{"id":93766,"date":"2018-05-16T19:11:38","date_gmt":"2018-05-16T22:11:38","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=93766"},"modified":"2018-05-17T05:02:53","modified_gmt":"2018-05-17T08:02:53","slug":"brasil-sem-ponto-final-o-golpe-exposto-por-uma-virgula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=93766","title":{"rendered":"Brasil sem ponto final: O golpe exposto por uma v\u00edrgula"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Niobe Cunha, para o Duplo Expresso<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cN\u00e3o aguento mais\u201d, \u201cde saco cheio\u201d, \u201cah, se n\u00e3o fosse voc\u00ea, n\u00e3o sei se aguentaria\u201d<\/em>. Frases que pipocam aqui e ali diante do cen\u00e1rio de desesperan\u00e7a matematicamente calculado por for\u00e7as nada ocultas. Elas t\u00eam nome e sobrenome e sabemos bem onde residem. Mas \u00e9 bom que se diga: seus castelos s\u00e3o de areia. Constru\u00e7\u00f5es dessas, criminosas, fruto de especula\u00e7\u00f5es monstrengas, que despencam ou s\u00e3o derrubadas com gente dentro, sem d\u00f3 nem piedade. Fique sabendo.<\/p>\n<p>Quando eu era menina e ficava sentada de bobeira, olhando pro nada, sem foco, distra\u00edda enquanto minha m\u00e3e se ocupava em lavar, desencardir e pendurar as roupas no varal da vida, ela me perguntava: <em>\u201cO que est\u00e1 pensando?\u201d<\/em>, eu respondia: <em>\u201cNada!\u201d<\/em> E ela de chofre: <em>\u201cDe pensar morreu um burro!\u201d<\/em>. T\u00e1 parecendo um grande cemit\u00e9rio de burros: todo mundo lamuriando, pensando e&#8230; nada. O pensamento \u00e9 constru\u00e7\u00e3o importante. Pergunta e ca\u00e7a resposta, como o gato atr\u00e1s do rato. Pensamento adequa uma l\u00f3gica, encaixa uma pe\u00e7a solta, busca abrir portas que levem a outros caminhos. \u00c9 feito de subst\u00e2ncia importante para a realiza\u00e7\u00e3o. Mas ser ref\u00e9m do pensamento, ancorado nele como peso nos p\u00e9s e nas m\u00e3os, sem dar forma \u00e0s ideias, \u00e9 se afogar lentamente, sem perceber que o ar est\u00e1 acabando. Morre-se pela cilada movedi\u00e7a do pensamento sem nem perceber.<\/p>\n<p>Estamos vivos e alertas. Um pouco desencontrados, pode ser. Mas \u00e9 preciso se agarrar nas cordas, resistir \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia e criar mat\u00e9ria com aquilo que parece abstrato. O pensamento \u00e9 uma for\u00e7a potencial \u00e0 espera do gatilho. Bang, bang! Esta semana, como em tantas semanas, tivemos mais um encontro com o humor perverso de um marqueteiro bem pago pra fazer bobagem. Emprego dos sonhos: me-teo-ro-lo-gis-ta. Voc\u00ea faz a previs\u00e3o e, se n\u00e3o rolar, voc\u00ea culpa um c\u00famulo-nimbo gasoso qualquer, e t\u00e1 tudo certo, dispersa o erro no ar. O patr\u00e3o n\u00e3o te manda embora. \u00c9 a anti meritocracia. Pode errar \u00e0 vontade. O caso da v\u00edrgula malandra \u2013 aquela que foi feita pra pausar a fala, dar respiro, ritmar o poema \u2013 denunciou o nosso recrudescimento, a nossa viagem no t\u00fanel do tempo em busca de uma na\u00e7\u00e3o neandertal. Brucutus nos arrastando pelos cabelos pras cavernas do desconhecimento.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso convocar os mamutes, pterod\u00e1tilos, tiranossauros rex, o sol de todos os s\u00f3is, para interromper esse per\u00edodo glacial de aprisionamento do pensamento. Precisamos ajudar no degelo, engrossar as avalanches em busca de oxig\u00eanio. Se n\u00e3o respeitam os nossos votos, os nossos candidatos, porque ter\u00edamos que respeitar suas \u201cv\u00edrgulas\u201d? Arranquem as v\u00edrgulas, ocupem os espa\u00e7os.<\/p>\n<p>S\u00f3 temos uns aos outros, a nossa arma letal como povo. Quem topa? Sei que t\u00e1 dif\u00edcil. Pra mim t\u00e1 bem dif\u00edcil, imagine pra quem est\u00e1 preso injustamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Cordel \u201cS\u00f3 por uma v\u00edrgula\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>V\u00edrgula pode ser uma pausa&#8230; ou n\u00e3o.<\/em><br \/>\n<em> N\u00e3o, espere.<\/em><br \/>\n<em> N\u00e3o espere..<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Ela pode sumir com seu dinheiro.<\/em><br \/>\n<em> 23,4.<\/em><br \/>\n<em> 2,34.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Pode criar her\u00f3is.<\/em><br \/>\n<em> Isso s\u00f3, ele resolve.<\/em><br \/>\n<em> Isso s\u00f3 ele resolve.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Ela pode ser a solu\u00e7\u00e3o.<\/em><br \/>\n<em> Vamos perder, nada foi resolvido.<\/em><br \/>\n<em> Vamos perder nada, foi resolvido.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>A v\u00edrgula muda uma opini\u00e3o.<\/em><br \/>\n<em> N\u00e3o queremos saber.<\/em><br \/>\n<em> N\u00e3o, queremos saber.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>A v\u00edrgula pode condenar ou salvar.<\/em><br \/>\n<em> N\u00e3o tenha clem\u00eancia!<\/em><br \/>\n<em> N\u00e3o, tenha clem\u00eancia!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Uma v\u00edrgula muda tudo<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Walter Pires, escritor e poeta cordelista, integrante da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), \u00e9 autor de mais de uma centena de t\u00edtulos de cord\u00e9is, com tem\u00e1tica variada, com milit\u00e2ncia profissional no sert\u00e3o baiano, onde produz sua literatura. O cordel <strong>\u201cS\u00f3 por uma v\u00edrgula\u201d<\/strong> foi inspirado na comemora\u00e7\u00e3o dos cem anos da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa \u2013 ABI<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser ref\u00e9m do pensamento e permanecer ancorado nele como peso nos p\u00e9s e nas m\u00e3os, sem dar forma \u00e0s ideias, \u00e9 se afogar lentamente. N\u00e3o se percebe que o ar est\u00e1 acabando. 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