Preparem-se para o Gaza-samba

Da Redação do Duplo Expresso,

9/11/2018, Pepe Escobar, The Saker Blog

Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga

Estou subindo e descendo pela rodovia Karakoram no Gilgit-Baltistão, num malabarismo entre o Grande Jogo – o original, entre Grã-Bretanha e Rússia imperiais – e o Novo Grande Jogo dos Excepcionalistas contra a integração da Eurásia.

Foi quando, cruzando as montanhas imponentes acariciadas pelo sol, o The Saker enviou um trovão na forma de matéria da Russian Today [original aqui ] que mostra ao mundo uma dupla de brasileiros fuleiros fazendo pose de sionistas, e sugere que eu comente.

Um desejo do Saker é ordem irrefutável; então, por um instante, abstraio-me da meditação nesse sublime ar rarefeito – meu remix diário de Hiking with Nietzsche [lit. “Caminhando com Nietzsche”] no Karakoram – e chafurdo brevemente no pântano tropical.

“Ah, aquele rio (político) é escuro e lamacento” [Oh, that (political) river is dark and muddy], citando o mestre dos pântanos, falecido recentemente, Tony Joe White. Especialmente quando se veem os dois brasileiros fuleiros, que são na verdade Little Bolsonaro Thugs (LBTs), filhos do presidente eleito no Brasil, em férias em Israel, desfilando com camisetas do Mossad e do Exército de Israel.

A imagem tornou-se viral no Brasil. À primeira vista talvez pudesse sugerir mais um caso de turismo inconsequente. Mas o contexto é essencial. Amplos setores da classe média brasileira adoram fotografarem-se em tradicionais T-shirts em língua estrangeira, que usam como se fossem troféus. As preferidas são as camisetas com “Harvard” e “Columbia”, que exibem quando visitam a Gotha[DE1] do sonho de consumo deles e delas, New York City. Nem preciso dizer que não têm a menor ideia do que é ensinado ou o que realmente acontece em Harvard ou Columbia.

Mas, no caso das camisetas do Mossad e do Exército de Israel usadas pelos LBTs, vão um passo além. Os “troféus” têm de ser vistos no contexto do comentário dos LBTs de que Israel seria “um país de Primeiro Mundo”. Isso é a marca registrada do apito de cachorro para a classe média branca – um som harmônico para uma elite sub-imperialista totalmente vendida – sugerindo que nações na América Latina e na África, comparadas a Israel, não seriam nada além da ralé.

Politicamente, que já se traduz na chegada, Bolsonaro já emitiu sinais de afastamento do Brasil em relação ao Mercosul e da integração com a África, configurando a política externa bem cheia de bananas de uma neocolônia bananeira dos EUA.

Quanto à Ásia, não há nenhum registro porque aquela gente largamente não tem a menor ideia de onde está a “Ásia” – exceto o lobby do boi, que depende crucialmente de exportações para a China, as quais Bolsonaro não permitirá que sejam colocadas em risco.

O que os LBTs estão mirando de fato é uma total integração com o lobby sionista-cristão em um futuro próximo; e isso que explica sua recepção frenética e entusiástica à arena global pelos habituais suspeitos do Excepcionalistão[DE2]. O PsychoKiller [Talking Heads] John Bolton quase teve um orgasmo elogiando Bolsonaro. A transferência (macaqueada de Trump) da embaixada brasileira de Tal Aviv para Jerusalém recém anunciada por Bolsonaro, enfrenta um boicote massivo do mundo Árabe, impele um recuo da moda não diluída dos Irmãos Marx.

A essência do abraço entre os LBTs e o Mossad/Exército de Israel aponta para algo ainda mais sinistro: para táticas do regime de apartheid[DE3] a serem implantadas com força total no Brasil, desde a incursão com drones nas favelas até múltiplas variações de operações militarizadas em ambiente urbano, já conceitualizadas na década passada pela empresa RAND[DE4] em Santa Mônica.

Criminalização de dezenas de milhões de brasileiros – os pobres, os oprimidos, os camponeses sem terra, qualquer minoria, a esquerda de forma geral, professores, mídia independente – é o que está por vir. Eventualmente, tudo isto apontaria para vastas áreas do Brasil sendo convertidas em Bantustões[DE5] tropicais ao estilo de Gaza.

A resistência melhora sua ação com a união. Uma lição oriunda do gueto urbano mais barra pesadíssima dos EUA nos anos 90, pode ajudar como ponto de partida: “O Homem controla o dia. Nós… controlaremos a noite”*.

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Como ilustração da imagem do banner acima, “Bansky em Gaza”:

 

* “The Man control the day. We will…control the night”, Aphrodite & Mickey Finn, “Badass”]. É fala do filme South Central [port. O Bairro Proibido, Ciclo Infernal], de 1992. Foi sampleada na trilha D&B “Aphrodite & Mickey Finn”, “Bad Ass” (Urban Mix)”. A fala completa do filme é: “As gangues têm de ser a principal força nas ruas de Los Angeles. Então, NÓS temos de ser a gangue mais forte de Los Angeles. Nos metem na cadeia? Tomamos a cadeia e o estado também. Meu pai e o pai de Zed estão na cadeia hoje. Por quê? Porque em 1965, com os brancos, eles tentaram controlar o dia. Não podemos controlar o dia. Eles [The Man] controlam o dia. Nós… controlaremos a noite” [NTs].

DE1 – “Gotha” – Houve um pequeno erro de digitação no original. Em vez de Gotham, saiu Gotha. Trata-se de uma referência à cidade de Nova York. Em 11 de novembro de 1807, o escritor Washington Irving (autor de Rip van Wrinkle e A Lenda de Sleepy Hollow) chamou pela primeira vez a cidade de Nova York de Gotham (palavra anglo-saxã com o significado de Cidade do Bode/Cabra) na revista literária Salmagundi.
Gotham City – Bill Finger, cocriador de Batman junto com Bob Kane, conta que resolveu usar o nome Gotham City porque não queria que ninguém em nenhuma cidade se identificasse com ela. Mas a escolha do nome foi aleatória: folheando a lista telefônica de Nova York.
Fontes: https://en.wikipedia.org/wiki/Washington_Irving
https://en.wikipedia.org/wiki/Gotham_City#cite_note-HistoryOfNYC-13

DE2 – Palavra híbrida cunhada por Pepe Escobar no Russian Today que congrega o termo excepcionalismo americano (American exceptionalism – maneira como os estadunidenses consideram-se em relação ao restante do mundo) com o regime “Taliban do Afeganistão” (Afeganistan em inglês).

DE3 – Segundo a Wikipedia, [apartáid] palavra de origem Africaner significando “separação”, foi um regime de segregação racial adotado de 1948 a 1994 pelos sucessivos governos do Partido Nacional na África do Sul, no qual os direitos da maioria negra dos habitantes foram cerceados pelo governo formado… pela minoria branca.

DE4RAND (Research ANd Development) é fruto da necessidade observada por indivíduos de Escritório de Pesquisa e Desenvolvimento Científico do Departamento de Guerra dos USA de houvesse uma organização privada conectando o planejamento militar com decisões de investigação e desenvolvimento. É o acrônimo em inglês para “Pesquisa e Desenvolvimento”, uma instituição think tank sem fins lucrativos criada pela Douglas Aircraft Company em 1945 para desenvolvimento de pesquisas e análises para o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Atualmente, os seus trabalhos estão voltados para a tomada de decisões e para a implementações de políticas nos setores público e privado.
Curiosamente, é o nome que recebe em português a moeda da República da África do Sul desde 1961.

DE5 – Segundo a Wikipedia, Os bantustões foram territórios reservados à população bosquímanos na África do Sul e na Namíbia de acordo com sua tribo pelo governo sul-africano na segunda metade do século 20 (na época, a Namíbia era governada pela África do Sul), embora as primeiras medidas de segregação dos bosquímanos da África do Sul em reservas já tenham se iniciado no governo colonial inglês do final do século XVIII, ao longo do século XIX e início do século XX. Segundo o plano do governo sul-africano, os bosquímanos do país seria realocados nas reservas bantustões e perderia a nacionalidade sul-africana, mas continuaria trabalhando na África do Sul.

 

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