A Árvore Cheia da Jabutis

Por Pedro Augusto Pinho*, para o Duplo Expresso

Vivemos, como no Império, a farsa do Poder. Uma família que vivia faustamente às custas do povo que a aplaudia. Hoje somos uma nação escrava, votando e apoiando o opressor.

Com o descaramento que borda o cinismo, ouvimos que o País exige a “reforma da previdência” que nos levará, daqui a 15/20 anos, a encontrar o nirvana. Eu retruco, estatizem o sistema financeiro e, em um ano, o Brasil estará crescendo como nunca.

Envia-se com a “reforma da previdência” a “reforma penal”. Observe, caro leitor, o que ocorre na França, país onde ocorreu a Revolução que mudou o mundo no século XVIII.
Aquela Nação é presidida por antigo empregado do Banco Rothschild que vem implantando a lei da banca. O que é a lei da banca, também em pleno vigor no Brasil? Que a única obrigação de todos os dirigentes, públicos ou privados, é obter e distribuir o máximo lucro para os acionistas. E quando não houver acionista? Então a instituição deve promover o maior endividamento e colocar o pagamento dos juros acima de qualquer outra despesa.

Não importa que acarrete mais de 250 mortes, como em Brumadinho, que hospitais, UPAs, clínicas da família, do Sistema Único de Saúde (SUS), estejam carentes de recursos e as pessoas sofram dores físicas, agravamento das doenças, que haja mais crianças, em idade escolar, fora do que dentro dos estabelecimentos de ensino, desde que os bancos recebam juros imorais, escorchantes a cada dia, a cada mês, todos os anos.

A lei da banca exige que não haja aposentadorias. Por que? Porque as economias para a velhice tranquila devem ser jogadas no cassino da banca, sem compromisso com o esforço dos poupadores nem com os pagamentos devidos num futuro que, muito provavelmente, jamais ocorrerá. Sabia, caro leitor, que o Chile, onde aprendeu Paulo Guedes, o Ministro da Economia, e de onde trouxe esta ideia anti-humana, é campeão mundial de suicídio de idosos?
Agora, na França contra os “coletes amarelos” e no Brasil, preventivamente contra os protestos pela miséria crescente, surge a “lei contra depredações” (loi anticasseurs), denominada pela oposição a Emmanuel Macron: lei liberticida. O que pretende o governo com a “reforma Moro”? Um Estado de guerra?

Analisemos com isenção o que se passa com o sistema financeiro internacional, a banca.

A Banca Empoderada

“Crises financeiras internacionais tendem a ocorrer a cada dez anos. Elas se alternam, ora em países desenvolvidos ora em emergentes, e a crise de 2008 foi dos mercados desenvolvidos”, afirmou Tamim Bayoumi, diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI).

As crises provocadas pela banca, desde 1987, após seu empoderamento foram 10; uma a cada dois anos, nestes últimos 20. Não sei o que o diretor Bayoumi considera “mercado desenvolvido”, mas estas crises tiveram os seguintes epicentros:
1987 – Estados Unidos da América (EUA) – Bolsa de Nova Iorque;
1990 – Japão – Bolha imobiliária;
1992 – Reino Unido (UK) – Sistema Monetário Europeu;
1994 – México – “El Horror de Diciembre”, no Brasil chamou-se “Efeito Tequila”;
1997 – Tailândia – Crise do Bath;
1998 – Federação Russa – Programa neoliberal de Boris Iéltsin;
1999 – Brasil – Reeleição de Fernando Henrique Cardoso;
2000 – EUA – Ponto com, a bolha da internet;
2001 – Argentina – Política neoliberal de Carlos Menem e Domingo Cavallo; e
2008 – EUA – Subprime.

E, quer tsunami quer marolinhas, todas provocaram devastações em todo “mundo globalizado das finanças”.
Hoje o mundo está mais endividado do que há dez anos. Enquanto em 2008 a dívida total do mundo, considerando famílias, empresas e governos, era de US$ 178 trilhões, ou 291% do PIB global, hoje ela chega a US$ 249 trilhões, ou 318% do PIB global, de acordo com o Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês), formado pelos 500 maiores bancos do mundo. Por que?

Ora, caro leitor, a banca, o mercado ou o sistema financeiro nada mais significa que o cassino, onde se joga, mais do que dinheiro, a vida das pessoas. Não estou sendo alarmista nem estou delirando, pretendo demonstrar a vocês.

O que propõe o neoliberalismo? A competitividade. Mas a competitividade para obter o que? Maior ganho. A simples compreensão destes axiomas da banca mostra que a produção, a ética, não são objetivos nem valores da banca.
E ela demonstra a que veio com seus paraísos fiscais, com a lavagem de dinheiro de todas as origens, com a desenfreada especulação nos mercados financeiros, impondo desregulações, “independências” dos Bancos Centrais, que leva às corrupções e ao aumento permanentemente da concentração de renda.

Se o caro leitor acompanhou a notícia do pré-sal, uma Arábia Saudita nas águas profundas da costa brasileira, pode constatar que tudo que a banca mais divulga, pelos seus meios de comunicação de massa, é mentira.
Quando foi noticiada a descoberta do pré-sal, o sistema Globo, repetido por quase todos veículos de comunicação, afirmou: o pré-sal só existe na cabeça dos políticos. Logo que se confirmou, inclusive pelos órgãos especializados, no exterior e no Brasil, a riqueza descoberta, as mesmas mídias garantiram que a Petrobras não tinha tecnologia para desenvolver o pré-sal (hoje já se sabe que a Petrobras é a única que a tem, desenvolvida na própria empresa), comprovada a capacitação da Petrobras, passaram a divulgar que a Petrobras estava falida. Mas os próprios balanços da Petrobras, comparados com os das grandes petroleiras privadas, revelaram o contrário. A Petrobras tinha indicadores de liquidez, geração de caixa, muito superiores aos daquelas cujos maiores acionistas são os manipuladores do “mercado”, ou seja, a própria banca (Vanguard, BlackRock, State Street, Fidelity, BNY Mellon etc).

Agora, para se apropriar dos recursos, poupados pelas pessoas que trabalham e pelos valores, muitas vezes sonegados, aportados por seus empregadores, cuja gestão cabe aos governos, sem qualquer compromisso com a garantia de vida, nem mesmo digna, dos idosos, a banca novamente mente e ameaça para colocar no seu cassino esta outra riqueza. É a “reforma” da previdência.

Contrarreforma da Previdência

Transcrevo, em síntese, o texto que compara a situação previdenciária atual com a proposta pela banca, como Carta Capital divulgou.
“Especialistas avaliam que o projeto aprofunda a desigualdade de gênero, fragiliza a Previdência e, no longo prazo, pode tornar uma massa de idosos miseráveis, dependentes de um benefício menor que o salário mínimo.

Carta Capital calculou o que muda para seis perfis bastante afetados pela proposta de Bolsonaro. Os dados são da calculadora do Dieese, criada em 2016, sob a proposta de Temer e adaptada pela redação às regras da Previdência de Bolsonaro.

1 – Estudante de 20 anos ingressando no mercado de trabalho
Regra atual: 65 anos, depois de ter contribuído por, pelo menos, 15 anos. E receberá 85% da média do salário de contribuição
Regra nova: 65 anos, depois de ter contribuído por, pelo menos, 20 anos. E receberá 60% da média do salário de contribuição. A idade pode aumentar quando a expectativa de vida dos brasileiros subir.
Quando receberá aposentadoria integral?
Regra atual: 40 anos de contribuição e estará com 60 anos
Proposta do governo: 40 anos de contribuição e estará com, pelo menos, 65 anos

2 – Trabalhadora rural de 43 anos com 5 anos de contribuição
Regra atual: 55 anos, depois de ter contribuído por, pelo menos, 10 anos. E receberá 85% da média do salário de contribuição
Regra nova: 60 anos, depois de ter contribuído por, pelo menos, 15 anos. E receberá 60% da média do salário de contribuição
Quando receberá aposentadoria integral?
Regra atual: aos 68 anos, caso contribua por mais 25 anos
Proposta do governo: aos 78 anos (limite para aposentadoria compulsória), caso contribua por mais 35 anos

3 – Mulher de 37 anos com 13 anos de contribuição
Regra atual: aos 60 anos, depois de ter contribuído por, pelo menos, mais 2 anos. E receberá 85% da média do salário de contribuição
Regra nova: aos 62 anos, depois de ter contribuído por, pelo menos, mais 7 anos. E receberá 60% da média do salário de contribuição.
Quando receberá aposentadoria integral?
Regra atual: aos 57 anos, caso contribua por mais 20 anos (considerando o fator previdenciário)
Proposta do governo: aos 64 anos, pelo menos, caso contribua por mais 27 anos

4 – Homem de 60 anos com trinta anos de contribuição
Regra atual: aos 65 anos. E receberá 100% da média do salário de contribuição
Regra nova: aos 65 anos. E receberá 80% da média do salário de contribuição
Quando receberá aposentadoria integral?
Regra atual: aos 65 anos, caso contribua por mais 5 anos
Proposta do governo: aos 70 anos, caso contribua por mais 10 anos

5 – Professora de 43 anos com vinte anos de serviço público
Regra atual: aos 50 anos. E receberá 90% da média do salário
Regra nova: aos 60 anos, depois de ter contribuído por, pelo menos, mais 10 anos. E receberá 60% da média do salário de contribuição
Quando receberá aposentadoria integral?
Regra atual: aos 56 anos, caso contribua por mais 13 anos
Proposta do governo: aos 63 anos, caso contribua por mais 20 anos

6 – Funcionário público de 32 anos com 7 anos de serviço
Regra atual: aos 60 anos, depois de ter contribuído por, pelo menos, mais 5 anos. E receberá 85% da média do salário de contribuição
Regra nova: aos 65 anos, caso contribua por mais 18 anos. E receberá 60% da média do salário de contribuição
Quando receberá aposentadoria integral?
Regra atual: aos 61 anos, caso contribua por mais 28 anos
Proposta do governo: aos 65 anos, caso contribua por mais 33 anos.

Como podemos resumir esta proposta? Escravidão e morte.

Temos assim a síntese da condição humana proposta pela banca: uma vida de trabalho escravo e a morte para o descanso. E, qual seria a oposição a esta situação?

Indústria e Finanças no Século XX

A grande mudança social do século XIX veio com a industrialização. Se o ilustrado leitor for observar na história, da Europa e do Brasil, as atividades que chamarei industriais – os artesãos, os ferreiros, os construtores – estavam, entre os homens livres, nas posições sociais menos valorizadas.

No recente artigo “Precisa-se Oposição”, acatando a estrutura de classes de Décio Freitas para o Brasil Colônia (Palmares – A Guerra dos Escravos), escrevi: Na base da pirâmide dos homens livres estavam os artesãos, os “oficiais mecânicos”, os “industriais”.

O que acarretou a industrialização, empreendida pelos barões ladrões (robber barons) estadunidenses, em oposição ao mercantilismo financeiro inglês, foi a emergência desta classe que ficou tão ou mais ricas que os comerciantes-financistas. E, na própria lógica do desenvolvimento industrial, a criação de consumidores exigia, com a parcimônia capitalista, um mínimo de distribuição de renda.

Adotando as sístoles e diástoles do General Golbery do Couto e Silva, a industrialização é a diástole, a banca é a sístole. Enquanto uma abre e incorpora consumidores e contribuintes à sociedade, a outra restringe e assassina.

As ações demonstráveis e necessárias para manutenção e crescimento da banca são apresentadas como teoria da conspiração, ou seja, as centenas de milhares ou milhões de mortes no Iraque, na Líbia, na Síria, no Afeganistão, na Ucrânia são punições divina.
E foi apenas uma resposta a dois inimigos da banca: a cultura não adaptável aos padrões impostos pela pedagogia colonial, que o comentarista do Duplo Expresso, João de Athayde, denomina “sistema holywoodiano de entretenimento e hegemonia” e o crescimento demográfico que pressiona lideranças políticas a ações em favor do povo. A justiça, no universo da banca, é um instrumento de pressão e controle social. Vemos claramente no Brasil, nos EUA e, com os coletes amarelos, expõe-se na França, onde sempre foi instrumento de classe.

Outra força de pouca estima da banca são as Forças Armadas, principalmente quando se revelam nacionalistas (recorde o golpe no Presidente Geisel). Aos nacionalismos a banca opõe a pasteurização de tudo, do vestir ao comer, até do sentir e amar. Não é outro motivo a criminalização das religiões de matriz africana, a indisponibilidade para consumo de produtos nacionais, em especial os industrializados (veja a dificuldade de encontrar cajuína, mate para chimarrão, ou mesmo uma soda local – mineirinho, para serem bebidos no lugar da pepsi/coca-cola). Talvez num momento raro de honestidade a banca se declarou global.

Na campanha da banca pela “reforma” da previdência foi dito, com a leviandade de quem se sabe impune, que a economia iria crescer, aprovada a reforma. Mostrando que nada disso ocorreria, os bancos trataram de elevar os juros das pessoas físicas (menos consumo, menor produção) e o Monitor Mercantil (28/02/2019) noticia: “Empréstimo bancário às empresas recua 2,7% em janeiro”. Alguma dúvida quanto ao desemprego que se seguirá à recessão? E a global banca também penaliza o brexit; pelo Monitor Mercantil de 19/02/2019, ficamos sabendo que a Honda, na Inglaterra, será fechada.

A banca acolhe com interesse as questões identitárias, ecológicas e todas as questões transversais, pois desfocam e não perturbam seus objetivos de se apropriar de todos os ganhos – venham de lucros, alugueis, impostos, trabalho – e transformá-los todos em ganhos financeiros, seja pelas dívidas, seja por legislações que sua ação corruptora estabelece. E promover a permanente concentração de renda, um objetivo autofágico.

E nossa frondosa árvore, no lugar de frutos que não produz, acolhe jabutis.

*Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado

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