{"id":94128,"date":"2018-05-27T14:21:50","date_gmt":"2018-05-27T17:21:50","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=94128"},"modified":"2018-05-27T14:21:50","modified_gmt":"2018-05-27T17:21:50","slug":"caminhao-de-intervencoes-a-geleia-ideologica-dos-caminhoneiros-e-os-militares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=94128","title":{"rendered":"Caminh\u00e3o de interven\u00e7\u00f5es:  a geleia ideol\u00f3gica dos caminhoneiros e os militares"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Piero Leirner, para o Duplo Expresso<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><em>O discurso mais \u00e0 direita, de caminhoneiros clamando por \u201cinterven\u00e7\u00e3o militar\u201d, vem de \u00e1reas com grande contingente do Ex\u00e9rcito, acompanhado de um conjunto de institutos e associa\u00e7\u00f5es que juntam principalmente professores, advogados e militares dessa For\u00e7a. Note-se que a Marinha e a Aeron\u00e1utica n\u00e3o andam distribuindo tu\u00edtes \u00e0 vontade por a\u00ed, como faz o Comandante do Ex\u00e9rcito. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber por que a capilaridade que isso tudo gera vai de encontro e passa a andar de m\u00e3os dadas com o setor Agro \u2013 e agora com a ades\u00e3o do setor Trans. Ali\u00e1s, hoje n\u00e3o h\u00e1 dois setores mais dependentes um do outro que esses.<\/em><\/li>\n<li><em>Essas coincid\u00eancias se casam com uma no\u00e7\u00e3o ancestral de que, enfim, o Estado deve se resumir \u00e0 seguran\u00e7a. \u201cContra os impostos altos e a roubalheira\u201d. Trata-se de trocar a ideia de que o Estado possui o monop\u00f3lio da viol\u00eancia leg\u00edtima pela ideia de que o monop\u00f3lio da viol\u00eancia leg\u00edtima possui o Estado!<\/em><\/li>\n<li><em>\u00c0s favas com a ideia de um dom\u00ednio nacional sobre a cadeia do Petr\u00f3leo, da Engenharia Pesada, da Energia, do Setor Nuclear, etc. Basta \u2013 apenas \u2013 descer o pau em \u201ccomunista\u201d (sic). E, \u00e9 claro, cobrar pouco dos ricos pelo servi\u00e7o.<\/em><\/li>\n<\/ul>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>Um Caminh\u00e3o de Interven\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Gastei umas boas horas, entre ontem e hoje, vendo um monte de coisas que est\u00e3o dispon\u00edveis sobre &#8220;Caminh\u00f5es&#8221;. Fiz uma breve estat\u00edstica que englobou not\u00edcias, reportagens, opini\u00f5es, v\u00eddeos. Queria ver, afinal, se a tese de Breno Altman (opini\u00f5es), sobre a diversidade do movimento e defesa dele poderia ser contestada. N\u00e3o, e sim. Vou come\u00e7ar pelo &#8220;n\u00e3o&#8221;, mas j\u00e1 alerto que estatisticamente h\u00e1 mais argumentos para o &#8220;sim&#8221;.<\/p>\n<p>Altman est\u00e1 certo: o movimento \u00e9 ultra diverso; provavelmente tem gente de v\u00e1rias tend\u00eancias, entre os 2 milh\u00f5es de caminhoneiros; quase todos s\u00e3o explorados; n\u00e3o se pode desprezar uma for\u00e7a que conecta todo setor produtivo; de algumas formas eles est\u00e3o abrindo a brecha para que as pessoas olhem como a Petrobras foi esculhambada pelo PSDB (sim, pelo setor PSDBista do Putsch da Cervejaria de Temer &amp; cia.). Agora, o que vi, e qualquer um pode ver?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei o quanto o material que caiu na minha m\u00e3o \u00e9 enviesado, mas ele se baseou em TV, Facebook, Youtube, jornais e blogs. J\u00e1 posso adiantar que a amostragem \u00e9 desigual, mas isso pode ser interpretado. Desigual como?<\/p>\n<p>80% do que est\u00e1 aparecendo para mim vem de material coletado no Sul e Sudeste, e nesse \u00faltimo especialmente em SP. Na minha contabilidade, que pode estar um pouco errada para mais ou menos, vi uns 72 v\u00eddeos, que variavam entre v\u00eddeos de pontos de bloqueio com &#8220;lideran\u00e7as&#8221; a v\u00eddeos de trechos inteiros de estrada com a fila de caminh\u00f5es. Foi o que aguentei, tamanha a mesmice. Vamos l\u00e1.<\/p>\n<p>Dos 72, 59 eram do sul e sudeste. 8 eram do nordeste, 5 de goi\u00e1s + entorno do DF.<\/p>\n<p>Desses 59 do S e SE, em 54 se via pelo menos uma placa escrita &#8220;interven\u00e7\u00e3o militar&#8221;. Isso tamb\u00e9m apareceu nos de GO e DF, e muito menos no NE. Agora cedo, por exemplo, na Golpenews, numa fila de uns 10 Km da R\u00e9gis (BR116, trecho SP-PR), contei aparecer umas 12 faixas. Isso por si n\u00e3o diz &#8220;caminhoneiros s\u00e3o militaristas de direita&#8221;. Pode ser que tenha um movimento militarista, digamos, com 1000 pessoas, que tenha ido aos bloqueios e colocado as faixas. Com anu\u00eancia dos caminhoneiros. O que achei particularmente interessante \u00e9, na verdade, como o car\u00e1ter regional que tem operado dois vetores pol\u00edticos opostos no Brasil desde 2014 se cristalizou tamb\u00e9m nesse movimento que estamos vendo essa semana.<\/p>\n<p>Em algumas reportagens, como por exemplo uma que saiu na Piau\u00ed feita a partir de grupos de WhatsApp, tamb\u00e9m se sobressaltam &#8220;lideran\u00e7as&#8221; do Sul e SP, com especial aten\u00e7\u00e3o a um tal empres\u00e1rio de transportes cujos mais de 600 caminh\u00f5es sempre est\u00e3o por a\u00ed, um tal Dal\u00e7oquio. Outro v\u00eddeo desse sujeito mostra ele esbravejando contra &#8220;professores comunistas&#8221; de uma Federal, reverenciando Pinochet, e por a\u00ed vai. Ele \u00e9 de Santa Catarina, e pelo que me chegou, os pontos do Brasil que mais &#8220;colaram&#8221; nos protestos de caminhoneiros foram justamente l\u00e1 (particularmente Joinville, mas tamb\u00e9m outras) e no RS.<\/p>\n<p>Desculpem bater nessa tecla de novo, mas acho bastante sugestivo que a extrema-direita no Brasil esteja muito mais organizada no Sul e a partir do Sul, que em outros lugares. Para mim, esses movimentos come\u00e7am como tend\u00eancias que se projetam a prazos entre m\u00e9dio e longo na hist\u00f3ria desde 1988. Basta lembrar que o RS foi o primeiro mais \u00e0 esquerda, e depois foi invertendo o vetor. \u00c9 poss\u00edvel que essa onda conservadora que tra\u00e7ou um paralelo no tr\u00f3pico de capric\u00f3rnio, que ficou evidente na elei\u00e7\u00e3o de 2014, daqui a pouco suba, e movimento arrefe\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o ao polo sul.<\/p>\n<p>O que eu acho mais interessante nesses movimentos s\u00e3o certas coincid\u00eancias nada desprez\u00edveis. Eu colocaria duas na lista, s\u00f3 para especular, sem nenhuma conclus\u00e3o definitiva.<\/p>\n<p>A primeira, como j\u00e1 disse em outra postagem, \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o &#8220;Ga\u00facha (lato senso)&#8221; ao MST, \u00e0 ideia radical de defesa da propriedade, que se acentua de maneira mais intensa quando falamos de propriedade da terra. Mas tamb\u00e9m isso sempre foi bastante explorado, inclusive para a propriedade urbana: quem se lembra da campanha de 1989, quando come\u00e7aram a espalhar que Lula obrigaria todo mundo &#8220;hospedar&#8221; 6 fam\u00edlias de nordestinos em suas casas? A liga\u00e7\u00e3o MST (e agora MTST &amp; afins) + um pavor comunista sempre foi realizada, e isso finalmente foi transferido para a ideia de que o Estado \u00e9 um agente que opera nesse vetor. Algo como &#8220;comunismo = estado&#8221;. Para esses red necks brazukas isso simplesmente oferece um extra-potencial de engate na pauta &#8220;anti-imposto&#8221;, que agora, junto com a ideia de privatiza\u00e7\u00e3o da Petrobras, passa a englobar tamb\u00e9m o setor de transportes e a crise da gasolina. No meu entendimento, \u00e9 a\u00ed que o setor de transportes encontrou um o\u00e1sis de entendimento num protesto anti-governo: podem ter certeza que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 baixar os impostos do diesel, \u00e9 tamb\u00e9m liquidar a Estatal o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. \u00c9 essa maluquice que permite que os caminhoneiros comecem a acusar Temer de &#8220;comunista&#8221;, e cristalizam a ideia de que se, afinal, ele era vice de Dilma, ent\u00e3o esse \u00e9 um plano de continuidade, n\u00e3o de ruptura. Por isso, mais do que tudo, o PT n\u00e3o consegue achar uma m\u00ednima brecha para entrar em sintonia com o que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p>A segunda coincid\u00eancia vem do fato de que um dos maiores contingentes do Ex\u00e9rcito, se n\u00e3o me engano o segundo maior, est\u00e1 localizado no RS. Especialmente da Cavalaria, a mais &#8220;tradicionalista&#8221; das Armas. Mour\u00e3o e sua turma de conspiradores s\u00e3o do RS. Etchegoyen e sua t\u00e1tica de manipula\u00e7\u00e3o de Temer \u00e9 do RS. H\u00e1 um conjunto de institutos e associa\u00e7\u00f5es que juntam principalmente professores, advogados e militares que ficam no RS (note-se que a Marinha e a Aeron\u00e1utica n\u00e3o andam distribuindo tu\u00edtes \u00e0 vontade por a\u00ed). N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber por que a capilaridade que isso tudo gera, especialmente no interior do RS, vai de encontro e passa a andar de m\u00e3os dadas com o setor Agro, e agora com a ades\u00e3o do setor Trans. Ali\u00e1s, hoje n\u00e3o h\u00e1 dois setores mais dependentes um do outro que esses.<\/p>\n<p>Nesse sentido, essas duas coincid\u00eancias se casam com uma no\u00e7\u00e3o ancestral de que, enfim, o Estado deve se resumir \u00e0 seguran\u00e7a. Este \u00e9 mais um ind\u00edcio de por que haver setores militares que parecem ter jogado \u00e0s favas a ideia de um dom\u00ednio nacional sobre a cadeia do Petr\u00f3leo, da Engenharia Pesada, da Energia, do Setor Nuclear: trata-se de trocar a ideia de que o estado possui o monop\u00f3lio da viol\u00eancia leg\u00edtima pela ideia de que o monop\u00f3lio da viol\u00eancia leg\u00edtima possui o Estado. J\u00e1 imaginaram um Estado do tamanho do Brasil, com uma \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o, a seguran\u00e7a? O or\u00e7amento que teria? Pois \u00e9, \u00e9 essa fala de Bolsonaro que est\u00e1 capturando um monte de gente&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o custa especular mais um pouco, mas tamb\u00e9m me parece \u00e9 que esse caldo narrativo difuso, centrado sobretudo na ideia de &#8220;imposto zero&#8221;, \u00e9 o que capturou a classe m\u00e9dia coxinha em defesa &#8220;a princ\u00edpio&#8221; do movimento dos caminhoneiros. Numa aposta arriscada, embora eu n\u00e3o goste muito de fazer previs\u00f5es, acho que se a greve dos petroleiros de fato acontecer e o governo mandar o Ex\u00e9rcito descer a borracha, veremos a galera, e os pr\u00f3prios caminhoneiros, aplaudir de p\u00e9. N\u00e3o sei por que, mas nessa meleca toda, a \u00fanica coisa que me fez algum sentido para juntar esses cacos foi aquela frase do Chico em Bye-Bye Brasil: &#8220;Bom mesmo \u00e9 ter um Caminh\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>\u00c1udio do depoimento de Jacqueline Carrijo, auditora fiscal do trabalho com atua\u00e7\u00e3o junto \u00e0 categoria dos caminhoneiros:<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/w.soundcloud.com\/player\/?url=https%3A\/\/api.soundcloud.com\/tracks\/449865864&amp;color=%23ff5500&amp;auto_play=false&amp;hide_related=false&amp;show_comments=true&amp;show_user=true&amp;show_reposts=false&amp;show_teaser=true&amp;visual=true\" width=\"100%\" height=\"300\" frameborder=\"no\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Transcri\u00e7\u00e3o do \u00e1udio:<\/strong><\/p>\n<p>Boa noite a todos. Bom, eu decidi gravar esse \u00e1udio nesse grupo para explicar um pouco o esfor\u00e7o da auditoria fiscal do trabalho e a minha posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao movimento, n\u00e9, dos caminhoneiros. Desde 2010 eu estou coordenadora desse setor no estado de Goi\u00e1s e desde 2010, n\u00f3s temos realizado rotineiramente blitz, feito flagrantes, opera\u00e7\u00f5es especiais nas estradas com o \u00fanico objetivo de salvar vidas. Para quem n\u00e3o me conhece, eu tenho mais de vinte anos de carreira na auditoria fiscal e j\u00e1 fiz de tudo, j\u00e1 trabalhei na rural, j\u00e1 fiz outros setores econ\u00f4micos. Atualmente, eu estou coordenadora da Sa\u00fade do Transporte e assumi tamb\u00e9m a Seguran\u00e7a P\u00fablica. Os trabalhadores do setor de transportes est\u00e3o entre aqueles que t\u00eam as piores jornadas de trabalho, eu estou falando de 18, 30, 40 horas, falta de descanso semanal, mensal, em um trabalho que eu identifico como perigoso, em um ambiente de trabalho que n\u00e3o d\u00e1 para controlar, que \u00e9 o tr\u00e2nsito. Em outros setores econ\u00f4micos, n\u00f3s trabalhamos com programas de preven\u00e7\u00e3o de acidentes, mas s\u00e3o ambiente contidos, n\u00e9, j\u00e1 em espa\u00e7os determinados. J\u00e1 no tr\u00e2nsito, isso n\u00e3o acontece. Quem trabalha no tr\u00e2nsito sabe que tem que conviver com o acidente de tr\u00e2nsito, com essas ocorr\u00eancias, tem que conviver com assalto, tem que conviver com a falta de policiamento, com buraco, com animal na pista, com bicicleta, com pedestres, com carro grande e pequeno, com falta de sinaliza\u00e7\u00e3o&#8230; Ent\u00e3o, o ambiente de trabalho do caminhoneiro, do motorista profissional no Brasil \u00e9 muito duro, \u00e9 um ambiente muito agressivo. E, eu falo isso abertamente, isso tudo acontece por conta de descaso, n\u00e9? H\u00e1 muito descaso, sim, por parte dos governantes em rela\u00e7\u00e3o a esse setor. Trabalhadores sofrem, empres\u00e1rios s\u00e9rios sofrem, comunidade sofre, sociedade sofre. A quantidade de acidentes no tr\u00e2nsito s\u00f3 aumenta. \u201cAh, mas voc\u00ea n\u00e3o tem como provar que esse acidente do trabalho\u2026\u201d. Vai ver o seguro do DPVAT, n\u00e3o precisa ser um grande cr\u00edtico, especialista na \u00e1rea para ver. Basta abrir o jornal todo dia e voc\u00ea vai ver ali \u00f3: do moto frete, motoboy, moto t\u00e1xi, do \u00f4nibus pequeno, grande, transporte rodovi\u00e1rio, de carga, todos os tipos&#8230; voc\u00ea v\u00ea acidente no Brasil inteiro e acidentes de grandes propor\u00e7\u00f5es, inclusive. A \u00faltima an\u00e1lise que a gente fez aqui, n\u00e3o tem nem tr\u00eas meses, morreram nove pessoas. Essa \u00e9 a caracter\u00edstica desse ambiente de trabalho: quando acontece o acidente do trabalho, morre trabalhador e morrem usu\u00e1rios do sistema. O \u00faltimo aqui, morreram nove. Morreu o motorista do \u00f4nibus e morreram oito passageiros, bateu de frente com uma carreta. Esses trabalhadores, com certeza, eles enfrentam dificuldades di\u00e1rias que impactam diretamente na pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia. As rela\u00e7\u00f5es de trabalho, as condi\u00e7\u00f5es de trabalho da grande maioria dos trabalhadores desse setor s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es, s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es de trabalho amea\u00e7adoras da vida&#8230; esses excessos de jornada de trabalho para conseguir ganhar um pouco. Eu digo pouco, porque h\u00e1 uma carga tribut\u00e1ria pesad\u00edssima, h\u00e1 a corrup\u00e7\u00e3o, a inefici\u00eancia p\u00fablica, n\u00e9? A gente paga imposto e n\u00e3o v\u00ea isso na malha rodovi\u00e1ria, voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea isso, n\u00e3o sente essa seguran\u00e7a p\u00fablica e os motoristas profissionais, nas estradas, mais ainda. Ent\u00e3o, eles t\u00eam que pagar os impostos, eles t\u00eam que pagar o combust\u00edvel, eles t\u00eam que pagar a manuten\u00e7\u00e3o do ve\u00edculo, eles t\u00eam que comprar, fazer a troca de ve\u00edculos, porque um ve\u00edculo velho isso implica em mais gasto com manuten\u00e7\u00e3o. Mas, como comprar um novo, se voc\u00ea n\u00e3o tem incentivos, nem dinheiro? N\u00e3o sobra. Mal est\u00e1 sobrando para comer, mal est\u00e1 sobrando para fam\u00edlia. Essa \u00e9 a realidade. Na estrada, suas condi\u00e7\u00f5es de alimenta\u00e7\u00e3o, de repouso s\u00e3o p\u00e9ssimas. Est\u00e1 passada a hora de se discutir a quest\u00e3o de implanta\u00e7\u00e3o de outros modais, n\u00e9? N\u00f3s vivemos em um pa\u00eds transcontinental. E a\u00ed? Vai ficar fazendo um \u00fanico modal, sendo ele o prevalente? E o aquavi\u00e1rio? E o ferrovi\u00e1rio? Por que \u00e9 que n\u00e3o d\u00e1 para investir nesses outros? N\u00e3o vai faltar emprego para ningu\u00e9m, gente. N\u00e3o falta. Os postos de trabalho voc\u00ea movimenta, entendeu? N\u00f3s, que trabalhamos no trabalho, no mundo do trabalho, nas organiza\u00e7\u00f5es de trabalho, conhecendo os modelos de gest\u00e3o, novas tecnologias de gest\u00e3o, a gente sabe que os postos se movimentam, entendeu? N\u00e3o vai faltar trabalho para ningu\u00e9m. E, com certeza, isso a\u00ed impactar\u00e1 na melhoria das condi\u00e7\u00f5es de trabalho do pessoal do transporte rodovi\u00e1rio com rela\u00e7\u00e3o aos acidentes. Isso diminuir\u00e1 assustadoramente os acidentes de tr\u00e2nsito. Gente, o Brasil tem a maior quarta malha rodovi\u00e1ria do mundo, um \u00edndice de acidentalidade que \u00e9 comparado \u00e0s mortes em conflito, guerra. N\u00f3s temos mortos, aqui no Brasil, mais de 40 mil por ano no tr\u00e2nsito. Grande parte dos acidentes no tr\u00e2nsito que acontece, grande parte, sem medo de errar, que mais de 50% a\u00ed envolve motoristas profissionais. E a associa\u00e7\u00e3o desses problemas todos, dessas m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es do trabalho potencializam a ocorr\u00eancia desses acidentes. \u00c9 uma categoria muito sofrida, uma categoria profissional muito trabalhadora, muito, muito. Esse pessoal trabalha loucamente para cumprir com seus contratos com os passageiros, cumprir com os contratos comerciais, n\u00e9? N\u00e3o s\u00f3 para garantir o cumprimento desses contratos, mas no nosso trabalho na estrada, conversando com os motoristas, a gente percebe esse compromisso como a sociedade, de entregar a medica\u00e7\u00e3o, de entregar a carne, de entregar o hortifruti. \u201cOlha vai faltar comida, vai faltar rem\u00e9dio\u201d. Essa preocupa\u00e7\u00e3o com o outro a gente ouve isso de muitos, mas muitos&#8230; eu tenho centenas de declara\u00e7\u00f5es nesse sentido.<\/p>\n<p>Ah, e tem uma parte disso tudo que \u00e9 muito sens\u00edvel, que s\u00e3o as fam\u00edlias dos motoristas. \u00c9 fato flagrado, condenado por n\u00f3s, um esfor\u00e7o muito grande para corrigir isso a\u00ed tamb\u00e9m, n\u00e9, o quanto essas jornadas de trabalho, o quanto essa m\u00e1 organiza\u00e7\u00e3o do trabalho sequestra o trabalhador e faz com que ele n\u00e3o tenha liberdades. Entre elas, de estar, de cuidar da pr\u00f3pria fam\u00edlia. Ent\u00e3o, infelizmente, s\u00e3o v\u00e1rios tamb\u00e9m depoimentos, que eu tenho dos motoristas, nesse sentido que, em raz\u00e3o das aus\u00eancias, o casamento acabou, os relacionamentos acabaram, n\u00e9? Ent\u00e3o, ou seja, o sequestro provocado pelo trabalho, em raz\u00e3o dessas jornadas de trabalho estendidas, sem repouso, sem folga e, veja bem, com possibilidades de ficar com a sua fam\u00edlia, isso tem provocado desagrega\u00e7\u00e3o familiar e isso a\u00ed impacta diretamente nas futuras gera\u00e7\u00f5es. S\u00e3o muitas, muitas crian\u00e7as que est\u00e3o crescendo sem pais. Falo de homens, porque a grande maioria s\u00e3o homens, mas h\u00e1 mulheres no setor tamb\u00e9m&#8230; motoristas, mas s\u00e3o poucas. A grande maioria \u00e9 de homens mesmo. Ent\u00e3o, \u00e9 uma outra triste realidade. E o sofrimento mental que isso provoca, esse distanciamento, essa desconex\u00e3o que \u00e9 feita da pessoa da sua fam\u00edlia, da sua religi\u00e3o, da sua escola, da sua faculdade. Ali\u00e1s, a pessoa que vive, que \u00e9 um profissional do volante, que vive essa vida louca que \u00e9 nessa organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, com essas jornadas de trabalho t\u00e3o estendidas, ela perde a condi\u00e7\u00e3o, a possibilidade de melhorar de vida, porque ela n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es mais de estudar, ela n\u00e3o tem como mais entrar em uma sala de aula, de frequentar cursos. N\u00e3o, a vida dela \u00e9 estar enclausurada em uma boleia de caminh\u00e3o. E isso \u00e9 muito triste, porque todos n\u00f3s temos sonhos, temos perspectivas, temos vontades de melhorar isso, aquilo, crescer nisso ou aquilo, at\u00e9 mesmo para desenvolver dentro da pr\u00f3pria atividade, crescer no empreendimento, se tornar um empreendedor, um empres\u00e1rio, ou seja o que for. Mas, essas possibilidades com rela\u00e7\u00e3o a grande maioria desses trabalhadores, ela fica muito reduzida pela incapacidade que eles t\u00eam de estudar, de participar de capacita\u00e7\u00f5es. Olha s\u00f3, eu comuniquei aqui, conversei a respeito de um trabalho que eu estou fazendo aqui e vou trabalhar, no final de semana todo, para segunda-feira, n\u00e9, com 150 CNPJs. Esses a\u00ed, n\u00f3s estamos chamando os propriet\u00e1rios, os s\u00f3cios propriet\u00e1rios, membros de CIPA e SESMT, para falar, porque essas empresas est\u00e3o sob nossa auditoria. Ent\u00e3o, pediram, estavam com muitas d\u00favidas, pediram esclarecimentos. Beleza, eu notifiquei todo mundo e vou dar os esclarecimentos coletivamente, porque com o nosso corpo fiscal muito reduzido, eu n\u00e3o tenho tempo de tirar esclarecimentos um por um. Mas, n\u00e3o tem problema n\u00e3o, re\u00fano todo mundo em um audit\u00f3rio, converso com todo mundo, tiro as d\u00favidas, levo os nossos peritos e dou esses esclarecimentos. Mas, e para os trabalhadores? Como alcan\u00e7ar os trabalhadores desse setor? S\u00f3 na pista. E \u00e9 conversando com eles, nas estradas, que n\u00f3s tratamos essas quest\u00f5es, que n\u00f3s conhecemos a realidade deles, conhecemos os sonhos, as expectativas, as frustra\u00e7\u00f5es, os desencantos, as ang\u00fastias, isso tudo em depoimento. Eles prestam depoimentos para n\u00f3s, nas estradas. E aqueles trabalhadores, que n\u00e3o tem condi\u00e7\u00e3o de trafegabilidade, porque n\u00f3s provamos atrav\u00e9s das an\u00e1lises dos discos dos tac\u00f3grafos certificados e em perfeita funcionalidade, que eles n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00e3o de trafegabilidade, porque est\u00e3o cansados, est\u00e3o exaustos, a gente j\u00e1 interdita o trabalhador para ele dormir, para ele descansar para, s\u00f3 depois de 24 horas de repouso, ele continuar a viagem. Mas, essa falta de possibilidade desses trabalhadores de frequentarem escola, igreja, participarem da cria\u00e7\u00e3o dos filhos, como eu falei, o sequestro em raz\u00e3o do trabalho, infelizmente \u00e9 fato e rotina na vida desses profissionais. Como mudar isso? A\u00ed, tem que se mexer no sistema. Tem que se mexer no que eu falei antes, n\u00e9, de melhorar essas condi\u00e7\u00f5es de trabalho e mexer nessa pol\u00edtica toda do transporte no Brasil, do transporte rodovi\u00e1rio, no tr\u00e2nsito ferrovi\u00e1rio, aquavi\u00e1rio e por a\u00ed vai. Mexer nos nossos portos, n\u00e9? Melhorar tudo isso a\u00ed, n\u00e9? Uma pol\u00edtica s\u00e9ria para o setor. Carga Tribut\u00e1ria justa, combatendo a corrup\u00e7\u00e3o, a inefici\u00eancia p\u00fablica e por a\u00ed vai. Ent\u00e3o, \u00e9 por isso que eu falo, o problema, as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho desses profissionais s\u00e3o in\u00fameras e elas acontecem tudo ao mesmo tempo. Ent\u00e3o, por isso \u00e9 que esse grito de socorro chegou a essas propor\u00e7\u00f5es, em raz\u00e3o de todas essas n\u00e3o conformidades que agridem diariamente essas pessoas. \u00c9 isso.<\/p>\n<p>Para movimentar toda a riqueza humana e material do Brasil eles se submetem a toda e qualquer condi\u00e7\u00e3o de trabalho. N\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o, entendeu? Acabam que precisam se submeter, n\u00e9? E isso por conta do descaso. Descaso pol\u00edtico com esse setor. Como\u00a0 autoridade do trabalho e de estar nesse meio j\u00e1 h\u00e1 algum tempo, eu fa\u00e7o aqui uma declara\u00e7\u00e3o que \u00e9 triste, mas que n\u00e3o \u00e9 \u00fanica dos trabalhadores desse setor. Eles est\u00e3o pedindo socorro. Com essa movimenta\u00e7\u00e3o, \u00e9 isso que est\u00e1 acontecendo: eles est\u00e3o pedindo socorro, porque n\u00e3o aguentam mais. Est\u00e3o no limite e esperavam que as autoridades brasileiras tomassem uma atitude com rela\u00e7\u00e3o aos descasos dos governos, governos e desgovernos, porque esse problema, ele vem se arrastando h\u00e1 d\u00e9cadas, basta ver nossos portos. A precariedade, a falta de investimento em tecnologia em nosso portu\u00e1rio \u00e9 um problema muito s\u00e9rio, afeta diretamente todo o transporte rodovi\u00e1rio nacional&#8230; a malha rodovi\u00e1ria brasileira abandonada com tanto problema que tem, uma ou outra que \u00e9 melhor, mas olha o tamanho do Brasil. Conversa com os caminhoneiros que andam na regi\u00e3o Norte, que andam aqui na regi\u00e3o Centro Oeste, Sudeste, os riscos&#8230; N\u00e3o tem local no Brasil que voc\u00ea fala assim \u201cN\u00e3o, aqui a trafegabilidade \u00e9 segura, aqui eu n\u00e3o corro risco nenhum, aqui eu vou ter um local para me alimentar corretamente, para dormir adequadamente, que n\u00e3o seja na boleia do caminh\u00e3o\u201d, porque a boleia do caminh\u00e3o n\u00e3o \u00e9 alojamento. A pessoa tem que dormir em paz, tranquila, sem ser incomodada para recuperar suas condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e mentais. Como eu disse, o trabalho executado pelos motoristas \u00e9 trabalho de precis\u00e3o, precisa aten\u00e7\u00e3o. A pessoa tem que ficar, no per\u00edodo em que ela estiver ao volante, ela tem que estar em estado de alerta. Agora, como estar em estado de alerta, como conseguir ter as rea\u00e7\u00f5es certas, na hora em que precisa, se voc\u00ea est\u00e1 fadigado, se voc\u00ea est\u00e1 exausto, se voc\u00ea n\u00e3o come direito? Porque, \u00e9 isso, n\u00e9, tem gente que acha que motorista gosta de comer na estrada. N\u00e3o, motorista como qualquer pessoa, quer um lugar limpo, higi\u00eanico, que ofere\u00e7a alimenta\u00e7\u00e3o segura, \u00e9 isso. Motorista tamb\u00e9m quer um local para repousar adequadamente, onde ele n\u00e3o seja incomodado por prostituta, traficante, pedintes, onde ele n\u00e3o tenha que ser o vigilante da carga, o vigilante do ve\u00edculo, porque \u00e9 isso, n\u00e9, tem empresa que coloca at\u00e9 grade na porta do caminh\u00e3o para impedir um assalto. Eu falei assim \u201cT\u00e1 impedindo \u00e9 um resgate do trabalhador. No caso de um acidente, nenhuma equipe de resgate consegue tirar a pessoa da boleia do caminh\u00e3o, porque tem uma grade\u201d. Est\u00e1 protegendo de quem? N\u00e3o \u00e9 assim que voc\u00ea protege as pessoas. Ah, e tem a quest\u00e3o das seguradoras tamb\u00e9m, o custo que muitos trabalhadores t\u00eam que ter para pagar as seguradoras, porque j\u00e1 que n\u00e3o tem seguran\u00e7a p\u00fablica nas estradas, tem que tamb\u00e9m gastar com seguran\u00e7a p\u00fablica. Ent\u00e3o, ele tem que pagar caminh\u00e3o, tem que pagar pneu, manuten\u00e7\u00e3o, etc., etc. etc., tem que pagar pela seguran\u00e7a p\u00fablica, que o Estado n\u00e3o garante pra ele. Ent\u00e3o, ele tem que pagar tamb\u00e9m. E a\u00ed vem os problemas, quest\u00f5es n\u00e3o control\u00e1veis, vamos dizer assim \u201cAh, mas isso \u00e9 o problema do d\u00f3lar, n\u00e9?<\/p>\n<p>Petr\u00f3leo a cota\u00e7\u00e3o \u00e9 internacional\u201d. T\u00e1, tudo bem. Mas, n\u00f3s moramos em um pa\u00eds transcontinental com mais de 200 milh\u00f5es de habitantes, riqu\u00edssimo aqui, ent\u00e3o uma carga tribut\u00e1ria pesada, uma arrecada\u00e7\u00e3o que \u00e9 grande. Ent\u00e3o, assim, em tese, n\u00e3o dever\u00edamos sofrer tanto com as oscila\u00e7\u00f5es internacionais, como outros pa\u00edses passam por essas oscila\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m e n\u00e3o ficam nessa tormenta. Ent\u00e3o, falta gest\u00e3o, falta pol\u00edtica s\u00e9ria aplicada, falta aten\u00e7\u00e3o especial do governo para com esses trabalhadores, para com os empres\u00e1rios do setor, povo s\u00e9rio do setor. Tem muita gente s\u00e9ria no setor. E falta responsabilidade com a sociedade, porque \u00e9 a mesma coisa que acontece na educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, na sa\u00fade p\u00fablica, na seguran\u00e7a p\u00fablica&#8230; transporte \u00e9 a mesma coisa. \u00c1reas essenciais s\u00e3o todas iguais, n\u00e9? Se n\u00e3o houver um tratamento s\u00e9rio, planejado, executado pelo Estado, vira essa bagun\u00e7a e essas situa\u00e7\u00f5es de abandono, de sentimento assim de revolta que a gente ouve, que eu tenho recebido no meu WhatsApp, depoimentos de motoristas do Brasil inteiro, sofrendo tamb\u00e9m com essa hist\u00f3ria toda, reivindicando, est\u00e3o firmes, mas que n\u00e3o deixam de ficar preocupados com tudo isso. Como eu falei, s\u00e3o pessoas respons\u00e1veis. Essa \u00e9 a minha impress\u00e3o com base nos depoimentos que eu colho desses trabalhadores nas estradas. Enfim, o que precisa ser feito \u00e9 tratar essas quest\u00f5es com seriedade, com responsabilidade, com planejamento, muito planejamento, execu\u00e7\u00e3o s\u00e9ria, combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, combate \u00e0 inefici\u00eancia p\u00fablica e os motoristas profissionais t\u00eam o meu apoio. Eu concordo com o movimento pelo fato de que as reivindica\u00e7\u00f5es, que t\u00eam sido feitas em cima das melhorias das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, s\u00e3o verdadeiras. \u00c9 isso que a gente flagra, realmente, na malha rodovi\u00e1ria, t\u00e1? Eu quero dizer que n\u00e3o h\u00e1 exagero e, para quem n\u00e3o conhece, eu garanto: a realidade \u00e9 bem pior.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>Depoimento de Larissa Jacheta Riberti, <u><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/larissa.jachetariberti\/posts\/10215719207434408\">no seu mural<\/a><\/u> no Facebook (25\/mai\/2018), que tamb\u00e9m tem familiaridade com a categoria dos caminhoneiros:<\/strong><\/p>\n<p>Tem ao menos seis anos que colaboro com um jornal de caminhoneiros e n\u00e3o me arrisquei a fazer nenhuma an\u00e1lise sobre a recente greve da categoria. Mas muitas opini\u00f5es, sobretudo de &#8220;esquerda&#8221; proferidas nessa rede social (ningu\u00e9m se importa, na verdade) me geraram um inc\u00f4modo. Por isso, me arrisco agora a escrever algumas pontua\u00e7\u00f5es sobre a greve dos caminhoneiros, lembrando que, dessa vez, muita gente perguntou, rsrsrs.<\/p>\n<p>1) A greve come\u00e7ou como um movimento puxado pela CNTA, a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Transportadores Aut\u00f4nomos. A convoca\u00e7\u00e3o da paralisa\u00e7\u00e3o se deu ap\u00f3s encaminhamento de of\u00edcio ao governo federal em 15 de maio, solicitando atendimento de demandas urgentes antes da instala\u00e7\u00e3o de uma mesa de negocia\u00e7\u00e3o. As urg\u00eancias eram: o congelamento do pre\u00e7o do Diesel, pelo prazo necess\u00e1rio para a discuss\u00e3o sobre benef\u00edcio fiscal que reduzisse o custo do combust\u00edvel para os transportadores (empresas e caminhoneiros); e fim da cobran\u00e7a dos ped\u00e1gios sobre eixos suspensos, que ainda est\u00e1 acontecendo em rodovias de car\u00e1ter estadual, conforme compromisso assumido pela lei 13.103\/2015, conhecida tamb\u00e9m como Lei do Motorista.<\/p>\n<p>2) No of\u00edcio encaminhado pela CNTA se fala na deflagra\u00e7\u00e3o de uma paralisa\u00e7\u00e3o em 21 de maio, caso n\u00e3o fossem atendidos os pedidos da Confedera\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m se explicita o apoio de 120 entidades representativas, mas n\u00e3o se esclarece se essas organiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o sindicatos patronais ou de aut\u00f4nomos.<\/p>\n<p>3) A paralisa\u00e7\u00e3o prevista para 21 de maio aconteceu, j\u00e1 que o governo se recusou a negociar com a CNTA e com demais entidades. Ao que consta nos comunicados de imprensa do organismo, tamb\u00e9m estavam na pauta discuss\u00f5es como o marco regulat\u00f3rio dos transportes e a quest\u00e3o da &#8220;reonera\u00e7\u00e3o da folha de pagamento&#8221;<\/p>\n<p>4) Abro par\u00eanteses para o tema: desde 2011, a discuss\u00e3o da desonera\u00e7\u00e3o da folha de pagamento vem acontecendo no Brasil com vistas a garantir a gera\u00e7\u00e3o de empregos. Nos anos seguintes ela foi ampliada para outros setores, como o do transporte rodovi\u00e1rio de cargas. Com a desonera\u00e7\u00e3o os patr\u00f5es tem a possibilidade de escolher a forma mais &#8220;vantajosa&#8221; de pagar a contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria, recolhendo 20% sobre os pagamentos dos funcion\u00e1rios e contribuintes individuais (s\u00f3cios e aut\u00f4nomos) ou recolhendo uma al\u00edquota sobre a receita bruta (cujo percentual variava entre diferentes setores da economia, no caso do TRC \u00e9 de 1,5 a 2%). No ano passado, o governo Temer, atrav\u00e9s do Ministro da Fazendo, Henrique Meirelles, anunciou a reonera\u00e7\u00e3o da folha de pagamento com a justificativa de que era necess\u00e1rio reajustar &#8220;as contas&#8221; da Uni\u00e3o. Atualmente, a amplia\u00e7\u00e3o da reonera\u00e7\u00e3o da folha de pagamento est\u00e1 sendo discutida no \u00e2mbito do TRC.<\/p>\n<p>5) Com a mobiliza\u00e7\u00e3o que se potencializou em 21 de maio, uma s\u00e9rie de pautas foram levadas para as &#8220;estradas&#8221;. Dentre os mobilizados nesse primeiro momento estavam aut\u00f4nomos e motoristas contratados. As informa\u00e7\u00f5es que nos chegam \u00e9 a de que eles est\u00e3o deixando passar as cargas perec\u00edveis e os medicamentos e os itens considerados de primeira necessidade.<\/p>\n<p>6) A paralisa\u00e7\u00e3o continuou e ganhou ades\u00e3o das transportadoras que prometeram n\u00e3o onerar os funcion\u00e1rios nem realizar cortes salariais ou demiss\u00f5es por causa da greve. Afinal de contas, a redu\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o do Diesel tamb\u00e9m \u00e9 do interesse da classe patronal.<\/p>\n<p>7) A greve conta com grande apoio nacional, porque a alta do pre\u00e7o dos combust\u00edveis afeta n\u00e3o s\u00f3 a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, mas a vida de grande parte dos brasileiros.<\/p>\n<p>Os sindicatos est\u00e3o batendo cabe\u00e7a. De um lado, muitas federa\u00e7\u00f5es e entidades soltaram nota dizendo que n\u00e3o apoiam a greve e que ela tem caracter\u00edsticas de lockout justamente porque a pauta tem sido capitaneada pelos setores empresariais em nome dos seus interesses. Do outro lado, existem sindicatos de aut\u00f4nomos, como a pr\u00f3pria CNTA, o Sindicam de Santos que puxou a paralisa\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o do porto, e agora a Abcam, que recentemente se mobilizou na negocia\u00e7\u00e3o, apoiando o movimento. Segundo nota, o presidente da Abcam esteve em Bras\u00edlia hoje e depois de uma reuni\u00e3o frustrada disse que a greve dos caminhoneiros continua. A reuni\u00e3o tinha como objetivo negociar a redu\u00e7\u00e3o da tributa\u00e7\u00e3o em cima dos combust\u00edveis.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o cen\u00e1rio geral da mobiliza\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 composta por uma s\u00e9rie de segmentos que conformam o TRC. E, obviamente, suscita algumas quest\u00f5es:<\/p>\n<p>1) Existe uma clara apropria\u00e7\u00e3o da pauta dos caminhoneiros por parte da classe empresarial que exerce maior influ\u00eancia nas negocia\u00e7\u00f5es. Isso significa que, por mais que a greve seja leg\u00edtima, pode acabar resultando num &#8220;tiro pela culatra&#8221; a depender dos rumos tomados na resolu\u00e7\u00e3o entre as partes e as lideran\u00e7as.<\/p>\n<p>2) N\u00e3o existe uma pauta unificada, o movimento n\u00e3o \u00e9 homog\u00eaneo, nem do ponto de vista social, nem do ponto de vista ideol\u00f3gico. Existe um grupo de caminhoneiros bolsonaristas, outros que s\u00e3o partid\u00e1rios de uma interven\u00e7\u00e3o militar, outros pedem Diretas J\u00e1 e Lula Livre. Ou seja, \u00e9 um movimento canalizado principalmente, pela insatisfa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao pre\u00e7o do Diesel.<\/p>\n<p>3) Em fun\u00e7\u00e3o da grande complexidade e fragilidade das lideran\u00e7as sindicais de aut\u00f4nomos, o movimento carece de uma representatividade que possa assegurar as demandas da classe trabalhadora, bem como que possa evitar o crescimento dos discursos conservadores e das pr\u00e1ticas autorit\u00e1rias. Enquanto isso, os sindicatos patronais acabam por exercer maior influ\u00eancia, determinando os caminhos da negocia\u00e7\u00e3o e o teor das reivindica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>4) Isso se faz notar, por exemplo, no tipo de reivindica\u00e7\u00e3o expressada por grande parte dos caminhoneiros que \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o da tributa\u00e7\u00e3o em cima do pre\u00e7o do combust\u00edvel. Ora, todos n\u00f3s sabemos que o cerne do problema \u00e9 a nova pol\u00edtica de pre\u00e7os adotada pelo governo Temer e pela Petrobras, que atualmente \u00e9 presidida por Pedro Parente.<\/p>\n<p>5) Novo par\u00eanteses sobre o tema: desde o ano passado, a Petrobras adotou uma nova pol\u00edtica de pre\u00e7os, determinando o pre\u00e7o do petr\u00f3leo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 oscila\u00e7\u00e3o internacional do d\u00f3lar. Na \u00e9poca, esse tipo de pol\u00edtica foi aplaudida pelo mercado internacional, que viu grande vantagem na venda do combust\u00edvel refinado para o Brasil. Aqui dentro, segundo relat\u00f3rio da Associa\u00e7\u00e3o de Engenheiros da Petrobras, a nova pol\u00edtica de pre\u00e7os revela o entreguismo da atual presid\u00eancia da empresa e governo Temer, que busca sucatear as refinarias nacionais dando prioridade para a importa\u00e7\u00e3o do combust\u00edvel. Tudo isso foi justificado na \u00e9poca com o argumento que era necess\u00e1rio ajustar as contas da Petrobras e passar confian\u00e7a aos investidores internacionais.<\/p>\n<p>6) \u00c9 verdade, portanto, que o movimento em si tem uma percep\u00e7\u00e3o um pouco equivocada da principal raz\u00e3o do aumento dos combust\u00edveis, mas isso n\u00e3o significa que toda classe dos caminhoneiros n\u00e3o fa\u00e7a essa rela\u00e7\u00e3o clara entre o problema da pol\u00edtica de pre\u00e7os da Petrobras e o aumento dos combust\u00edveis.<\/p>\n<p>7) De fato, portanto, o grande problema nesse momento \u00e9 saber quem ser\u00e3o as pessoas a sentar nas mesas de negocia\u00e7\u00e3o. De um lado, existe uma leg\u00edtima express\u00e3o da classe trabalhadora em defesa das suas condi\u00e7\u00f5es de trabalho e dos seus meios de produ\u00e7\u00e3o. O aumento do Diesel \u00e9 um duro golpe entre os caminhoneiros aut\u00f4nomos e a reivindica\u00e7\u00e3o da sua redu\u00e7\u00e3o, seja pela elimina\u00e7\u00e3o dos tributos, seja pelo questionamento da pol\u00edtica de pre\u00e7os da Petrobras, \u00e9 leg\u00edtima e deve ser comemorada.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o fundamental agora \u00e9 saber o que o governo vai barganhar na negocia\u00e7\u00e3o. Retomo, ent\u00e3o, a quest\u00e3o da reonera\u00e7\u00e3o da folha de pagamento. O governo j\u00e1 disse que haver\u00e1 uma reonera\u00e7\u00e3o da folha e esse \u00e9 um dos meios de capta\u00e7\u00e3o de recursos caso haja fim do Pis\/Cofins incidindo sobre os combust\u00edveis. Na pr\u00e1tica, porem, a reonera\u00e7\u00e3o pode ter um impacto sobre os empregos dos pr\u00f3prios caminhoneiros, resultando em demiss\u00f5es.<\/p>\n<p>9) Se houver o fim da tributa\u00e7\u00e3o no Diesel, conforme inclus\u00e3o do relator, Orlando Silva (PCdoB\/SP), na Medida Provis\u00f3ria, de par\u00e1grafo que exclui a tributa\u00e7\u00e3o, a classe trabalhadora e toda sociedade ser\u00e3o impactadas. Afinal de contas, com redu\u00e7\u00e3o de receita, haver\u00e1, consequentemente, um corte no repasse da verba para a seguridade social, previd\u00eancia, sa\u00fade, etc.<\/p>\n<p>Considerando tudo o que foi dito, expresso meu incomodo com an\u00e1lises e percep\u00e7\u00f5es simplistas da esquerda, ou de pessoas que se dizem da esquerda, sobre o movimento. Locaute virou doce na boca dos analistas de facebook. Porque n\u00e3o atende \u00e0 nossa no\u00e7\u00e3o de &#8220;movimento&#8221; ideal, os caminhoneiros que legitimamente se mobilizaram em nome da redu\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o do diesel est\u00e3o sendo taxados de vendidos e cooptados, como uma massa amorfa preparada para ser manipulada.<\/p>\n<p>Os &#8220;puristas&#8221; n\u00e3o entendem a complexidade da categoria, e tampouco atentam para a dificuldade que \u00e9 promover a mobiliza\u00e7\u00e3o ampla desses trabalhadores, tendo em vista n\u00e3o s\u00f3 a precariza\u00e7\u00e3o extrema \u00e0 qual est\u00e3o sujeitos, mas tamb\u00e9m \u00e0 realidade itinerante de seu trabalho. Soma-se a isso o duro golpe que atualmente foi proferido contra as entidades sindicais menores de aut\u00f4nomos, com o fim da obrigatoriedade do imposto sindical. Sinto dizer aos colegas acad\u00eamicos, portanto, que nem sempre nossos modelos de an\u00e1lise social se aplicam a realidade. N\u00e3o se trata de uma disputa entre o bem e o mau; nem de um movimento totalmente coopt\u00e1vel e ileg\u00edtimo; uma massa manipul\u00e1vel e &#8220;bobinha&#8221;. Por outro lado, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um movimento cujos protagonistas tem uma consci\u00eancia enquanto classe, enquanto categoria. N\u00e3o \u00e9 unificado, as pautas s\u00e3o heterog\u00eaneas e tamb\u00e9m vol\u00e1teis. Por tudo isso, parte desses trabalhadores expressam rea\u00e7\u00f5es conservadores e, alguns grupos, vis\u00f5es extremistas sobre a pol\u00edtica e suas estrat\u00e9gias de luta.<\/p>\n<p>Nada disso, ao meu ver, torna ileg\u00edtima a mobiliza\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 um convite para que busquemos entender mais das categorias sociais e para que aceitemos que as mobiliza\u00e7\u00f5es sociais nem sempre atendem ao nosso crit\u00e9rio idealizado de pauta, objetivo e organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O discurso mais \u00e0 direita, de caminhoneiros clamando por \u201cinterven\u00e7\u00e3o militar\u201d, vem de \u00e1reas com grande contingente do Ex\u00e9rcito, acompanhado de um conjunto de institutos e associa\u00e7\u00f5es que juntam principalmente professores, advogados e militares dessa For\u00e7a. Note-se que a Marinha e a Aeron\u00e1utica n\u00e3o andam distribuindo tu\u00edtes \u00e0 vontade por a\u00ed, como faz o Comandante do Ex\u00e9rcito. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber por que a capilaridade que isso tudo gera vai de encontro e passa a andar de m\u00e3os dadas com o setor Agro \u2013 e agora com a ades\u00e3o do setor Trans. Ali\u00e1s, hoje n\u00e3o h\u00e1 dois setores mais dependentes um do outro que esses.<br \/>\nEssas coincid\u00eancias se casam com uma no\u00e7\u00e3o ancestral de que, enfim, o Estado deve se resumir \u00e0 seguran\u00e7a. \u201cContra os impostos altos e a roubalheira\u201d. Trata-se de trocar a ideia de que o Estado possui o monop\u00f3lio da viol\u00eancia leg\u00edtima pela ideia de que o monop\u00f3lio da viol\u00eancia leg\u00edtima possui o Estado!<br \/>\n\u00c0s favas com a ideia de um dom\u00ednio nacional sobre a cadeia do Petr\u00f3leo, da Engenharia Pesada, da Energia, do Setor Nuclear, etc. Basta \u2013 apenas \u2013 descer o pau em \u201ccomunista\u201d (sic). 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