{"id":99752,"date":"2018-10-08T09:40:58","date_gmt":"2018-10-08T12:40:58","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=99752"},"modified":"2018-10-08T09:40:58","modified_gmt":"2018-10-08T12:40:58","slug":"democracias-neoliberais-infantilizam-homens-e-mulheres-ou-o-medo-como-estrategia-de-gestao-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=99752","title":{"rendered":"\u201cDemocracias\u201d neoliberais infantilizam homens e mulheres ou O Medo como Estrat\u00e9gia de Gest\u00e3o [1]"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Ceci Juru\u00e1, para o Duplo Expresso<\/strong><\/p>\n<p>Nos pa\u00edses europeus dotados de forte pensamento cr\u00edtico, h\u00e1 uma den\u00fancia recorrente: n\u00e3o interessa aos poderosos atuais (bilion\u00e1rios corpora\u00e7\u00f5es e governos) que a humanidade evolua como sonhamos no imediato p\u00f3s-Segunda Guerra. Sobre o conceito de liberdade, por exemplo, \u00a0naquela \u00e9poca costum\u00e1vamos acompanhar a filosofia de Sartre.<\/p>\n<p>Liberdade n\u00e3o \u00e9 fazer qualquer coisa a qualquer hora satisfazendo \u00a0desejos, ensin\u00e1vamos a nossos filhos. Transmitir regras de conduta \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o de todos os pais e de todas as m\u00e3es.<br \/>\nLiberdade n\u00e3o \u00e9 contrariar regras da sociedade. Quando agimos simplesmente para ser \u201cdo contra\u201d, estamos sendo objeto, em lugar de sujeitos, objeto de \u00a0impulsos e afetos ou traumas provenientes do inconsciente.<\/p>\n<p>Dos ensinamentos de Sartre, grande fil\u00f3sofo do s\u00e9culo XX, gravei particularmente:<\/p>\n<p><strong>Liberdade \u00e9 sin\u00f4nimo de emancipa\u00e7\u00e3o.\u00a0 S\u00f3 \u00e9 livre o indiv\u00edduo capaz de formular suas pr\u00f3prias regras.\u00a0 Ditadas pela viv\u00eancia e pela cultura, e conformes \u00e0s suas necessidades ps\u00edquicas e materiais.\u00a0 De prefer\u00eancia em estreita harmonia com nossos sonhos e utopias.<\/strong><\/p>\n<p>Que homens e mulheres se tornem livres na concep\u00e7\u00e3o sartriana, de quem fui \u201caluna fiel\u201d, \u00a0\u00a0n\u00e3o interessa aos poderosos da atualidade.\u00a0 Em um mundo absurdamente injusto, na ocasi\u00e3o em que as corpora\u00e7\u00f5es destroem os \u00faltimos pedacinhos saud\u00e1veis do meio ambiente, nesta fase hist\u00f3rica em que o absolutismo imperial anglo-sax\u00e3o\u00a0 corre o risco de sucumbir frente \u00e0 ascens\u00e3o de novos poderes, aconselh\u00e1vel \u00e9 governar pelo medo.<\/p>\n<p>Por que ?<\/p>\n<p>Dizem certos autores que o capitalismo precisa de homens e de mulheres insaci\u00e1veis.\u00a0 Gente que sempre quer mais.\u00a0 Mais consumo, mais sexo, mais dinheiro.\u00a0 Os prazeres de curto prazo, que podem ser obtidos aqui e agora.<\/p>\n<p>O capitalismo neoliberal precisa tamb\u00e9m de homens e mulheres aptos \u00e0 servid\u00e3o.\u00a0 Homens e mulheres que n\u00e3o pensam.\u00a0 Agem por reflexos.\u00a0 Gemem quando s\u00e3o chicoteados.\u00a0 Esbo\u00e7am um sorriso e agradecem em voz baixa os afagos do patr\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontra-los no Brasil, ap\u00f3s cinco s\u00e9culos de genoc\u00eddio.\u00a0 Dizem at\u00e9 que um atual candidato tem filhos que s\u00e3o propriet\u00e1rios de escola de tiro.\u00a0 Atirar, matar bandidos e gente rebelde que ama a liberdade, como n\u00f3s os brasileiros, \u00e9 imprescind\u00edvel ao exerc\u00edcio do poder.<\/p>\n<p>Um poder cuja filosofia tem ra\u00edzes l\u00e1 nos setecentos e oitocentos, \u00a0\u00e9 o que nos ensina <strong>Dany Robert Dufour<\/strong>, renomado fil\u00f3sofo da Europa latina. Para este autor h\u00e1 um s\u00e9culo estamos iludidos pela leitura de Max Weber, o qual nos levou a idealizar o capitalismo, imaginando-o como um sistema vitorioso, elogi\u00e1vel, por seus\u00a0atributos espec\u00edficos, tais como o respeito \u00e0 autoridade, o puritanismo, o patriarcalismo, entre outros. Hoje devemos desconfiar das teses de Max Weber, o que \u00e9 \u00a0poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 leitura e \u00e0 redescoberta de Bernard de Mandeville, orienta DRD:<\/p>\n<blockquote><p>Basta ler Mandeville para entender como os princ\u00edpios considerados \u201c<em>vicieux<\/em>\u201d pelo pr\u00f3prio Mandeville, em 1705, \u00a0contribu\u00edram para reformar o mundo e reorienta-lo em nova dire\u00e7\u00e3o, com um esp\u00edrito absolutamente novo, o esp\u00edrito do capital.[2] (p.15)<\/p><\/blockquote>\n<p>O progresso t\u00e9cnico tem suas contradi\u00e7\u00f5es.\u00a0 Por um lado \u201cnos libera das doen\u00e7as, de restri\u00e7\u00f5es vinculadas ao tempo e ao espa\u00e7o, por outro lado cria condi\u00e7\u00f5es de novas formas de submiss\u00e3o e de servilismo, \u00a0e de redu\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a de vida. Por isto existem tecnologias espi\u00e3s, agrot\u00f3xicos e alimentos que favorecem a dissemina\u00e7\u00e3o do c\u00e2ncer e outras epidemias.\u201d [3] (p.128)<\/p>\n<p>Continuando com li\u00e7\u00f5es retiradas da obra Governar atrav\u00e9s do medo, citamos:<\/p>\n<blockquote><p>Repetir infinitamente que a press\u00e3o sobre sal\u00e1rios torna as empresas mais competitivas,<br \/>\nOu ent\u00e3o<br \/>\nQue os sal\u00e1rios devem ser flex\u00edveis para que as pessoas n\u00e3o se tornem pregui\u00e7osas<br \/>\nE ainda,<br \/>\nAfirmar que os desempregados e os que ganham sal\u00e1rio m\u00ednimo s\u00e3o os respons\u00e1veis por esta sua situa\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>Defender tais princ\u00edpios ou ideias,\u00a0n\u00e3o \u00e9 Economia, dizem os autores de <em>Gouverner par la peur<\/em>. Pois a Economia \u00e9 uma ci\u00eancia que se desenvolveu estudando origens e reparti\u00e7\u00e3o da renda social. Na verdade h\u00e1 atualmente um darwinismo social que procura nos isolar e nos amedrontar. Peremptoriamente enfatizam os autores:<\/p>\n<blockquote><p>Nenhum pesquisador digno desse nome, acredita ainda nesta frivolidade vagamente religiosa, conhecida como m\u00e3o invis\u00edvel. (ibid, p. 134)<\/p><\/blockquote>\n<p>Termino aqui este texto-resenha, ditado pela necessidade de refletir sobre o ambiente eleitoral de um pa\u00eds tropical cujos habitantes lutaram muito para sobreviver com margens satisfat\u00f3rias de liberdade.\u00a0 Habitantes e eleitores hoje amea\u00e7ados por contextos importados.\u00a0 Macartismo norte-americano.\u00a0 Fascismo italiano.\u00a0 Nazismo alem\u00e3o.\u00a0 Quem vencer\u00e1 ?<\/p>\n<p>\u2022\u00a0\u2022\u00a0\u2022\u00a0\u2022\u00a0\u2022<br \/>\nPS: Rio de Janeiro, 3 de outubro de 2018 \u2013\u00a0 89\u00ba ANIVERS\u00c1RIO DA REVOLU\u00c7\u00c3O DE 1930, que nos deu acesso aos direitos do trabalhador, \u00e0 CLT, e ao sistema de previd\u00eancia social de cunho universal.<\/p>\n<p>[1] Uma resenha diferente da obra GOUVERNER PAR LA PEUR, de v\u00e1rios autores franceses. Em tradu\u00e7\u00e3o livre dir\u00edamos:\u00a0 Governar atrav\u00e9s do medo.<br \/>\n[2] DUFOUR, Dany-Robert.\u00a0 MANDEVILLE: LE V\u00c9RITABLE ESPRIT DU CAPITALISME OU SYMPATHY FOR THE DEVIL.\u00a0 In Bernard de Mandeville, la fable des abeilles.\u00a0 Partis, Ed. Pocket, 2017. Tradu\u00e7\u00e3o livre.<br \/>\n[3] DAKHLI, MARIS, SUE e VIGARELLO.\u00a0 Gouverner par la peur.\u00a0 Paris: Fayard, 2007. Tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O capitalismo neoliberal precisa tamb\u00e9m de homens e mulheres aptos \u00e0 servid\u00e3o.  Homens e mulheres que n\u00e3o pensam.  Agem por reflexos.  Gemem quando s\u00e3o chicoteados.  Esbo\u00e7am um sorriso e agradecem em voz baixa os afagos do patr\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontra-los no Brasil, ap\u00f3s cinco s\u00e9culos de genoc\u00eddio.  Dizem at\u00e9 que um atual candidato tem filhos que s\u00e3o propriet\u00e1rios de escola de tiro.  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