O enigma do “acordo de paz” no Afeganistão

O enigma do “acordo de paz” no Afeganistão

Por PEPE ESCOBAR – 26 de FEVEREIRO de 2020

Quase duas décadas após a invasão e ocupação do Afeganistão pós-11/setembro, e após uma guerra interminável que custou mais de US $ 2 trilhões, não há quase nada de “histórico” sobre um possível acordo de paz que pode ser assinado em Doha no próximo sábado entre Washington o Talibã.

Devemos começar enfatizando três pontos.

1- O Talibã queria que todas as tropas americanas fossem expulsas. Washington recusou.

2- O possível acordo apenas reduz as tropas americanas de 13.000 para 8.600. Esse é o mesmo número já implantado antes do governo Trump.

3- A redução só acontecerá daqui a um ano e meio – assumindo o que está sendo descrito como uma trégua.

Para que não houvesse mal-entendidos, o vice-líder do Taliban, Sirajuddin Haqqani, em uma publicação certamente lida por todos dentro do Beltway, detalhou sua linha vermelha de forma direta: retirada total dos EUA. E Haqqani é inflexível: não há acordo de paz se as tropas americanas permanecerem.

Ainda assim, um acordo se aproxima. Como? Simples: segue uma série de “anexos” secretos.

O principal negociador dos EUA, o aparentemente eterno ZalmayKhalilzad, um remanescente das eras Clinton e Bush, passou meses codificando esses anexos – como confirmado por uma fonte em Cabul atualmente fora do governo, mas familiarizada com as negociações.

Vamos resumi-los em quatro pontos.

1 – Forças antiterroristas dos EUA teriam permissão de ficar. Mesmo se aprovado pela liderança do Talibã, isso seria um anátema para as massas de combatentes do Talibã.

2- O Talibã teria que denunciar o terrorismo e o extremismo violento. Isso é retórico, não é um problema.

3- Haverá um esquema para monitorar a trégua, enquanto diferentes facções afegãs discutem o futuro, o que o Departamento de Estado dos EUA descreve como “negociações intra-afegãs”. Culturalmente, como veremos mais adiante, afegãos de diferentes origens étnicas terão muita dificuldade em monitorar seus próprios conflitos.

4- A CIA teria permissão para fazer negócios em áreas controladas pelo Talibã. Esse é um anátema ainda mais grave. Todo mundo familiarizado com o Afeganistão pós-11 de setembro sabe que o principal motivo dos negócios da CIA é a linha da heroína que financia as operações negras de Langley, como expus em 2017.

Além disso, tudo sobre esse acordo “histórico” permanece bastante vago.

Até o secretário de Defesa Mark Esper foi forçado a admitir que a guerra no Afeganistão “ainda” está em “um estado de impasse estratégico”.

Quanto ao nada estratégico desastre financeiro, basta examinar o último relatório SIGAR. SIGAR é a sigla para Inspetor Geral Especial de Reconstrução do Afeganistão. Na realidade, praticamente nada no Afeganistão foi “reconstruído”.

Não há acordo real sem o Irã

A complicação “intra-afegã” começa com o fato de AshrafGhani ter sido declarado o vencedor das eleições presidenciais realizadas em setembro do ano passado. Mas praticamente ninguém o reconhece.

O Talibã não fala com Ghani. Apenas com algumas pessoas que fazem parte do governo em Cabul. E eles descrevem essas conversações, na melhor das hipóteses, como entre “afegãos comuns”.

Todos que estão familiarizados com a estratégia talibã sabem que as tropas dos EUA/OTAN nunca poderão ficar. O que poderia acontecer é o Talibã permitir que algum tipo de contingente permaneça por alguns meses, para manter as aparências e, em seguida, um contingente muito pequeno permaneça para proteger a embaixada dos EUA em Cabul.

Washington obviamente rejeitará essa possibilidade. A suposta “trégua” será quebrada. Trump, pressionado pelo Pentágono, enviará mais tropas. E a espiral infernal estará de volta aos trilhos.

Outro grande buraco no possível acordo é que os americanos ignoraram completamente o Irã em suas negociações em Doha.

Isso é claramente absurdo. Teerã é um parceiro estratégico essencial para seu vizinho Cabul. Além das milenares conexões históricas / culturais / sociais, há pelo menos 3,5 milhões de refugiados afegãos no Irã.

Após o 11 de setembro, o Teerã começou a cultivar relações com o Talibã, de forma lenta, mas segura – não em nível militar ou de armamento, segundo diplomatas iranianos. Em Beirute, em setembro passado, e depois em Nur-Sultan, em novembro, recebi uma imagem clara de como estão as discussões sobre o Afeganistão.

A conexão russa com o Talibã passa por Teerã. Os líderes do Talibã têm contatos frequentes com a Guarda Revolucionária Islâmica. Somente no ano passado, a Rússia realizou duas conferências em Moscou entre líderes políticos do Talibã e os mujahideen. Os russos estavam empenhados em trazer os uzbeques para as negociações. Ao mesmo tempo, alguns líderes do Talibã se encontraram com agentes do Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB) quatro vezes em Teerã, em segredo.

A essência de todas essas discussões foi “encontrar uma solução de conflitos fora dos padrões ocidentais”, segundo um diplomata iraniano. Eles almejavam algum tipo de federalismo: o Talibã e os mujahideen encarregados da administração de alguns vilayets (divisões administrativas).

O ponto principal é que o Irã tem melhores conexões no Afeganistão do que a Rússia e a China. E tudo isso está dentro do escopo muito maior da Organização de Cooperação de Xangai. A parceria estratégica Rússia-China quer uma solução afegã vinda de dentro da SCO (Shanghai Cooperation Organization), da qual tanto o Irã quanto o Afeganistão são observadores. O Irã pode se tornar um membro pleno da SCO se mantiver o acordo nuclear, o Joint Comprehensive Plan of Action, até outubro – portanto, ainda não sujeito a sanções da ONU.

Todos esses atores querem as tropas americanas fora – para sempre. Portanto, a solução sempre aponta para uma federação descentralizada. Segundo um diplomata afegão, o Taleban parece pronto para compartilhar o poder com a Aliança do Norte. O que obstrui este processoé o Hezb-e-Islami, com um Jome Khan Hamdard, um comandante aliado ao famoso mujahid Gulbudiin Hekmatyar, baseado em Mazar-i-Sharif e apoiado pela Arábia Saudita e Paquistão, mais interessado em reiniciar uma guerra civil .

Noções básicas sobre o Pashtunistan

Eis aqui uma volta ao passado, revivendo o contexto da visita do Taliban a Houston e mostrando como as coisas não mudaram muito desde a primeira administração Clinton. É sempre uma questão de o Talibã receber a sua quota– na época, relacionada aos negócios do Pipelineistan, agora à sua reafirmação do que pode ser descrito como Pashtunistan.

Nem todos os pashtuns são talibãs, mas a esmagadora maioria dos talibãs são pashtuns.

O establishment de Washington nunca fez o dever de casa de “conhecer seu inimigo”, tentando entender como os pashtuns de grupos extremamente diversos estão ligados por um sistema comum de valores que estabelece sua base étnica e regras sociais necessárias. Essa é a essência do seu código de conduta – o fascinante e complexo Pashtunwali. Embora incorpore numerosos elementos islâmicos, o Pashtunwali está em total contradição com a lei islâmica em muitos pontos.

O Islã introduziu elementos morais fundamentais na sociedade pashtun. Mas há também normas jurídicas, impostas por uma nobreza hereditária, que apóiam todo o edifício e que vieram dos turco-mongóis.

Os pashtuns – uma sociedade tribal – têm uma profunda aversão ao conceito ocidental de estado. O poder central só pode esperar neutralizá-los com – para ser franco – subornos. É o que transcorre como uma espécie de sistema de governo no Afeganistão. O que traz a questão de com quanto – e com o quê– os EUA estão subornando agora o Talibã.

A vida política afegã, na prática, funciona com atores que são facções, sub-tribos, “coalizões islâmicas” ou grupos regionais.

Desde 1996 e até o 11 de setembro, o Talibã encarnou o retorno legítimo dos pashtuns como o elemento dominante no Afeganistão. É por isso que eles instituíram um emirado e não uma república, mais apropriado para uma comunidade muçulmana governada apenas pela legislação religiosa. A desconfiança em relação às cidades, particularmente Cabul, também expressa o sentimento da superioridade pashtun sobre outros grupos étnicos afegãos.

Os talibãs representam um processo de superação da identidade tribal e a afirmação do Pashtunistan. O Beltway nunca entendeu essa dinâmica poderosa – e essa é uma das principais razões para o fiasco americano.

O Corredor Lápis-Lazúli

O Afeganistão está no centro da nova estratégia americana para a Ásia Central, como em “expandir e manter o apoio à estabilidade no Afeganistão”, juntamente com uma ênfase em “incentivar a conectividade entre a Ásia Central e o Afeganistão”.

Na prática, o governo Trump quer que os cinco “stans” da Ásia Central apostem em projetos de integração, como o projeto de eletricidade CASA-1000 e o corredor comercial Lápis Lazúli, que na verdade é uma reinicialização da Antiga Rota da Seda, conectando o Afeganistão ao Turquemenistão, Azerbaijão e Geórgia antes de cruzar o Mar Negro para a Turquia e depois para a UE.

Mas a questão é que LápisLazúli já deve integrar-se ao Corredor Médio da Turquia, que faz parte das Novas Rota da Seda, ou Iniciativa do Cinturão e Rota, bem como com o Corredor Econômico China-Paquistão Plus, também parte do Cinturão e Rota. Pequim planejou essa integração antes de Washington.

O governo Trump está apenas enfatizando o óbvio: um Afeganistão pacífico é essencial para o processo de integração.

Andrew Korybko argumenta corretamente que “a Rússia e a China poderiam progredir mais construindo o Golden Ring entre eles, Paquistão, Irã e Turquia, ‘abraçando’ a Ásia Central com oportunidades potencialmente ilimitadas que superam em muito as que os EUA estão oferecendoou ‘cercando’ a região a partir de uma perspectiva estratégica americana de soma-nula e ‘forçá-la’ para fora.”

O cenário dos desejos de Zbigniew “Grand Chessboard” Brzezinski, de “Balcãs da Eurásia”, pode estar morto, mas a miríade de gambitos norte-americanas para dividir-e-reinar impostos ao coração da Eurásia agora se transformaram em guerra híbrida explicitamente dirigida contra China, Rússia e Irã – os três principais nós da integração da Eurásia.

E isso significa que, no que diz respeito à realpolitik do Afeganistão, com ou sem acordo, os militares dos EUA não têm intenção de ir a lugar algum. Eles querem ficar –custe o que custar. O Afeganistão é uma base inestimável do Grande Oriente Médio para implantar técnicas de guerra híbridas.

Os pashtuns certamente estão entendendo a mensagem dos principais participantes da Organização de Cooperação de Xangai. A questão é como eles planejam virar o jogo e se elevar acima do Team Trump.

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Pepe Escobar é analista geopolítico e colunista do Asia Times. Leia seu artigo originalmente publicado em inglês. 

Milena Brandão é psicóloga, expressonauta dedicada que atua no Coletivo de Tradução do Duplo Expresso.

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