Ministro da Justiça do Brasil dá licença para matar

Por Maria Eduarda Freire, para o Duplo Expresso

“Não sabe o que ela vai fazer depois da escola”

O ministro da Justiça do Brasil, pronunciando-se sobre o assassinato de Marcos Vinicius declarou:

“Você vê uma criança bonitinha, de 12 anos de idade, entrando em uma escola pública, não sabe o que ela vai fazer depois da escola. É muito complicado.”

Com esta declaração o ministro da “Justiça” deu licença para matar as crianças pobres e negras do Brasil.

Marcos Vinicius Da Silva, de 14 anos, foi assassinado na favela da Maré, caminhando para a escola de mochila nas costas, durante uma operação policial. Nas suas últimas palavras, nos braços de sua mãe, o menino disse: “Mãe, eu sei quem atirou em mim. Foi o blindado, mãe. Ele não me viu com a roupa de escola”.

O ministro da “Justiça” assumiu publicamente que criança pobre, negra, com uniforme de escola pública é uma vida matável. A vida matável tem cor, classe social, e local de moradia. O extermínio de uma população específica como Política de Estado. Marcos Vinicius Da Silva era uma vida culpável, e a utilidade das vidas culpáveis é nos absolver. Enquanto “eles” são culpáveis, “nós” estamos seguros.

Marcos Vinicius Da Silva achou que o seu uniforme escolar seria um escudo de proteção contra o Estado-Bandido, infelizmente Marcos Vinicius não sabia que a sua roupa de escola pública seria a sua condenação. O filho de Bruna da Silva sangrando no seu uniforme escolar que ele acreditava poder livrá-lo do estigma de ser pobre e negro teve o seu socorro impedido por policiais que bloquearam a entrada da ambulância.

Há 75 anos, os nazistas decretavam para todos os judeus o uso de uma marca, a estrela de seis pontas sobre o fundo amarelo. Ela se tornou um estigma do status social de criminoso dado aos judeus e da sua consequente exclusão da “boa sociedade”. Hoje os nossos guetos judaicos são as favelas e a segregação espacial define as vidas sem valor de vida e a sua insígnia não é mais a estrela de Davi, mas a cor da pele. As favelas, “recanto dos vencidos”, local de um tipo banido da “boa sociedade” associado a uma condição histórica de subcidadania, e esta, como uma condição de mortos-vivos, “os ninguéns” que “se varre com granada e fuzil” e que “custam menos do que a bala que os mata”.

O menino que gostava de pipa morreu com uma bala que atravessou o seu abdômen, sentindo dor e sede, ele disse ‘ô, mãe, eu nunca mais quero sentir essa dor na minha vida’. Mais um “Da Silva” que teve a sua vida covardemente ceifada por um Estado-Bandido.

 

 

Para Marcos Vinicius da Silva:

(Os filhos assassinados, traídos e massacrados da Terra)

“Faça ampla esta cama
Faça esta cama com reverência
Nela espere até o raiar do juízo final
Excelente e claro
Que seu colchão seja reto
Que seu travesseiro seja redondo
Que o som dourado do nascer do sol
Não perturbe este solo”

Emilly Dickinson

 

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