. A morte tem sua própria lei e ousadia. Certamente, nosso presidente enfrentará dias nebulosos que lhe trarão reflexões inéditas.

É possível que Lula decida aceitar a oferta de render-se ao Golpe em troca de uma prisão domiciliar para, então, viver ao lado da sua família. Quem poderá julgá-lo? Um senhor de 73 anos que dedicou-se ao país e salvou a vida de milhões de brasileiros, tem todo direito de pensar em si e em seus familiares nesse momento.

Obviamente, o país sairia no prejuízo no caso dessa barganha. Lula ainda é a única força política capaz de mobilizar e catalizar uma resistência popular contra o Golpe, mas caberia-nos respeitá-lo e qualificar seu legado como ferramenta de luta.

Há, no entanto, a possibilidade de que esse luto atual tenha o efeito parecido com a pós-morte de Marisa, que trouxe à luz um Lula mais aguerrido e sem papas na língua. Não à toa, encarceraram-no um ano depois.

Se Lula conseguir ressurgir desse pesadelo ainda mais forte e disposto politicamente, temos que estar prontxs para potencializar tal fenômeno nacionalmente. Não podemos mais depender das lideranças partidárias e sindicais. Sigamos o exemplo das centenas de pessoas (pobres, negras, idosas) que foram sábado (2/mar) ao cemitério. As que lá chegaram mesmo sem a mínima articulação dos partidos e sindicatos. Aquelas que protestaram corajosas perante metralhadoras, granadas e uniformes militares de sua escolta de “inimigo público nº 1 do regime”.

Precisamos entender que somente o povo livre dos conchavos eleitoreiros, financeiros e judiciais,  tem interesse e disposição para libertar Lula e, consequentemente, a si mesmo das atrocidades do Golpe.

 


* Thaís Moya é doutora em Sociologia com pós-doutorado em Ciências Sociais, além de comentar todas as terças-feiras no Duplo Expresso.

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