Ciro Gomes, Nildo Ouriques e o Trabalhismo

Por Luis Carlos de Oliveira e Silva

  1. Os que acompanham as minhas postagens no Facebook sabem que eu fiz campanha para Ciro Gomes nas últimas eleições e que, frequentemente, ajudo na divulgação das ideias de Nildo Domingos Ouriques, a principal liderança da tendência interna do PSOL “Revolução Brasileira”.
  2. A meu ver, é impossível negar a Ciro o mérito de ter sido, dentre os políticos de ponta, aquele que mais significativamente implodiu o silêncio sobre as nossas questões de fundo, a que o sistema político formado pela polarização entre PSDB e PT nos condenou.
  3. Deste então, Ciro segue sendo, segundo penso, o mais qualificado, destemido e combativo líder antibolsonarista do nosso campo. (Em apoio a esta avaliação, eu recorro às últimas entrevistas de Ciro a Glenn Greenwald e a Bob Fernandes…)
  4. Nildo Ouriques, em minha opinião, é a mais importante e original dentre as lideranças da esquerda revolucionária dos últimos anos. Nildo é responsável no campo da esquerda atual, dentre outros méritos, pela retomada do nacionalismo e por uma reavaliação crítica, na contramão da “sociologia uspiana”, da tradição trabalhista, características estas que abrem um campo muito promissor para encontrarmos saídas para a terrível crise que nos assola.
  5. São estas características de Nildo, apontadas acima, que me fazem situá-lo, de certa forma, no mesmo campo político no qual se encontra Ciro, um ocupando a ala revolucionária e o outro a reformista, digamos assim.
  6. Apesar de todas as diferenças, há mais proximidade entre Nildo e Ciro do que entre Nildo e qualquer outra liderança de ponta do campo progressista. A crítica que ele fez do livro recém lançado de Ciro, a meu ver, só comprova esta tese.
  7. Se eu tiver que resumir a crítica contundente de Nildo ao livro de Ciro – que na verdade é a crítica que Nildo faz a Ciro “em geral” – eu destacaria dois pontos centrais:

(a) Ciro, equivocadamente segundo Nildo, considera ser possível sair da atual crise sócio-política-econômica mantida a atual “ordem”. O equívoco se deve ao fato de que, segundo Nildo, na “ordem” não há saída, já que há uma crise terminal do sistema político brasileiro combinada com uma crise global do capitalismo rentístico.

(b) Ciro, segundo Nildo, representa uma “ruptura com a tradição trabalhista”, e elenca diversos pontos – dentre eles destaco a questão do imperialismo – que comprovariam esta afirmação. Neste ponto é importante notar duas coisas:

(1) Nildo, diferentemente do que faziam a “sociologia uspinia” e o PT em sua origem, não nega a tradição trabalhista; pelo contrário, a valoriza.

(2) Nildo critica Ciro não por ele não ser um revolucionário, o que seria uma enormidade, mas por ele ser insuficientemente trabalhista…

  1. A originalidade do pensamento de Nildo – um pensador da “Pátria Grande” – reside exatamente neste ponto: ele é um “rupturista” a partir da retomada da vertente radical do trabalhismo. É evidente a influência da história da América Latina nesta concepção…
  2. Diante destas considerações, como não reconhecer que a “Revolução Brasileira” está “mal ubicada” no PSOL? Como não reconhecer que a “Revolução Brasileira” é a mais qualificada e importante “tendência externa” do PDT?
  3. Caso estivesse no PDT, a “Revolução Brasileira” talvez pudesse superar o seu mais grave problema: a ausência de propostas para aqui e agora.
  4. Dizer, como Nildo sistematicamente diz, que não há “solução” nesta “ordem” é, no seio do povo, uma postura imobilista e, mesmo, conservadora.
  5. Dizer para uma mãe com o filho no colo numa fila de atendimento de um hospital público ou para um trabalhador “informal” que só com a ruptura com o capitalismo os seus problemas imediatos seriam resolvidos, o que é isto senão imobilismo?
  6. “Mal ubicadas” no PSOL, as lideranças da “Revolução Brasileira” vêm se limitando, em ambientes refrigerados, a pregações doutrinárias com vista à formação de um destacamento de vanguarda.
  7. Quanto ao desespero do povo pobre, aqui e agora, nada, já que não há saída na “ordem”… O que é isto, senão conservadorismo?
  8. Como tendência interna do trabalhismo, a “Revolução Brasileira” poderia ser mais do vem sendo, uma atividade de recrutamento para um destacamento de vanguarda. Ainda que com uma importante perda de charme, já que teriam que, como disse Sartre, enfiar a mão na merda…

Luiz Carlos de Oliveira e Silva, professor de filosofia

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