A importância do refino de petróleo no cenário mundial

Por Paulo César Ribeiro Lima*, para o Duplo Expresso

As atividades de refino e logística não são importantes apenas para o Brasil e para a Petrobrás; elas são fundamentais para todos os países e para as grandes empresas petrolíferas, privadas ou estatais, como a ExxonMobil, Shell, Rosneft e CNPC.

Nos Estados Unidos e China, a capacidade de refino de petróleo é muito superior à capacidade de produção. Na Rússia, segundo maior exportador de petróleo do mundo, a capacidade de refino é duas vezes maior que o consumo. No Brasil, a capacidade de refino é inferior tanto à capacidade de produção de óleo equivalente quanto ao consumo. A Figura 1 mostra esses dados.

Figura 1 – Cenário de consumo, refino e produção em diferentes países | Fonte: Elaboração própria a partir de dados da BP (2017)

 

A busca pela autossuficiência em derivados de petróleo pelos países e pela redução da dependência externa ficam claramente demonstradas pela Figura 1.

No cenário empresarial, a ExxonMobil é a maior empresa refinadora do mundo, com uma capacidade da ordem de 5,5 milhões de barris de petróleo por dia; a Shell vem em segundo lugar com uma capacidade de refino de 4,1 milhões de barris por dia. Essas empresas apresentam uma capacidade de refino superior à produção, ao contrário da Petrobrás.

A produção da ExxonMobil é de 4 milhões de barris de petróleo por dia[1], enquanto a produção da Shell é de 3,9 milhões de barris de petróleo por dia. Ao contrário da ExxonMobil e da Shell, a capacidade de refino da Petrobrás é da mesma ordem de grandeza que a capacidade de produção de petróleo, que, em 2017, a foi de 2,22 milhões de barris por dia[2].

Em razão da entrada em operação de várias unidades na província do Pré-Sal, a produção diária da Petrobrás de cerca de 2,6 milhões de barris de petróleo equivalente por dia deverá aumentar para 3,8 milhões de barris por dia, até 2019, segundo informações do Diretor de Desenvolvimento de Produção e Tecnologia da Petrobrás, em 17 de agosto de 2018[3]. Observa-se, então, que a produção da Petrobrás poderá ser muito maior que sua capacidade de refino.

Se forem concretizadas as vendas da RNEST, RLAM, REPAR e REFAP, capacidade de refino da Petrobrás ficará muito menor que a capacidade de produção da empresa, pois, em conjunto, essas refinarias tem uma capacidade de processar cerca de 0,8 milhão de barris de petróleo por dia, admitindo-se um fator de utilização de 90%. A Figura 2 ilustra esse cenário e a comparação com as duas maiores empresas petrolíferas privadas.

 

Figura 2 – Capacidades de refino e produção de petróleo | Fonte: elaboração própria

Também é importante destacar o esforço de grandes empresas estatais em aumentar sua capacidade de refino.

A estatal russa Rosneft é a principal empresa de refino no país, sendo responsável por mais de 35% do mercado[4]. A capacidade de refino na Rússia, como mostrado na Figura 1, é superior a 11 milhões de barris de petróleo por dia.

A empresa opera treze grandes refinarias na Rússia. A Rosneft também opera várias pequenas refinarias no país. Em 2017, apenas na Rússia, a Rosneft refinou mais de 100 milhões de toneladas de petróleo, um grande aumento em relação ao refino de 87,5 milhões em 2016. A Rosneft também possui refinarias na Alemanha, Bielorússia e Índia. Na Alemanha, o volume de processamento foi de 12 milhões de toneladas. Na Índia, a Rosneft tem participação de 49% na segunda maior refinaria de alta tecnologia, que tem uma capacidade total de processamento de 20 milhões de toneladas de petróleo por ano.

A China National Petroleum CorporationCNPC é uma empresa de propriedade do governo da China. Sua subsidiária Petrochina Company Limited – PetroChina é listada em bolsa de valores. A CNPC e a PetroChina desenvolvem ativos em todo o mundo por meio de joint ventures. As estatais CNPC/PetroChina e China Petroleum & Chemical Corporation – Sinopec são as maiores empresas de refino na China.

De 2005 a 2017, a capacidade de refino desse país aumentou de 5,4 para 14,5 milhões de barris de petróleo por dia[5], conforme mostrado na Figura 3, o que representa um aumento de 268%. Nesse mesmo período, no Brasil, a capacidade de refino aumento de 2,04 para 2,4 milhões de barris de petróleo por dia, o que representa um aumento de apenas 18%.

Figura 3 – Aumento da capacidade de refino na China | Fonte: Statistica

A seguir, a Tabela 1 mostra as maiores refinarias da China[6]. O número de refinarias privadas diminuiu drasticamente na China com o crescimento da Sinopec e da CNPC[7].

Tabela 1 – Maiores refinarias da China

Empresa

Refinaria

Capacidade

(mil barris por dia)

CNPC/PetroChina

Fushun Petrochemical Refinery

400

CNPC/PetroChina

Lanzhou Refiner

112

CNPC/PetroChina

Daqing Petrochemical Refinery

122

CNPC/PetroChina

Jilin Chemical Refinery

113

CNPC/PetroChina

Dalian Petrochemical Refinery

400

CNPC/PetroChina

Jinxi Refinery

111

CNPC/PetroChina

Jinzhou Petrochemical Refinery

112

CNPC/PetroChina

Dushanzi Refinery

120

CNPC/PetroChina

Ürümqi Petrochemical

101

Sinopec

Beijing Yanshan Company Refinery

200

Sinopec

Maoming Company Refinery

265

Sinopec

Luoyang Company

100

Sinopec

Jingmen Company

120

Sinopec

Jinling Company Refinery

260

Sinopec

Qilu Company Refinery

210

Sinopec

Shanghai Gaoqiao Oil Refinery

220

Sinopec

Tianjin Company Refinery

100

Sinopec

Zhenhai Refinery

462

Sinopec

Guangzhou Oil Refinery

260

WEPEC

Dalain Refinery

200

 

A CNPC já opera refinarias no Japão, Singapura, Sudão, Escócia e França, e está em negociações no Brasil para uma parceria que pode dar à China sua primeira capacidade de refino nas Américas[8].

Em 16 de outubro de 2018, a Petrobras informou que assinou com a China National Oil and Gas Exploration and Development Company – CNODC, subsidiária da CNPC, um Acordo Integrado de Modelo de Negócios[9].

Segundo o Acordo, serão desenvolvidos estudos de viabilidade para avaliação técnica do estado atual do Comperj, planejamento do escopo e investimentos necessários para conclusão da refinaria e avaliação econômica. Os estudos serão conduzidos por especialistas de ambas as empresas e consultores externos. Uma vez quantificados os custos e benefícios do negócio, pretende-se formar uma Joint Venture, que será responsável pela conclusão do projeto e pela operação da refinaria, com 80% de participação da Petrobras e 20% da CNPC.

Também é importante mencionar que a CNPC também está negociando projetos de refino com a Abu Dhabi National Oil Corporation – ADNOC, estatal dos Emirados Árabes que planeja dobrar sua capacidade de refino e triplicar seu potencial no setor petroquímico até 2025[10].

A estatal da Arábia Saudita, Saudi Aramco, investirá pesadamente para aumentar sua capacidade de refino e seus negócios no setor petroquímico para assegurar mercados de derivados para seu petróleo[11].

A Saudi Aramco planeja aumentar sua capacidade de refino de 5 para 10 milhões de barris de petróleo por dia e dobrar sua produção petroquímica até 2030. A área química é estratégica para a estatal nas próximas décadas para diversificar o risco de uma queda na demanda de petróleo.

A estatal saudita anunciou um acordo inicial para um gigantesco complexo de refinaria e petroquímica na costa oeste da Índia com um consórcio de empresas indianas. O megaprojeto, estimado em US$ 44 bilhões, contempla uma grande refinaria com capacidade para processar 1,2 milhões de barris de petróleo por dia.

A Saudi Aramco também tem um projeto na Malásia com a estatal Petronas para o desenvolvimento de uma refinaria integrada a uma petroquímica (Refinery and Petrochemical Integrated Development, RAPID) com capacidade de 300 mil barris por dia no primeiro quadrimestre de 2019.

No mercado doméstico, a estatal saudita assinou um memorando de entendimento com a empresa francesa Total para construir um grande complexo petroquímico, em Jubail, que prevê investimentos de US$ 9 bilhões.

Observa-se, então, que as privatizações das unidades de refino, terminais e dutos das regiões Nordeste e Sul pela Petrobras não estão em linha com o cenário internacional.

Ao que tudo indica, a descoberta da província petrolífera do Pré-sal, ao invés de reforçar a visão histórica e estratégica de uma empresa integrada, pode levar à desintegração da Estatal, o que pode ter graves consequências até para o Brasil. O Pré-sal, que é uma benção, se mal gerido, pode tornar-se uma maldição.

Assista a seguir a participação de Paulo César Ribeiro Lima no Programa Duplo Expresso de 29/out/2018 (a participação dele começa no minuto 19:50′)

 

Notas

1 Disponível em https://cdn.exxonmobil.com/~/media/global/files/summary-annual-report/2017-financial-and-operating-review.pdf. Acesso em 25 de outubro de 2018.

2 Disponível em http://www.petrobras.com.br/fatos-e-dados/planejamento-e-capacidade-tecnica-de-nossas-equipes-levam-a-recorde-de-producao.htm. Acesso em 25 de outubro de 2018.

3 Disponível em https://monitordigital.com.br/produ-o-da-petrobras-crescer-46-at-2019. Acesso em 5 de setembro de 2018..

4 Disponível em https://www.rosneft.com/business/Downstream/Neftepererabotka/. Acesso em 25 de outubro de 2018.

5 Disponível em https://www.statista.com/statistics/273578/oil-refinery-capacity-of-china/. Acesso em 24 de outubro de 2018.

6 Disponível em http://abarrelfull.wikidot.com/asian-refineries. Acesso em 26 de outubro de 2018.

7 Disponível em https://www.forbes.com/sites/augustrick/2018/06/12/chinas-private-oil-companies-struggle-against-soes-with-new-tax-policy-from-beijing/#5b581c7c2a43. Acesso em 26 de outubro de 2018.

8 Idem. Acesso em 26 de outubro de 2018.

9 Disponível em http://www.investidorpetrobras.com.br/pt/comunicados-e-fatos-relevantes/fato-relevante-petrobras-e-cnpc-definem-o-modelo-de-negocios-para-parceria-estrategica-no-comperj-e. Acesso em 26 de outubro de 2018.

10 Disponível em https://www.reuters.com/article/us-china-emirates-adnoc-cnpc/cnpc-to-sign-oil-exploration-refining-pact-with-uaes-adnoc-this-month-sources-idUSKBN1JW19M. Acesso em 26 de outubro de 2018.

11 Disponível em https://oilprice.com/Energy/Energy-General/Saudi-Aramco-Looks-To-Double-Refining-Capacity.html. Acesso em 26 de outubro de 2018.

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* Paulo César Ribeiro Lima é PhD em Engenharia pela Universidade de Cranfield, Ex-Consultor Legislativo do Senado Federal e Ex-Consultor Legislativo da Câmara dos Deputados. É comentarista do Duplo Expresso sobre Minas e Energia às segundas-feiras.

 

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