Coligação, articulação e o xeque-mate de Lula

Por Wellington Calasans, para o Duplo Expresso

Condenar coligações e a opção do candidato pelo “caminho mais forte” será nos próximos dias a ocupação dos “Marigoelas”, aqueles que são bons na guerrilha com a goela (atualmente as novas tecnologias digitalizam esta prática), mas que pouco atacam a causa, a origem do problema. O nosso debate tem que transcender a profundidade de um pires e na disputa real Lula faz toda a diferença.

Quando Dilma Rousseff, no auge das manifestações de 2013, tentou responder com a “Reforma Política”, apresentou a solução certa no momento errado. Esta reforma deveria ter sido promovida no início do seu mandato, com Lula escalado para ser o articulador político. Por isso, sem a tal reforma, condenar políticos e partidos pelas necessárias coligações é, no mínimo, ingenuidade.

Indagada nas últimas eleições presidenciais sobre como pretendia governar, pois defendia um discurso que beirava a negação da própria política, Marina Silva tirou da cartola a seguinte frase: “pretendo governar com os bons”. Esquecera que para fazê-lo precisaria de convite do seleto grupo, pois a afeição pelos bancos, o falso amor à natureza e o posterior apoio ao candidato Aécio Neves revelariam a sua impossibilidade de ocupar o cargo máximo da política brasileira, dada a incompatibilidade com a coerência.

Não há, e não haverá, “sangue puro” na política brasileira enquanto não for promovida a Reforma Política. Vivemos desde o pós-Getúlio Vargas no esquema de remendos. Como uma colcha de retalhos, diferentes correntes políticas e os seus atores fazem da composição a grande jogada para que cheguem ao poder. Neste cenário, que o próprio Lula acolheu, entre partidos e candidatos não há vencedores, mas a sociedade é sempre a grande derrotada.

Coringas do oportunismo ou resistentes democratas povoam siglas distintas e antagônicas. Nos últimos anos, nomes como Delcídio e Marta, por exemplo, estariam bem menos identificados com os partidos progressistas se comparados com Requião ou Katia. A reforma política é necessária também para educar politicamente o eleitor, o cidadão.

Em tempos em que a defesa de Lula é confundida com a luta por justiça e democracia, fica difícil até mesmo para o PT acreditar que, em caso de impedimento, o simples apontar do dedo seria, num passo de mágica, suficiente para transferir os votos deste ícone da política mundial para outro nome. O PT sem Lula é apenas um PDT sem Brizola.

Com coligação ou por carisma, o desafio do próximo governo será o de conduzir um projeto de país capaz de conquistar o apoio popular. Isso exige experiência, conhecimento profundo do cenário nacional, mas sobretudo internacional. Exige que o agora candidato seja caracterizado por uma coerente história política, compatível com o discurso que defende hoje.

A inexistência da Reforma Política é o cenário que temos. Assim sendo, caso a luta por Lula seja apenas isso que temos visto até aqui, ele será engolido pela injustiça. Algumas células do PT esquecem que a aparente força deste partido, hoje, é sustentada tão somente pela possibilidade de Lula ser candidato.

O que mantém Lula vivo? Primeiro, o fato da oposição (com o escancarado apoio da justiça e da mídia) saber que será vista como inimiga do povo, caso Lula seja impedido. Segundo, o campo progressista saber que sem Lula a melhor opção será um candidato que resgate o sonho de um Brasil soberano, um Bernie Sanders. Ele existe, pois não há vácuo na política, mas consolidar um novo nome é sempre um risco.

Vivemos as semanas mais decisivas da nossa história política. Partidos, políticos e a justiça decidirão o próprio futuro e o destino do Brasil. Enquanto isso, Lula segue como a mosca na sopa dos poucos que querem a sua cabeça (ou espólio). Ao mesmo tempo em que é a esperança derradeira da maioria, quase todos. Xeque-mate neste improviso.

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Wellington Calasans

Jornalista, Radialista, Ativista Político, Sonha com um Brasil parecido com a Suécia e uma Suécia com o sol do Brasil, o sonho é livre.