(1) Brasil em chamas: tábua de salvação? (2) Ode às SenadorAS, por Romulus


Por Romulus

Réquiem de Atualização (quarta-feira – 4/5/16):

O post a seguir foi escrito na segunda-feira à noite. Tudo continua extremamente atual, contudo.

Apenas duas coisas a acrescentar:

(1) A tábua de salvação da Sen. Vanessa, como esperado, foi recusada e derrotada em votação na comissão ontem; e

(2) Janot, em resposta à clara vitória técnico-jurídica na comissão* saiu-se com o seu Tsunami de denúncias no STF.

Uma vez mais volto à frase de meu amigo Ciro:

Não suponha malícia onde burrice explicaria. Pois malícia existe sim, mas burrice abunda.

(1) A bancada do golpe comprovou sua validade mais uma vez; e

(2) Janot e a PGR – mais do que ninguém até agora – a comprovou mais uma vez.

Por que Janot/PGR/MPF?

Pensava eu que a única pessoa com visão de estratégia tosca fosse Moro e os pitbulls do MPF em Curitiba.

– Que nada! Janot é tão tosco quanto!

O que ele ganhou com esse movimento de ontem?

(i) Não só Lula mas todo o PT sendo empurrado por ele para o tudo ou nada, pois não tem mais nada a perder;

(ii) Colocou os ministros do STF do bloco “em cima do muro” em posição dificílima:

– Se lavarem as mãos estarão não só convalidando o golpe na Constituição mas também o genocídio dos membros de todo um partido político e, grosso modo, da esquerda.

Que visão tem Janot, hein?

Que belo enxadrista (!)

– Só que ao contrário e ao cubo!

Uma vez mais a frase de Ciro:

Não suponha malícia onde burrice explicaria. Pois malícia existe sim, mas burrice abunda.

Respondendo à minha própria pergunta final no post:

Sim, a resposta nesse caso foi a prevalência da estatística. A abundância da burrice venceu a escassez de malícia em Brasília.

Pobre Brasil!

*Para comentários sobre todas as apresentações e intervenções nas duas sessões técnicas da comissão do impeachment no Senado vá à minha timeline no Twitter (@rommulus_), onde comentei tudo ao vivo.

Talvez em momento futuro eu consolide toda essa análise no Twitter em um post-resumo das sessões, se o tempo – e o descompasso do fuso-horário – me permitirem.

****************

Parte 1 (Parte 2 logo abaixo):

Comentário ao post: Xadrez de um período obscurantista que se espera breve, de Luis Nassif.

Depois de ver a questão de ordem da Sen. Vanessa Grazziotin (ver “Senadora pede suspensão de impeachment até julgamento das contas de 2015”, aqui no GGN) e discutir com algumas outras pessoas sou da seguinte opinião:

– Temer, se esperto, imitou a tripulação de Odisseu e já tapou os ouvidos com cera de abelha contra os cantos das sereias. Já vê que o buraco é MUITO mais embaixo. Note como sumiu e como está muito menos aguerrido em suas manifestações.

– A completa desmoralização do golpe entre quem tem discernimento internamente (como Nassif coloca em seu post) e no publico em geral e na elite política – via mídia estrangeira – no exterior tem peso relevante. O preço do golpe aumentou e o retorno diminuiu.

– Temer não antevia chegar à Presidência tão fragilizado dentro e fora do Brasil. E com a sociedade tão conflagrada. Imagine como a sede e a fome dos apoiadores de ocasião não aumentou diante de sua debilidade. Têm agora muito mais alavancagem. O problema de Temer agora é que não tem como recuar do golpe. Queimou as “caravelas” como Cortez. Ele agora sai chamuscado em qualquer cenário.

– Chances de seu governo ser – na melhor hipótese – apenas regular já eram pequenas. E diminuíram muito nesse ultimo mês.

– Chances de chegar como eleitor de peso ou candidato competitivo em 2018 são inexistentes. Nem queimando todas as reservas de divisas em populismo cambial por 2 anos faria esse “milagre”. Ficaria bem com a classe media habitué de Miami e com o mercado financeiro. E só. O problema é que nem esses atores, que têm sua importância, gostam de coração de Temer. Só o veem como o cavalo para implantar a agenda liberal. Em 2018 outros oferecerão o mesmo com um custo de imagem e de “custeio” da máquina (if you know what I mean$) bem menor.

Ponto relevante

– A briga institucional ficou incerta:

(1) Senadores da bancada do golpe/Janaina dão cavalo de pau na acusação e mostram que não confiam 100% no sucesso da peça atual;

(2) STF já corta o voo desse cavalo de pau na saída, dizendo ainda na sexta-feira ao experiente – e precavido – presidente da Comissão do impeachment que o que vale é a denuncia atual mesmo. Note que isso em si já é uma mini-peitada (ainda que óbvia) na bancada do golpe;

(3) FINALMENTE Teori pede para julgamento de Cunha ser pautado no STF. Mais uma mini-peitada. A ver o desdobramento;

(4) Cunha, sendo Cunha, tranca a Câmara até impeachment sair e ARROTA que “já não reconhece Dilma como Presidente”. Suas tratoradas PÚBLICAS em cima das instituições se tornam disfuncionais até para o golpe – como a seu tempo foi Aécio, devidamente alijado. Aliás, essa de Aécio foi mais uma pedra que Nassif cantou antes de todos na série “Xadrez…”

Fora isso, Cunha tem seu enorme custo de imagem.

Por outro lado, continua tendo sua alavancagem obscura e desconhecida do grande publico para cima do sistema politico – e do STF também?

– Muitas dúvidas aqui…

Resultado:

– Quem pode botar a mão no fogo e afirmar com certeza hoje que o golpe sai e que Dilma não volta – nem via STF nem via julgamento de mérito no Senado?

Coringa:

– O “bode na sala” das eleições antecipadas continua na sala. E tem gente que quer botar ele na roda de fato como última cartada. Que bicho que dará isso? Alguém se arrisca?

Voltando então ao início do post, ou seja, à questão de ordem da Sen. Vanessa:

– Se os dois lados da disputa política tivessem o mínimo de inteligência – assim como o STF – em vista de todas as incertezas acima pediria um tempo com bola parada para recalcular apostas e refazer estratégias.

Como?

– Aprovando o requerimento da Sen. Vanessa na Comissão e levando o mesmo ao STF.

– Assim – sem julgar o mérito do impeachment – já se tiraria uma temperatura (no momento atual) do STF.

Sobre o quê?

– O impeachment, ora!

– Isso apenas dos debates entre os Ministros num eventual julgamento. Porque se eles fossem espertos, independentemente de serem a favor ou contra a saída de Dilma, fariam o jogo e defeririam o requerimento da Sen. Vanessa.

Por quê?

– Porque isso permite – sem julgar o mérito do impeachment – adiar ele por pelo menos um par de meses. Tempo suficiente para as nuvens atuais se dissiparem um pouco. E para o juízo e a frieza voltarem aos Políticos – com “P” maiúsculo! – dos dois lados.

(Nota: veja o que são Políticos com “P” maiúsculo em: “Parábola multi-sincrética de duas tribos em guerra, por Romulus”)

– Tempo para verem que a dinâmica do golpe como está posto hoje é perde-perde e não ganha-perde. Pode, ao contrário, até se tornar perde-ganha para 2018!

– Isso incentivaria um armistício discreto com os termos “menos ruins” possíveis para os dois lados.

– Só assim se pode contornar o espírito de alquimista político intoxicado – desastrado e míope – que possuiu o corpo do PGR, Rodrigo Janot.

– Arre! Sai desse corpo que não te pertence!

– Aparentemente ele e o MPF só respondem à própria corporação e são extremamente míopes e arrogantes.

– Isso já se extraía do pedantismo de suas manifestações públicas. Sempre absolutas! E rasas como uma colher de sopa…

– Acham que os seus salários brotam em árvores – e independem da economia e das contingências do orçamento (haha) – e que a tolerância do sistema politico com seus abusos e facas no pescoço não terá fim (haha (2)). Estão embriagados pelos holofotes e acham que a mídia sempre lhes dará palanque e proteção, em qualquer hipótese (haha (3)).

– Volto à frase do meu amigo Ciro D’Araújo, que fez sucesso no post “Uma análise do discurso de Janaina no Senado por Romulus”:

Não suponha malícia onde burrice explicaria. Pois malícia existe sim, mas burrice abunda.

– Acrescento: a resposta é em geral estatística.

– O caso do PGR/MPF parece cada vez mais apontar para uma clara aplicação dessa deliciosa frase do sábio Ciro.

– Nesse tempo que a Sen. Vanessa está possibilitando às partes seria possível ainda tomar cautelas quanto à ação disfuncional do PGR/MPF para que o possível acerto não fosse ameaçado por eles.

Ou seja:

– Se os polos políticos antagônicos e o STF fossem espertos (vejam que, para nossa desgraça, o tempo verbal é condicional…) abraçariam sem piscar a tábua de salvação que a Sen. Vanessa Grazziotin lhes jogou.

– São todos muito seniores e vividos para agir sem cautela. Por um lado, isso me dá esperança. Mas, por outro, lembro do Ciro falando mais uma vez:

Não suponha malícia onde burrice explicaria. Pois malícia existe sim, mas burrice abunda.

Acrescento, mas agora interrogando:

– A resposta será estatística?

***************

Parte 2:


Mulheres arrasam na Comissão do Impeachment no Senado

Ia fazer um post sobre isso – pois o tema é merecedor – mas me faltou tempo. Troquei alguns tweets com Nassif e outros logo após o fim da sessão do Senado na sexta-feira. Neles observei como, na média, o desempenho dAs SenadorAs é MUITO superior ao dOs SenadorEs.

E isso independentemente de serem contra ou a favor do golpe, de direita ou de esquerda:

– Gleisi Hoffmann

– Vanessa Grazziotin – olha ela aqui de novo!

– Rose de Freitas

– Simone Tebet

Essas com argumentação técnica na ponta da língua. Não com notas de assessores decoradas (que vergonha alheia de alguns ali por isso…), e sim porque realmente dominam os assuntos de que estão falando. Além disso, não incorrem tão facilmente nos exageros retóricos dos Senadores homens. Penso que por estilo mas também porque o conteúdo – sólido – se sobrepõe à tentação de carregar na retórica e acabar ofuscando a mensagem.

– Mesmo a Sen. Fátima Bezerra – com intervenções mais políticas e mais “para a plateia” – foi muito superior à média dos seus pares homens com a mesma proposta. Não nos enganemos: intervenções dessa natureza têm o seu espaço em sessões desse tipo. São tão necessárias quanto os ataques técnicos.

Bônus (e que bônus!):

– Katia Abreu.

– Sim, está licenciada do mandato de Senadora mas foi eleita para a mesma legislatura.

– Kátia casou uma apresentação tecnicamente solidíssima com uma retórica impecável. Emotiva no tom certo para passar sinceridade.

Bônus do bônus:

– Como bem anotou o Nassif: postura da Ministra Katia Abreu foi prova definitiva de que caráter independe de coloração ideológica.

– Que caráter! Que dignidade.

– A chamada que ela deu depois da gracinha infeliz do Sen. Caiado mostrou toda a sua autoridade moral e calou-o imediatamente.

– Pena que não havia taça de vinho em sua mão. Caiado mereceu ser “refrescado” como Serra o fora em outra ocasião.

E o que isso nos mostra?

– Na política – como em todas as demais profissões – não basta à mulher ser tão boa quanto o homem. Ela tem que ser – não um pouco mas – muito superior ao homem para:

(1) chegar ao mesmo lugar,

(2) manter-se nele e

(3) destacar-se ali.

– Vejam que as Senadoras foram escolhidas por suas bancadas para representa-las nessa Comissão.

– Comissão de suma importância.

– Evidentemente ganharam a confiança de seus pares não pela graça natural das mulheres mas pela competência que demonstraram previamente no Senado.

– E não decepcionaram!

Mulheres, parabéns! Golpistas ou democratas, vocês estão muito mais bem representadas que nós homens no Senado.

Fiquem felizes com isso, mas fiquem também tristes. Pois lá, no Senado, o machismo do mercado de trabalho também está presente.

Aliás, isso me dá uma ideia. Acabo de estabelecer um novo termômetro para o avanço da igualdade de gênero no país:

– Estaremos próximos da maturidade quando mais da metade da mesa diretora do Senado – a Câmara alta, sênior, do Parlamento – for ocupada por mulheres.

– Ora, não provaram sua superioridade no Senado? Então a igualdade de oportunidades para homens e mulheres deverá refletir-se necessariamente em ocuparem a maioria da mesa diretora!

– Maioria eleita por seus pares, com o devido reconhecimento do valor das Senadoras pelos Senadores.

– Viva a meritocracia, não?

– Enquanto for menos do que isso, o machismo também está refletido no Senado.

P.S.: ausência que se faz notar na Comissão do Senado e na minha lista de destaques femininos:

– Marta Suplicy.

– Irônico para uma sexóloga tão identificada no passado com a luta pela igualdade de gênero.

O que lhe faltou para que tivesse a confiança de sua bancada?

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Romulus Maya

Advogado internacionalista. 10 anos exilado do Brasil. Conta na SUÍÇA, sim, mas não numerada e sem numerário! Co-apresentador do @duploexpresso e blogueiro.