{"id":95171,"date":"2018-06-26T19:31:00","date_gmt":"2018-06-26T22:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=95171"},"modified":"2018-06-28T16:30:44","modified_gmt":"2018-06-28T19:30:44","slug":"a-saida-crise-ao-alcance-da-mao-parte-1-ciclo-politico-democracia-e-bilionarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=95171","title":{"rendered":"A sa\u00edda da crise ao alcance da m\u00e3o, Parte 1: Ciclo pol\u00edtico, democracia e bilion\u00e1rios"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Helio Silveira\u00b9, Gustavo Galv\u00e3o\u00b2 e Rog\u00e9rio Lessa\u00b3, para o Duplo Expresso<\/strong><\/p>\n<p><strong>Como sempre a for\u00e7a midi\u00e1tica do liberalismo!<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 do liberalismo a afirma\u00e7\u00e3o, que deixados livres e sem a interfer\u00eancia do Estado, os empres\u00e1rios levariam a Economia ao Pleno Emprego, por mais que governos liberais como Temer e FHC mostrem o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os liberais alegam que o d\u00e9ficit p\u00fablico tiraria a Economia do seu equil\u00edbrio e produziria infla\u00e7\u00e3o. Em <a href=\"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=94444\">\u201cLiberalismo: \u2018<em>fake news<\/em>\u2019 ou \u2018<em>bad news<\/em>\u2019?\u201d<\/a> mostramos que a assertiva n\u00e3o resistiu, por exemplo, \u00e0s 2 grandes crises de 1929 e de 2008, quando a presen\u00e7a do Estado salvou o capitalismo de um final apocal\u00edptico. A despeito destes 2 rotundos fracassos (e muitos outros menores), o liberalismo, a voz selvagem do capitalismo, aproveita a bonan\u00e7a da recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica produzida pelo Estado keynesiano para ludibriar a popula\u00e7\u00e3o com repeti\u00e7\u00e3o di\u00e1ria na imprensa sobre os benef\u00edcios de uma suposta aus\u00eancia de interven\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>Toda essa massiva repeti\u00e7\u00e3o, do que hoje chamamos de <em>Fake News<\/em>, se viabilizar pela a for\u00e7a financeira e pol\u00edtica daqueles bancos grandes demais para quebrar que causaram a crise, que agora ningu\u00e9m mais lembra.<\/p>\n<p><strong>At\u00e9 quando os 99% consentir\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Nos anos 30, a atua\u00e7\u00e3o Estado, corroborando as teses de Keynes, tirou o capitalismo de sua grande crise mundial. A tese keynesiana\u2074\/kaleckiana\u2075 da Demanda Efetiva \u2013 DE &#8211; e a operacionaliza\u00e7\u00e3o dos partidos de corte social-democrata conduziram a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do p\u00f3s-guerra e pol\u00edticas desenvolvimentistas at\u00e9 in\u00edcio dos anos 70.<\/p>\n<p>No entanto, aproveitando a crise do petr\u00f3leo nessa \u00e9poca, os liberais come\u00e7am a questionar a pol\u00edtica keynesiana que produziu os 30 anos gloriosos do p\u00f3s-guerra. Alegavam que o d\u00e9ficit p\u00fablico produzia infla\u00e7\u00e3o e os mais moderados s\u00f3 o aceitavam em caso de grave recess\u00e3o econ\u00f4mica! Assim t\u00e3o logo a situa\u00e7\u00e3o voltasse ao normal cessaria a necessidade do D\u00e9ficit P\u00fablico.<\/p>\n<p>Comentaremos a seguir como os expoentes da economia keynesiana, Kalecki, Minsky e Wray, em suas respectivas \u00e9pocas, analisaram a atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos liberais contra a presen\u00e7a do Estado e como os liberais fingiam n\u00e3o ver o uso do Estado para salvar a \u201cfortaleza liberal\u201d nos 2 epis\u00f3dios!<\/p>\n<p>At\u00e9 quando os 99% aceitar\u00e3o que todas as vezes que os liberais advogam o \u201cEstado M\u00ednimo\u201d, o 1% quer o \u201cEstado M\u00e1ximo\u201d s\u00f3 para eles?<\/p>\n<p><strong>Kalecki em \u201cOs Aspectos Pol\u00edticos do Pleno Emprego\u201d na \u00e9poca do capitalismo produtivo real<\/strong><\/p>\n<p>Kalecki afirmou em fins da II Guerra Mundial, que os empres\u00e1rios, por raz\u00f5es pol\u00edticas, n\u00e3o aceitariam pleno emprego e nenhuma pol\u00edtica do governo que pudesse efetivamente levar a ele. Faziam isso, apesar de advogarem, com supremo cinismo, que eles pr\u00f3prios livres de usar seu poder sem serem incomodados pelo Estado e pela democracia, produzir\u00e3o, unicamente pelos sistemas de mercado, o Pleno Emprego. Ou seja, eles abominam o que dizem ser o resultado final do pr\u00f3prio liberalismo que apregoam como reden\u00e7\u00e3o da humanidade.<\/p>\n<p>Esse artigo est\u00e1 publicado no link a seguir: \u201c<a href=\"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=94643\">Os Aspectos Pol\u00edticos do Pleno Emprego<\/a>\u201d. Ele \u00e9 sintetizado pelas afirma\u00e7\u00f5es abaixo:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">1- Os mega empres\u00e1rios aprenderam e sabem que o Estado atrav\u00e9s do D\u00e9ficit P\u00fablico pode manter a Economia em permanente situa\u00e7\u00e3o de Pleno Emprego!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">2- Eles, em particular aqueles do setor financeiro, n\u00e3o querem a manuten\u00e7\u00e3o do pleno emprego, especialmente se ele \u00e9 atingido por meio do gasto p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">3- Eles acham que o Pleno Emprego permanente acabaria com poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico dos Grandes Tubar\u00f5es Capitalistas, pois faria a sociedade descobrir que n\u00e3o \u00e9 totalmente dependente do humor e \u201cn\u00edvel de confian\u00e7a\u201d deles para produzir prosperidade e bem-estar.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">4- Na grande depress\u00e3o de 1929, eles se opuseram ao aumento do emprego pela atua\u00e7\u00e3o do Estado mesmo quando n\u00e3o envolveu tributa\u00e7\u00e3o adicional. Se opuseram tamb\u00e9m \u00e0 volta \u00e0 normalidade econ\u00f4mica propiciada pelo aumento da Renda Nacional e tamb\u00e9m se opuseram a volta de seus lucros em decorr\u00eancia das pol\u00edticas de aumento de emprego feitas pelo governo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">5- A resist\u00eancia dos l\u00edderes industriais se resume a 3 quest\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">a) <strong>Reprovam a atua\u00e7\u00e3o do Estado no est\u00edmulo ao emprego:<\/strong> Empres\u00e1rios n\u00e3o querem a concorr\u00eancia da atua\u00e7\u00e3o de um Estado Forte (eles querem um Estado Servil aos seus interesses). Eles querem manipular condu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, para tanto eles vendem a imagem que a Economia depende do \u201cestado de confian\u00e7a empresarial\u201d. Esse \u201cestado de confian\u00e7a empresarial\u201d poderia, segundo a \u201ccatequese\u201d deles, \u201cser abalada\u201d se o governo interferir na economia. Se eles se sentirem muito \u201cabalados\u201d por um governo proativo, n\u00e3o investiriam e haveria redu\u00e7\u00e3o do emprego e da Renda Nacional. Tudo mistifica\u00e7\u00e3o mal intencionada. Na verdade, eles temem que a interven\u00e7\u00e3o do governo, que s\u00f3 pode ser feita por meio do d\u00e9ficit p\u00fablico em situa\u00e7\u00f5es de baixo crescimento, mantenha Economia e o emprego sob controle do governo democr\u00e1tico e, portanto, tornando esse independente dos empres\u00e1rios, mas s\u00f3 do voto. Ou seja, a possibilidade do governo fazer d\u00e9ficit, faz os Grandes Tubar\u00f5es perderem o controle da pol\u00edtica para a maioria dos eleitores. Da\u00ed a verdadeira raz\u00e3o da insist\u00eancia ao equil\u00edbrio das contas p\u00fablicas das \u201cfinan\u00e7as saud\u00e1veis\u201d (sem d\u00e9ficit): amarrar as m\u00e3os de um governo eleito democraticamente, pois sem poder fazer d\u00e9ficit, n\u00e3o h\u00e1 como tirar uma economia da recess\u00e3o. Os Grandes Tubar\u00f5es d\u00e3o primazia \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico a obter maiores lucros, mesmo sabendo que os gastos p\u00fablicos aumentam suas vendas e seus pr\u00f3prios lucros.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">b)<strong> Reprovam a atua\u00e7\u00e3o do Estado no incremento do Investimento P\u00fablico e no Subs\u00eddio ao Consumo:<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><strong>Investimentos P\u00fablicos \u2013<\/strong> Empres\u00e1rios aceitam investimentos p\u00fablicos em objetos que n\u00e3o concorrem com os neg\u00f3cios privados, \u00e0 \u00e9poca de Kalecki (anos 40): hospitais, escolas, rodovias e servi\u00e7os p\u00fablicos naturais como- eletricidade, telefonia, \u00e1gua, g\u00e1s e transportes p\u00fablicos urbanos eram servi\u00e7os da \u00f3rbita p\u00fablica que n\u00e3o competiam com segmentos privados, j\u00e1 hoje, pelo avan\u00e7o liberal tudo \u00e9 pass\u00edvel de privatiza\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o os empres\u00e1rios n\u00e3o queriam naquela ocasi\u00e3o a amea\u00e7a do Estado avan\u00e7ando sobre os segmentos do setor privado, como a ind\u00fastria pesada, as finan\u00e7as, os insumos b\u00e1sicos, a minera\u00e7\u00e3o, o petr\u00f3leo e o refino. Eles sabiam que pela for\u00e7a de seu poderio econ\u00f4mico o Estado poderia tirar-lhes mercado.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Subs\u00eddio ao Consumo Popular \u2013<\/strong> Seria de se esperar que empres\u00e1rios fossem mais condescendentes com subs\u00eddios ao consumo popular (por meio de pens\u00f5es \u00e0s fam\u00edlias, subs\u00eddios para manter baixos pre\u00e7os essenciais \u2013 no caso brasileiro recente: bolsa fam\u00edlia e redu\u00e7\u00e3o de pre\u00e7o de combust\u00edveis essenciais) do que em Investimentos P\u00fablicos, dado o receio do avan\u00e7o empresarial p\u00fablico. Entretanto, \u00e9 muito mais fortemente rejeitado porque fere o primeiro princ\u00edpio moral da \u00e9tica capitalista imposta ao trabalhador: \u201cganhar\u00e1s o p\u00e3o com o suor de seu rosto!\u201d (desde que n\u00e3o tenha uma heran\u00e7a ou um grande capital para bancar seu \u00f3cio, \u00e9 claro&#8230;).<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">c)<strong> Reprovam a manuten\u00e7\u00e3o permanente do Pleno Emprego pela complementa\u00e7\u00e3o da atua\u00e7\u00e3o do Estado devido ao poss\u00edvel empoderamento pol\u00edtico dos trabalhadores:<\/strong> Empres\u00e1rios temem a manuten\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o de Pleno Emprego, porque isso os enfraqueceria politicamente frente \u00e0 sociedade democr\u00e1tica e aos trabalhadores. Teriam reduzido seu poder de barganha frente aos trabalhadores dentro das inst\u00e2ncias estatais. No Pleno Emprego, a demiss\u00e3o dos trabalhadores deixaria de ser uma medida disciplinar, o que daria mais poder aos trabalhadores e sindicatos. O medo do aumento do poder pol\u00edtico dos trabalhadores \u00e9 mais importante do que obter mais lucros. Possivelmente a tens\u00e3o salarial, dado o grau de monop\u00f3lio da Economia poderia gerar aumentos de pre\u00e7os e o mais temido receio dos liberais \u2013 a infla\u00e7\u00e3o, que afetaria seus interesses \u201crentistas\u2019! Isto alarma o empresariado que prefere abrir m\u00e3o de parte de lucros como um \u201cpre\u00e7o pela estabilidade pol\u00edtica\u201d na m\u00e3o deles. Para eles algum n\u00edvel de desemprego \u00e9 normal e desej\u00e1vel na l\u00f3gica capitalista. E que a atua\u00e7\u00e3o do Estado para estimular a economia somente \u00e9 aceit\u00e1vel em determinados momentos, quando a recess\u00e3o \u00e9 t\u00e3o forte que pode levar todo o sistema ao colapso econ\u00f4mico e pol\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">6) Sempre haver\u00e1 um economista a defender o que os Grandes Tubar\u00f5es e Rentistas quiserem. Kalecki infere que em uma situa\u00e7\u00e3o prolongada de Pleno Emprego ou bastando estar pr\u00f3ximo a ele, os empres\u00e1rios e \u201crentistas\u201d estariam contrariados e, nessa situa\u00e7\u00e3o, estariam dispostos a encontrar mais de um economista (dir\u00edamos tamb\u00e9m mais de um jornal) para declarar que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 claramente enferma e de risco iminente de infla\u00e7\u00e3o galopante!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">7) Ele infere ainda, em 1944, que o futuro das democracias capitalistas seriam uma altern\u00e2ncia de momentos interven\u00e7\u00e3o Estado estimulando a economia nas recess\u00f5es e retirada do mesmo quando em situa\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas ao Pleno Emprego, ainda que seja na marra (em 2014 o Brasil estava pr\u00f3ximo do Pleno Emprego). Isto mostra a efic\u00e1cia da atua\u00e7\u00e3o do Estado na manuten\u00e7\u00e3o e desenvolvimento econ\u00f4mico das sociedades, mas que os Grandes Tubar\u00f5es n\u00e3o desejam que essa efic\u00e1cia seja conhecida e seja sempre em opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">Leia a segunda parte do texto em <a href=\"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=95253\">https:\/\/duploexpresso.com\/?p=95253<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p>________<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">1 Economista aposentado do BNDES<br \/>\n2 Economista do BNDES, doutor em economia pela UFRJ<br \/>\n3 Jornalista Econ\u00f4mico da AEPET \u2013 Associa\u00e7\u00e3o de Engenheiros da Petrobras<br \/>\n4 https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/John_Maynard_Keynes<br \/>\n5 https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Michal_Kalecki<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 do liberalismo a afirma\u00e7\u00e3o, que deixados livres e sem a interfer\u00eancia do Estado, os empres\u00e1rios levariam a Economia ao Pleno Emprego, por mais que governos liberais como Temer e FHC mostrem o contr\u00e1rio.<br \/>\nOs liberais alegam que o d\u00e9ficit p\u00fablico tiraria a Economia do seu equil\u00edbrio e produziria infla\u00e7\u00e3o. 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