Diários da Pandemia: Morro do Sossego, Duque de Caxias (RJ)

Acompanhando a pandemia e a quarentena na periferia da periferia: no Morro do Sossego, localidade do bairro do Pantanal, na cidade de Duque de Caxias, Baixada Fluminense, área metropolitana do Grande Rio.

A população pobre e periférica está mais preocupada em como vai conseguir recursos para sobreviver do que com o COVID-19. São pessoas que sequer tem acesso ao saneamento, saúde e educação.

E um desafio seguir as regras de prevenção determinadas pelo Ministério da Saúde. Tem pessoas sem recursos sequer para comprar alimentos básicos para sobreviver.

Muitos moradores da periferia sobrevivem de recursos de bicos realizados no município do Rio de Janeiro. Com as restrições impostas, que impedem a circulação de pessoas e transporte público, estas pessoas ficam em numa situação ainda mais vulnerável.

Estamos fazendo uma campanha de arrecadação de itens de higiene pessoal e alimentos não perecíveis, através do “Movimenta Caxias”.

Ainda não há casos de COVID-19 confirmados no bairro, tampouco tem muita gente gripada por aqui.

A UPA mais próxima fica em outro bairro, no Sarapuí, e só está atendendo casos considerados graves. Não temos qualquer equipamento público no bairro.

Diversas estações de trem foram fechadas para evitar aglomerações, porém o efeito foi desastroso devido ao número de pessoas que se aglomeram tentando ir para o trabalho, já que a maioria dos moradores trabalha na cidade do Rio de Janeiro.

Algumas igrejas evangélicas estão funcionando normalmente. A milícia enviou mensagem por WhatsApp anunciando o toque de recolher.

O toque de recolher vindo pela milícia e pelo tráfico acabou surtindo mais resultado que os pronunciamentos oficiais divulgados pela mídia. Muita gente acaba ficando em casa por medo de represálias, e não por causa do COVID-19.

Temos um alto-falante com sirene instalado na Pça. do Sossego para alertar sobre a possibilidade de enchentes, já que a parte baixa da comunidade sofre alagamentos com as chuvas.

É através deste alto-falante que a Defesa Civil divulga informações sobre cuidados com a higiene pessoal, para prevenção da contaminação.

Este alerta é feito 3 vezes por dia. Orientam para ninguém sair de casa sem necessidade, lavar as mãos com água e sabão e usar o álcool gel.

O comércio local está funcionando normalmente. Quase todos os moradores passaram a fazer suas compras por aqui mesmo, e não como de costume no centro de Duque de Caxias. Com isto os preços aumentaram, a cartela de ovos já subiu para R$ 15.

A maior parte das casas são pequenas, com apenas 1 quarto. Muitas são de apenas um cômodo, onde residem até 5 pessoas. As casas são pouco arejadas. Muitas das orientações de prevenção não tem como serem colocadas em prática devido a precariedade das residências, dos barracos.

As pessoas ficam conversando nos becos e vielas. Á noite, o comércio de lanches está com pouco movimento, muitos comerciantes não estão abrindo seus estabelecimentos.

As informações chegam pelos grupos de WhatsApp, e junto vem muita fake-news. Essa chuva de informações desencontradas causa pânico na população.

Já havia antes muita gente com Síndrome do Pânico e ansiedade. Agora estas pessoas estão desesperadas e sem acesso aos profissionais de saúde, já que muitos atendimentos foram suspensos.

Muitas pessoas tem diagnóstico de depressão e estão sem tratamento. A maioria é de mulheres.

Há também muitos moradores que são hipertensos, alérgicos, muitos idosos e também muitas crianças com bronquite. Todos fazendo parte do grupo daqueles mais suscetíveis a desenvolver os sintomas do COVID-19.

A maior angústia é ter o que comer, já que com a necessidade de comprovar vínculo empregatício para acessar o transporte, muitos trabalhadores informais não tem como ir fazer bicos.

Nas redes sociais há uma defesa do Bolsonaro, principalmente após o pronunciamento dele. E tem também pessoas com muito medo e em pânico.

Tem gente que acha que a solução é ir para a igreja e orar. Como as igrejas estão fechadas, não conseguem se ver longe, porque têm uma dependência de estarem no culto.

Este é um território onde a maioria dos moradores são evangélicos e acreditam que a cura vem de Deus.

Junto com uma vereadora, o Prefeito de Duque de Caxias foi às redes sociais alegando que as igrejas precisavam ficar abertas porque a cura vem das igrejas. Isto coincidiu exatamente com o pronunciamento do Bolsonaro.

O projeto MALOCA também está fazendo uma campanha de arrecadação de alimentos para as famílias que atendemos.

O “Movimenta Caxias” é formado por representantes de diversos bairros do município de Duque de Caxias. Participam representantes dos quatro Distritos.

Toda a arrecadação que for feita será distribuída para estes representantes, que atuam diretamente nos territórios e conhecem necessidade das famílias.

Também criamos um Grupo de Trabalho de Solidariedade, agregando diversas lideranças numa articulação de uma grande rede a fim de conseguir doações e cestas básicas para a região da Baixada Fluminense. Até o momento a Prefeitura não tomou iniciativa concreta nenhuma.

Para pessoas que já recebiam cestas básicas das igrejas, ou que já estavam cadastradas em diversas instituições e movimentos de base, elas continuarão a receber. Mas aquelas que geravam sua renda através dos bicos, como os catadores, estão numa situação delicada.

A visibilidade da Baixada Fluminense é muito menor. O olhar para o Rio de Janeiro é voltado para a Maré, o Complexo do Alemão, Cidade de Deus, etc. Onde diversas instituições atuam e há divulgação na mídia.

Aqui na Baixada continua o mesmo cenário de visibilidade, são os grupos locais mesmo que estão se mobiliando para tentar levar algo para as pessoas.

M.A.L.O.C.A. – Movimento Alternativo Libertário e Organizado em prol da Cidadania é um coletivo de mulheres da periferia de Duque de Caxias.

https://www.facebook.com/pg/malocadacidadania/about/?ref=page_internal

 

Marilza Barbosa Floriano
Assistente social, articuladora de território, integrante do Movimenta Caxias e Rede de Mães e Familiares Vítimas de Violência da Baixada Fluminense.

 

vídeo: Uma ativista da Baixada Fluminense

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