Como o neoliberalismo destruiu a economia norte-americana

A nova crise no horizonte e a reorganização do capital internacional

 

O “sonho americano” ainda habita a mente de inúmeros brasileiros, principalmente jovens e adolescentes. Ir para outro país, e em suas falas principalmente para os Estados Unidos da América após ter adquirido sucesso na carreira. O desfrute de uma vida melhor, moradia, emprego e melhores salários, no imaginário ainda mora na USA. 

 

Entretanto, a vida nos seriados e filmes de Hollywood é mentira, propaganda nacional americana difundida globalmente. Esta última frase parece óbvia: todos sabem que narrativas fílmicas não são a vida real. Mas ver por inúmeras vezes o mesmo lugar da mesma maneira acaba levando a pensar que o local visto (nas telas de televisão e cinema), não o físico, mas o estilo de vida, é real, mas… Acontece que o sonho está virando pesadelo. 

 

O “grande império” está desmoronando. As notícias dos portais, jornais e rádios acabam utilizando dados sem analisar um contexto geral. A crise norte-americana parece não afetar a economia de maneira considerável, ou mesmo da real maneira quando noticiada. “A “grande imprensa também é detentora da verdade (algo que não cabe grandes questionamentos), mas estranha-se que isso ocorre em um momento de articulação e fusão de grandes oligopólios de mídia e que setores de “esquerda” ou de classe média ” bem informada” não considerem que a grande mídia se subordina a interesses capitalistas desde seu início de desenvolvimento como empresa de comunicação. É necessário desconfiar.

 

O país da Disneylândia, do consumo barato, dos grandes salários e desfrute de uma vida economicamente estável, comprovado por estudos realizados no mesmo “país mais poderoso do mundo” é uma ideia mentirosa, ilusória. A vitória de Trump, o candidato de propostas “populares” ou condizentes com as novas necessidades imediatas (desesperadas) de setores norte-americanos, atualmente endividados e com baixos salários, mostra que a população de lá deseja que “a América seja grande novamente”. Ou seja, a população em geral já sofre com o abalo econômico, muito maior do que se imagina. É o que este artigo de forma detalhada revela. O modelo neoliberal mundializado também vitimou a população norte americana. 

 

Um breve panorama

Os últimos 11 anos foram marcados pelos reflexos da crise de 2008. Os governos da Europa têm mantido o chamado “Quantitative Easing”, juros zero mantidos em toda a zona do Euro, ou seja, a economia com a cabeça “fora da água”. A Europa não se afogaria na crise (mas o velho mundo será assunto para um outro momento).

 

Já os Estados Unidos – a América por eles proclamada -, a economia tem se mantido em crescimento constante desde 2009, tendo se recuperado da crise de 2008 em 2010. É o que dizem os jornais, sejam de lá ou daqui. Este “milagre econômico” não é bem o que aparenta se prestarmos atenção nos dados da economia real norte americana.

 

Se olharmos somente para os números que são tradicionalmente divulgados podemos realmente achar que os Estados Unidos é a terra de leite e mel.

 

Os índices de desemprego em queda desde 2010, atualmente são os mais baixos desde 2000, para ser mais exato 3,9%.

 

Abaixo, os dados:

https://www.statista.com/statistics/193290/unemployment-rate-in-the-usa-since-1990/

Crescimento continuo do PIB desde 2010

https://www.statista.com/statistics/188141/annual-real-gdp-of-the-united-states-since-1990-in-chained-us-dollars/

Menor nível de pobreza desde 2002

https://www.statista.com/statistics/200463/us-poverty-rate-since-1990/

Crescimento da bolsa desde 2009

https://yhoo.it/30X797P

Enquanto isso a Europa passa por momentos difíceis com problemas nas bolsas de valores, com um dos principais bancos da Europa, o Deutch Bank, fazendo água, ameaças de recessão e inúmeros outros problemas financeiros.

Tentamos através deste artigo mostrar porque isto está acontecendo e o porquê de muitos fatos negativos que acontecem no país do Tio Sam estarem escondidos por trás destes números positivos divulgados. Muitos dos indicadores que iremos apontar neste artigo mostram de maneira clara a base social que levou a eleição de Donald Trump. O paraíso é mais escuro do que parece.

 

“Pleno Emprego” e baixos salários

Apesar da redução do desemprego a um dos níveis mais baixos de sua história, quando levamos em conta o valor salarial vemos que o poder de compra está em média nos níveis de 1978.

Para os trabalhadores de baixa renda, no caso temporários, terceirizados e outros que por eles são chamados de arranjos alternativos os salários ficaram estão mais defasados. Se considerarmos o período entre 2000 e 2018, os salários dos 10% mais pobres subiram 3% enquanto para os 10% mais bem remunerados subiram 15,7% no mesmo período.

https://www.pewresearch.org/fact-tank/2018/08/07/for-most-us-workers-real-wages-have-barely-budged-for-decades/

Normalmente o aumento no nível de emprego significa também aumento de salários, mas por que isto não ocorre nos Estados Unidos? Aqui respondemos:

Redução na sindicalização, contratos de restrição, salário mínimo defasado, globalização, automação, terceirização e baixo aumento na produtividade por trabalhador, são algumas das causas apontadas.

https://www.nytimes.com/interactive/2018/02/01/business/economy/wages-salaries-job-market.html

Na verdade se fizermos uma análise de cada um destes fatores veremos que a maioria deles foi fruto da implementação de uma política cada vez mais liberalizante aplicada desde a gestão Ronald Reagam. Ou seja, justamente o tipo de política que Paulo Guedes e seus comparsas da escola de Chicago pretendem aplicar no Brasil.

 

Redução na sindicalização

Segundo dados de uma pesquisa do Bureau of Labor Statistics do governo americano que podem ser observados no link a seguir,

<https://www.bls.gov/opub/mlr/2013/04/art2full.pdf> a diminuição da sindicalização contribui fortemente para que a diminuição salarial. Uma outra pesquisa revela que a presença de sindicatos fortes equivale a salários mais altos, até em empresas que não possuem sindicalizados. Nos EUA a negociação se dá por empresa.

 

Contratos de restrição

Um reflexo indireto da baixa sindicalização são os chamados contratos individuais de restrição à competição que proíbem empregados de irem trabalhar em uma empresa concorrente. Antes restritos a profissionais com cargos executivos e da área de tecnologia, atualmente são comuns até mesmo entre trabalhadores industriais e do ramo de serviços. 

 

Por meio destes contratos, as empresas na verdade se tornam donas da experiência profissional dos trabalhadores, que doam anos de trabalho duro, conhecimentos e habilidades adquiridas, que não se traduzem em ganhos ao trabalhador.

 

Em 2014, um em cada cinco trabalhadores americanos estavam amarrados a este tipo de contrato. Com isto os capitalistas americanos tão afeitos ao “livre mercado” conseguem restringir a competição pelos melhores funcionários, tendo como resultado uma redução das médias salariais. Segue link que demonstra o acima dito:

https://www.nytimes.com/2017/05/13/business/noncompete-clauses.html

 

Redução no aumento de produtividade por trabalhador

Um dos possíveis efeitos destas cláusula é a redução do aumento de produtividade dos trabalhadores americanos. Em teoria, a junção de trabalhadores mais experientes e melhor treinados em empresas mais inovadoras e competitivas tende a funcionar como um multiplicador de produtividade. Com a criação desta espécie de monopólio sobre os trabalhadores, cria-se barreiras para que isto ocorra.

 

 

 https://fred.stlouisfed.org/series/PRS85006092#0

 

O aumento médio de produtividade dos trabalhadores norte americanos tem sido de cerca de 2% ao ano de 1970 até 2010. Em seguida essa porcentagem tem crescido cerca de 1% depois disso. Entretanto, tal produtividade não se reflete em melhores salários.

 

Outro dado interessante é que segundo a teoria econômica existe uma tendência de que produtividade e salário cresçam juntos a longo prazo. Porém, não é o que tem acontecido nos Estados Unidos desde de 1970.

 

 https://www.epi.org/productivity-pay-gap/

 

De toda a forma, o fator que fica mais claro é que o nível de exploração e extração de mais valia se aprofundou entre os trabalhadores do império norte americano.

 

Terceirização

Uma boa parte das empresas tem adotado como medida de corte de custos a implementação de terceirização de serviços não essenciais. Isto se reflete em uma redução da massa salarial nestes setores, uma vez que trabalhadores próprios costumam acompanhar a tendência salarial da empresa enquanto trabalhadores terceirizados tendem a acompanhar a média salarial do mercado terceirizado.

 

Segundo um estudo realizado na Cornel Universirty ILR Schoo http://econweb.umd.edu/~kaplan/empiricaloutsourcing.pdf, trabalhadores no setor de faxina e zeladoria ganham de 4 a 7% menos e guardas de segurança de 8 a 24% menos, quando trabalhando para empresas terceirizadas. Uma pesquisa realizada por Lawrence F. Katz da Harvard University and NBER e Alan B. Krueger1 Princeton da University and NBER   https://krueger.princeton.edu/sites/default/files/akrueger/files/katz_krueger_cws_-_march_29_20165.pdf mostrou que da Un o número de trabalhadores nos chamados arranjos alternativos como a terceirização aumentou de 10% para 16% em 10 anos de 2005 à 2015, muito provavelmente os números são maiores hoje em dia.

 

Desindustrialização e internacionalização

Um dos efeitos da chamada globalização foi a internacionalização das cadeias produtivas. Se compararmos o salário de um operário metalúrgico nos EUA e no México, veremos que um metalúrgico mexicano chega a receber menos de ¼ do salário de seu congênere americano. 

 

Some-se isto a um menor número de benefícios pagos diretamente pela empresa, a conhecida “redução de custos”, revertida em um maior pagamento de dividendos aos acionistas e na demissão dos operários, eliminando-se assim inúmeros empregos na faixa salarial mediana da economia. O que leva a um outro fator de redução salarial.

 

Automação

Muitas empresas que não transferiram sua produção para fora dos EUA apostam nos processos de um maior automação da produção como forma de reduzir custos e ganhar competitividade frente ao mercado internacional. Tal fator também leva a redução de empregos de nível médio e a um aumento de empregos na faixa inferior da pirâmide salarial, além de um aumento nos cargos de maior sofisticação e remuneração, que por outro lado empregam menos pessoas. Tais fatores levam a uma redução global na massa salarial na economia como um todo.

 

Estagnação do salário mínimo

O salário mínimo nos Estados Unidos está congelado em $7,25 a hora desde 2009. O poder de compra com este valor nunca conseguiu voltar aos níveis do poder de compra que tinham na década de 60.

Mesmo considerando os estados que impõe um salário mínimo mais elevado, somente o distrito de Colúmbia oferece um valor mínimo salarial acima dos $11,27 equivalentes ao poder de compra de 1968.

Este fator causa um impacto muito superior na fatia dos trabalhadores de baixa renda,onde está concentrada a maior parte dos empregos gerados nos Estados Unidos desde o governo Obama.

http://www.ncsl.org/research/labor-and-employment/state-minimum-wage-chart.aspx#Table

 

Estagnação do salário mínimo

O salário mínimo nos Estados Unidos está congelado em $7,25 a hora desde 2009, seu poder de compra nunca conseguiu voltar aos níveis de poder de compra que tinham na década de 60.

Mesmo nos estados que impõe um salário mínimo mais elevado, somente no distrito de Colúmbia ele está acima dos $11,27 equivalentes ao poder de compra de 1968.

Este fator causa um impacto muito superior na fatia dos trabalhadores de baixa renda,onde está concentrada a maior parte dos empregos gerados nos estados unidos desde o governo Obama, como podemos observar no artigo abaixo:

http://www.ncsl.org/research/labor-and-employment/state-minimum-wage-chart.aspx#Table

 

Mudança do perfil dos empregos e seu impacto na economia americana

Como vimos acima está havendo uma mudança no perfil de empregos da sociedade americana. Além da automação e da internacionalização da produção, outros fatores têm contribuído para esta transformação que podemos resumir basicamente da seguinte forma: redução dos empregos médios e aumento dos empregos de baixa e alta qualificação.

Talvez um dos fatores mais marcantes no mercado de emprego e trabalho nos Estados Unidos com declínio e modificação das carreiras ligadas a área de produção de bens.

Para se ter uma ideia dos impactos na indústria perante essas modificações econômicas, nos anos 50 a indústria era responsável por 41% da força de trabalho americana, nos anos 70 cai para 33% e chega a 2014 com apenas 12,7 e caindo.

Profissões ligadas a gerenciamento e administração cresceram 5% de 2005 a 2015 atingindo 39% da força de trabalho e o setor de serviços atinge 17,4% no mesmo período.

O crescimento populacional de crianças em idade escolar projeta um crescimento de empregos na área de educação e treinamento.

https://dpeaflcio.org/programs-publications/issue-fact-sheets/work-in-focus-a-labor-market-overview/

O crescimento das empresas de alta tecnologia geram um aumento dos postos de trabalho na área que eles chamam de STEM (ciência, tecnologia e matemática) com um aumento de 9,8% entre 2005 e 2015 e uma projeção de aumento de 10,1% entre 2015 e 2025.

http://www.chmuraecon.com/blog/2016/february/29/stem-job-growth-expected-to-exceed-growth-in-non-stem-jobs-over-the-next-decade/

As profissões desta área que englobam cientistas, matemáticos, engenheiros, programadores, estatísticos e outras carreiras na área de exatas. Esta área responde por 6,1% dos empregos nos EUA. Porém temos que analisar este crescimento e o seu impacto mais a fundo.

Nas primeiras gerações o desenvolvimento da tecnologia da informação, da internet e automação da produção resultou em um ganho de produção e uma redução de empregos industriais e mudanças de perfil nas áreas administrativas.

O desenvolvimento de tecnologias como big-data, web services e consolidação do comércio on-line impactaram o setor de serviços e de administração.

Inteligência artificial, manufatura aditiva (impressão 3D), internet das coisas , big data, robótica avançada, e tecnologias correlatas que muitas vezes se chama de revolução 4.0 

Espera-se um redução de cerca de 7% nos empregos no mercado americano até 2025.

https://www.forrester.com/Robots+AI+Will+Replace+7+Of+US+Jobs+By+2025/-/E-PRE9246

Os setores mais afetados serão logística, transporte, atendimento ao consumidor e serviços.

Porém setores tão diversos como jornalismo e direito também serão afetados.

https://hackernoon.com/20-top-lawyers-were-beaten-by-legal-ai-here-are-their-surprising-responses-5dafdf25554d

https://www.nytimes.com/2019/02/05/business/media/artificial-intelligence-journalism-robots.html

Em suma todos estas transformações levam a uma redução da massa salarial, ao crescimento das desigualdades salariais e a redução dos postos de trabalho que impactaram mais profundamente a faixa média do mercado de trabalho, tanto a nível de qualificação quanto de salário. Acontece que essa fatia foi a base de desenvolvimento da economia norte americana.

Ou seja a massa salarial que impulsionava a economia se reduziu e este impacto foi profundo. 

 

O impacto das transformações no mundo do trabalho na sociedade e na economia americana

O aumento na demanda por profissionais de alta especialização, principalmente nas áreas de ciência e tecnologia, levou a um aumento na demanda por cursos de nível universitários.

É importante notar que esta demanda é atendida por uma série de universidades privadas que na maioria das vezes não fornece uma formação adequada aos requerimentos do mercado de trabalho.

Ou seja um diploma de nível superior não vem com um determinado salário bem definido; para qualquer indivíduo, vários fatores – incluindo a instituição de ensino frequentada, as habilidades adquiridas, a base de formação primária e secundária, além dos objetivos de carreira afetam o potencial de ganhos dos graduados.

Padrões divergentes de ganhos como esses estão presentes em cada grupo educacional, reforçando a noção de que a educação por si só não determina os ganhos e que outros fatores também influenciam os ganhos de um trabalhador. Disto deriva uma das primeiras bolhas que analisaremos.

 

A bolha do financiamento estudantil

Vamos aos dados na última década o crédito estudantil nos Estados Unidos passou de $ 100 Bi para $1,2 tri, empréstimos estudantis de todas as fontes pública e privadas excedem hoje $1,3 Trilhões, afetando principalmente os mais jovens, embora cerca de 1/3 das dívidas pertençam a pessoas acima de 40 anos.

O preço da formação universitária vem crescendo de 4 a 5% ao ano na última década.Cerca de 10% destes empréstimos estão atrasados.

https://www.wsj.com/articles/families-go-deep-in-debt-to-stay-in-the-middle-class-11564673734

Como um grande número de pessoas não conseguem os empregos qualificados pois as faculdades privadas de custo mais baixo, ou seja, que possibilitou a formação de pessoas de baixa renda não forneceram uma formação adequada para estas pessoas. Por esta razão, as mesmas acabam se alocando em outros setores da economia, deslocando aqueles com menor formação para empregos ainda mais precários.

Por consequência estes jovens que ingressaram no mundo universitário e que adquiriram má colocação no mercado de trabalho, não conseguem arcar com os empréstimos do crédito estudantil. É necessário considerar que um estouro dessa bolha de crédito pode impactar as contas federais.

 

Aumento do custo de assistência médica

Os americanos gastam em média o dobro dos cidadãos dos outros países desenvolvidos em assistência médica sem ter um retorno a altura. Atualmente 18% do PIB americano é gasto em assistência médica e este número deve chegar em 20% em 2025.

Uma das consequências disto é a diminuição do dinheiro disponível para o consumo e aumento do endividamento.

 

O aumento do endividamento familiar

O aumento das despesas com educação e saúde, aliado a estagnação dos salários médios, leva a classe média norte-americana ao aumento do endividamento, como forma de manter um padrão de vida mínimo.

Analisando as situações básicas do dia a dia e os fatores que mais cresceram a partir da última crise:

Financiamento automotivo

Nos últimos anos os bancos em busca de maior clientela para empréstimos, mirando justamente no fenômeno da falta de dinheiro disponível para as famílias de classe média.

Desde a crise de 2008 os empréstimos automotivos subiram mais de 40% e apesar de um aumento dos riscos e da inadimplência, os bancos continuam a permitir prazos mais longos e a aumentar os empréstimos atingindo um montante de $1.3 trilhões.

https://www.wsj.com/articles/auto-lenders-ramp-up-risk-to-win-more-customers-1528639200?mod=article_inline

 

Cartões de crédito

As dívidas de cartões de crédito nos EUA chegaram a $1.08 trilhões de dólares em 2019, um crescimento de 11,25% no ano, atingindo o maior patamar desde 2009.

https://www.creditcards.com/credit-card-news/up-g19-federal-reserve-credit-debt-09092019/

Por outro lado você tem o maior nível de juros desde 1994, com 17,4% com o maior aumento contínuo nos últimos 3 anos.

Fonte: https://fred.stlouisfed.org/series/TERMCBCCINTNS

Isto em um momento em que a totalidade dos países desenvolvidos trabalha com juros zero ou negativos. Em contrapartida, os Estados Unidos apresentam redução em sua taxa de juros.

Ao mesmo tempo o país apresenta um aumento significativo da taxa de inadimplência. Um dos motivos é o fato de boa parte da população necessitar utilizar o crédito rotativo dos cartões. Para sustentar o padrão de vida pré existente, as pessoas acabam buscando outros formatos de financiamento para tentar sustentar.

O assunto em questão voltará a ser tratado em um próximo artigo, já que endividamento e financeirização da vida cotidiana fazem parte deste contexto, entretanto são complexos e há necessidade de explicar de maneira clara e minuciosa, o que não cabe neste artigo.

 

Novas formas de endividamento

Empréstimos atrelados ao pagamento

Explicitamos aqui uma das formas mais extremas de financeirização da vida do indivíduo norte americano, os chamados Pay Day Loans. Trata-se de um empréstimo de curtíssimo prazo (entre 7 e 15 dias) com altas taxa de juros entre 15% e 30% muito utilizados nos EUA, principalmente entre os mais pobres. São empréstimos condicionados à data do pagamento da pessoa (nos EUA o mais comum são pagamentos semanais ou quinzenais).

https://www.thebalance.com/payday-loans-beware-of-these-dangerous-loans-1289623

Tradicionalmente, este tipo de crédito de curto prazo e baixo valor (entre $300 e $5000) eram utilizados para resolver imprevistos financeiros. Porém, em anos recentes eles têm sido cada vez mais procurados por pessoas com dificuldades de crédito, o que torna o devedor refém de um sistema altamente predatório.

A chamada geração Millennial é profundamente afetada por estes tipo de empréstimo. Estima-se que cerca de 10 milhões de pessoas nesta faixa etária o utilizam com altas taxa e curto prazo. O total de americanos que recorre a este tipo de operação é de cerca de 12 milhões por ano.

https://www.cnbc.com/2019/02/06/trump-administration-rolls-back-payday-loan-protections.html

Talvez, um dos fatores que melhor demonstre a alteração de perfil deste mercado que movimenta $90 bi ao ano, seja o fato de que cerca de 80% destes empréstimos são tomados cerca de duas semanas da quitação do anterior.

Linhas de crédito

Muitas empresas do mercado de Pay Day Loans estão migrando para as chamadas linhas de crédito por não utilizar pagamentos únicos para quitação. Ao invés disso eles são parcelados em mais vezes e garantem a estas empresas uma maior segurança.

Porém estes empréstimos também trabalham com uma taxa de juros exorbitante. Por exemplo, um empréstimo de $1000,00 em 13 vezes tem uma taxa anual de 172,98% na empresa Enova (dados de 2019).

O total de empréstimos pessoais sem garantia era de $138 bi em 2018, o que significa um aumento de $21 bi em relação a 2017. O total deste tipo de empréstimos deve atingir o pico histórico de $156 bi no final de 2019, segundo o Federal Reserve de St. Louis.

Um fator que chama atenção é a participação das empresas chamadas de fintech (empresas financeiras que operam exclusivamente online, sem unidades físicas) neste mercado. Ocorreu um salto de 7x na participação destas empresas neste mercado, 5% em 2013 para 38% em 2018.

A praticidade e velocidade oferecida por estas empresa, atrai mais e mais consumidores. Esta é uma tendência que passa a ser adotada pelos bancos tradicionais dos EUA, o que pode significar um elemento de risco ao mercado, além de aprofundar ainda mais o processo de endividamento.

As hipotecas e o risco de uma nova bolha imobiliária

O financiamento imobiliário através de hipotecas é uma das formas mais tradicionais para a aquisição de imóveis nos  Estados Unidos. Um dos motivos da gravidade da crise de 2008, foi justamente o tamanho desse mercado, e sua ampla adoção.

A partir da chamada crise das “Subprime” ( financiamento imobiliário para pessoas com baixo escore de crédito) , houve uma redução tanto no preço dos imóveis, quanto no tamanho do mercado hipotecário e nos níveis de inadimplência.

O nível geral de inadimplência em hipotecas nos EUA caiu a 2% em 2012, porém em fevereiro de 2014 já estava em 21% e em fevereiro de 2018 já havia saltado para 25%.

Em alguns estados como o Havaí e Nova York já se vê médias de 67 e 55% .

Os preços dos imóveis já ultrapassaram os anteriores a crise de 2008.

Fonte: https://fred.stlouisfed.org/series/CSUSHPINSA

Além disso alguns mercados como Miami já começam a apresentar sinais de desaceleração, tendo caído cerca de 13% em agosto de 2019.

O que é um indicador bastante significativo de retração, que casado com o aumento de inadimplência pode significar que estamos próximos a um ponto sem volta.

Temos que entender que o real motor por trás da economia Norte Americana, e que tornou aquele país a potência que é, foi a criação de um imenso mercado de consumo, sustentado por uma indústria poderosa. 

Os EUA sempre se atrelaram a imagem de serem uma nação de desenvolvimento pujante com uma indústria e agricultura poderosas, que abasteceram uma boa parte do mundo durante as guerras mundiais.

Hoje não é esta a realidade, a classe trabalhadora industrial americana sempre teve acesso a um padrão de vida inimaginável a seus iguais ao redor do mundo. Porém este padrão de vida a algum tempo tem sido sustentado pelo sacrifício de outros povos.

Agora em que a grande finança impõe sobre estes trabalhadores e sobre a classe média um nível de exploração nunca visto anteriormente e uma financeirização intensa, a situação começa a ficar insustentável.

Não satisfeitos com os americanos, a banca avança para impor este padrão ao restante da humanidade. A crise que está se delineando pode ser o marco definitivo da implementação deste processo.

O nível de extração de riquezas vai mudar de patamar e os setores médios dos países do terceiro mundo vão pagar por isso.

No próximo artigo vamos tratar de como o mercado financeiro pode levar o mundo a falência, como forma de aumentar a sua concentração de riqueza.

 

Por “Caos Soberano“, analista de cibersegurança e tecnologia

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