Aspectos de uma ilha-Brasil: eis o BraZZZil que dorme…

Por João de Athayde*, para o Duplo Expresso

Na imagem desenhada pelo artivista Sama, o gigante da ilha-Brasil adormecido. Eis a ilha BraZZZil, assim, escrito com muitos “Z” de sono, um BraZZZil adormecicado: adormecido por que pacificado e que, no máximo, de vez em quando se revira com a cica de amargo na boca, pois não é sono doce, é sono mortificado.

Um Brasil que se pensa — claro, foi assim levado a pensar — como uma ilha cultural, política e econômica. Como se os acontecimentos no Brasil fossem exclusivos desse país “tão diferente, tão particular, tão especial”, como nos apetece acreditar. Como se essa ilha de pau-Brasil, banal açucareira e posteriormente aurífera, mas sempre exímia moedora de gente, não fosse estada criada no meio dos interesses do comércio transatlântico para ser mera exportadora de commodities para certos países do Grande Norte Que Talha o Corte. Questão de oligarquia: esta sim, a verdadeira côrte que talha o corte¹ — nas riquezas, na justiça, na carne.

Fantasia-se um Brazil ilha-continente como uma Austrália só que ainda mais verdejante. Porém, com tal ilhão só dividimos o clima banhado de sol e o desprezo assassino por aqueles que ali já habitavam. Atualidades de antes: “Nossos índios nossos mortos”, já dizia o poeta²; “nossos filhos nossos mortos” lamenta alguém hoje numa favela.

Ilusões de uma ilha-Brasil para alguns se desfazem: à parte nossa maneira de falar a língua portuguesa com sotaque e expressões brasileiras, em quase todos os aspectos somos feitos das mesmas problemáticas sociais, econômicas, políticas e culturais que muitos países, sejam estes latino-americanos, caribenhos ou africanos. Vide o Haiti, fantasma sempre presente por aqui: já no início do século XIX a elite luso-brasileira temia o “risco de uma haitização”, no sentido da uma revolta dos mais explorados, no caso, escravos e negros libertos³. Se a elite brasileira tanto temia — e se armou de policias, milícias e exércitos para se resguardar — era porque as estruturas de ambas sociedades eram próximas, bem mais próximas do que hoje se costuma imaginar. “O Brasil foi criado pra ser saqueado e não pra ser desenvolvido. E continua sua sina” (Lúcio Tavares). Taí o resumo do sentido da história do Brasil, “um país do futuro do pretérito” (Sama); sim, e onde o povo foi preterido. Ficção de científica barata onde o a máquina futurística do tempo — alimentada por energia Pré-salina — agora só vai na direção retrógrada e quer voltar ao primeiro de abril de 1964, ao AI-5 de 1968 ou, direta e cruamente, ao tempo do Brasil-colônia e escravocrata.

As problemáticas do Brasil se assemelham também, dependendo do aspecto e do caso, as de países asiáticos e europeus, conquanto que estes sejam periféricos no sistema global de hegemonia econômica, cultural e militar. Temos muito em comum até mesmo com as camadas das populações desfavorecidas, mesmo dentro de países centrais e desenvolvidos: negros, latinos e sem-teto nos EUA, Coletes Amarelos na França, desempregados da Itália ou subempregados de um Reino Unido neo-liberalizado…

Eis a ilha-Brasil, indescoberta e vil! Só os comandantes dos navios do Norte sabem o valor da sua pepita. Ilha que nunca se autodescobriu continente de gente, gente com mesmos problemas que outros no mundo indigentes, colonial e adormecidamente subservientes.

A saída é: desilhe-se — construa suas pontes. E para sua saúde, modere e filtre o que você ingere.
E pratique a LutAnálise: façamos nós e faça você também a sua parte!


 

Notas:
¹Não sou oposição apenas ao neoliberalismo e à destruição da nossa constituição, mas também ao artigo do novo acordo ortográfico da língua portuguesa que fez praticamente desaparecer os acentos diferenciais. Sou então pelas liberdades poéticas e a da nação: utilizemos desobedientemente os acentos diferenciais para facilitar a compreensão.

²Nossos índios nossos mortos, título sugerido pelo jornalista e poeta Félix de Athayde para o livro de Edilson Martins lançado em 1978 pela editora Codecri, do jornal O Pasquim. À propósito de Félix de Athayde: ele, assim como todo o círculo próximo ao então governador de Pernambuco Miguel Arraes, fez parte da primeira lista de perseguidos pelo golpe militar em abril de 1964, refugiando-se numa embaixada e partido para o exílio no México.

³A revolta do Haiti, ou Revolução Haitiana (1791-1804), que levou à independência a então colônia francesa à base de latifúndios açucareiros, foi a primeira revolta dos escravos bem-sucedida nos tempos modernos.

 

Assista ao trecho participação de João de Athayde no Duplo Expresso de 29/mar/2019:

 

Extra:

O Verdadeiro Vale-Tudo

 

A Ilha da Fantasia Brazil

 

* João de Athayde é antropólogo carioca residente na França (Aix en Provence). É doutor na Universidade de Aix-Marselha, França e vinculado ao IMAF (Institut des Mondes Africains/ Instituto dos Mundos Africanos) com pesquisa sobre as heranças culturais ligadas ao tráfico de escravos no contexto do Atlântico Negro, em especial sobre identidade, religião e festa popular entre os Agudàs, descendentes dos escravos retornados do Brasil ao Benim e Togo, numa perspectiva comparativa entre a África e o Nordeste Brasileiro. Ele participa e comenta no Duplo Expresso às sextas-feiras.

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