{"id":93178,"date":"2018-05-04T11:43:20","date_gmt":"2018-05-04T14:43:20","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=93178"},"modified":"2018-06-22T10:18:42","modified_gmt":"2018-06-22T13:18:42","slug":"o-retorno-a-antiga-idade-moderna-ii-angola-a-rainha-nzinga-e-a-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=93178","title":{"rendered":"O retorno \u00e0 antiga Idade Moderna II \u2013  Angola: A Rainha Nzinga e a Resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Por Jo\u00e3o de Athayde, para o Duplo Expresso<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O retorno \u00e0 antiga Idade Moderna segue. Por um lado, querem empurrar o Brasil para os tempos-sem-direitos de antes da queda da Bastilha, e por outro, certos temas sobre a Idade Moderna (1453-1789) est\u00e3o muito em dia. Em artigo anterior tratei do tema do sebastianismo portugu\u00eas e brasileiro\u00b9. Mas a hist\u00f3ria do Brasil n\u00e3o tem fundo s\u00f3 europeu e mesmo que o atual minist\u00e9rio deseducativo no poder n\u00e3o tenha a isso nenhuma afei\u00e7\u00e3o, insistimos em trazer Brasil e \u00c1frica para o centro da discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Nzinga Mbandi, tamb\u00e9m conhecida como rainha Ginga, Jinga ou ainda Njinga foi soberana de Matamba, numa regi\u00e3o que hoje \u00e9 Angola e viveu de 1582 \u00e0 1663, morrendo ent\u00e3o com 81 anos sendo a \u201cinimiga invicta dos europeus\u201d. Foi batizada em 1621 com o nome de Ana de Souza. Uma convers\u00e3o certamente estrat\u00e9gica no jogo de com\u00e9rcio e poder em que se afrontavam portugueses, holandeses e v\u00e1rios povos africanos. Convers\u00e3o que talvez em algum momento se tornou f\u00e9 genu\u00edna. De qualquer maneira Nzinga em muitos momentos foi e voltou ao cristianismo, e praticou os ritos iniciat\u00f3rios e costumes locais que podiam incluir a antropofagia. Ela manteve durante um per\u00edodo uma esp\u00e9cie de har\u00e9m ao contr\u00e1rio, uma corte de homens amantes. Um dia, por\u00e9m, disse numa carta aos portugueses : \u201cagora vou casar com um s\u00f3\u201d\u00b2.<\/p>\n<p>Nzinga n\u00e3o era abolicionista, id\u00e9ia que n\u00e3o existia naquele momento e contexto local, parte de sua luta era efetivamente pelo controle de rotas de com\u00e9rcio de escravos. Ela foi uma rainha resistente contra a expans\u00e3o portuguesa e contra o fato que os povos liderados por ela fossem escravizados e enviados para o Brasil. Para isso uniu diversos povos at\u00e9 ent\u00e3o inimigos, como os tem\u00edveis guerreiros Jagas, e comandava pessoalmente seus ex\u00e9rcitos nos campos de batalha. Virou por isso, s\u00edmbolo de independ\u00eancia e de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Talvez o momento mais representativo da altivez de Nzinga, foi durante uma audi\u00eancia para a negocia\u00e7\u00e3o de um tratado de paz com o governador portugu\u00eas, que a recebia em seu pal\u00e1cio em Luanda. O governador estava sentado em uma cadeira, por\u00e9m n\u00e3o havia outra cadeira para que Nzinga se sentasse, ela deveria acomodar-se em almofadas no ch\u00e3o, numa clara estrat\u00e9gia de humilha\u00e7\u00e3o de parte do europeu. Nzinga, pensou r\u00e1pido e ordenou que uma serva sua ficasse de quatro para que ela pudesse sentar-se sobre ela e assim negociar de igual para igual com o representante portugu\u00eas. Sua perspic\u00e1cia, assim, entrou para a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_93180\" aria-describedby=\"caption-attachment-93180\" style=\"width: 409px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-93180\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/ginga-300x251.png\" alt=\"\" width=\"409\" height=\"343\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/ginga-300x251.png 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/ginga.png 554w\" sizes=\"auto, (max-width: 409px) 100vw, 409px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-93180\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Audi\u00eancia do governador Jo\u00e3o Correia de Sousa com a diplomata Jinga-Mbandi- Ngola, no pal\u00e1cio das autoridades portuguesas, em Luanda, no ano de 1622, para conversa\u00e7\u00e3o de um acordo de paz.<br \/> Fonte: CAVAZZI, Descri\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica dos Tr\u00eas Reinos do Congo, Matamba e Angola&#8221;<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As povoa\u00e7\u00f5es \u00e0 base de madeira e palha onde viviam os Jagas aliados de Nzinga, eram chamados de quilombos. N\u00e3o \u00e9 a toa que nesse mesmo per\u00edodo no Brasil, muitos escravos foragidos origin\u00e1rios desta mesma regi\u00e3o da atual Angola viviam e lutavam no Quilombo dos Palmares. Tropas luso-brasileiras\u00b3 que haviam combatido os quilombolas de Palmares, tamb\u00e9m foram usadas na guerra contra Nzinga. Afinal, de que adiantava expulsar os holandeses do Nordeste se, como disse o religioso irm\u00e3o Gon\u00e7alo Jo\u00e3o, \u201csem Angola n\u00e3o h\u00e1 Brasil\u201d, e o padre Ant\u00f4nio Vieira, \u201csem negros n\u00e3o h\u00e1 Pernambuco, e sem Angola n\u00e3o h\u00e1 negros\u201d\u2074. H\u00e1, pois, que se dominar Angola para fazer o Brasil escravagista existir e prosperar. Fica a li\u00e7\u00e3o de que, se por um lado, para dominar um determinado pa\u00eds, o com\u00e9rcio imperialista precisa passar pela domina\u00e7\u00e3o de outras na\u00e7\u00f5es, por outro, a autonomia desses outros pa\u00edses e a resist\u00eancia no exterior d\u00e1 for\u00e7a \u00e0 resist\u00eancia no Brasil.<\/p>\n<p>Muito foi dito sobre a m\u00edtica Nzinga e muito ainda se poderia falar, mas n\u00e3o sou especialista nessa regi\u00e3o da \u00c1frica. Simplesmente a saga de Nzinga me golpeou \u2013 como a muitos \u2013 de maneira emocional, me levando a compor uma can\u00e7\u00e3o sobre este tema (que apresento num link logo a baixo). Nzinga ali\u00e1s, aparece no congado, na capoeira e em outras tradi\u00e7\u00f5es populares brasileiras.<\/p>\n<p>Nzinga, uma t\u00e3o importante personagem hist\u00f3rica \u00e9 certamente uma figura complexa.<br \/>\nComplexidade a qual eu certamente n\u00e3o fa\u00e7o jus nos breves versos que escrevi para esse enredo-can\u00e7\u00e3o onde tento exaltar o aspecto de resist\u00eancia pol\u00edtica e cultural que se pode extrair do legado da rainha Nzinga, e junt\u00e1-lo \u00e0 imagem, tanto concreta como arquet\u00edpica, de \u201ctambores da liberdade\u201d. Tambores que comunicam, que expressam o diz\u00edvel e o indiz\u00edvel, anunciam o combate e celebram a liberdade de indiv\u00edduos plenos em corpos e mentes; liberdade de na\u00e7\u00f5es aut\u00f4nomas, independentes. Brasil Na\u00e7\u00e3o-Tambor, assim como o s\u00e3o tantas na\u00e7\u00f5es africanas e latino-americanas.<\/p>\n<p>Compus esses versos ent\u00e3o assim, de supet\u00e3o, quando primeiro entrei em contato com a hist\u00f3ria de Nzinga e narrativas que muitas vezes se confundem com lendas. S\u00f3 posteriormente fui conhecer um pouco mais esta figura hist\u00f3rica, seu contexto e suas representa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Afinal a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 exatamente o passado, mas uma rela\u00e7\u00e3o entre presente e o passado. Hist\u00f3ria, eu diria, s\u00e3o maneiras de ver, de interpretar e articular certas fontes do passado com outras fontes do passado e todas estas com fatos e id\u00e9ias do presente. Como nos servimos da Hist\u00f3ria ? Isso \u00e9 parte das a\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas que podemos efetuar. <strong>Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica; quando n\u00e3o a de hoje, a do amanh\u00e3<\/strong>. No Brasil, distingue-se claramente : de um lado, quem valorizou e aumentou o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, quem incluiu a \u00c1frica e as africanidades no curr\u00edculo escolar (colocando neste ponto o ensino brasileiro entre os mais modernos do mundo), e de outro, quem corta verbas para educa\u00e7\u00e3o e sem nenhum pudor da indec\u00eancia fala de \u201cescola sem partido\u201d, c\u00ednico nome para \u201cescola sem consci\u00eancia\u201d, uma escola para dominados.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, me parece que Nzinga, sempre altiva em suas a\u00e7\u00f5es e negocia\u00e7\u00f5es, n\u00e3o tinha complexo de vira-latas, por isso, enquanto ela viveu, imperialistas n\u00e3o conquistaram seu reino. Organizemos hoje nossa resist\u00eancia, para que n\u00e3o se (re)instale no Brasil um tempo em que o simples fato de dar uma aula possa ser considerado como uma desobedi\u00eancia civil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>V\u00eddeo musical \u00ab\u00a0Nzinga\u00a0\u00bb, de Jo\u00e3o de Athayde:<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pg8ucxbwpQE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1 <a href=\"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=92512\">De retorno \u00e0 antiga Idade Moderna o o contempor\u00e2neo retorno aos tempos antigos<\/a><\/p>\n<p>2 Luiz Felipe de Alencastro, O Trato dos Viventes (2000\u00a0: 278-279)<\/p>\n<p>3 Ou \u00ab\u00a0bras\u00edlicas\u00a0\u00bb como prefere Alencastro (2000), porque o Brasil como conhecemos hoje, nesse momento n\u00e3o estava formado.<\/p>\n<p>4 Luiz Felipe de Alencastro (2000\u00a0: 230)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Para um aprofundamento na quest\u00e3o de Nzinga e sua \u00e9poca, aconselho o livro de Luiz Felipe Alencastro, O Trato dos Viventes, livro ali\u00e1s fundamental para a compreens\u00e3o do Brasil e das redes internacionais na qual o Brasil foi formado. A obra esclarece muito do que vivemos e acreditamos \u2013 ou fantasiamos \u2013 hoje. <\/em><br \/>\n<em>Para um olhar sobre Nzinga num belo \u00e2mbito liter\u00e1rio, \u201cA rainha Ginga &#8211; e de como os africanos inventaram o mundo\u201d, do escritor angolano Jos\u00e9 Eduardo Agualusa.<\/em><\/p>\n<p><em>Outras fontes utilizadas\u00a0:<\/em><\/p>\n<p><em>Desine Rocha (2011) &#8211; Imagens da diplomacia de Nzinga Mbandi Ngola, em Luanda, no ano de 1621\u00a0: hist\u00f3rias gravuras e narrativa (Pepetela) <\/em><br \/>\n<em>http:\/\/www.uel.br\/eventos\/eneimagem\/anais2011\/trabalhos\/pdf\/Denise%20Rocha-%20UNITINS,%20Palmas..pdf<\/em><\/p>\n<p><em>Carlos Serrano,\u00a0entrevista com, \u00ab\u00a0Mulheres de Angola lideravam tr\u00e1fico de escravos para o Brasil\u00a0\u00bb, RFI 22\/05\/16, \u00ab\u00a0As vozes do Mundo\u00a0\u00bb<\/em><br \/>\n<em>http:\/\/br.rfi.fr\/africa\/20160522-mulheres-de-angola-lideravam-trafico-de-escravos-para-o-brasil<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o de Athayde \u00e9 antrop\u00f3logo, carioca residente na Fran\u00e7a (Aix en Provence). Ligado ao IMAF (Institut des Mondes Africains\/ Instituto dos Mundos Africanos). Universidade de Aix-Marselha, Fran\u00e7a. Realiza doutorado sobre as heran\u00e7as culturais ligadas ao tr\u00e1fico de escravos no contexto do Atl\u00e2ntico Negro, em especial sobre identidade, religi\u00e3o e festa popular entre os Agud\u00e0s, descendentes dos escravos retornados do Brasil ao Benim e Togo, numa perspectiva comparativa entre a \u00c1frica e o Nordeste Brasileiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O retorno \u00e0 antiga Idade Moderna segue. Por um lado, querem empurrar o Brasil para os tempos-sem-direitos de antes da queda da Bastilha, e por outro, certos temas sobre a Idade Moderna (1453-1789) est\u00e3o muito em dia. Mas a hist\u00f3ria do Brasil n\u00e3o tem fundo s\u00f3 europeu e mesmo que o atual minist\u00e9rio deseducativo no poder n\u00e3o tenha a isso nenhuma afei\u00e7\u00e3o, insistimos em trazer Brasil e \u00c1frica para o centro da discuss\u00e3o.<br \/>\nNzinga n\u00e3o era abolicionista, id\u00e9ia que n\u00e3o existia naquele momento e contexto local, parte de sua luta era efetivamente pelo controle de rotas de com\u00e9rcio de escravos. 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