{"id":94886,"date":"2018-06-17T14:08:28","date_gmt":"2018-06-17T17:08:28","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=94886"},"modified":"2018-06-17T14:11:09","modified_gmt":"2018-06-17T17:11:09","slug":"mandarins-do-servico-publico-o-dia-em-que-confucio-sem-querer-inventou-moro-e-dallagnol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=94886","title":{"rendered":"Mandarins do Servi\u00e7o P\u00fablico: o dia em que Conf\u00facio, sem querer, inventou Moro e Dallagnol"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Marc Neto, para o Duplo Expresso<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><em>Aqueles oriundos dos extratos sociais privilegiados obviamente, como na China ancestral, t\u00eam acesso \u00e0 melhor educa\u00e7\u00e3o desde a pr\u00e9-escola aos cursos universit\u00e1rios e podem, terminada a gradua\u00e7\u00e3o nas melhores institui\u00e7\u00f5es de ensino, passar anos sem trabalhar. Ora, os concursos para a Magistratura ou para o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal significam, em m\u00e9dia, tr\u00eas a quatro anos de investimento e esfor\u00e7o, pagando cursos e livros e viajando pelo Brasil, em busca dos editais abertos.<\/em><\/li>\n<li><em>Desse modo, os concursos p\u00fablicos para esse novo <strong>mandarinato<\/strong> tamb\u00e9m passaram a ser dominados pelos setores mais altos da classe m\u00e9dia, com sua infatig\u00e1vel e ininterrupta vontade de ascens\u00e3o social, medo das classes trabalhadoras, ignor\u00e2ncia da realidade alheia e, obviamente, pela ideologia de classe que recebe desde o ber\u00e7o.<\/em><\/li>\n<li><em>Isso tamb\u00e9m explica por que a persegui\u00e7\u00e3o a Lula, ao PT e, de resto, \u00e0 esquerda, que tem sua legitimidade nas camadas populares. S\u00e3o os principais inimigos, os que organizam politicamente o povo.<\/em><\/li>\n<li><em>Fator extra de empoderamento: <strong>o Golpe de 2016<\/strong>. Hoje, como em qualquer Estado fascista, o Direito \u00e9 o que os golpistas dizem que \u00e9 o Direito. E, nesse curioso golpe, que n\u00e3o foi perfilhado e que foi incapaz de produzir l\u00edderes, eles, os novos mandarins, deixaram os bastidores e ocuparam o v\u00e1cuo deixado. \u00c9 uma Rep\u00fablica juristocr\u00e1tica de Mandarins.<\/em><\/li>\n<\/ul>\n<p>*<\/p>\n<p>O concurso p\u00fablico para funcion\u00e1rios do Estado n\u00e3o \u00e9 cria\u00e7\u00e3o republicana, tampouco ocidental. Foi ideia de Conf\u00facio, que prop\u00f4s que os cargos estatais fossem ocupados por pessoas selecionadas em exames p\u00fablicos de conhecimento, independentemente de classe social. Assim, a burocracia passaria a ser composta por aqueles que ele definia como \u201cHomens de M\u00e9rito\u201d. Essa burocracia estatal est\u00e1vel, composta por funcion\u00e1rios aprovados nos exames imperiais, chamava-se Mandarinato<strong>. <\/strong>Ela viria a substituir os administradores oriundos da nobreza aristocr\u00e1tica, passando a dividir a administra\u00e7\u00e3o do Estado Chin\u00eas com o Imperador e sua corte por mais de mil anos, at\u00e9 1905 .<\/p>\n<p>Em 1668, o jesu\u00edta portugu\u00eas Gabriel de Magalh\u00e3es relatou que havia tr\u00eas s\u00e9ries de exames, cada qual dando acesso ao funcionalismo estatal de determinado n\u00edvel. O primeiro era o exame provincial (Xiangshi), que dava aos aprovados o t\u00edtulo de Juren e permitia o acesso ao pr\u00f3ximo n\u00edvel, os exames do minist\u00e9rio (Huishi). Os aprovados nessa segunda fase recebiam o t\u00edtulo Gongshi e poderiam fazer os exames do pal\u00e1cio (Dianshi), onde eram sabatinados pelo pr\u00f3prio Imperador. Aprovados nessa \u00faltima fase, recebiam o t\u00edtulo de Jinshi, com acesso aos mais altos cargos da burocracia imperial.<\/p>\n<p>Com o decorrer do tempo, passar no exame imperial e se tornar um funcion\u00e1rio p\u00fablico de elevada posi\u00e7\u00e3o passou a ser o sonho de todos os chineses, independentemente de classe social. No entanto, os concursos p\u00fablicos que Conf\u00facio havia idealizado como acess\u00edveis a todos, justamente por visarem a <strong>meritocracia<\/strong> atrav\u00e9s da escolha dos melhores candidatos, eram extremamente complexos e dif\u00edceis, sendo composto de exames de conhecimento e de retid\u00e3o moral, em termos confucianos. Essa extrema dificuldade oportunizou a cria\u00e7\u00e3o de cursos espec\u00edficos para os exames imperiais, todos regiamente pagos e a edi\u00e7\u00e3o de caros livros espec\u00edficos contendo as mat\u00e9rias exigidas nas provas. E, assim, a meritocracia igualit\u00e1ria idealizada por Conf\u00facio, foi contraditoriamente afastada pelo seu pr\u00f3prio exigente m\u00e9todo de escolha, pois nem todos os chineses podiam pagar pela educa\u00e7\u00e3o exigida para ter sucesso nos exames imperiais.<\/p>\n<p>Como consequ\u00eancia, a aristocracia familiar que, no in\u00edcio, havia cedido lugar ao <strong>mandarinato<\/strong>, voltou ao poder pelo simples fato de que eram os \u00fanicos que j\u00e1 tinham desde o ber\u00e7o a melhor educa\u00e7\u00e3o. Diz-se que as crian\u00e7as chinesas iniciavam a alfabetiza\u00e7\u00e3o aos sete anos e desde essa \u00e9poca j\u00e1 come\u00e7avam a se preparar para os exames imperiais. Al\u00e9m disso, podiam pagar os cursos e professores necess\u00e1rios para ter acesso aos cargos imperiais. E assim, a busca pela excel\u00eancia na escolha da burocracia imperial chinesa gerou um sistema injusto onde, mais uma vez, os mais aquinhoados e nascidos em casas nobres eram privilegiados e dirigiam o Imp\u00e9rio a partir de sua vis\u00e3o de casta e interesses de classe.<\/p>\n<p>Note-se que o estudo intensivo para os exames imperiais, al\u00e9m de privilegiar a classe abastada, n\u00e3o acabava por escolher sumidades morais e intelectuais, mas especialistas em generalidades, uma vez que precisavam estudar todas as mat\u00e9rias, dos Cl\u00e1ssicos \u00e0 caligrafia e \u00e0s artes marciais.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o desigual n\u00e3o escapou \u00e0 percep\u00e7\u00e3o dos mais humildes, que tamb\u00e9m sonhavam atingir o <strong>mandarinato. <\/strong>Isso se demonstra pelo fato de que os maiores opositores do Imp\u00e9rio chin\u00eas foram candidatos reprovados nos exames imperiais, como <strong>Hong Xiuquan<\/strong> que comandou a Rebeli\u00e3o Tai Ping que quase derrubou a dinastia Qing. Hong Xiuquan conseguiu ser aprovado nos exames iniciais, mas nunca passou nos exames seguintes, nas quatro tentativas que fez. Na terceira vez que foi reprovado, teve um colapso nervoso, do qual emergiu dizendo ser o irm\u00e3o ca\u00e7ula de Jesus Cristo. <strong>Li Chen<\/strong>, tamb\u00e9m reprovado nos exames imperiais, ap\u00f3s isso se tornou conselheiro do l\u00edder da revolu\u00e7\u00e3o que derrubou temporariamente o \u00faltimo Imperador da dinastia Tang, vingou-se contra os que haviam obtido sucesso nos exames, executando trinta altos funcion\u00e1rios civis e jogando seus corpos no rio Amarelo.<\/p>\n<p>Como pode ser percebido, o<strong> mandarinato<\/strong> tem seu equivalente nos tempos modernos. E, quando causa surpresa o modo como membros do Minist\u00e9rio P\u00fablico e do Judici\u00e1rio atuam, conv\u00e9m lembrar dos mandarins chineses. Os concursos p\u00fablicos para os cargos jur\u00eddicos no Brasil, como acontecia na China Imperial, apenas asseguram a igualdade formal para o ingresso nas carreiras, as quais, sendo excelentemente bem remuneradas, s\u00e3o extremamente atrativas para quem j\u00e1 possui, desde o nascimento, uma situa\u00e7\u00e3o financeira invej\u00e1vel \u00e0 maioria do povo.<\/p>\n<p>Aqueles oriundos dos extratos sociais privilegiados obviamente, como na China ancestral, t\u00eam acesso \u00e0 melhor educa\u00e7\u00e3o desde a pr\u00e9-escola aos cursos universit\u00e1rios e podem, terminada a gradua\u00e7\u00e3o nas melhores institui\u00e7\u00f5es de ensino, passar anos sem trabalhar. Ora, os concursos para a Magistratura ou para o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal significam, em m\u00e9dia, tr\u00eas a quatro anos de investimento e esfor\u00e7o, pagando cursos e livros e viajando pelo Brasil, em busca dos editais abertos.<\/p>\n<p>Desse modo, os concursos p\u00fablicos para esse novo <strong>mandarinato<\/strong> tamb\u00e9m passaram a ser dominados pelos setores mais altos da classe m\u00e9dia, com sua infatig\u00e1vel e ininterrupta vontade de ascens\u00e3o social, medo das classes trabalhadoras, ignor\u00e2ncia da realidade alheia e, obviamente, pela ideologia de classe que recebe desde o ber\u00e7o. E n\u00e3o se enganem, n\u00e3o h\u00e1 apenas um Moro, um Bretas, um Dallagnol, um Carlos Fernando&#8230; eles s\u00e3o muitos e n\u00e3o apenas no Judici\u00e1rio e no Minist\u00e9rio P\u00fablico. H\u00e1 uma legi\u00e3o, muitos ainda nas faculdades ou nos cursos preparat\u00f3rios, tamb\u00e9m almejando o mandarinato, n\u00e3o apenas pelos polpudos sal\u00e1rios, mas pelo poder real sobre todos, n\u00e3o s\u00f3 sobre o populacho ind\u00f3cil, a malta ignara, que aprenderam a temer e desprezar desde a inf\u00e2ncia e a tratar como sub-humanos. Para eles, o povo, portanto, o Direito do Inimigo.<\/p>\n<p>Isso tamb\u00e9m explica por que a persegui\u00e7\u00e3o a Lula, ao PT e, de resto, \u00e0 esquerda, que tem sua legitimidade nas camadas populares. S\u00e3o os principais inimigos, os que organizam politicamente o povo. E isso, o novo mandarinato aprendeu em casa, com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Portanto, ao estupor que causa a atua\u00e7\u00e3o desabrida e pouco republicana de Ministros, Procuradores e Ju\u00edzes, tem resposta no <strong>DNA<\/strong> de classe desses novos mandarins, acrescido de um fator extra de empoderamento: <strong>o Golpe de 2016<\/strong>. Hoje, como em qualquer Estado fascista, o Direito \u00e9 o que os golpistas dizem que \u00e9 o Direito. E, nesse curioso golpe, que n\u00e3o foi perfilhado e que foi incapaz de produzir l\u00edderes, eles, os novos mandarins, deixaram os bastidores e ocuparam o v\u00e1cuo deixado.<\/p>\n<p>\u00c9 uma Rep\u00fablica juristocr\u00e1tica de Mandarins.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><em>Marc Neto \u00e9 advogado.<\/em><\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Para conhecer em detalhes os exames imperiais, consulte o artigo Keju \u79d1\u4e3e O sistema de Exames Imperiais, na <u><a href=\"http:\/\/www.revistamacau.com\/2011\/03\/18\/keju-%E7%A7%91%E4%B8%BE-%EF%BC%8D-o-sistema-de-exames-imperiais\/\">Revista de Macau<\/a><\/u>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como na China imperial, aqueles oriundos dos extratos sociais privilegiados obviamente t\u00eam acesso \u00e0 melhor educa\u00e7\u00e3o desde a pr\u00e9-escola aos cursos universit\u00e1rios. E podem, terminada a gradua\u00e7\u00e3o nas melhores institui\u00e7\u00f5es de ensino, passar anos sem trabalhar. Ora, os concursos para a Magistratura ou para o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal significam, em m\u00e9dia, tr\u00eas a quatro anos de investimento e esfor\u00e7o, pagando cursos e livros e viajando pelo Brasil, em busca dos editais abertos.<br \/>\nFator extra de empoderamento: o Golpe de 2016. Hoje, como em qualquer Estado fascista, o Direito \u00e9 o que os golpistas dizem que \u00e9 o Direito. E, nesse curioso golpe, que n\u00e3o foi perfilhado e que foi incapaz de produzir l\u00edderes, eles, os novos mandarins, deixaram os bastidores e ocuparam o v\u00e1cuo deixado. \u00c9 uma Rep\u00fablica juristocr\u00e1tica de Mandarins.<\/p>\n","protected":false},"author":30,"featured_media":94896,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17,1099,16,14],"tags":[827,981,1136,1135,134,1134,982],"class_list":["post-94886","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-analise-de-conjuntura","category-direito-justica","category-historia","category-politica-2","tag-china","tag-classe-media","tag-concurso-publico","tag-confucio","tag-juristocracia","tag-mandarinato","tag-meritocracia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/94886","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=94886"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/94886\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/94896"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=94886"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=94886"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=94886"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}