{"id":93700,"date":"2018-05-15T18:27:16","date_gmt":"2018-05-15T21:27:16","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=93700"},"modified":"2018-05-16T13:19:49","modified_gmt":"2018-05-16T16:19:49","slug":"guerra-e-paz-pos-eleicao-alckmin-e-peru-ciro-e-mexico-lula-sera-o-que","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=93700","title":{"rendered":"Guerra e paz p\u00f3s-elei\u00e7\u00e3o: Alckmin \u00e9 Peru, Ciro \u00e9 M\u00e9xico. Lula ser\u00e1 o qu\u00ea?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Gustavo Galv\u00e3o,<sup><a id=\"post-92682-footnote-ref-1\" href=\"#post-92682-footnote-1\">[1]<\/a><\/sup> para o Duplo Expresso<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><em>\u201cGrande M\u00e9xico\u201d? Todas as for\u00e7as progressistas brasileiras admitem que n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda fora da reindustrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. A campanha de Ciro Gomes \u00e9 a mais enf\u00e1tica neste aspecto. Mas seus economistas n\u00e3o falam de propostas sociais. Alguns j\u00e1 chegaram a dizer que a pol\u00edtica lulista de aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo era um problema! Se n\u00e3o queremos empurrar o custo da necess\u00e1ria moderniza\u00e7\u00e3o da economia sobre o povo, teremos de enfrentar a rea\u00e7\u00e3o dos rentistas. Ciro Gomes vai comprar essa briga? Ou far\u00e1 como no M\u00e9xico, fazendo o povo pagar?<\/em><\/li>\n<\/ul>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>1. A direita j\u00e1 est\u00e1 esfregando as m\u00e3os<\/strong><\/p>\n<p>A direita, se ganhar as elei\u00e7\u00f5es, sabemos, tentar\u00e1 aprovar antes de tudo a <strong>reforma da Previd\u00eancia<\/strong>. A \u00faltima grande tarefa delegada a Temer pelos Bancos. Temer n\u00e3o conseguiu implement\u00e1-la em um ano eleitoral. Acredito que a maioria do Congresso toparia a reforma por uma boa barganha, mas n\u00e3o \u00e0s v\u00e9speras de uma elei\u00e7\u00e3o. Ano que vem ser\u00e1 muito diferente. Ainda haver\u00e1 mais 4 anos para o povo esquecer quem aprovou a reforma da previd\u00eancia. Assim, se a direita ganhar as elei\u00e7\u00f5es, espere-se al\u00e9m de <strong>mais desemprego, e sal\u00e1rios mais corro\u00eddos<\/strong> <strong>pelo custo de vida<\/strong>, ver sua aposentadoria muito mais distante no horizonte e de menor monta.<\/p>\n<p>Sabemos que a <strong>esquerda fake far\u00e1 o mesmo<\/strong> que a direita. Talvez com um pouco mais de l\u00e1bia e desculpas.<\/p>\n<p><strong>2. Pr\u00f3ximo Presidente encurralado<\/strong><\/p>\n<p>Mas e <strong>se um candidato de esquerda de verdade vencer as elei\u00e7\u00f5es?<\/strong> O que ele pode realmente fazer de diferente a favor do povo?<\/p>\n<p>Essa pergunta n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil de responder. Todos n\u00f3s estamos esperando Lula voltar para \u201creviver o passado\u201d. Mas o passado n\u00e3o tem volta. As condi\u00e7\u00f5es objetivas que tornaram poss\u00edvel o sucesso daqueles governos n\u00e3o s\u00e3o mais existem.<\/p>\n<p>As <strong>condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de governabilidade foram perdidas quando foi destru\u00eddo o poder de veto definitivo do Presidente da Rep\u00fablica<\/strong> no primeiro semestre de 2013.<\/p>\n<p><strong>O impeachment sem crime e sem motivo tornou o Executivo completamente ref\u00e9m do Legislativo<\/strong>. A alucina\u00e7\u00e3o coletiva chamada <strong>\u2018Lava Jato\u2019<\/strong> oficializou definitivamente <strong>o controle pol\u00edtico total do Judici\u00e1rio<\/strong> \u2013 em parceria com a m\u00eddia \u2013 sobre os outros dois poderes, pol\u00edticos.<\/p>\n<p><strong>3. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel reviver 2003 e 2011, quando o governo primeiro atendeu o mercado e depois o povo<\/strong><\/p>\n<p>A economia brasileira e mundial est\u00e1 muito diferente. <strong>Em 2003, o grau de desindustrializa\u00e7\u00e3o da economia brasileira era muito menor e o c\u00e2mbio era muito mais desvalorizado<\/strong>. O Brasil ainda produzia boa parte dos manufaturados que consumia. O mundo era muito menos protecionista. As importa\u00e7\u00f5es da China cresciam ainda.<\/p>\n<p><strong>[Romulus Maya:<\/strong> entre outros fatores, porque o pa\u00eds entrara havia pouco na OMC (2001), n\u00e3o gozando por bastante tempo do inteiro teor das salvaguardas contra o protecionismo do sistema multilateral de com\u00e9rcio. P.e., salvaguardas contra, al\u00e9m dos direitos de importa\u00e7\u00e3o, direitos antidumping e medidas compensat\u00f3rias contra subs\u00eddios. Esse <em>grace peiod<\/em> acordado no protocolo de ades\u00e3o dos chineses \u00e0 OMC, em que o pa\u00eds era virtualmente um membro \u201ccaf\u00e9-com-leite\u201d, acabou em 2016<strong>]<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, depois do golpe, mudou muito a cabe\u00e7a de nossos inimigos, dos aliados e do povo. Hoje h\u00e1 muito menos toler\u00e2ncia tanto a um governo que v\u00e1 mais para a direita, quanto a um que v\u00e1 mais para a esquerda.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>[Romulus Maya: <\/strong>O centro derreteu e sumiu. Vivemos \u2013 e n\u00e3o s\u00f3 no Brasil \u2013 uma era de polariza\u00e7\u00e3o, radicaliza\u00e7\u00e3o, golpismo e acirramento na disputa pol\u00edtica. Como sustentamos no artigo \u201c<a href=\"http:\/\/www.romulusbr.com\/2016\/11\/apertem-os-cintos-e-respirem-fundo.html\">Apertem os cintos e respirem fundo: elei\u00e7\u00f5es agora ser\u00e3o como a de Trump. E em todo o mundo<\/a>\u201d (11\/jan\/2016):<\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o podemos desprezar, no fen\u00f4meno de \u201cmidiotiza\u00e7\u00e3o\u201d acentuada da sociedade, nem (a) a atua\u00e7\u00e3o dos bar\u00f5es da m\u00eddia, nem (b) algo novo: as redes sociais e as duas bolhas estanques: a \u201cazul\u201d e a \u201cvermelha\u201d.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Todos seguiremos nas nossas bolhinhas estanques no Facebook\/Twitter: pr\u00f3-golpe vs. pr\u00f3-legalidade, pr\u00f3-minorias vs. pr\u00f3-opress\u00e3o da maioria; (sangue) vermelho vs. (sangue) azul&#8230; cada lado cada vez mais convencido do m\u00e9rito da sua causa e da \u201ctorpeza\u201d da rival \u2013 a qual convenientemente nem mais v\u00ea no seu feed nas redes sociais!<\/p>\n<p>Creio que isso contribuiu decisivamente para as atuais circunst\u00e2ncias:<\/p>\n<p><strong>(i) Polariza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 A disputa se d\u00e1 entre o \u201cA\u201d e&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 &#8230; o \u201canti-A\u201d. E n\u00e3o mais contra \u201cB\u201d, \u201cC\u201d, ou \u201cD\u201d. Projetos diferentes de \u201cA\u201d, mas n\u00e3o&#8230; antag\u00f4nicos. Definidos pela oposi\u00e7\u00e3o diametral em vez de uma proposi\u00e7\u00e3o alternativa.<\/p>\n<p>\u2013 Assim, a defini\u00e7\u00e3o de o que \u00e9 ser \u201cA\u201d n\u00e3o se faz majoritariamente pela afirma\u00e7\u00e3o de uma identidade e de um conjunto de valores, mas pela nega\u00e7\u00e3o da identidade e dos valores do \u201canti-A\u201d \u2013 e vice-versa.<\/p>\n<p>(Soa familiar?<br \/>\nPor exemplo, \u201cPT\u201d vs. \u201canti-PT\u201d.<br \/>\nO que \u00e9 o PSDB para al\u00e9m disso hoje?)<\/p>\n<p><strong>(ii) Radicaliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Como j\u00e1 afirmei acima, os projetos alternativos \u201cB\u201d, \u201cC\u201d, D\u201d, &#8230; tornaram-se marginais na briga pela vit\u00f3ria em elei\u00e7\u00f5es majorit\u00e1rias. S\u00f3 h\u00e1 espa\u00e7o para \u201cA\u201d e \u201cAnti-A\u201d.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3:<\/p>\n<p>Diante da briga entre esses opostos absolutos, a derrota de cada campo representa para ele uma derrota <em>total<\/em>, com a implementa\u00e7\u00e3o da agenda diametralmente oposta \u00e0 sua (e n\u00e3o apenas diferente).<\/p>\n<p>Assim, as partes tendem a radicalizar o discurso e a postura quanto ao resultado do pleito:<\/p>\n<p>\u2013 \u201c\u00c9 \u2018A\u2019 ou nada!\u201d vs. \u201c\u00c9 \u2018anti-A\u2019 ou nada!\u201d.<\/p>\n<p>(Soa familiar? (2))<\/p>\n<p><strong>(iii) Golpismo, instabilidade e exacerba\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica nas op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do governo de turno<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 O outro lado da moeda foi o derretimento e desaparecimento do \u201cCentro\u201d pol\u00edtico como ator relevante, aut\u00f4nomo.<\/p>\n<p>E o que era esse \u201ccentro\u201d?<\/p>\n<p>\u2013 O poder moderador, que compunha com a parte vencedora, no embate entre os opostos, \u201cA\u201d vs. \u201cAnti-A\u201d.<\/p>\n<p>Assim, dava-lhe governabilidade e estabilidade, numa coaliz\u00e3o de governo com maioria folgada, evitando o golpismo do lado perdedor.<\/p>\n<p>Ou seja, as sa\u00eddas fora da institucionalidade.<\/p>\n<p>\u2013 Da mesma forma, ao requerer, para compor com ele, uma modera\u00e7\u00e3o do discurso e das a\u00e7\u00f5es do polo vencedor, o \u201ccentro\u201d coibia excessos, contribuindo, assim, ainda mais para a estabilidade geral do sistema ao longo do tempo. N\u00e3o havia espa\u00e7o para rupturas e guinadas program\u00e1ticas radicais.<\/p>\n<p>Hoje essa din\u00e2mica desapareceu.<\/p>\n<p>No Brasil e no mundo.<\/p>\n<p>Assim, altern\u00e2ncia de poder representa, na pol\u00edtica e na economia, guinadas radicais, quando n\u00e3o de 180o graus.<\/p>\n<p>O \u201ccentro\u201d, mais do que nunca amorfo, n\u00e3o tem mais for\u00e7a ou autonomia para coibir a exacerba\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica nas op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do governo de turno, A ou \u201cAnti-A\u201d.<\/p>\n<p>(Soa familiar? (3))<\/p>\n<p><strong>(iv) Acirramento<\/strong><\/p>\n<p>Qual \u00e9 a base social \u201ccentrista\u201d, que dava esteio pol\u00edtico-eleitoral ao pensamento de centro?<\/p>\n<p>Notem bem: escrevo a palavra \u201ccentrista\u201d entre aspas de caso (bem) pensado.<\/p>\n<p>\u2013 Isso porque, em geral, seus membros tendem a pertencer \u00e0 parcela despolitizada da popula\u00e7\u00e3o. Parcela essa, a priori, aberta \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o \u2013 seguindo considera\u00e7\u00f5es pragm\u00e1ticas.<\/p>\n<p>\u00c9, portanto, objeto de disputa e conquista pelos dois polos antag\u00f4nicos da pol\u00edtica, \u201cA\u201d e \u201cAnti-A\u201d.<\/p>\n<p>De novo e de novo.<\/p>\n<p>A cada rodada eleitoral.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 o fiel da balan\u00e7a, que pende ora para um lado, ora para outro. E o faz muito mais pela conjuntura \u2013 aquilo que indicam \u201cos ventos\u201d e as \u201cnuvens no c\u00e9u\u201d \u2013 do que propriamente por convic\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas \u201ccentristas\u201d (em sentido estrito).<\/p>\n<p>Ou seja, n\u00e3o t\u00eam nada a ver, por exemplo, com o ide\u00e1rio sint\u00e9tico de uma democracia crist\u00e3 europeia.<\/p>\n<p>A seu respeito, fa\u00e7o uma provoca\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2013 Como disse, trata-se de uma \u201cparcela despolitizada, pragm\u00e1tica, aberta \u00e0 disputa e conquista pelos dois polos antag\u00f4nicos a cada rodada eleitoral. Fiel da balan\u00e7a, decide-se muito mais pela conjuntura \u2013 \u201cventos e nuvens\u201d \u2013 do que propriamente por convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas\u201d.<\/p>\n<p>Soa familiar?<\/p>\n<p>L\u00f3gico que sim!<\/p>\n<p>\u2013 S\u00e3o os \u201cPMDBistas\u201d da sociedade!<strong>]<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>Qualquer presidente eleito sofrer\u00e1 oposi\u00e7\u00e3o radical e forte sentimento de frustra\u00e7\u00e3o de expectativas depois de anos de melhoria cont\u00ednua de vida durante os governos do PT<\/strong>, sendo essas melhorias atribu\u00eddas ao governo ou a m\u00e9rito pr\u00f3prio. H\u00e1 quem veja que tudo de bom que lhe acontece como m\u00e9rito pr\u00f3prio e tudo de ruim culpa dos outros. Do governo principalmente.<\/p>\n<p><strong>4. O que far\u00e1 o Presidente de esquerda?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dilma, em 2015, tentou reviver 2003 e 2011, buscando primeiro atender o mercado e depois o povo<\/strong>. Achou que faria um breve agrado ao setor financeiro, depois voltaria para a pol\u00edtica adotada em seu primeiro mandato. Perdeu toda a popularidade e o apoio que tinha com essa jogada, depois n\u00e3o teve mais popularidade e poder algum. <strong>N\u00e3o tinha mais sa\u00edda, seria apeada, se radicalizasse \u00e0 esquerda, se voltasse ao modelo lulista pelo centro ou se cedesse mais para a direita<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>[Romulus Maya: <\/strong>Talvez. Mas \u00e9 certo que a resist\u00eancia ao golpe teria tido muito mais for\u00e7a \u2013 e teria come\u00e7ado muito antes \u2013 caso Dilma n\u00e3o tivesse alienado por completo as bases que a elegeram. Tal erro de avalia\u00e7\u00e3o \u2013 colossal \u2013 contribuiu para estarmos onde estamos<strong>]<\/strong><\/p>\n<p><strong>5. O modelo lulista n\u00e3o funciona mais<\/strong><\/p>\n<p>O modelo lulista \u00e9 caracterizado por permanentes <strong>aumentos do sal\u00e1rio m\u00ednimo, do cr\u00e9dito ao consumo e do bolsa fam\u00edlia<\/strong> convivendo com uma pol\u00edtica econ\u00f4mica neoliberal consubstanciada no <strong>Trip\u00e9 Macroen\u00f4mico<\/strong> \u2013 meta de infla\u00e7\u00e3o e de super\u00e1vit prim\u00e1rio e c\u00e2mbio flutuante.<\/p>\n<p>Esse modelo, apesar dos m\u00e9ritos sociais, <strong>valorizou excessivamente o c\u00e2mbio <\/strong>e <strong>destruiu<\/strong> ou estagnou assim boa parte da <strong>ind\u00fastria brasileira<\/strong>. Sem ind\u00fastria moderna, n\u00e3o se tem autonomia tecnol\u00f3gica e portanto independ\u00eancia econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social. Sem ind\u00fastria, estamos fadados \u00e0 submiss\u00e3o colonial ou neocolonial.<\/p>\n<p>Esse modelo n\u00e3o tem mais sustentabilidade formal porque o <strong>super\u00e1vit prim\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 mais alcan\u00e7\u00e1vel<\/strong>. Por isso foi substitu\u00eddo pelo mercado pelo <strong>congelamento de gastos p\u00fablicos<\/strong>.<\/p>\n<p>Se voltar a <strong>aumentar o sal\u00e1rio m\u00ednimo acima da infla\u00e7\u00e3o, a meta de infla\u00e7\u00e3o acabar\u00e1 levando os juros de volta \u00e0 estratosfera. Mas hoje o endividamento p\u00fablico e privado \u00e9 muito maior<\/strong>. O mercado financeiro vai ficar muito mais arisco.<\/p>\n<p><strong>[Romulus Maya: <\/strong>com o principal da d\u00edvida j\u00e1 elevado, juros altos tornariam a sua trajet\u00f3ria insustent\u00e1vel<strong>]<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 um <strong>consenso<\/strong> bastante geral de que o pa\u00eds <strong>precisa voltar a se industrializar<\/strong> para que tenha futuro e sobreviva \u00e0s crises econ\u00f4micas como a que nos atingiu a partir de 2015.<\/p>\n<p><strong>6. Falta de soberania<\/strong><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 20 anos, os pa\u00edses que mais se industrializaram foram os asi\u00e1ticos. O modelo de l\u00e1, com amplos poderes, instrumentos e recursos, gra\u00e7as a um Estado mais autorit\u00e1rio est\u00e1 fora de cogita\u00e7\u00e3o aqui. O Norte da Europa conseguiu manter um razo\u00e1vel n\u00edvel de industrializa\u00e7\u00e3o nesse per\u00edodo porque tamb\u00e9m dispunha de um razo\u00e1vel conjunto de medidas de pol\u00edtica industrial na m\u00e3o do Chefe do Poder Executivo. Isso \u00e9 poss\u00edvel porque esses pa\u00edses possuem ainda um elevado n\u00edvel de soberania nacional. <strong>O judici\u00e1rio, o legislativo e a imprensa n\u00e3o s\u00e3o meros instrumentos de uma pot\u00eancia estrangeira com o objetivo de sabotar o interesse nacional.<\/strong><\/p>\n<p><strong>7. Nosso modelo est\u00e1 na Am\u00e9rica Latina<\/strong><\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise de economia pol\u00edtica tem que estudar todo o contexto. Nesse caso, <strong>nossos modelos mais facilmente copi\u00e1veis est\u00e3o aqui mesmo na Am\u00e9rica Latina<\/strong>, onde os pa\u00edses sofrem de desafios muito semelhantes aos nossos.<\/p>\n<p>H\u00e1 quatro modelos paradigm\u00e1ticos de gest\u00e3o socioecon\u00f4mica no continente que foram considerados bem-sucedidos por pelo menos um lado do espectro pol\u00edtico. S\u00e3o eles, com as respectivas caracter\u00edsticas:<\/p>\n<p><strong>Modelos de gest\u00e3o econ\u00f4mica e social na Am\u00e9rica Latina no s\u00e9culo XXI<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-93710\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Screen-Shot-2018-05-16-at-10.04.59-1024x240.png\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Screen-Shot-2018-05-16-at-10.04.59-1024x240.png 1024w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Screen-Shot-2018-05-16-at-10.04.59-300x70.png 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Screen-Shot-2018-05-16-at-10.04.59-768x180.png 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Screen-Shot-2018-05-16-at-10.04.59.png 1408w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p>Desses modelos, <strong>o mais bem-sucedido foi o modelo da Argentina dos Kirchner<\/strong>. O sal\u00e1rio, o emprego e as pol\u00edticas sociais cresceram tanto ou mais do que nos governos do PT, mas a participa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria no PIB melhorou ou se manteve durante o per\u00edodo Kirchner.<\/p>\n<p><strong>8. Ind\u00fastria e \u201cConflito Distributivo\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Isso s\u00f3 foi poss\u00edvel porque a Argentina dos Kirchner na \u00e9poca usou 3 instrumentos que o PT n\u00e3o usou:<\/p>\n<p><strong>8.1) Impostos de exporta\u00e7\u00f5es sobre as commodities<\/strong><\/p>\n<p><strong>8.2) Controle de pre\u00e7os de tarifas de servi\u00e7os p\u00fablicos e insumos b\u00e1sicos<\/strong><\/p>\n<p><strong>8.3) Juros reais baixos<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, essas pol\u00edticas foram tamb\u00e9m fundamentais para a manuten\u00e7\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico em toda <strong>era Vargas<\/strong> e mesmo antes, na Rep\u00fablica Velha (de forma inconsciente em raz\u00e3o das tentativas de prote\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o do caf\u00e9), quando o Brasil tamb\u00e9m cresceu muito.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia dessas pol\u00edticas \u00e9 compreendida pela teoria do <strong>\u201cconflito distributivo\u201d<\/strong>. Segundo ela, o processo de <strong>desenvolvimento<\/strong> \u00e9 caracterizado pelo <strong>crescimento da participa\u00e7\u00e3o<\/strong> na renda das partes mais <strong>modernas e produtivas<\/strong> da sociedade em detrimento de outras partes, como as classes mais atrasadas ou ociosas.<\/p>\n<p><strong>Sem ind\u00fastria crescendo n\u00e3o h\u00e1 desenvolvimento. <\/strong>A <strong>ind\u00fastria<\/strong> \u00e9 o setor que gera as <strong>divisas em moeda estrangeira<\/strong> que s\u00e3o fundamentais para que o crescimento econ\u00f4mico n\u00e3o seja interrompido quando ele produzir o <strong>inevit\u00e1vel crescimento das importa\u00e7\u00f5es<\/strong>. Sem divisas em moedas estrangeiras para pagar pelas importa\u00e7\u00f5es aumentas pelo crescimento, haver\u00e1 crise cambial e fim do desenvolvimento.<\/p>\n<p><strong>Para que a ind\u00fastria aumente sua participa\u00e7\u00e3o no PIB, outros setores precisam diminuir<\/strong>. <strong>N\u00e3o pode ser os trabalhadores<\/strong>, porque eles s\u00e3o os cidad\u00e3os cujo Estado deve servir, e tamb\u00e9m porque o crescimento da ind\u00fastria gera aumento dos sal\u00e1rios.<\/p>\n<p>Caso se permita que as <strong>classes atrasadas e ociosas<\/strong> sejam capazes de impedir o crescimento da participa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria e do trabalho no PIB, elas o far\u00e3o atrav\u00e9s do aumento ou fixa\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os dos produtos que essas classes controlam. Eles fazem isso <strong>aumentando os pre\u00e7os dos servi\u00e7os de infraestrutura (pelos monop\u00f3lios), dos alimentos (pelo c\u00e2mbio), do aluguel (pela falta de infraestrutura urbana e moradias) ou dos juros (pela pol\u00edtica monet\u00e1ria)<\/strong>.<\/p>\n<p>Assim, <strong>todas as tentativas de aumento da participa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria e do trabalho no PIB geram aumentos nos pre\u00e7os dos setores atrasados ou ociosos, gerando assim infla\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>9. Industrializar \u00e9 c\u00e2mbio desvalorizado e conflito civil<\/strong><\/p>\n<p>As classes ociosas geralmente s\u00e3o muito poderosas politicamente. Por isso, um governo que busca a industrializa\u00e7\u00e3o ou a melhoria da distribui\u00e7\u00e3o de renda em favor do trabalhador precisa impedir a rea\u00e7\u00e3o dessas classes \u00e0 pol\u00edtica de desenvolvimento, atrav\u00e9s da luta pol\u00edtica para <strong>conten\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os das tarifas de servi\u00e7os p\u00fablicos, do c\u00e2mbio, dos juros ou dos alugueis<\/strong>. Ao fazer isso, a pol\u00edtica de desenvolvimento <strong>n\u00e3o gerar\u00e1 uma acelera\u00e7\u00e3o cont\u00ednua da infla\u00e7\u00e3o<\/strong>, portanto <strong>manter\u00e1 o c\u00e2mbio real desvalorizado e ser\u00e1 sustent\u00e1vel<\/strong>. <strong>Se o c\u00e2mbio real est\u00e1 desvalorizado, a ind\u00fastria tem lucro<\/strong> e uma participa\u00e7\u00e3o crescente na renda.<\/p>\n<p>O Brasil foi o pa\u00eds que mais cresceu no mundo entre 1930 e 1980. Em todo esse per\u00edodo a participa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria no PIB aumentou. Para a ind\u00fastria ter aumentado a participa\u00e7\u00e3o, os outros setores tiveram que perder. A agricultura e as tarifas da infraestrutura perderam participa\u00e7\u00e3o no PIB.<\/p>\n<p>O Brasil daquela \u00e9poca utilizou os mesmos 3 instrumentos utilizado pelos Kirchner. Na verdade, os Kirchner \u00e9 que utilizaram os instrumentos do \u201cantigo\u201d Brasil! Manter os <strong>juros baixos<\/strong> tem consequ\u00eancias \u00f3bvias a favor da ind\u00fastria. Manter as <strong>tarifas e insumos baratos<\/strong> tem vantagens \u00f3bvias para controle da infla\u00e7\u00e3o e para algumas ind\u00fastrias como aquelas que consomem muita energia, g\u00e1s ou servi\u00e7os de telecomunica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nessa pol\u00edtica foi fundamental os <strong>impostos<\/strong> ou mecanismos equivalentes aos impostos sobre as <strong>exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas<\/strong>, pois esses reduzem os pre\u00e7os dessas mesmas mat\u00e9rias-primas no mercado interno, reduzindo a infla\u00e7\u00e3o e gerando um sobre-lucro \u00e0s ind\u00fastrias que consomem essa mat\u00e9ria prima, especialmente para exporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>10. Conflito vs. modelo mexicano?<\/strong><\/p>\n<p>No caso brasileiro, o governo de cunho social mas de acomoda\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do PT garantiu que o trabalhador tivesse aumento da participa\u00e7\u00e3o na renda nacional, mas sem que as classes ociosas perdessem sua participa\u00e7\u00e3o. Por isso a corda arrebentou no lado mais fraco, a ind\u00fastria.<\/p>\n<p>Hoje a ind\u00fastria n\u00e3o tem mais gordura para perder, e a pol\u00edtica lulista, que foi muito bem-sucedida, n\u00e3o tem mais como ser mantida da mesma forma.<\/p>\n<p>Por esse motivo todas as for\u00e7as progressistas brasileiras admitem que n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda fora da reindustrializa\u00e7\u00e3o do Brasil. A campanha do candidato Ciro Gomes \u00e9 a mais enf\u00e1tica neste aspecto. T\u00e3o enf\u00e1tica que os economistas que elaboram seu plano de governo n\u00e3o falam muito de propostas sociais. Alguns desses economistas j\u00e1 chegaram a dizer que era um problema a pol\u00edtica lulista de aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p>Nesse sentido, tendo as condi\u00e7\u00f5es objetivas da Am\u00e9rica Latina como refer\u00eancia, podemos dizer que o programa Ciro namora com o modelo de desenvolvimento atual do M\u00e9xico, onde a ind\u00fastria cresce, mas os sal\u00e1rios e a qualidade de vida, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o podemos dizer que seja um modelo bem-sucedido, pois o candidato da esquerda de l\u00e1, Andr\u00e9s Manuel Lopes Obrador, est\u00e1 quase vencendo as elei\u00e7\u00f5es prometendo uma pol\u00edtica social igual \u00e0quela que foi bem sucedida durante os mandatos do presidente Lula.<\/p>\n<p><strong>11. Ciro vs. Lula: os conflitos ser\u00e3o inevit\u00e1veis?<\/strong><\/p>\n<p>Esse discurso focado na economia talvez ajude a explicar por que o candidato Ciro Gomes n\u00e3o sobe nas pesquisas. Ele s\u00f3 sobe quando Lula n\u00e3o est\u00e1 nas pesquisas, pois \u00e9 visto por muitos como um retorno imperfeito aos anos do PT, quando foi ministro.<\/p>\n<p>Ciro acerta ao propor a reindustrializa\u00e7\u00e3o e a moderniza\u00e7\u00e3o da economia. Por\u00e9m essa pol\u00edtica, sem povo, vira o modelo mexicano. Mas povo com industrializa\u00e7\u00e3o \u00e9 o modelo Getulista ou o modelo recente da Argentina dos Kirchner. Esse modelo implica usar a for\u00e7a do Estado para abrir espa\u00e7o na renda nacional para ind\u00fastria e trabalhadores, para assim diminuir a participa\u00e7\u00e3o dos bancos, rentistas, latifundi\u00e1rios, propriet\u00e1rios da infraestrutura privatizada e donos de im\u00f3veis.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que isso n\u00e3o se faz sem forte oposi\u00e7\u00e3o. Get\u00falio fez isso de forma autorit\u00e1ria ou sob forte conflito social. Teve que arcar com muitas tentativas de golpe e uma Guerra Civil. Acabou n\u00e3o resistindo \u00e0 \u00faltima tentativa de golpe e s\u00f3 deu a volta por cima tirando a pr\u00f3pria vida para manter seu modelo atrav\u00e9s do seu escolhido para suced\u00ea-lo: JK \u2013 Juscelino Kubistchek.<\/p>\n<p>Na Argentina do Kirchner n\u00e3o foi muito diferente. Desde o in\u00edcio houve uma tens\u00e3o permanente entre governo e trabalhadores contra a imprensa, a Justi\u00e7a, o Congresso, os bancos, latifundi\u00e1rios e as empresas privatizadas de servi\u00e7os p\u00fablicos. N\u00e3o houve concilia\u00e7\u00e3o pac\u00edfica, mas conflituosa. Nesse processo, o governo teve que substituir na marra ministros do Supremo, investir em m\u00eddia alternativa, quebrar monop\u00f3lios midi\u00e1ticos, sofrer diversos lockouts dos ruralistas, sabotagens diversas e falta de investimento dos donos da infraestrutura privatizada e corte do cr\u00e9dito externo e interno pela banca.<\/p>\n<p><strong>12. Trai\u00e7\u00e3o, conflito antecipado, desenvolvimento e soberania<\/strong><\/p>\n<p>Se n\u00e3o queremos empurrar o custo da necess\u00e1ria moderniza\u00e7\u00e3o da economia sobre o povo, temos que admitir que ser\u00e1 necess\u00e1rio enfrentar todas essas rea\u00e7\u00f5es das classes ociosas e atrasadas.<\/p>\n<p>O que j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 t\u00e3o dif\u00edcil, uma vez que as classes ociosas se anteciparam e anunciaram a esquerda como sua inimiga a ser destru\u00edda. Isso quando essa fazia de tudo para evitar o conflito e mostrava sua amizade e disposi\u00e7\u00e3o para conciliar e ceder, ceder e ceder.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que o Ciro Gomes vai comprar essa briga? Ou far\u00e1 como no M\u00e9xico, fazendo o povo pagar o pre\u00e7o da moderniza\u00e7\u00e3o e industrializa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Provavelmente s\u00f3 Lula ter\u00e1 lideran\u00e7a, disposi\u00e7\u00e3o e clareza para ser bem-sucedido na arbitragem do conflito distributivo. E isso mesmo depois de tudo o que sofreu. \u201cMesmo depois\u201d? Na verdade, provavelmente s\u00f3 Lula \u2013 curtido na dor da trai\u00e7\u00e3o e energizado com a lealdade do povo \u2013 ter\u00e1 ascend\u00eancia, apoio popular e capacidade de di\u00e1logo para fazer um bom acordo que permita que as classes ociosas, que j\u00e1 ganharam tanto nos \u00faltimos anos, possam ganhar um pouco menos para liberar, assim, recursos para viabilizar a moderniza\u00e7\u00e3o e a reindustrializa\u00e7\u00e3o do Brasil. Sem isso nossa sociedade n\u00e3o poder\u00e1 se tornar efetivamente independente, soberana e desenvolvida em um mundo cada vez mais agressivo e mais dependente de tecnologia na m\u00e3o de t\u00e3o poucos.<\/p>\n<p>___________________<\/p>\n<ol>\n<li id=\"post-92682-footnote-1\">Doutor em economia pela UFRJ, economista do BNDES licenciado, assessor parlamentar e comentarista do Duplo Expresso. <a href=\"#post-92682-footnote-ref-1\">\u2191<\/a><\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cGrande M\u00e9xico\u201d? Todas as for\u00e7as progressistas brasileiras admitem que n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda fora da reindustrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. A campanha de Ciro Gomes \u00e9 a mais enf\u00e1tica neste aspecto. Mas seus economistas n\u00e3o falam de propostas sociais. Alguns j\u00e1 chegaram a dizer que a pol\u00edtica lulista de aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo era um problema! Se n\u00e3o queremos empurrar o custo da necess\u00e1ria moderniza\u00e7\u00e3o da economia sobre o povo, teremos de enfrentar a rea\u00e7\u00e3o dos rentistas. Ciro Gomes vai comprar essa briga? 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