As Narcoprimaveras latino-americanas

Por Luiz Ferreira Jr.

 

O caso de guerra híbrida brasileira possui características bastante singulares que encontram sintomas dentro e fora de seu território. Primeiramente a implementação de técnicas de primaveras, desde movimentos como Não vai ter Copa, como em manifestações subsequentes que levaram a uma quebra do governo Dilma, foram sucedidas por ações de longo prazo, e não somente dentro do período próximo das eleições que geraram a vitória de Jair Bolsonaro, por meio da construção de redes de whatsapp em diferentes setores sociais.

Estas operações de comunicação em nichos de redes sociais geraram sintomas de sentido como o antipetismo, e incidiram nas eleições que se deram dois anos antes e que foram sucedidas por diversas atividades de guerra de comunicação e desinformação, perseguições administrativas e legais (lawfare), que geraram suicídios e prisões injustas, e ao final consolidaram a vitória de Jair Bolsonaro. Isso claro, depois de um ato de ataque (o caso da facada) que até hoje é observado por diversos analistas como parte de uma técnica de escândalo político bastante controlado em sua difusão, com vistas a fazer de um candidato, que não compareceu a nenhum debate eleitoral, vencedor das eleições. Claro que funcionando graças ao impedimento imposto judicialmente e por setores partidários à candidatura de Lula.

Agora, passado quase um ano de governo de Bolsonaro, percebe-se que segue continuando a estrutura de guerra de comunicação e desinformação trabalhada em diferentes nichos sociais, e com controle de espectro total. Controlada por meio de pautas centrais através de agentes de limited hangout, como no caso da operação da Vaza Jato que acabou por legitimar o lançamento ainda informal da candidatura de Sérgio Moro à Presidência da República. Reforço de imagem com a mesma estrutura lógica que ocorrera com Lula após o escândalo do mensalão: naquele cenário o eleitorado consultado por pesquisas de opinião considerava que o PT estava envolvido em esquemas de corrupção, que Lula sabia, mas que o apoiavam mesmo assim. Agora a mesma operação é repetida, Moro se converte naquele que passa por cima da lei, mas combate à corrupção a qualquer custo. Assim o que supostamente é uma característica negativa em sua imagem, reforça um aspecto positivo em parte do eleitorado, e ativa o posicionamento de muitos em defendê-lo. Ademais, Sérgio Moro possui números superiores a Bolsonaro, o último ministro que era mais popular que o presidente, foi Fernando Henrique Cardoso, ministro de Itamar Franco, e o resultado foi sua eleição como presidente. 

No entanto, em paralelo ao processo brasileiro, ocorrem primaveras em todo o continente latino-americano, no mesmo cenário em que se amplia, no Brasil, a construção de um novo regime jurídico constitucional (contra a constituição), por meio de diferentes dispositivos legais, por nova lógica jurisprudencial e ‘novas’ referencias morais que visam gerar um estado que implementa modelo similar ao Ato Patriótico implementado depois do 11 de setembro estadunidense.

Mas qual seria a relação entre o modelo brasileiro de permanente gestão da política por meio de proxy war, por um lado, e as narcoprimaveras latino-americanas?
Primeiro há que aclarar o que significam estas narcoprimaveras. O conceito é decorrente da rearticulação das condições de dependência regional (extração de mais valia e transferência de riquezas de forma permanente para países imperialistas globais). E a mesma é resultante da articulação de estados ocos (em que a burocracia ou órgãos do estado deixam de atuar, sendo limitados, extintos ou agindo contra a lei) em estados que já eram falidos, ou incompletos (típicos de nações de terceiro mundo, em que o estado não ocupa todo o território e sociedade) e gera a possibilidade de consolidação de sistemas não legais e ilegais como forma de normatização e acabam por conseguinte assimilados por setores burocráticos do estado.

Neste cenário, o fortalecimento e unificação do crime organizado PCC e Comando Vermelho articulada a operações continentais de rearranjo de negócios de produção, distribuição interna e externa (tráfico de drogas), vem associados a formas de controle social por meio do crime organizado. O Evangelistão do Pó. Essas dinâmicas, pouco estudadas e desconsideradas pelo campo democrático, progressista e popular em nossa região, são tema de bastante preocupação e mobiliza esforços em outras regiões continentais, como no caso da União Européia.

Mas em Estados com pouca institucionalidade ou pouca capacidade de mediação de políticas de contenção explodem as manifestações que podem ser coordenadas, estimuladas, ou infiltradas quando iniciam-se como insurreições, o que se evidenciou nos casos de Chile, Equador e Bolívia. Mas, também, com irrupções de longo prazo na América Central.

A resultante destes múltiplos fatores, do Brasil e fora dele, geram o deslocamento das operações de crime organizado antes centradas no México e América Central e encontram fortalecimento, com indícios de colaboração governamental, no território brasileiro através da unificação entre PCC e Comando Vermelho, que ampliam a ocupação territorial desse pool criminoso em toda a região, a ocupar novas rotas de exportação do tráfico de drogas, conformando o NarcoSul.

Por isso, as primaveras latino-americanas vem somadas a operações de infiltração de atores externos, como também, pela ampliação de atividade de crime organizado em espaços sociais frágeis, como se verifica no caso das periferias chilenas e na recente ocupação do Estado Plurinacional da Bolívia por setores sociais que possuem vínculos com o tráfico de drogas. Ademais, apoio dos governos Macri e Bolsonaro após o golpe foram imediatos.

Cada vez mais é confirmada a tese da tendência de ocupação dos espaços de ausência do Estado, no disfarçado nacionalismo, ou melhor dito, nacionalismo de exclusão de Jair Bolsonaro, ocupação de territórios e de relações sociais por setores de crime organizado no Brasil e em nossa região continental. Para os Estado Unidos, a desestruturação do crime organizado no México melhora as relações entre o governo atual de ambos países, uma vez que os estadunidenses sob um regime de exclusão social generalizado, também sofre riscos de desagregação social e ocupação do crime organizado.

Por isso, também, um dos novos sintomas de nossa nova fase de dependência econômico-política em um cenário de guerra econômica global pode ser a generalização de narcoprimaveras latino-americanas e o uso constante desses dispositivos de gestão política por meio de guerra não convencional permanente. É necessário entender estas estruturas para poder fazer frente e combater seus efeitos.

 

Luiz Ferreira Júnior é advogado, Mestre em Direitos Humanos – Universidade de San Martín (Argentina) e Mestre em Comunicação Midiática – UNESP.

Acha importante o nosso trabalho? Fácil - clique no botão abaixo para apoiá-lo:

Facebook Comments