{"id":95394,"date":"2018-07-02T14:47:08","date_gmt":"2018-07-02T17:47:08","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=95394"},"modified":"2018-07-02T14:47:08","modified_gmt":"2018-07-02T17:47:08","slug":"o-efeito-lucifer-hard-core-a-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=95394","title":{"rendered":"O \u201cEfeito L\u00facifer\u201d Hard Core \u00e0 brasileira"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Maria Eduarda Freire, para o Duplo Expresso<\/strong><\/p>\n<p>Por meio de um experimento chamado \u201co aprisionamento de Stanford\u201d, o professor americano Philip Zimbardo chegou \u00e0 conclus\u00e3o que um dos fatores para o \u201cEfeito L\u00facifer\u201d \u00e9 o exerc\u00edcio do Poder. Na pesquisa, os volunt\u00e1rios que eram estudantes sadios e comuns foram divididos em guardas e prisioneiros na \u201ccara ou coroa\u201d. O experimento da pris\u00e3o de Stanford planejado para durar duas semanas completas n\u00e3o alcan\u00e7ou sequer metade, sendo interrompido no sexto dia, ap\u00f3s a situa\u00e7\u00e3o sair do controle. A constru\u00edda autoridade dos guardas redundou na submiss\u00e3o dos prisioneiros, o que por sua vez provocava os guardas a exibir mais o seu poder, que se refletia em todo tipo de abuso e situa\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria, vexat\u00f3ria e humilhante, imposta aos prisioneiros.<\/p>\n<p>O estudo de Zimbardo demonstrou empiricamente que o papel social incorporado pelos indiv\u00edduos atrav\u00e9s das Institui\u00e7\u00f5es modifica o seu comportamento individual, atrav\u00e9s da press\u00e3o ideol\u00f3gica do ambiente, os fatores externos em torno dos indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>A primeira Institui\u00e7\u00e3o do Brasil foi a escravid\u00e3o que influenciou todas as outras, principalmente a da Justi\u00e7a, classista e autorit\u00e1ria que serve \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais e da estrutura verticalizada da sociedade. As pessoas que ir\u00e3o encarnar o papel institucional do juiz e do acusador, necessariamente ir\u00e3o reproduzir essa heran\u00e7a escravocrata. O aspecto central dessa heran\u00e7a \u00e9 a separa\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica na nossa sociedade, entre seres humanos de primeira classe e seres humanos de segunda classe.<\/p>\n<p>Combinando a press\u00e3o ideol\u00f3gica punitivista dominante da Institui\u00e7\u00e3o de Justi\u00e7a brasileira com o desprezo e o \u00f3dio ancestral da origem escravocrata sob os desprovidos de poder, marginalizados e exclu\u00eddos temos o \u201cEfeito L\u00facifer\u201d <em>hard core<\/em> \u00e0 brasileira nos ju\u00edzes e acusadores, a barb\u00e1rie institucionalizada.<\/p>\n<p>O fato do exerc\u00edcio do Poder n\u00e3o levar em considera\u00e7\u00e3o o Outro e desumaniz\u00e1-lo \u00e9 potencializado pela nossa Justi\u00e7a ser uma Institui\u00e7\u00e3o montada a partir da escravid\u00e3o, moldada por tr\u00eas s\u00e9culos de \u00f3dio bruto ao escravo, que se perpetua em sua vers\u00e3o moderna, no \u00f3dio ao pobre. Dessa forma, o papel do juiz e do promotor que det\u00eam o Poder sobre a vida e a liberdade de outras pessoas, tende a se tornar ainda mais perverso, pois s\u00e3o eles as autoridades respons\u00e1veis por julgar e acusar gente pobre, em sua maioria por crimes patrimoniais n\u00e3o violentos, mas que s\u00e3o associadas a uma condi\u00e7\u00e3o secular de n\u00e3o cidadania e que previamente n\u00e3o s\u00e3o reconhecidas com o m\u00ednimo de dignidade e igualdade.<\/p>\n<p>\u00c9 essa dimens\u00e3o homog\u00eanea de dignidade e igualdade compartilhada no sentido n\u00e3o jur\u00eddico e formal que precisa estar internalizada na pessoa que ir\u00e1 encarnar o papel de juiz e promotor, e salvo rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es, n\u00e3o est\u00e1. Esses agentes da justi\u00e7a enviam pessoas para serem destru\u00eddas e se tornarem pastos sexuais nos nossos campos de concentra\u00e7\u00e3o na aus\u00eancia de qualquer responsabilidade moral pela mis\u00e9ria carcer\u00e1ria e pela consequ\u00eancia social e impacto humanit\u00e1rio de suas decis\u00f5es sob a vida de pessoas de carne e osso. Tal como um burocrata nazista, tal como um Eichmann, esses ju\u00edzes e promotores naturalizam a barb\u00e1rie com uma canetada. A \u00e2nsia por encarceramento e a banaliza\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o que deveria ser \u201c<em>ultima ratio<\/em>\u201d, lota os nossos campos de concentra\u00e7\u00e3o com presos provis\u00f3rios que representam mais da metade das pessoas encarceradas no pa\u00eds, que s\u00e3o barbarizadas e exterminadas no c\u00e1rcere. <strong>A Constitui\u00e7\u00e3o brasileira veda a pena de morte no Brasil, mas ela \u00e9 decretada em toda canetada de juiz e promotor que pede por pris\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 o Estado Leviat\u00e3 que n\u00e3o se apieda, que n\u00e3o responde de forma mais humana e racional aos flagelos humanos sob a sua cust\u00f3dia. \u00c9 inaceit\u00e1vel que uma sociedade que se julga civilizada compactue por omiss\u00e3o ou aplauso com um Estado de Barb\u00e1rie dentro do Estado Democr\u00e1tico de Direito.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201c<em>\u00c9 poss\u00edvel julgar o grau de civiliza\u00e7\u00e3o de uma sociedade visitando suas pris\u00f5es<\/em>\u201d \u2013 Dostoi\u00e9vski.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fato do exerc\u00edcio do Poder n\u00e3o levar em considera\u00e7\u00e3o o Outro e desumaniz\u00e1-lo \u00e9 potencializado pela nossa Justi\u00e7a ser uma Institui\u00e7\u00e3o montada a partir da escravid\u00e3o, moldada por tr\u00eas s\u00e9culos de \u00f3dio bruto ao escravo, que se perpetua em sua vers\u00e3o moderna, no \u00f3dio ao pobre. 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