99%, UNÍ-VOS! V – Onde se lê…

Por Hélio Silveira*, para o Duplo Expresso

No artigo do Valor Econômico (infelizmente, exclusivo para assinantes) intitulado ”Partidos Populistas Europeus atacam o liberalismo econômico”, onde se lê: “partidos populistas” deveria – corretamente – ler-se: “Partidos Populares Desenvolvimentistas atacam o liberalismo pelo seu “austericídio”.

De fato, desde 2008, temos assistido ao “austericídio”, com choro e ranger de dentes dos 99%, no mundo Ocidental. Enquanto isso, lá na Ásia, prossegue o caminho da seda que parece ser um cinturão de Desenvolvimento ao redor do mundo!

Realmente, a situação política se encontra deveras complexa. Por exemplo: Os coletes amarelos são reivindicantes populares, ou movimento com infiltrados? Ou, o mais estarrecedor, as duas coisas simultaneamente? Mas de toda esta complexidade, uma coisa é certa: O “austericídio” começa a criar resistência dos 99%.

O notável povo Islandês deu o exemplo popular no início da crise de 2008. Ou seguiam à deriva, ou nacionalizavam os bancos, jubilavam a dívida bancária e lavravam uma nova constituição realmente POPULAR! Optaram pelo segundo “ou”.

Coroas Islandesas – moeda do país que, mesmo pertencente à área da Comunidade Econômica Europeia (compreendendo a União Européia mais Associação Europeia de Comércio Livre), possui acesso total aos mercados europeus, mas permite que o país siga seu próprio caminho com relativa autonomia (para saber mais sobre isso, clique em “Um Conto de Dois Devedores: Islândia e Irlanda – e seus Bancos”, no original em inglês).

O exemplo islandês começa a frutificar infelizmente não pelo exemplo, mas pelo sofrimento e dor dos 99%.

Os coletes amarelos estão na rua, não para contestar o liberalismo, mas pela realidade fria e nua chegada aos seus bolsos de que caíram no “conto do Macron”[1]! O Brexit fez parte da mesma situação onde jogaram a memória tatcheriana para o lixo. Agora, tanto a Itália como a Hungria seguem caminhos de retornos nacionalistas e desenvolvimentistas. Itália, Hungria e mesmo a Inglaterra, retomam planos para reestatizar os serviços públicos.

Para nós, Desenvolvimentistas do BNDES e nacionalistas, satisfazemo-nos em ler nesse mesmo artigo que a Itália quer reestatizar empresas de água, de rodovias e, OBVIAMENTE, “criar um banco controlado pelo governo para financiar a economia”. Lula fez isso em 2009, utilizando o BNDES e “virou” o crescimento zero daquele ano para 7,5% em 2010.

Deveras, o governo nacionalista da Polônia quer “a ‘repolonização’ de bancos por meio da compra, pelo Tesouro, de ações pertencentes a controladores estrangeiros”. Fácil de entender, pois os dirigentes públicos daquele país emitem títulos do Tesouro para realizar gastos do Estado. Lula fez isso, em 2009, transferindo R$ 100 bilhões em Títulos do Tesouro para o BNDES e realizando gastos estratégicos.

Aí vem a clássica ignorância liberal (ou talvez, má-fé?): Mas isso não endividaria o governo? Definitivamente, não!

O Estado tem a prerrogativa de emitir moedas e títulos. O que Lula fez foi pegar os títulos do Tesouro e colocar no seu banco estatal. Até aí nenhuma emissão. O BNDES, depois de estudar e aprovar um projeto, começa a realizar títulos no “mercado” e liberar recursos depois de comprovada a efetivação física das etapas do projeto.

Mas então, nesse momento, o governo não estaria “jogando” dinheiro no mercado? Sim e não!

1. Sim, o BNDES estaria creditando recursos numa empresa depois de verificar a etapa do projeto, mas o que faz a empresa? Utiliza os recursos para efetivar compras de insumos na continuação do projeto e, claro, gerando impostos.

2. Não, não estaria inflacionando o mercado porque o dinheiro colocado estaria “girando” a economia. Se o aumento da moeda, por acaso, estivesse provocando uma redução do nível de juros, prontamente o Banco Central poderia vender títulos de sua carteira. Ou aumentar o compulsório. Ou ainda, captar empréstimos compromissados.

Simples assim! O resto é ignorância liberal! O efeito prático é endividamento zero para o Governo, porque o BNDES é dele e ele ainda recebe dividendos ou reinveste os lucros no próprio BNDES.

Entendida essa questão, voltemos ao governo polonês. Ele usa os títulos e compra posição relevante de ações dos bancos (lastro físico), fica com um ativo e, se houver aumento de liquidez, o seu Banco Central enxuga. Putin fez isso reforçando a posição do governo russo em ações da Газпром (Gazprom) na queda do petróleo ocorrida em 2016.

Infelizmente, o sofrimento do “austericídio” diante de tanta desigualdade&desemprego&sub-emprego, provoca o isolacionismo em relação ao imigrante. De fato, os movimentos erráticos de reivindicação, passados dez anos de políticas liberais, afastam os reivindicantes dos ideais e métodos utilizados pelos islandeses no início da longa crise.

 


* Hélio Silveira é economista aposentado do BNDES, mas nacionalista e desenvolvimentista em plena atividade.

[1] “Conto do Macron” pode ser interpretado como a versão francesa do nosso conhecido “conto do vigário”, tradicional em Portugal e no Brasil. Em geral, todas as versões atribuídas a este termo guardam em comum um golpe de esperteza e um vigário. Bom, imagina-se que Macron fique muito bem de preto, mesmo que com uma batina…

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