“Estou muito surpreso, estupefato…”

Da Redação do Duplo Expresso,

16/04/2019, David Pujadas entrevista Benjamin Mouton*,

[Versão integral], Publicado por Bertrand Riviere, Le Blog Noir de Brocéliande – dica de Pepe Escobar

Traduzido e disponibilizado pelo coletivo Vila Mandinga

 

Construindo saberes:
A catedral, o vídeo e sobre o vídeo

 


A Catedral

Vista frontal da Catedral de Notre Dame com destaque para a rosácea gótica acima do vão central, entre as torres dos sinos.

 

Pináculo da Catedral de Notre Dame, inserido quando da “restauração e resgate” da edificação no estilo neogótico, empreendida pelo arquiteto Eugène Viollet-le-Duc e Jean-Baptiste-Antoine Lassus, a partir de 1845.

 

Alguns elementos da catedral, representados pela Vox.

 


O Vídeo

 

Entrevistador, David Pujadas: Temos muitas perguntas a fazer ao senhor, arquiteto Benjamin Mouton, a primeira das quais é: “Agora à noite, temos a certeza de que Notre Dame, o edifício está seguro, firme nos alicerces, que a estrutura foi preservada?”

Benjamin Mouton: Não. Não temos certeza. O fogo foi apagado, mas há dejetos calcinados sobre as abóbadas [les voutes]. Antes de [os dejetos calcinados] pararem sobre as abóbadas houve um choque mecânico sobre as abóbadas. Vi a foto. Todos sabem que o “fecho“ [as abóbadas sobre ogivas cruzadas[1]] é o ponto mais frágil [1”08’]. A madeira calcinada cai sobre a pedra, calcina a pedra e, pode-se dizer, a pedra é trabalhada a quente, a pedra perde sua capacidade mecânica. Todos sabem que a parte superior dos arcos é a parte fundamental da estrutura. Depois chegaram os bombeiros e molharam tudo isso. Agora temos o madeirame que é mais uma sobrecarga sobre os arcos. Acho que poderemos falar com mais precisão sobre o estado da catedral quando tudo ali se estabilizar, secar e pudermos reduzir as pressões sobre as abóbadas. Antes disso, não há o que dizer.

Entrevistador, David Pujadas: O senhor diz que se surpreendeu, talvez nem tanto pelo fogo, mas por se ter propagado e aumentado tanto, tão rapidamente?

Benjamin Mouton: [1”53’] Muito. Muito surpreendente. Na verdade, completamente incompreensível. Fiquei e continuo estupefato. É carvalho antiquíssimo. E queimou como um fósforo? Como se fosse um combustível muito, muito volátil? Não compreendo. Absolutamente não compreendo. É… muito impressionante.

Outro entrevistador 1: [2”10’] O senhor tem ideia de qual pode ter sido a origem?

Benjamin Mouton: Origem? Que…

Outro entrevistador 1: Do fogo, a origem do fogo.

Benjamin Mouton: Não faço ideia. Não tenho ideia.

Entrevistador, David Pujadas: Claro, não há certeza, um acidente sempre é possível, mas, como o senhor disse, a propagação foi surpreendente.

Benjamin Mouton: A propagação do fogo é estranha, extremamente curiosa. Parece que começou na croisée [“fecho” central], e propagou-se pelo [por cima do] coro[2] [direção norte-sul-norte] e [por cima do] transepto [direção leste-oeste-leste, até o “fecho” central].

Entrevistador, David Pujadas: Há aquela área chamada ‘a floresta’, uma área em que o madeirame é muito volumoso. Há quem diga que aquela ‘floresta’ poderia queimar como lenha. Mas o senhor está dizendo que esse tipo de madeira não queima assim.

Benjamin Mouton: Não, não queima. Aquele carvalho tinha 800 anos. É muito duro. Não estou dizendo que não queime, mas nunca queimará assim. Não, não. Seria preciso uma enorme pilha de lenha e gravetos, para fazer queimar esse carvalho. Não, não. Fiquei absolutamente estupefato.

Entrevistador, David Pujadas: E a que hipótese essa reflexão o leva?

Benjamin Mouton: [Suspira] Não sei. Não tenho hipótese alguma. De que hipótese se poderia cogitar… Foi rápido demais. Talvez houvesse algo que se devesse ter feito, para que não queimasse tão rapidamente… Perco-me em conjecturas e não atino… Pouco antes de eu me aposentar, quer dizer, em 2010, refizemos toda a instalação elétrica de Notre Dame. Não há possibilidade de um curto circuito. Não foi isso. Refizemos e modernizamos toda a estrutura de proteção contra incêndios, da catedral. Com elementos de controle de temperatura, aspiradores etc., etc., que permitiria detectar qualquer início de incêndio. Há dois homens permanentemente, dia e noite, para dar o alarme ao primeiro sinal de fogo.

Outro interlocutor 1: É possível que tenha havido uma falha nos sistemas de alerta? É possível?

Benjamin Mouton: Claro, tudo é possível. Mas fato é que foi um trabalho colossal e, como vocês sabem, em canteiros de obras em monumentos históricos, em Notre Dame sobretudo, seguimos um enquadramento normativo, técnico, de controle, etc., etc., considerável. Muito completo. Diferente de outros tipos de obras. Tudo foi feito. Só posso dizer que estou estupefato.

Entrevistador, David Pujadas: E nos 13 anos que o senhor foi chefe de construções, o senhor não soube de sinais de fogo, início de incêndios, nunca aconteceu?

Benjamin Mouton: Não. Nunca. Felizmente.

Outro interlocutor 2: O trabalho de restauração de um monumento histórico de tantos séculos aumenta a fragilidade do próprio monumento. E outro problema q se coloca é a vigilância nesse tipo de canteiro de obras. Isso torna ainda mais desconcertante o que temos ouvido, que não haveria ninguém na obra, quero dizer, não havia nenhuma vigilância num monumento dessa importância. Não se pode compreender que não houvesse ali vigilância permanente. Quanto a isso, acho que a lei tem de ser aprimorada…

Benjamin Mouton: Sem dúvida o senhor tem razão, mas quero fazer alguns comentários. Primeiro, que depois que os operários deixam o canteiro, a segurança permanece, não sai. Os vigilantes de que falei, dois, têm a sua disposição vários instrumentos de avaliação e medida. Outro detalhe, é que esses aparelhos de vigilância permanente são alimentados de modo específico, sem nenhum risco de curto circuito. Mais uma observação, tem a ver com as estatísticas. Incêndios em monumentos históricos são praticamente zero, não acontecem.

Interlocutor 2: Não será porque há poucos monumentos tão importantes?

Benjamin Mouton: Não, não. Não há incêndios nesses monumentos porque são atentamente vigiados. Há procedimentos de vigilância drásticos muito específicos.

Entrevistador, David Pujadas: Sr. Mouton, o senhor nos descreve um quadro do qual não se pode descartar que alguém tenha provocado o incêndio ou, no mínimo, facilitado que se alastrasse.

Benjamin Mouton: Uma possibilidade dentre outras. Nada se sabe até aqui com segurança.

Outro interlocutor 1: O senhor não ouviu comentários, de técnicos, nada, sobre o incêndio?

Benjamin Mouton: Absolutamente nada. Só ouvi, de meu confrade Philippe Villeneuve, hoje encarregado dos monumentos históricos, que me autorizou a vir a esse programa, que só se sabe de um ponto onde o fogo começou, no ponto em que o coro encontra o transepto. Só me disse isso. E que não havia canteiro de obras nesse local do prédio. Não havia trabalhos lá.

Entrevistador, David Pujadas: Esse senhor que o senhor cita disse ao senhor que não havia trabalhos naquele local da catedral.

Interlocutor 3: Tenho uma pergunta, de quem não conhece muito o assunto, mas se se tinha ali um madeirame tão imponente, tão grande a ponto de ser chamado de “a floresta”, pergunto o seguinte: aquela madeira era especialmente protegida contra fogo? Algum produto?

Benjamin Mouton: A questão é que, para que esses produtos funcionem, têm de penetrar na madeira. E nada penetra em carvalho de 800 anos, seja fungicida, inseticida, antifogo, é impossível. Inviável. Se fosse possível, teria sido feito.

Interlocutora: Só uma observação. Parece que há bem poucos meios para proteger monumentos desse tipo. Tenho a impressão de que é quase um milagre que não haja mais incêndios desse tipo. Também me chamou a atenção a eficiência com que o que podia ser retirado da catedral, obras de arte, tudo, foi retirado e salvo. Nenhum ferido. Claro que os bombeiros, os policiais de Paris, merecem todos os elogios…

Benjamin Mouton: Minha opinião é que, além disso tudo, também se deve levar em conta a arte daquela carpintaria, a conservação do madeirame, ao longo de tantos séculos, cada século acrescentou seus recursos. Um trabalho impressionante. Mas, sim, risco zero não existe.

Entrevistador, David Pujadas: A pergunta que fiz a todos, no início do programa. O senhor sente-se consolado, conformado…

Benjamin Mouton: Mas… consolado do quê? Não. Absolutamente não estou consolado nem conformado, não, de modo algum.

Entrevistador, David Pujadas: Acho que ontem houve um momento em que todos chegamos a temer que todo o prédio desabasse…

Benjamin Mouton: Não, não, de modo algum, esse risco sempre foi mínimo, praticamente inexistente. É importante saber que as duas torres oeste são separadas da nave por muros nos quais há poucas, raras portas. Sempre foi altamente improvável, desde o início, que o fogo passasse para as torres ocidentais. Por sua vez, do lado de cá, há oito sinos na torre norte e dois sinos na torre sul, e ali, sim [se os sinos caíssem], o drama seria terrível. Mas não, não, nada me consola. Estou inconsolável. [FIM DA TRANSCRIÇÃO, aqui traduzida]

*******

* Benjamin Mouton, ex-arquiteto-chefe da catedral de Notre-Dame de Paris.

 


Sobre o Vídeo

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De:
Patricia Vauquier
Para: Vila Mandinga
Em dom, 21 de abr de 2019 às 12:16

Preciso fazer uma observação sobre o programa e o jornalista:
LCI é um canal do Bolloré, Pujadas, o jornalista, é o rothweiller do sistema, defensor com unhas e dentes de Macron!
Nada do que é transmitido no programa pode ser capaz de confrontar a versão do governo!
Eles não entrevistam ninguém que possa representar um risco.
Enfim, à voir!

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De: Vila Mandinga
Para: Patricia Vauquier, de Duplo Expresso
Em: dom. 21 de abri de 2019 às 19h43

Vc tem TODA a razão, Patrícia. Muito obrigado.

E é precisamente o jornalista aí “rothweiller do sistema” que ‘traz à tona’ – bem claramente – no vídeo q traduzimos inteiro, a ‘hipótese’ de que o incêndio ‘poderia’ ter sido provocado, e diz, na sequência que “essa hipótese está pautada, claro, mas não será tratada com qualquer privilégio”. Parte do processo ‘híbrido’ de descartar hipóteses não desejadas é pautá-las logo de cara e declará-las iguais a qquer outra.

Há um conto SENSACIONAL do Edgar Allan Poe, “The Pourloined Letter”  (que Lacan analisou quase sílaba a sílaba em “La Lettre Volée”) e se encontra na Internet tb em português como “A Carta Roubada”, que ensina q, para esconder maximamente uma coisa, o melhor é deixá-la logo bem à vista.

A lição, nesses ‘eventos’ é que a coisa é REALMENTE uma arapuca:
– os mesmos argumentos que servem para ‘demonstrar’ que um incêndio pode ter sido provocado… também servem pra demonstrar que tuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuudo está corretamente pautado e tudo será/foi investigado com total transparência e de modo bem isentão, inclusive, claro, a possibilidade de atentado.

Chegamos à “ditadura democrática”: é a ditadura híbrida, pqp!  ?

De onde se conclui que a arapuca REAL é EXCLUSIVAMENTE uma arapuca DO DISCURSO e TOTALMENTE construída na/pela mídia-empresa-comercial, aproveitando-se de uma limitação do cérebro humano metido na camisa de força do capital e da ‘lógica’ do capital, que só sabe operar entre dois termos, na lógica binária do sim/não, zero/um, rico/pobre, branco/preto, masculino/feminino e coisa e tal.

Quem estudou isso muito a fundo, na sua “Linguística Cartesiana” e nas suas sensacionais “gramáticas gerativas” foi Chomsky — um verdadeiro Galileu Galilei da Linguística, único de sua espécie, e que, num certo momento, falava COMPLETAMENTE SOZINHO. – Então, Chomsky foi rapidamente expulso do mundo dos especialistas em Terra Plana e Fixa da Linguística francesa e, por óbvio, também da Linguística da USP-UDN-BR.

Porque Chomsky sabia que ele estava certo e o resto do mundo estava errado, ele escolheu desvestir-se do próprio personagem “linguista” e vestir um personagem “liberal democrático” militante.

Disse “E pur si muove” (Mas que a Terra gira, ela gira), uma espécie de “Fodam-se”, à Inquisição dos linguistas franceses. Chomsky serviria para personagem de um neoBrecht, aí, que escrevesse uma peça sobre esse neo-Galileu Galilei judeu e gênio, que tem sala perene no MIT, onde poucos entendem o que ele fez, mas os patronos e ‘patrocinadores’ do MIT ADIVINHAM, INTUEM, que, qdo o mundo (e tb o MIT!) entender o que Chomsky escreveu, aquela sala vai valer OURO!

Tudo isso para dizer que ABSOLUTAMENTE NÃO HÁ O QUE DISCUTIR, HOJE, além de boatos, sobre o incêndio da catedral de Notre Dame.

E TODOS ESSES BOATOS, sem nenhum controle confiável, podem… continuar a ser discutidos até o juízo final, sem que JAMAIS qualquer deles possa ser TOTALMENTE descartado. Quanto mais se arrastar a discussão, melhor [do ponto de vista de quem queira enterrar a verdade], porque ao longo da discussão vai-se implantando a ideia de que só doido, mesmo, pra supor que alguém incendiaria Notre Dame….

Mas o ex-arquiteto-em-chefe diz claramente que “não, não, nunca houve o risco de a catedral ruir inteira. Sempre foi muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito improvável que o incêndio passasse para a parte dos sinos, cuja queda, sim, poria TUDO abaixo.”

Na tradução q vou mandar, linkei com vários desenhos do traçado da catedral, em que se vê que só queimou do “fecho da abóbada central” (a croisée) central para dos dois lados do transepto e para ‘o fundo’ da catedral, chamado, no vídeo, choeur (traduzimos por “coro”, e parece que é isso. Podemos corrigir, se não for). Nada queimou da nave. E o desabamento da agulha sobre a croisée central – caiu sobre si mesma, praticamente como o WTC! – é PROVAVELMENTE muito drama, mas pouco estrago.

Além do quê, dado que a ideia de atentado já foi apagada (porque já foi pautada!), quanto mais se discutir, mais ficamos NÓS com cara de doidos. É keném o Paul Graig Roberts (e outros, todos muuuuuuuuuuuuuuuuuuito qualificados e que, praticamente com certeza estão com a razão), que escrevem TODOS os dias há décadas, que está SUUUUUUUUUUUUUUUUUUPER provado que as torres gêmeas do WTC foram derrubadas pelos EUA de Bush, para que aquele horror ‘justificasse’ os EUA invadirem o Iraque. Mas os ‘progressistas’ de sofá não levam a sério, ‘porque’ PCR é “homem do Reagan” e, por definição, “homem do Reagan” não diz coisa-com-coisa.

E onde esse argumento não funcionar, logo aparecerá alguém que ria e ‘conclua’ que “só doido, mesmo, pra imaginar que alguém derrubaria etc., etc., e se vc estiver dizendo isso, estará ‘provado’ que o doido é vc e só lhe resta calar o bico.

Acabei pensando nos teclados e escrevi demais.
Mando aí, por que não, né?
Abs.
VM

  1. O fecho de ogivas [fr. la croisée d’ogives] é órgão característico da arquitetura chamada, em geral, de gótica; esse fecho das ogivas é o princípio fundamental dessa arquitetura. Deve ser considerado uma das inovações mais fecundas de toda a história das artes. A palavra “ogiva” foi-se aos poucos afastando do sentido que tinha na Idade Média, quando designava não o arco, agudo ou arredondado, mas a nervura entrecruzada de uma abóbada. A ogiva, nessa acepção, era um apoio, não uma base, i.e. designava a nervura que reforça a abóbada. Daí que a definição correta para croisée d’ogives seja “intersecção de duas nervuras” [que nossos especialistas optaram por traduzir como “fecho da abóbada”], sobre a qual repousam os quatro compartimentos de uma abóbada de suportes. A abóbada com nervura é conhecida, entre especialistas em Idade Média como (fr.) croisée d’ogives) [NTs, com informações de Larousse Encyclopedie, aqui traduzidas].
  2. Fr. Choeur [aqui traduzido como “coro”, à espera de confirmação], é a área atrás da mesa na qual o sacerdote celebra missa (vulgo “altar”). Veja aqui, de outra igreja gótica [NTs].

 

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