Leirner: Como os Militares operam a (im)”popularidade” de Bolsonaro
Por Piero Leirner
A doutrina do choque dispara pesquisas, e elas são parte do problema. A solução não pode ser orientada por pesquisa de opinião.
Essa coisa funciona mesmo. Duas pesquisas e todo mundo migra da percepção do “já era” para o “já ganhou”. O “choque e pavor” é isso aí: bombas que fazem as pessoas perderem noções de tempo e espaço – duas categorias vitais no modo como se estruturam as percepções de vida e sociedade (isso os antropólogos sabiam bem desde os anos 1930 pelo menos) – e perdem a noção de “tendência” e capacidade de “projeção”. Quem quiser veja lá a “doutrina do choque” tal como descreve a Naomi Klein para ver como isso funcionou: dos experimentos “psi” da CIA no Canadá, nos anos 1950, ao neoliberalismo, passando pelo seu entrelaçamento com as estratégias norte-americanas no Iraque e Afeganistão. E depois na essência das guerras híbridas.
Ouça o artigo no player abaixo ou na Rádio Expressa:
Que tal então se nos fixarmos no modo pelo qual o conjunto de forças do núcleo do consórcio que gestou e conduziu Bolsonaro à Presidência pensa o problema?
O teto de gastos é o teto de popularidade do Bolsonaro. É um mecanismo de controle. Não há em princípio interesse em manter Bolsonaro ad infinitum na cadeira. Nunca houve. Pode acontecer? Pode. Mas a ideia é depois de produzir essa “reinicialização do Estado” (seu “reboot”); depois de produzir um esquema que a máquina militar assuma o controle; depois de produzir informações para uma “limpeza” e “desaparelhamento”; depois disso, para o plano perfeito dar certo, é preciso “rodar em segundo plano”. Desaparecer das vistas, e fazer o jogo silencioso não da tutela, mas da domesticação. Isto é, fazer o domesticado trabalhar para si, de modo que ele próprio acredite estar fazendo um serviço voluntário. Em juridiquês/politiquês, seria fazer “cumprir o pacto de que as instituições estão funcionando”, seguir as “regras do jogo”. Só que este é um jogo viciado, como sabemos. Mas como todo jogador de cassino, quem está dentro acredita que pode ganhar, e não faz o cálculo de que a banca sempre ganha. Vejam assim o que é o “sunk cost fallacy” (cf Romulus Maya).
Querem ver um exemplo? Essa nova peça de propaganda de rede, que mostra Dilma num casaco de pele preto (nada é por acaso) com um post dizendo: mesmo alertada por Putin do golpe que viria do Império, ela preferiu ser digna a rezar pela cartilha de Maquiavel [ver print abaixo]. Esse é o recado: não deverá haver reação.
Talvez por isso a nova aposta de rede social é todo mundo dizendo que a esquerda tem que mudar de mesa; enquanto o certo seria parar de jogar (o que significa isso? Não dá para desenvolver aqui, mas o ponto é esvaziar o cassino a ponto da banca ter que negociar diante de impasses; certamente não é agora ficar falando “Boulos ou Tatto”; poderia sim usar o tempo de TV para falar umas coisas, sabe… Mas enfim, não fizeram isso em 2018, não vão fazer agora: podem esperar a clássica cena do cara tomando cafezinho na padoca do Centro…). Uma vez retirado da cena, a fazenda fica com seus domesticados ali, acreditando que fazem parte natural daquele cenário. O ponto todo da domesticação é que uma vez que ela acontece, estabelece um ponto de não-retorno: o domesticado simplesmente esquece que existe algo além da cerca (escrevi sobre isso há anos, em um texto chamado “O Estado como Fazenda de Domesticação”; mas esse é um processo que os caras que discutem os protoplasmas de Estado, lá em Çtal Huyuk, na Anatólia de 7000 AC sacaram de prima: o surgimento das primeiras “classes” e “sistemas de dominação” coincide com a domesticação do Auroque [o “pré-boi”, digamos assim, não com a agricultura dos vales férteis do Tigre e Eufrates). Mas voltemos ao problema.
O que está claro é que nessa semana uma configuração do aparelho militar pareceu ter se solidificado. Não sei se é a forma final que eles desejam, se vão precisar de mais etc. Mas eles já fizeram o desenho e enquadraram o modo que o sistema de informações vai funcionar daqui para frente. O ideal é que eles se retirassem mesmo do 1o plano, senão eles mesmos começam a ser atingidos pelo sistema que montaram. Acho que estamos vendo alguma movimentação nesse sentido.E não vou estranhar se o Pazuello sair por esses dias. Agora, também é verdade que muito do apoio e convencimento da rede militar para esse plano insano passa por distribuição de cargos e benesses. Tirar isso é complicado. Se acontecer, tem que parecer que foi porque no fundo Bolsonaro sempre foi político, não militar, e é fisiológico. Podemos ter em perspectiva a ideia que o consórcio dos generais precisa queimar Bolsonaro com o mínimo de danos colaterais. Por isso, também, não vão deixar esses 600 reais se prolongarem all over. Não por conta das baboseiras que dizem pra inglês ver na Globo, mas porque a popularidade do Bolsonaro tem que ser controlada.
Ele sabe disso, e tem que fazer esse jogo pois tem mais fio desencapado que ligação clandestina de energia. Então sabe que é melhor “sair aos poucos” e deixar espaço para a família do que deixar uma arma nuclear arruinar tudo. Pode dar errado? Pode. Pode ter um bando de coronéis fanáticos que estraguem tudo e saiam com tanque? Pode. Mas até agora já se passaram 6 anos de operação controlada de adesão dos quartéis ao Capitão. Continuo apostando que eles têm recursos para fazer o “desembarque” ocorrer de maneira mais ou menos controlada. Há “n” caminhos para isso acontecer, o que importa mesmo é que a crise não seja um processo detonado por atores de fora, como por exemplo uma suposta esquerda. Como Bolsonaro tem a faca no pescoço, é pressionado a fazer o jogo duplo de parecer que apoia o “desenvolvimentismo” militar (whatever this means) ao mesmo tempo que diz que tá com Guedes e não abre. Bota na rua 4 ou 5 patetas que saem dizendo que não conseguiram mesmo fazer privatização alguma (quem vai comprar? A China? Os EUA não deixam…Como bem lembrou o Romulus Maya, no leilão da cessão onerosa do Pré-Sal, no ano passado, a Petrobras teve que comprar ela mesma. Uma jogada contábil intra-Estado pra “evitar” o fiasco. Soma – real – zero. Uma mega “pedalada”. O campo que não foi só arrematado pela própria Petrobras, foi uma sociedade Petrobras + China. Sem concorrência em nenhum dos 2. Outros 2 blocos ficaram SEM OFERTA. Que fiasco… Quando era pros EUA levarem SUBFATURADO – Embraer – a Boeing… refugou.). Mas “por acaso” retira o Major Victor Hugo da liderança do Governo, e vai para frente do Planalto dar uma coletiva com Maia e Alcolumbre (e o próprio Victor Hugo, que de tão “riscado” ainda estava lá…). Na outra ponta, Heleno operando todo mundo na República dos dossiês, agora com mais esse fator, Messer.
Pois é disso que se trata, na minha opinião: controle é controle. Se a “popularidade” sobe daqui, é só tirar um pacotinho de maldades dali. Sem esquecer, jamais, que o laço que embrulha esse pacotinho é “Made in USA”.
*
*
*
No print, tentativa – fraquinha – de “spin” comunicacional que tentam dar, para dentro do PT, diante da generalização do conhecimento do fato de Dilma Rousseff ter sido avisada por Vladimir Putin do Golpe que viria do Norte. Pauta imposta, militantemente, pelo Duplo Expresso – que não é “Gazeta do Fim do Brasil”, mas sim “Central de Contra-Efetuação da Guerra Híbrida” (apud Leirner).
*
*
*
Pra além da EMPATIA “PROFISSIONAL” do antropólogo/ político, Paulo Gala mais André Roncaglia de Carvalho Elias Jabbour @moreira_uallace podem te explicar, em “economês” a lógica, com o conceito de “taxa de desconto”.
Facebook Comments