{"id":94557,"date":"2018-06-06T12:50:41","date_gmt":"2018-06-06T15:50:41","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=94557"},"modified":"2018-06-06T12:57:36","modified_gmt":"2018-06-06T15:57:36","slug":"o-brasil-da-bossa-nova-ao-heavy-metal-furioso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=94557","title":{"rendered":"O Brasil da Bossa Nova ao Heavy Metal Furioso"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Niobe Cunha, para o Duplo Expresso:<\/strong><\/p>\n<p>No peito dos desalentados tamb\u00e9m bate um cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acredite: o Brasil na d\u00e9cada de 1950 era uma festa, mais precisamente entre 1955 e 1960. Em meio ao movimento da emerg\u00eancia urbana, na fase desenvolvimentista da presid\u00eancia de Juscelino Kubitschek, os brasileiros reinventaram o futebol e ergueram, pela primeira vez, a ta\u00e7a Jules Rimet, na Su\u00e9cia do Wellington Calasans. Tudo bem que o tempo se encarregou de derreter esse primeiro sonho de p\u00f3dio, que dava vit\u00f3ria \u00e0 ginga e a ra\u00e7a. Mas era tempo de charme e democracia. Oscar Niemeyer transportava do papel ao concreto as colunas do Alvorada, tra\u00e7os sinuosos e sensuais; Jo\u00e3o Goulart, vice-presidente, prestigiava os shows de vedetes de Carlos Machado, em vez de tentar impor qualquer ponte para algum futuro careta ou moralista: o presente bastava.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-94574\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Joa\u0303o-Gilberto-e-Tom-Jobim_Shadow-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Joa\u0303o-Gilberto-e-Tom-Jobim_Shadow-300x300.png 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Joa\u0303o-Gilberto-e-Tom-Jobim_Shadow-150x150.png 150w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Joa\u0303o-Gilberto-e-Tom-Jobim_Shadow-768x768.png 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Joa\u0303o-Gilberto-e-Tom-Jobim_Shadow-144x144.png 144w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Joa\u0303o-Gilberto-e-Tom-Jobim_Shadow.png 832w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Do bate-p\u00e9s descal\u00e7os no terreiro, literalmente levantando a poeira, o samba que sacolejava requebros maliciosos desce o morro at\u00e9 a zona sul carioca e se embrulha com uma embalagem mais <em>cool<\/em>, a Bossa Nova. Um banquinho, um viol\u00e3o, o barquinho a navegar, o sol se pondo, uma saudade que n\u00e3o cabia no peito davam o ritmo ondular na caminhada das meninas de Copacabana. Chacumbum, chacumbum, as nossas garotas de Ipanema desfilavam brejeiras pelo imagin\u00e1rio local que gestava uma classe m\u00e9dia batuta (g\u00edria da \u00e9poca) e que buscava se descobrir dentro de um espa\u00e7o democr\u00e1tico.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-94573 size-medium\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Cassetete_Shadow-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Cassetete_Shadow-300x300.png 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Cassetete_Shadow-150x150.png 150w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Cassetete_Shadow-768x768.png 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Cassetete_Shadow-144x144.png 144w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Cassetete_Shadow.png 832w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>No apartamento da musa Nara Le\u00e3o, que imprimia na voz o balan\u00e7o das ondas do Atl\u00e2ntico, encontravam-se jovens autores e m\u00fasicos, como Carlos Lyra, Roberto Menescal, Ronaldo B\u00f4scoli, S\u00e9rgio Ricardo e Chico Feitosa, entre outros. Assim, o pa\u00eds caminhava de encontro ao seu destino, orgulhoso de si, de suas potencialidades, mesmo que ainda ficasse ali, meio de escanteio.<\/p>\n<p>Dez anos depois, em 1968, essa mesma classe m\u00e9dia, malemolente, zona sul \u2013 j\u00e1 vivendo em pleno regime de exce\u00e7\u00e3o \u2013 tentou imprimir esse ritmo id\u00edlico de na\u00e7\u00e3o no poder, e o pau comeu ainda mais, a toque de AI-5. Em S\u00e3o Paulo, o <a href=\"https:\/\/teatropolitico60.wordpress.com\/2010\/01\/29\/teatro-de-arena-sao-paulo-1955\/\"><strong>Teatro de Arena<\/strong><\/a> e o <a href=\"http:\/\/www.vitruvius.com.br\/revistas\/read\/arquitextos\/16.188\/5905\"><strong>Oficina<\/strong><\/a> traziam \u00e0 tona quest\u00f5es mal resolvidas da nossa brasilidade. E d\u00e1-lhe cassetete. Depois, a Tropic\u00e1lia e a baianidade, exiladas pela for\u00e7a das fardas, e os festivais da can\u00e7\u00e3o: \u201cvou, voltar, sei que ainda vou voltar&#8230; um sabi\u00e1.\u201d<\/p>\n<p>De l\u00e1 pra c\u00e1, os ritmos variaram \u2013 bolero, rock, valsa, rap, punk \u2013, e o Brasil, onde a viol\u00eancia da ruptura democr\u00e1tica deixou cicatrizes profundas, n\u00e3o fossem as nossas ra\u00edzes guerreiras, talvez tivesse sucumbido completamente a um samba-can\u00e7\u00e3o do Ant\u00f4nio Maria, daqueles bem chorosos, m\u00fasica de fossa, de dor-de-cotovelo, de corno. Passando pelos milagres econ\u00f4micos, \u201cO Petr\u00f3leo \u00e9 Nosso\u201d, \u201cDiretas J\u00e1\u201d, fiscais de boi no pasto, voto direto e tantos tons, conseguimos, mal e mal, construir uma identidade. At\u00e9 que enfim, fomos convidados a dan\u00e7ar no grande baile. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9ramos mais a mo\u00e7a que toma ch\u00e1 de cadeira escondida no canto. Passamos a ser a donzela disputada, com p\u00e9s bons a desfilar no sal\u00e3o, e, em certa medida, chegamos a ousar ditar o ritmo.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-94576 alignright\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Ozzy_Shadow-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Ozzy_Shadow-300x300.png 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Ozzy_Shadow-150x150.png 150w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Ozzy_Shadow-768x768.png 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Ozzy_Shadow-144x144.png 144w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Ozzy_Shadow.png 832w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>N\u00e3o sei n\u00e3o, mas acho que foi a\u00ed que a porca torceu o rabo. O maestro n\u00e3o ficou muito \u00e0 vontade com esse assanhamento voluntarioso. A nossa gen\u00e9tica musical mundialmente reverenciada, assim como um dia foi o nosso futebol, acabou se atrapalhando nas pernas, negando a nossa capacidade de produzir g\u00eanios, como Garrincha, <strong>Jo\u00e3o Gilberto<\/strong>, Pixinguinha, Portinari. Virou campinho de v\u00e1rzea, canelada de beque sem muitos recursos, mas bom de briga. Perdemos o <strong>Tom<\/strong> (tamb\u00e9m o Jobim) e desafinamos. Chegou-se ao ponto de um cantor que faz dupla com outro, dizer que samba \u00e9 coisa de bandido. Sim, a nossa arte e origem viraram bandidagem. E, nas pesquisas, andam dizendo que, por enquanto, acumulamos 5 milh\u00f5es de desalentados (como os desafinados) que desistiram de procurar emprego neste deserto, porque, afinal de contas, quem vai querer comprar bananas?<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-94575 size-medium\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Anitta_Shadow-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Anitta_Shadow-300x300.png 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Anitta_Shadow-150x150.png 150w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Anitta_Shadow-768x768.png 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Anitta_Shadow-144x144.png 144w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Anitta_Shadow.png 832w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Os caminh\u00f5es enfileirados, os pneus queimados, a entrega de benef\u00edcios e riquezas voltaram para a batuta do maestro: agora, querem que se dance no vai da valsa, no ritmo ditado pelo metr\u00f4nomo \u2013 tec-tec-tec. Querem a mo\u00e7a t\u00edmida e apequenada de volta, escondida ali no canto, esperando ser convidada de volta ao baile.<\/p>\n<p>Um instante maestro! Talvez o que ainda n\u00e3o se saiba \u00e9 que hoje tamb\u00e9m \u00e9 dia de rock. De guitarras distorcidas, convocando a f\u00faria do bate-cabelo. O solo de bateria com a energia primitiva dos tambores convoca os orix\u00e1s, e a mo\u00e7a, antes recatada e do lar, j\u00e1 n\u00e3o precisa esperar ser convidada. Enlouquece desde as entranhas e invade a pista rebolando: ch\u00e3o, ch\u00e3o, ch\u00e3o. Mais <strong>Anitta<\/strong> do que nunca, convoca a favela e o baile todo para sua inc\u00f4moda provoca\u00e7\u00e3o. <em>Vai, Malandra!<\/em> <em>It\u2019s Only Rock\u2019N&#8217;Roll (But I Like It)<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 o seguinte, maestro: foram mexer com quem estava quieto. Sarav\u00e1, seu Z\u00e9\u00a0Pelintra, sarav\u00e1, <strong>Wilson das Neves<\/strong>, que batuca todo dia na minha cabe\u00e7a esperan\u00e7osa: \u201cO dia em que o morro descer e n\u00e3o for carnaval..\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-94577 aligncenter\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Wilson-das-Neves_shadow-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Wilson-das-Neves_shadow-300x300.png 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Wilson-das-Neves_shadow-150x150.png 150w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Wilson-das-Neves_shadow-768x768.png 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Wilson-das-Neves_shadow-144x144.png 144w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Wilson-das-Neves_shadow.png 832w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qNknjPo72ss?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No peito dos desalentados tamb\u00e9m bate um cora\u00e7\u00e3o. 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