Requião: Enquanto respirar viverei pelo Brasil

Por Roberto Requião*, da Redação do Duplo Expresso:

O senador Roberto Requião fez, nesta terça-feira (11 dezembro de 2018), no plenário, um balanço de seu mandato, e assumiu o compromisso de não abandonar a política:

Enquanto respirar,
viverei pelo Brasil,
fiel, intransigentemente fiel
à utopia que me embala desde a meninice.
O sonho de um país soberano,
desenvolvido e bom,
para todos.

O discurso de Requião foi aparteado por diversos senadores, todos cumprimentando-o pela coragem e pela qualidade de seu mandato.

A seguir, vídeo e texto com o discurso:

Roberto Requião

À conta de preâmbulo, para deixar registrado o meu inconformismo com a expulsão dos médicos cubanos do Brasil; sim, expulsão! Não há outra palavra para classificar a iniciativa extemporânea do futuro governo, já que sequer se empossou para tomar tão grave decisão sobre um setor que mais demanda a atenção estatal e que agora desguarnece-se dramaticamente.

À conta de preâmbulo, como dizia, faço uma pergunta: mais do que razões ideológicas, mais que a boçalidade anticomunista, mais que o esforço para, na visão do futuro chanceler, agradar o salvador do ocidente cristão, Donald Trump, mais que tudo isso, o que pesou mesmo para a expulsão dos médicos cubanos não teria sido a cor da pele deles?

Quase todos pretos!

E onde se viu, que ousadia é essa de preto exibir anel de doutor, ainda mais doutor médico, ainda mais preto comunista? Além do que, a quem esses pretos estrangeiros atendiam aqui na Pátria Amada? A outros pretos! Ora, que desperdício!

Na verdade, a expulsão dos médicos cubanos é uma paráfrase da grande meta do bolsonarismo que é a expulsão do Brasil de todos os estrangeiros indesejáveis. E, no caso, entenda-se por estrangeiro todo brasileiro que se oponha ao novo governo, às ideias do novo governo, tanto no plano dos costumes quanto às propostas na área econômica, educacional e de política externa.

A ressurreição de consignas como “Ame-o ou deixe-o”, “Pra Frente Brasil”, “Ninguém Segura Esse País”, sob a trilha de Don e Ravel.

A mesma trilha usada nas sessões de tortura, talvez queira criar um clima, incentivar manifestações, dar continuidade às mobilizações eleitorais via redes sociais em favor da “purificação” do país, libertando-o dos “comunistas”, prendendo-os ou expulsando-os.

Um dos filhos do presidente eleito fez até mesmo um cálculo: talvez seja preciso prender e expulsar, como se estrangeiros fossem, uns cem mil desses brasileiros indesejáveis, para “limpar o Brasil”.

Na fala desse rapaz o que mais me assustou foi uma referência que ele fez à Indonésia, como exemplo de país que criminaliza as “atividades comunistas”. Mas sabe ele à custa de quê? À custa da chacina, do massacre de mais de um milhão de indonésios considerados comunistas.

É de arrepiar!

Mas essa é a ideia: se você for a favor, bem-vindo ao Brasil de encantos mil, “…salve a seleção!” Se você for oposição, você é um estrangeiro indesejável, passível de punição.

Pois é, nós que defendemos o Brasil contra a pilhagem de suas riquezas, especialmente a pilhagem do petróleo; nós que somos contra a privatização da Petrobrás, da Eletrobrás; que somos contra a entrega da base de Alcântara para os Estados Unidos; que somos contra a absorção da Embraer pela Boeing; que nos opomos à doação do nióbio e outros metais preciosos; que discordamos radicalmente da venda de terras para os estrangeiros; que somos contra a privatização da água, das florestas, do ar e do mar territorial; nós que combatemos a desindustrialização do país; que lutamos pela ciência e pela tecnologia nacional; nós somos os indesejáveis, os “estrangeiros”.

E quem são os brasileiros?

Paulo Guedes, Castello Branco, Roberto Campos Neto, Sérgio Moro, Onyx Lorenzoni? Ou os indicados de Olavo de Carvalho, o colombiano Ricardo Velez Rodriguez e Ernesto Araújo? Ou seriam Pedro Guimarães e Rubem Novaes? Esses são os brasileiros?

 

Feito o introito, vamos à missa.

Encerra-se no dia 31 de janeiro o meu mandato de senador. Se fizesse uma retrospectiva do que foram esses oito anos, não encontraria nada do que me arrependesse. Cumpri com honra, dedicação e brasilidade o mandato que os paranaenses me deram.

E, caso alguém se desse ao trabalho de compulsar os discursos que fiz nesta Casa veria neles, de um lado, a insistência sobre o mesmo tema: a soberania nacional, a construção do Estado Nacional Brasileiro e, como pressuposto disso, o combate permanente, radical à financeirização da economia, à globalização sob o domínio do capital financeiro, ao reino dos bancos, ao império de Mamon.

De outro, haveria de constatar a também insistente, radical defesa dos trabalhadores, de seus direitos, de suas conquistas civilizatórias; ao lado da defesa do capital produtivo nacional, em oposição aos sibaritas do mercado financeiro, de onde, aliás, procede toda a equipe econômica do próximo governo.

(Um parêntese: temos à vista uma frente inusitada: um bando de especuladores e de agiotas, ultraliberais entreguistas e traidores da pátria, ombro a ombro com as Forças Armadas. Eu até poderia entender a adesão da teologia da prosperidade de Edir Macedo, de R. R. Soares, de Malafaia, de Valdomiro Santiago, do impagável Agenor Duque e outros ao neoliberalismo. Afinal, esses templos não seriam nada sem o jogo do mercado das ilusões capitalistas, sem os negócios dos milagres e da lavagem de dinheiro. Mas as Forças Armadas…aí não entendo mesmo. Fecho o parêntese)

O tempo todo, dizia; enquanto esta Casa fartava-se de assuntos absolutamente secundários, de demandas corporativas, da cassação de direitos de trabalhadores, da redução de direitos sociais, da entrega do petróleo, da renúncia à soberania ou de arremedos de reforma política; ocupei-me daquilo que para mim deveria ser a essência de nossos mandatos: um Projeto para o Brasil, os fundamentos básicos para a construção do Brasil-Nação. A contraposição entre Brasil, um país para os seus e Brasil, um mercado para os outros explorarem.

Nesses oito anos, foi a minha obsessão. Na verdade, uma obsessão de toda a vida.

Inúmeras vezes, desta tribuna, na Comissão de Economia, em seminários e debates aonde quer que fosse, aqui ou lá fora, foi o meu canto de uma nota só: um projeto de desenvolvimento nacionalista, democrático e popular.

Não se tratava de uma pregação sectária, fundamentalista.

Tratava-se, isso sim, de ter os olhos e a mente abertos para a realidade das coisas. Tratava-se de não se deixar cegar pela religiosidade, pelo dogmatismo, pelo preconceito ideológico dos liberais.

Esta é a verdade: Não existe nada mais ultramontano, primitivo, tosco que o neoliberalismo, ainda mais a sua leitura brasileira, que consegue reunir em só embornal banqueiros, o altão escalão das Forças Armadas, os setores atrasados do agronegócio, representados pela ressurreta UDR, os cruzados da luta contra a corrupção, os evangélicos da teologia da prosperidade, os barões da mídia e os “moralistas” tipo Alexandre Frota e pastor Feliciano.

Já pensaram, reunidos sob o mesmo teto: Paulo Guedes, Edir Macedo, Olavo de Carvalho, Sérgio Moro, Joice Hasselmann, Kim Kataguiri, a Família Buscapé, os Setúbal, os Moreira Salles, os Trabuco?

Vão viver sob o mesmo teto… até que a casa caia!

O que teremos, pelo que tudo indica, é um governo para o mercado, ao invés de um governo apesar do mercado. E um governo para o mercado significa, necessariamente, um governo antinacional, antidemocrático, antipovo e, por isso mesmo, um governo corrupto, já que a alma, a essência do neoliberalismo é venal, degenerada, ímproba. Não sabia disso, Moro?

Afinal, não há ética, não há moralidade, não há cristianismo, não há espiritismo, não há judaísmo, não há islamismo, não há budismo – tomando a essência, a medula, a substância dos ensinamentos dessas religiões – em um regime que não coloque o homem, em sua integralidade, no centro de suas ações.

Basta ver o que Paulo Guedes – cuja ignorância sobre as instituições públicas é alarmante e embaraçosa – andou dizendo sobre a necessidade de sepultar de vez as heranças da socialdemocracia brasileira.

Deus meu!

Quando houve um regime socialdemocrata no Brasil, tomando como paradigma a socialdemocracia europeia, ou o keynesianismo praticado por Roosevelt nos Estados Unidos nos anos 30-40, e seus sucessores?

Nunca!

O que tivemos, sob Getúlio, Juscelino, Goulart, Sarney, Itamar e, principalmente, sob os governos do PT, o que tivemos, foram algumas concessões, algumas velas acesas ao povo enquanto queimavam-se tochas em adoração a Mamon.

Socialdemocracia no Brasil quando? Até as migalhas distribuídas incomodam essa gente tenebrosa, desumana. É aterradora a inconformidade dessa gente com a abolição da escravatura.

Daí que, ainda mais uma vez, manifesto a minha estupefação por ver as Forças Armadas metidas nessa cumbuca. É um envolvimento perigoso.

E não me venham com essa conversa mole de que são alguns militares da reserva que farão parte do chamado “núcleo duro” do próximo governo, e não a instituição. Balela! É a instituição, toda ela, contaminada pela política. A política invadiu os quartéis. Ou o general Vilas Boas vai dizer, como Sérgio Moro, que os militares no Governo são “técnicos”?

Já que não há como o próximo governo dar certo, pois não há como o ultraliberalismo triunfar sobre a sociedade brasileira, a não ser reprimindo-a, massacrando-a, calando-a, as Forças Armadas sairão outra vez chamuscadas dessa aventura.

E não adianta desviar a atenção e perseguir fantasmas de 83 anos atrás. Não vai dar certo.

Se, nesse que, talvez, possa ser meu último pronunciamento nesta Casa, reservei tanto espaço, entre idas e vindas, às Forças Armadas, é que meus sentimentos patrióticos, nacionalistas, desenvolvimentistas sempre fizeram polifonia, justaposição com a tradição de patriotismo, nacionalismo e desenvolvimentismo de nossos militares.

Em nome dessa tradição, e como ex-aluno do antigo CPOR, faço mais uma pergunta aos militares: o que eles acham das declarações dos ministros que Bolsonaro indicou para as Relações Exteriores, Agricultura e Economia, sobre a América Latina, Cuba, África e China, espelhando, por exemplo, essas declarações na política externa de Ernesto Geisel?

Os escalões superiores das Forças Armadas tão envolvidos com o próximo governo, e tão apressados em também amaldiçoar a chamada “herança petista”, talvez mostram-se ignorantes, indoutos sobre as raízes de nossa política exterior no período militar. Foi sob Geisel que o Brasil reatou com Cuba e China. Foi sob Geisel que o Brasil começou sua aproximação e cooperação com a África.

Foi sob Geisel que reconhecemos Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, ex-colônias portuguesas.

Foi Geisel quem deu uma banana para os Estados Unidos e firmou o acordo nuclear com a Alemanha.

Foi ainda sob o regime dos generais que o Brasil se aproximou dos países árabes, e passou a ter uma política independente nos conflitos do Oriente Médio.

E jamais ocorreria a Geisel ou qualquer dos outros presidentes militares bater continência a um tipo como John Bolton.

Embaixada do Brasil em Jerusalém? Nem pensar!

Como se vê, sequer no fogo ardente da guerra fria o Brasil submeteu-se ao alinhamento automático com os Estados Unidos.

Os senhores militares esqueceram-se disso tudo? Não se lembram mais que para realizar os nossos objetivos nacionais permanentes é essencial que sejamos um país soberano, dono de seu próprio nariz e que não se envolva nessa ideologização estúpida atrasada, provinciana que Guedes, Araújo e Velez Rodriguez querem nos meter?

Aprendam com Geisel, se não querem dar o braço a torcer para os críticos do novo governo.

Ora, “terceiro-mundismo” é a vovozinha de quem disse.

E por falar em objetivos nacionais permanentes gostaria de lembra-los, aos que já se esqueceram, que eles são: Democracia, Paz Social, Desenvolvimento, Soberania, Integração Nacional e Integridade do Patrimônio Nacional.

Pergunto eu: o que esses arrivistas tipo Paulo Guedes, Joaquim Levy, Roberto Campos Neto, Rubem Novaes, Pedro Guimarães, Carlos von Doellinger, Ernesto Araújo, o colombiano Velez Rodriguez têm a ver com objetivos nacionais permanentes, senhores das Forças Armadas?

Talvez, para relembrar minha trajetória nessa Casa, nesses últimos oito anos, tenha feito uma digressão longa demais. É que pretendi refletir, espelhar as posições de toda uma vida nos tormentosos dias que se aproximam.

Mas que não me vejam pessimista ou cético. Ninguém tem o direito de ser pessimista no Brasil. Não com um povo como o nosso que, há mais de 500 anos, suporta as consequências que ter uma elite predadora, inculta, trapaceira, corrupta e venal, mas segue em frente.

Daqui a algumas semanas encerra-se o meu mandato de senador. Não me recolho à vida privada. Não tenho também esse direito. Enquanto respirar, viverei pelo Brasil, fiel, intransigentemente fiel à utopia que me embala desde a meninice. O sonho de um país soberano, desenvolvido, e bom para todos.

Brasileiros, contem comigo, sempre!

 


* Roberto Requião de Mello e Silva é um advogado, jornalista, urbanista e político brasileiro. Atualmente completa seu mandato como senador da República pelo MDB do estado do Paraná.

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