Muito Prazer, Sra. Marion Mahony Griffin!

Por Carlos Krebs, para o Duplo Expresso

 

A semana que passou marcou outro oito de março. Mais uma oportunidade para refletirmos sobre quais condições estão os direitos das mulheres na nossa sociedade.

Quando entrei na Faculdade de Arquitetura no final dos anos 80, as meninas já representavam dois terços dos novos alunos no curso da Federal do Rio Grande do Sul. Provavelmente esta fosse uma tendência em outras unidades, não sei. Acontece que esta maioria era quase invisível na relação professor-aluno. Demorei muito tempo para perceber que, independente de meu trabalho ser bom ou não, eu sempre era ouvido. Mas quantas colegas sofriam da audição seletiva dos professores? Quantas teriam que ter um trabalho espetacular para chegarem a merecer uma observação? Isso era explícito e, ao mesmo tempo, um comportamento aceito. Algo normalizado…

Frank Lloyd Wright (1867-1959) é tido como um dos arquitetos mais influentes do século XX. Apesar de praticamente um autodidata (deixou a Universidade do Wisconsin-Madison após dois semestres e recebeu a comenda de Doutor Honoris Causa em Artes em 1955), teve uma carreira fulgurante, com mais de 500 prédios construídos e aproximadamente 1000 projetos realizados. O Instituto Americano de Arquitetos postumamente conferiu a Wright o título de “maior arquiteto americano de todos os tempos”, em 1991.

Muito antes de conseguir entender o que significavam seus projetos, fui seduzido pelos desenhos destes. Por suas representações. Pela força daquelas imagens. Nos seus livros, sempre admirei a capacidade produtiva, a beleza dos traços e o cuidado com os detalhes. Fazia tudo – um clínico-geral da Arquitetura: da estrutura ao telhado, do cuidado com o encaixe entre os planos até o mobiliário. Mas será que ele fazia realmente tudo, como os professores e os livros davam a entender?

Era uma época em que as mulheres orbitavam em tarefas consideradas menores ou acessórias. São exemplos de desafio ao comportamento esperado para elas, Elsie de Wolfe (1859-1950), atriz e decoradora estadunidense, Vanessa Stephen Bell (1879-1961), uma pintora e designer de interiores inglesa, e Sonia Terk Delaunay (1885-1979), uma artista e designer nascida na Ucrânia e criada na França.

Entre estas mulheres pioneiras, temos Sophia Gregoria Hayden Bennett (1868-1953). Nascida no Chile, de mãe peruana e pai estadunidense, graduou-se com louvor no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) em 1890. Formada, foi trabalhar como professora de Desenho Técnico – como poderia uma mulher pretender projetar, não é mesmo?

No ano seguinte, quando foi anunciado um concurso público para o Edifício da Mulher, dentro parque da Feira Mundial de Chicago (1893), que comemoraria os 400 anos da chegada de Cristóvão Colombo nas Américas, ela resolveu apresentar seu trabalho de conclusão de curso. Sua proposta de um edifício de três pavimentos no estilo renascentista italiano foi eleito o vencedor pelo júri. Com apenas 21 anos, Sophia Hayden recebeu mil dólares como prêmio, aproximadamente 10% do que receberia um homem pelo mesmo tipo de projeto.

Entretanto, o comitê de construção não aceitou o comando de uma mulher nesta empreitada, e pressionaram ao máximo para afastá-la. Diagnosticada como “histérica”, foi internada em um sanatório por rumores de ter surtado. Com isso, foi impedida inclusive de participar da cerimônia de inauguração do edifício. Esta armação foi usada por muitos homens como “prova” de que mulheres não poderiam ser arquitetas.

Imagem esq: cartaz em litogravura para a exposição Arte e Artesanato no Prédio das Mulheres, Feira Mundial de Chicago por CC Madeleine Lemaire – University of Radford Digital Library (1893) | Imagem dir: Prédio das Mulheres da arq. Sophie Heyden por CC Digital Archive of American Architecture – Glimpses of the World’s Fair (1893)

Mas estou aqui para oferecer meu tributo a uma outra mulher de imenso talento. Descobri muito tardiamente que foi a beleza do trabalho realizado por Marion Mahony Griffin (1871-1961) a responsável por fisgar-me pelos olhos à obra de Frank Lloyd Wright. Isso aconteceu depois de descobrir a importância de Margareth Macdonald no trabalho do expoente do Art Nouveau – Charles Rennie Mackintosh.

Assim como Sophia Hayden anteriormente, Marion Mahony desafiou a lógica do final do século XIX e formou-se em Arquitetura pelo mesmo MIT, em 1894. Mas sua história foi mais feliz. No ano seguinte, estava trabalhando no novo escritório de Wright, desenhando prédios, móveis, vitrais e painéis decorativos. Foram as perspectivas e aquarelas produzidas nesta época que estabeleceram a marca do estilo de Wright.

Justamente as mesmas que me arrebataram a buscar como funcionavam aqueles projetos. As que me fizeram a buscar replicar conceitos e detalhes em obras de quase um século depois. E que, quanto mais estudava o que a universalidade de cada peça individual representava, mais e mais identificava-me com ele.

A parceria profissional de Marion com Wright durou quase quinze anos. No final de 1909, Wright ganha as manchetes dos jornais por abandonar seus trabalhos, sua esposa e filhos para fugir para o continente europeu. Na mala levou a esposa de um cliente… Enquanto o circo pegava fogo, Marion ficava com o trapezista: casava com Walter Burley Griffin, assumia os projetos abandonados por Wright e sutilmente trocava o monograma (sempre oculto em meio a vegetação desenhada) com o qual assinava seu trabalho.

Apesar de aparentemente simples, aqui estão alguns destes:

Imagem 1: Lake Delavan Clubhouse (1902) | Imagem 2: Andrew Porter Cottage (1907) | Imagem 3: Arte-final para a moradia de Henry Ford, Dearborn USA por © Mary and Leigh Block Museum of Art (1912) | Imagem 4: Marion Mahony Griffin por © National Library of Australia (1935)

 

Imagem 5: Projeto para uma Residência Suburbana por Marion Griffin (sem data) | Imagem 6: Propaganda veiculada em jornal para venda de casa “pré-projetada” por The Chicago Sunday Tribune, Chicago USA (1917)

O casamento com Walter Burley rendeu ao casal 28 anos de trabalhos juntos. Ainda nos Estados Unidos desenvolveram inúmeras residências no estilo “Praire” – casas com linhas marcadamente horizontais, coberturas quase planas com lajes terminando em beirais, janelas agrupadas e justapostas, e a integração com a paisagem. Residências robustas que usavam texturas e relevos, mas que mantinham uma discrição quanto ao uso de ornamentos.

Em 1912, as aquarelas de Marion Mahony Griffin auxiliam decisivamente na vitória do marido no concurso internacional para o Plano Urbano da nova cidade de Canberra, capital da Austrália. Dois anos depois eles mudam-se para a Austrália, desenvolvendo outros projetos de largo alcance no país. Na década de 20 vão para a Índia, na busca pelo frescor das novas democracias recém criadas nas ex-colônias no Oriente do planeta.

Tríptico com aquarela serigrafada mostrando a “Vista do Topo do Monte Ainslie – Canberra, AUS” by CC Marion Mahony Griffin, Canberra, AUS (1912)

 

Aquarela serigrafada com o “Desenho da Cidade de Griffith, AUS” by CC Marion Mahony Griffin Canberra AUS (1913)

 

Aquarela serigrafada com o “Desenho da Praça Central da Cidade de Leeton, AUS” by CC Marion Mahony Griffin Canberra AUS (1913)

Em 2005, o Block Art Museum da Universidade de Northwestern, no estado do Illinois (USA) apresentou uma extensa exposição com os trabalhos desta arquiteta e artista gráfica. A exibição dá origem ao livro “Drawing the Form of Nature”, onde também estão compiladas suas representações da flora australiana – um trabalho que lembra o da botânica inglesa Margaret Mee na Amazônia brasileira.

Sua personalidade pode sintetizar uma destas primeiras arquitetas invisíveis, que abriram o caminho para a atuação feminina na indústria da construção e que muito pouco, ou quase nada, ouve-se falar. Cabe a todos ficarmos com os sentidos muito mais alertas para as contribuições de que qualquer mulher seja capaz de oferecer. Para melhorar o mundo, o respeito e a igualdade de oportunidades seriam passos fundamentais.

 

 

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