{"id":91982,"date":"2018-04-05T23:11:54","date_gmt":"2018-04-06T02:11:54","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=91982"},"modified":"2018-04-20T06:11:23","modified_gmt":"2018-04-20T09:11:23","slug":"dividi-et-impera-divide-e-conquista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=91982","title":{"rendered":"\u201cDivide et impera\u201d \u2013 Divide e conquista"},"content":{"rendered":"<pre><em>Nas imagens divulgadas pelos colonizadores de seus pr\u00f3prios feitos, s\u00f3 acredita quem quiser.... <\/em>\r\n<em>A legenda diz : Campanha do Daom\u00e9 (1893) \u2013 Entrada da Bandeira (francesa) em Abom\u00e9. (Abom\u00e9 era a capital do reino que os Franceses estavam invadindo...).<\/em><\/pre>\n<p><strong>Por Jo\u00e3o de Athayde, para o Duplo Expresso<\/strong><\/p>\n<p>Estimulado pelo <a href=\"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=91819\"><span style=\"text-decoration: underline;\">artigo do Angolano Paulo Gamba<\/span><\/a> publicado em 01\/04\/18 sobre as Amazonas do ex\u00e9rcito do reino de Abom\u00e9 (no Daom\u00e9 antigo, atual Benim) e a participa\u00e7\u00e3o delas na guerra contra os invasores Franceses no final do s\u00e9culo XX, resolvi contribuir com esta pequena reflex\u00e3o sobre um exemplo \u2013 e um alerta \u2013 de como pa\u00edses e interesses estrangeiros dividem para invadir. &#8220;Divide et impera&#8221; (Divide e conquista, em latim)\u00a0\u00e9 uma express\u00e3o atribu\u00edda a Felipe II da Maced\u00f4nia, que a teria dito em grego. N\u00e3o se sabe ao certo se ele usou a express\u00e3o, mas sabe-se que ele a colocou em pr\u00e1tica, explorando a divis\u00e3o entre as cidades-estados gregas at\u00e9 lev\u00e1-las \u00e0 derrota. De l\u00e1 para c\u00e1, muitos outros governantes utilizaram e praticaram a estrat\u00e9gia do \u201cDivide e conquista\u201d.<\/p>\n<p>Hoje v\u00e1rios pesquisadores dividem a era da coloniza\u00e7\u00e3o em coloniza\u00e7\u00e3o I e coloniza\u00e7\u00e3o II. Coloniza\u00e7\u00e3o I \u00e9 a que come\u00e7a com a expans\u00e3o mar\u00edtima portuguesa e espanhola nos s\u00e9culos XV e XVI, que inclui as Am\u00e9ricas, e certos pontos da \u00c1frica e da \u00c1sia. Coloniza\u00e7\u00e3o II \u00e9 a expans\u00e3o que se d\u00e1 em meados e no final do s\u00e9culo XIX e tamb\u00e9m no s\u00e9culo XX. Diferente da primeira, esta segunda expans\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 Europeia e inclui, por exemplo, o Jap\u00e3o e os EUA.<\/p>\n<p>Num contexto de coloniza\u00e7\u00e3o, busco evitar o termo habitual de \u201cgrandes pot\u00eancias\u201d, que evoca uma ideia positiva de for\u00e7a viril e reprodutora. Dou prefer\u00eancia a termos como \u201cpa\u00edses colonizadores\u201d, \u201cexpansionistas\u201d ou \u201cimperialistas\u201d, que, em vez de enaltecer o aspecto ligado ao poderio, exprimem mais precisamente a inten\u00e7\u00e3o e a a\u00e7\u00e3o desses pa\u00edses durante a forma\u00e7\u00e3o de seus imp\u00e9rios territoriais e econ\u00f4micos. A precis\u00e3o na escolha de certos termos pode ser muito importante. Se lembramos de George Orwell e a terr\u00edvel novil\u00edngua em 1984, a domina\u00e7\u00e3o, o controle da mente e da sociedade come\u00e7a, se consolida \u2013 e muitas vezes se conclui \u2013 no controle da palavra, que organiza socialmente nossos pensamentos permitindo a transmiss\u00e3o de ideias. Por isso, sistemas autorit\u00e1rios, sejam eles estados ou institui\u00e7\u00f5es, impedem, cerceiam ou buscam deslegitimar a palavra cr\u00edtica, a palavra livre, a palavra de conscientiza\u00e7\u00e3o (e essas tr\u00eas s\u00f3 fazem sentido se v\u00e3o realmente juntas, pois um fascista poderia bradar que sua palavra \u00e9 \u201ccr\u00edtica e livre\u201d, mas sabemos que esta n\u00e3o ser\u00e1 jamais uma palavra de conscientiza\u00e7\u00e3o, mas sim de manipula\u00e7\u00e3o). Sabendo como a grande m\u00eddia \u00e9 controlada ou cooptada, sobretudo no Brasil, e quais s\u00e3o suas nefastas inten\u00e7\u00f5es, vemos a import\u00e2ncia de espa\u00e7os de reflex\u00e3o e debate possibilitados pela internet como este do Duplo Expresso.<\/p>\n<p>Mas, voltando \u00e0 era de pol\u00edticas e a\u00e7\u00f5es de \u201cretalho da \u00c1frica\u201d por pa\u00edses imperialistas no s\u00e9culo XIX. Tr\u00eas na\u00e7\u00f5es expansionistas, a Inglaterra, a Fran\u00e7a e a Alemanha buscavam se consolidar na regi\u00e3o dos atuais Benin, Togo e Nig\u00e9ria, conhecida ent\u00e3o como \u201cCosta dos Escravos\u201d. Ela era assim conhecida por exportar escravos, enviados na sua maioria para o Brasil. Eram tantos que bem merecer\u00edamos a alcunha de \u201cCosta Brasileira dos Escravos\u201d pelo triste pr\u00eamio de maior importador. No intuito de estender seus poderios, n\u00e3o se tratava simplesmente de \u201cdesembarque e invas\u00e3o\u201d de ex\u00e9rcitos europeus. Foram estrat\u00e9gias de m\u00e9dio e longo prazo; os bra\u00e7os fortes eram comerciais, diplom\u00e1ticos, coercitivos e armados; ou seja, algo muito pr\u00f3ximo ao que hoje se denomina uma guerra h\u00edbrida. Tinham algo de m\u00e1fia ou de mil\u00edcia, do tipo que tento resumir na forma desta cantilena :<\/p>\n<p>Te protejo da minha viol\u00eancia,<br \/>\nou de outra viol\u00eancia de mesmo modelo,<br \/>\nse me pagares com tua fidelidade,<br \/>\ntua liberdade<br \/>\ne com tuas for\u00e7as<br \/>\nque usarei para aumentar<br \/>\na viol\u00eancia do meu combate.<\/p>\n<p>Pouco me importa, por\u00e9m, a tua fatalidade<br \/>\npor que no fim ficarei com tuas riquezas,<br \/>\nlembrando de deixar<br \/>\numas migalhas para tua realeza.<\/p>\n<p>Diversos reinos africanos existiam no \u00e1rea do atual Benim, entre os quais o mais poderoso era o de Abom\u00e9. J\u00e1 Porto-Novo era uma cidade-reino independente que, embora fosse culturalmente pr\u00f3xima a Abom\u00e9, entrava freq\u00fcentemente em conflito com esta, sendo por\u00e9m mais fraca no plano militar e econ\u00f4mico. No fim do s\u00e9culo XIX o tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico j\u00e1 n\u00e3o existia, mas numerosos habitantes destes dois reinos e de outros vizinhos j\u00e1 tinham sido enviados em cativeiro para o Brasil, onde muitas vezes eram chamados pelo nome gen\u00e9rico de Jejes.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s ter sofrido ataques de Ingleses e Abomeanos, o rei de Porto-Novo pede a prote\u00e7\u00e3o dos Franceses. O protetorado se estabelece, e os Franceses o usam como uma das bases para o conflito com o Reino de Abom\u00e9, Porto-Novo participando ent\u00e3o ativamente da guerra contra seu vizinho. Os armamentos eram muito desiguais e, apesar da resist\u00eancia, entre as quais as das tem\u00edveis Amazonas, ao fim de duas sangrentas guerras o Reino de Abom\u00e9 \u00e9 vencido. Os Franceses estabelecem ent\u00e3o a col\u00f4nia do Daom\u00e9 (1894), englobando todos os territ\u00f3rios da regi\u00e3o e fazem de Porto-Novo sua capital. Mas em poucos anos todos os chefes locais, tenham sido eles aliados ou n\u00e3o, perdem sua import\u00e2ncia pol\u00edtica, as justi\u00e7as africanas locais s\u00e3o relegadas aos casos tidos como desimportantes, o fundamental indo para a justi\u00e7a colonial francesa. Boa parte das elites das africanas v\u00e3o sendo cooptadas, o desinteresse da administra\u00e7\u00e3o colonial pelos problemas das classes populares \u00e9 generalizado, uma nova ordem se estabelece: o mais importante \u00e9 evitar revoltas e que a col\u00f4nia siga em seu papel perif\u00e9rico de fornecedor de mat\u00e9rias primas, m\u00e3o de obra-barata, mercado consumidor de produtos e servi\u00e7os da metr\u00f3pole, e ponto de apoio log\u00edstico.<\/p>\n<p>O Daom\u00e9 s\u00f3 conquistar\u00e1 sua independ\u00eancia em 1960, mudando posteriormente o nome para Rep\u00fablica do Benim. Falta de infra-estrutura, graves problemas de saneamento, justi\u00e7a, educa\u00e7\u00e3o e sal\u00e1rios baix\u00edssimos (e quando se os t\u00eam) : at\u00e9 hoje certos aspectos da economia do Benim s\u00e3o perif\u00e9ricos \u00e0 da Fran\u00e7a. Um exemplo \u00e9 a moeda nacional, o Franco CFA, que teve c\u00e2mbio atrelado \u00e0 for\u00e7a ao antigo Franco Franc\u00eas e atualmente ao Euro.<\/p>\n<p>Dividir para conquistar; cooptar ou buscar alian\u00e7a com for\u00e7as secund\u00e1rias locais contra a for\u00e7a pol\u00edtica principal existente, para em seguida domin\u00e1-las todas, inimigas ou antigas aliadas. Isto ocorreu no Benim e em v\u00e1rios pa\u00edses africanos, ocorreu tamb\u00e9m quando um punhado de espanh\u00f3is chegaram no Peru e despeda\u00e7aram o imp\u00e9rio Inca. N\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia com o que est\u00e1 se desenhando no Brasil atual, onde ali\u00e1s, nos prim\u00f3rdios da col\u00f4nia, grupos ind\u00edgenas foram instrumentalizados por Europeus como m\u00e3o de obra ou de combate, e terminaram todos igualmente derrotados. \u00c9 estrat\u00e9gia de comprovado resultado. A defesa? Cabe a n\u00f3s nos unir com quem quer realmente resistir, ou corremos o risco de assistir \u00e0 um novo velho filme : Coloniza\u00e7\u00e3o III \u2013 o Imp\u00e9rio Contra-Ataca, onde o produtor fica com todo o dinheiro da bilheteria e voc\u00ea, fechado, no escuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; Joa\u0303o de Athayde \u00e9 antrop\u00f3logo, carioca residente na Fran\u00e7a (Aix en Provence). Ligado ao IMAF (Institut des Mondes Africains\/ Instituto dos Mundos Africanos). Universidade de Aix-Marselha, Fran\u00e7a. Realiza doutorado sobre as heran\u00e7as culturais ligadas ao tr\u00e1fico de escravos no contexto do Atl\u00e2ntico Negro, em especial sobre identidade, religi\u00e3o e festa popular entre os Agud\u00e0s, descendentes dos escravos retornados do Brasil ao Benim e Togo, numa perspectiva comparativa entre a \u00c1frica e o Nordeste Brasileiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o se sabe ao certo se ele usou a express\u00e3o, mas sabe-se que ele a colocou em pr\u00e1tica, explorando a divis\u00e3o entre as cidades-estados gregas at\u00e9 lev\u00e1-las \u00e0 derrota. 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