Como as falhas de jornais e jornalistas complicam as conversações nucleares com a Coreia do Norte

Da Redação do Duplo Expresso,

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

28/8/2018, Moon of Alabama

Recentemente a Coreia do Norte novamente pediu que o governo Trump mantenha-se no marco dos três passos acordados na Declaração de Cingapura.

Para Josh Rogin, colunista do Washington Post o pedido da Coreia do Norte seria “beligerante”:

Pompeo recebeu a carta de Kim Yong Chol, vice-presidente do Comitê Central do Partido dos Trabalhadores que governa a Coreia do Norte, na 6ª-feira pela manhã e mostrou-a a Trump na Casa Branca, confirmaram dois funcionários do governo. O exato conteúdo da mensagem ainda não está claro, mas foi suficientemente beligerante para que Trump e Pompeo tenham decidido cancelar a viagem de Pompeo (…)

Reuters amplificou a suposta “beligerância”, ao manchetar:

Trump cancela viagem de Pompeo à Coreia do Norte, depois de carta beligerante: notícia

WASHINGTON (Reuters) – O presidente dos EUA Donald Trump cancelou visita do secretário de Estado Mike Pompeo à Coreia do Norte após receber carta beligerante de alto funcionário da Coreia do Norte apenas horas depois de a viagem ter sido anunciada, semana passada, noticiou o Washington Post na 2ª-feira.

Reuters sabe evidentemente que Josh Rogin não “noticia”. Não é jornalista. Não passa de preposto neoconservador, com acesso direto a John Bolton. Publica seus chiliques na seção de Opinião do jornal, não nas páginas de notícias.

A CNN então entrou no circuito e noticiou o conteúdo real da carta:

Coreia do Norte avisa Pompeo que as conversações sobre desnuclearização estão “ameaçadas”, disseram as fontes:

Altos funcionários da Coreia do Norte alertam os EUA por carta de que as conversações sobre desnuclearização estão “novamente ameaçadas e podem desabar”, segundo fontes que conhecem o processo disseram à CNN.

A carta foi entregue ao secretário de Estado dos EUA Mike Pompeo, cuja quarta viagem a Pyongyang foi cancelada abruptamente, horas antes da partida, com seu enviado especial Stephen Biegun, na 6ª-feira, disseram as fontes.

Três fontes com conhecimento direto da posição norte-coreana sobre desnuclearização disseram que a carta afirmava que o regime de Kim sentiu que o processo não poderia avançar porque “os EUA ainda não estão preparados para atender às expectativas [da Coreia do Norte] em temos de avançar na direção de assinar um tratado de paz.”

A demanda, pela Coreia do Norte, de que se sigam os passos já definidos, evidentemente nada tem de ‘beligerante’.

Depois que a CNN noticiou o conteúdo da carta, a Reuters modificou a manchete ‘beligerante’ para:

Coreia do Norte diz aos EUA que conversações sobre a desnuclearização podem fracassar – CNN
mas o URL para a matéria no website da Reuters ainda reflete a manchete original.

O texto contudo foi bastante modificado:

WASHINGTON/SEUL (Reuters) – Funcionários da Coreia do Norte alertaram em carta aos EUA que as conversações sobre desnuclearização estavam “novamente ameaçadas e podem fracassar” – noticiou na 3ª-feira a CNN, citando pessoas bem informadas sobre a questão.

O Washington Post noticiou na 2ª-feira que o presidente Donald Trump dos EUA cancelou visita de Pompeo à Coreia do Norte, depois que o secretário de Estado recebeu carta beligerante de alto funcionário norte-coreano, apenas horas depois de a viagem ter sido anunciada semana passada.

A tolice “beligerante” do Washington Post desceu, da manchete e do primeiro parágrafo, para o sétimo de nove parágrafos. Devia ter sido apagada ou muito mais modificada.

O incidente evidencia dois problemas:

  • Agências de Notícias como Associated Press, Reuters, AFP ou DPA aumentaram a frequência com que passam adiante opiniões e relatos vagos, recolhidos de outros veículos e sem confirmar o conteúdo. A agência Reuters foi a primeira que recolheu o item de uma coluna de opinião no Washington Post e depois a corrigiu com fragmentos de informação recolhidos de matéria da CNN. O que fazem os repórteres da Reuters? A Reuters já teria desistido de qualquer reportagem? Seria renúncia inadmissível da tarefa e do objetivo fundamentais de qualquer agência que venda noticiário.
  • Websites que mais ou menos automaticamente republicam matérias das agências nada fazem para atualizar o processo nem têm meios para atualizar ou corrigir o que reproduzem das agências, nem no caso de as agências publicarem correções – o que não acontece com frequência. Busca pela manchete “beligerante” da Reuters mostra mais de 30 entradas com a mesma expressão, horas depois de o original ter sido atualizado e a manchete ter sido modificada. 

A ausência de procedimento para atualização automática de material das agências mantém vivas na web grande quantidade de fake news ‘oficiais’, mesmo no caso de a peça original errada ter sido retirada ou modificada.

De volta à questão da Coreia do Norte. É óbvio que o governo Trump não tem vontade alguma de seguir o que já foi acertado no Documento de Cingapura e na Declaração de Panmunjom. Quer seguir para o passo 3, uma promessa aspiracional da Coreia do Norte, de “trabalhar na direção” da desnuclearização; e Trump quer isso, antes de fazer o que prescrevem os passos 1 e 2 que falam de buscar melhores relações e um tratado de paz. Em vez de criticar a nenhuma disposição do governo Trump para cumprir o que prometeu e assinou, a mídia-empresa dos EUA empurra o governo ainda mais fundo na trilha da beligerância.

Em editorial hoje, o Washington Post lamenta que as negociações de Cingapura tenham cedido demais à Coreia do Norte. E insiste com Trump para que se afunde ainda mais no beco sem saída onde já está metido:

A melhor esperança do governo para salvar a situação é voltar a conversar com a Coreia do Norte para conseguir acordo mais equilibrado. Para iniciar o processo de desnuclearização, funcionários dos EUA dizem que o regime de Kim tem de fornecer inventário completo de seu armamento – ogivas, locais de produção e de toda a infraestrutura nuclear – e aceitar inspeções que verifiquem tudo. Negociações prévias deram em nada, porque Pyongyang recusa-se a aceitar esse passo. Assim sendo, uma total abertura garantiria um primeiro claro sinal de que Mr. Kim falava com seriedade sobre desnuclearização. Isso, associado ao congelamento na produção de mísseis e de materiais físseis, poderia justificar a participação dos EUA na declaração do fim do conflito que as duas Coreias buscam.

E exatamente o que Trump e seu limpa-penico Pompeo estão fazendo. Exigem que a Coreia do Norte curve-se a quaisquer desejos dos EUA, sem garantia de qualquer compensação quid pro quo significativa. Se os EUA não cumprem sequer acordos simples, como a Declaração de Cingapura, por que a Coreia do Norte teria de acreditar em garantias verbais de vagas providências que os EUA tomariam depois de Pyongyang ter-se desarmado?

A única saída para os EUA é oferecer e assinar um tratado de paz que ponha fim oficial à Guerra da Coreia. É isso ou, sem isso, só há outra coisa a esperar: os EUA retomam as manobras táticas que o secretário de Defesa Mattis acaba de anunciar; e a Coreia do Norte, em seguida, vem com novos testes nucleares, possivelmente combinados com mísseis despachados na direção de Guam. O relatório da comissão 2020 explica o que se deve esperar/temer na sequência desses dois passos.*******

 

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