{"id":96126,"date":"2018-07-20T15:37:22","date_gmt":"2018-07-20T18:37:22","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=96126"},"modified":"2018-07-20T15:38:16","modified_gmt":"2018-07-20T18:38:16","slug":"o-geografo-errante-uma-cronica-sobre-o-existir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=96126","title":{"rendered":"O Ge\u00f3grafo Errante \u2013 Uma cr\u00f4nica sobre o Existir"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Maria Eduarda Freire, para o Duplo Expresso<\/strong><\/p>\n<p>Existia um certo ge\u00f3grafo que estudava muito. Ele era o mais renomado e brilhante ge\u00f3grafo de sua \u00e9poca. Da sua escrivaninha de mogno ocre e rodeado por uma muralha de livros, o ge\u00f3grafo conhecia detalhadamente cada vegeta\u00e7\u00e3o, cada clima, os oceanos, os rios, os mares, as rochas, as montanhas, os desertos, as cidades&#8230; Atrav\u00e9s de p\u00e1ginas e mais p\u00e1ginas, muitas delas amareladas e toldadas por poeira e mofo, algumas mais que outras, por certo, sacudidas por muitas leituras, ele conheceu o planeta inteiro!<\/p>\n<p>Todavia, todo o seu conhecimento n\u00e3o havia sido precedido de uma sensa\u00e7\u00e3o. O ge\u00f3grafo leu sobre as ab\u00f3bodas verdes das \u00e1rvores gigantescas, aquelas com ra\u00edzes t\u00e3o opulentas que mais parecem catedrais tombadas. O ge\u00f3grafo leu sobre bosques com folhas que pareciam competir na infinita variedade do estilo, onde cada ramagem se diferenciava da outra. O ge\u00f3grafo leu sobre os carvalhos, que despencam com um som de uma cat\u00e1strofe surda, como se com uma m\u00e3o tit\u00e2nica implorassem \u00e0 terra sepultura. O ge\u00f3grafo leu sobre os oceanos vastos e infinitos, imensos espelhos d&#8217;\u00e1gua, onde tudo ainda \u00e9 mar, mar, mar! Contudo, os seus p\u00e9s nus jamais sentiram os m\u00fasculos profundos da domina\u00e7\u00e3o vegetal; os seus dedos nus jamais sentiram a textura que sustentava as folhagens; e o seu olfato jamais encontrou a fragr\u00e2ncia das flores que se desprendia depois da chuva&#8230;<\/p>\n<p>O ge\u00f3grafo n\u00e3o deixava por um instante a conveni\u00eancia da sua escrivaninha de madeira, mas recebia os exploradores, interrogava-os e escrevia sobre as suas lembran\u00e7as. Os ge\u00f3grafos s\u00e3o muito importantes para estar explorando \u2013dizia o ge\u00f3grafo. Isso ele deixava para os seus estudantes.<\/p>\n<p>O ge\u00f3grafo se admirava com os seus descobrimentos, embora lhe dessem uma esp\u00e9cie de embriaguez sen\u00e3o como um fervor que descaiu, mas n\u00e3o totalmente. Ele vivia nas palavras, nas imagens, e nos sonhos que voavam para longe, para bem longe da tranquilidade de sua escrivaninha, porque em seu sangue ainda crepitava sem descanso a \u00e2nsia por lonjuras.<\/p>\n<p>E esse desejo incontido atormentava o ge\u00f3grafo. Toda essa energia que n\u00e3o satisfez, com sua sobreviv\u00eancia o atormentava. E desesperou-lhe completamente em sonho, quando de s\u00fabito, o acordou com uma senten\u00e7a: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 observando o cortejo de cima\u201d, quem lhe dizia era uma voz melanc\u00f3lica que parecia reivindicar com tanto mais ardor a liberdade. E o ge\u00f3grafo sentiu o desejo mais profundo de sair, sair de sua cidade, sair de seu quarto, sair de sua escrivaninha, sair de seus livros, sair de seu pensamento. No \u00edmpeto rasgou mapas e o que deixou escrito, encaixotou tudo e emancipou-se de sua escrivaninha e dos seus livros e resolveu aceitar o convite de um grupo de pesquisa, com quem mantinha singulares trocas cient\u00edficas. Para o ge\u00f3grafo era raro acontecer essas afinidades. A explora\u00e7\u00e3o, apenas com o bilhete de ida, partia em duas semanas e rumava para os mares sinuosos, secretos e gelados do Glacial \u00c1rtico.<\/p>\n<p>Uma exist\u00eancia pat\u00e9tica, de prefer\u00eancia \u00e0 tranquilidade. N\u00e3o desejo outro repouso sen\u00e3o o sono da morte \u2013 pensou o ge\u00f3grafo.<\/p>\n<p>Os dias at\u00e9 a aventura se seguiram para o ge\u00f3grafo com a ansiedade, a vontade e a pressa de quem abra\u00e7a a vida como algo que por pouco n\u00e3o perdeu. Era como se todo o seu ser tivesse uma necessidade imensa de se desnudar e sentir a presen\u00e7a de tudo em plenitude. O ge\u00f3grafo, agora, n\u00e3o queria ver nada neste mundo sem desejar que todo o seu afeto o tocasse.<\/p>\n<p>O c\u00e9u vivia povoado por uma multid\u00e3o pululante de estrelas, mas no dia da sua viagem, o c\u00e9u parecia estar rec\u00e9m-lavado, a tarde estava escura e nenhuma luz atravessava o nevoeiro, e o ge\u00f3grafo esperou o carro que viria busc\u00e1-lo, mas ele nunca chegou. O grupo de pesquisa, que se correspondia h\u00e1 meses, n\u00e3o apareceu. Na caixa de mensagens, duas frases secas: \u201cA explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 mesmo t\u00e3o simples\u201d. Dupla nega\u00e7\u00e3o detectada. Como um segundo deserto sobre o deserto. O ge\u00f3grafo conhecera noites ruins, aquela tarde sem estrelas era um pren\u00fancio. O ge\u00f3grafo sentira ent\u00e3o cair a noite terr\u00edvel.<\/p>\n<p>O ge\u00f3grafo n\u00e3o tinha para onde ir, aquela esperan\u00e7a de estar mais perto do sangue que da tinta, perdera-se. O ge\u00f3grafo n\u00e3o tinha para onde retornar, nem um mastro ou recife, nem a velha escrivaninha. O ge\u00f3grafo, agora, se sentia como um coveiro em um cemit\u00e9rio abandonado, ou algu\u00e9m que cuida de um museu que ningu\u00e9m mais visita e o p\u00f3 assenta-se sobre as obras esquecidas como um cristal irremediavelmente ferido&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o se sentir mais que um errante sobre a Terra e n\u00e3o um viajante que se dirige a um prop\u00f3sito final, pois este n\u00e3o existe. Olhar a noite como se o dia nela devesse morrer e a manh\u00e3 como se tudo nela nascesse. Ser\u00e1 isso ent\u00e3o? \u2013Pensava o ge\u00f3grafo. Ou, naufragar em um mar de caixas que se empilhavam acima de sua cabe\u00e7a, por onde pouco a pouco extinguiria-se o seu fervor. Ou?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existia um certo ge\u00f3grafo que estudava muito. Ele era o mais renomado e brilhante ge\u00f3grafo de sua \u00e9poca. 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