{"id":91782,"date":"2018-03-30T15:44:36","date_gmt":"2018-03-30T18:44:36","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=91782"},"modified":"2018-06-22T10:16:20","modified_gmt":"2018-06-22T13:16:20","slug":"um-golpe-bem-britanico-e-outro-bem-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=91782","title":{"rendered":"Um Golpe bem brit\u00e2nico \u2013 e outro bem brasileiro"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Yorkshire Tea, para o Duplo Expresso<\/strong><\/p>\n<p>\u201cA Very British Coup\u201d (Um Golpe Bem Brit\u00e2nico) de Chris Mullin, um ex-pol\u00edtico ingl\u00eas do Partido Trabalhista, foi originalmente publicado em 1982. Mais tarde, o livro foi transformado numa miniss\u00e9rie hom\u00f4nima, inicialmente transmitida pelo canal ingl\u00eas Channel 4, em 1988. Al\u00e9m de ter sido exibida em mais de 30 pa\u00edses, a miniss\u00e9rie foi premiad\u00edssima, conquistando alguns pr\u00eamios BAFTA e um Emmy.<\/p>\n<p>Resumidamente, a obra trata da elei\u00e7\u00e3o de um primeiro ministro brit\u00e2nico trabalhista, Harry Perkins, um ex-sindicalista genuinamente de esquerda, e do golpe que se segue, engendrado pelo establishment, reunindo a m\u00eddia, a banca, o alto escal\u00e3o das FFAA e dos servi\u00e7os de seguran\u00e7a, a elite do funcionalismo p\u00fablico e sindicatos cooptados. Al\u00e9m, claro, dos EUA. Onipresentes quando se trata de derrubar governos n\u00e3o alinhados.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria de Harry Perkins \u00e9 baseada na defesa de uma plataforma radical, que inclu\u00eda, entre outras iniciativas, o desarmamento nuclear unilateral, a sa\u00edda da Comunidade Econ\u00f4mica Europeia (futura Uni\u00e3o Europeia), a sa\u00edda da OTAN, a quebra dos monop\u00f3lios jornal\u00edsticos\u00b9 e uma maior influ\u00eancia governamental sobre o sistema banc\u00e1rio. Um programa inaceit\u00e1vel para o establishment. Com isso, a conspira\u00e7\u00e3o contra o ex-metal\u00fargico se inicia j\u00e1 na noite de sua elei\u00e7\u00e3o. A contagem dos votos mal havia terminado, e as engrenagens do golpe j\u00e1 come\u00e7avam a se mover simultaneamente nos dois lados do Atl\u00e2ntico, alinhavando todas as possibilidades de sabotagem, excluindo apenas uma invas\u00e3o por fuzileiros navais: ataques especulativos contra a moeda, boicote \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es, venda de ativos e fuga de capitais, ataques midi\u00e1ticos, press\u00f5es diretas e indiretas, espionagem, grampos, chantagens, infiltra\u00e7\u00e3o de sabotadores em manifesta\u00e7\u00f5es, manipula\u00e7\u00e3o de sindicatos \u201camigos\u201d. Enfim, todo o arsenal tipicamente utilizado para derrubar governos em Golpes de Estado.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o poderia ser diferente, o romance reflete as circunst\u00e2ncias pol\u00edticas existentes \u00e0 \u00e9poca, quando Margareth Thatcher, no comando do Partido Conservador (Tory Party), j\u00e1 era a Primeira Ministra, mas ainda n\u00e3o tinha toda a influ\u00eancia e controle sobre o poder que viria a angariar anos mais tarde. O Partido Trabalhista (Labour Party) ainda n\u00e3o havia passado pela reforma liderada por Tony Blair, que levou \u00e0 ascens\u00e3o do \u201cNew Labour\u201d, cuja forma de governar ficou conhecida como \u201cTerceira Via\u201d, um tipo de macronismo avant la l\u00e9ttre (vendia-se como n\u00e3o sendo nem de esquerda nem de direita, muito pelo contr\u00e1rio). Na verdade, a Terceira Via acabou solapando os v\u00ednculos que uniam o partido a suas bases tradicionais, formadas por oper\u00e1rios, mineiros, estivadores, etc. Por\u00e9m, quando o livro foi publicado, o Partido Trabalhista ainda estava muito ligado \u00e0 esquerda\u00b2.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o per\u00edodo imediatamente posterior \u00e0 derrota, nas elei\u00e7\u00f5es gerais de 1979, do governo trabalhista, liderado por James Callaghan (1976-1979), para os conservadores, liderados por Margareth Thatcher (1979-1990). Callaghan havia assumido o governo ap\u00f3s a misteriosa ren\u00fancia de Harold Wilson durante seu segundo per\u00edodo ocupando o n\u00famero 10 de Downing Street (1974-1976). Existem algumas &#8220;teorias da conspira\u00e7\u00e3o&#8221; que tratam da tentativa de derrubar Wilson do poder. Como veremos adiante, havia um fundo de verdade nisso. Ap\u00f3s o fracasso nas urnas, os trabalhistas amargariam um longo per\u00edodo longe do poder (1979-1997).<\/p>\n<p>Como resultado do rev\u00e9s de 1979, ocorre uma disputa interna entre Tony Benn (representando a ala esquerda do partido) e Denis Healey (representando a ala direita). No entanto, em 1980, Michael Foot acaba sendo eleito l\u00edder do partido. E sua plataforma era radicalmente de esquerda. Os principais pontos defendidos por ele inclu\u00edam igualmente o desarmamento nuclear unilateral, a sa\u00edda da Comunidade Econ\u00f4mica Europeia e da OTAN, uma maior influ\u00eancia governamental sobre o sistema banc\u00e1rio, al\u00e9m da cria\u00e7\u00e3o de um sal\u00e1rio m\u00ednimo e da proibi\u00e7\u00e3o da ca\u00e7a \u00e0 raposa (\u201cesporte\u201d tradicionalmente ligado \u00e0 aristocracia). Na introdu\u00e7\u00e3o do livro (vide abaixo), Chris Mullin menciona Tony Benn, como potencial lideran\u00e7a trabalhista nas elei\u00e7\u00f5es da \u00e9poca. Acredito que caberia tamb\u00e9m uma breve men\u00e7\u00e3o a Michael Foot. Afinal de contas, as pol\u00edticas por ele defendidas na vida real formam a base da plataforma vencedora de Harry Perkins na fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse golpe fict\u00edcio foi muito parecido com o golpe real sofrido pelo Brasil. As semelhan\u00e7as entre os grupos envolvidos (m\u00eddia, institui\u00e7\u00f5es financeiras, empresariado, sindicatos cooptados, a parte do funcionalismo p\u00fablico capturada pelos interesses do establishment, al\u00e9m do deep state norte-americano) e as a\u00e7\u00f5es por eles implementadas \u00e9 impressionante! Na obra de fic\u00e7\u00e3o e no pa\u00eds de verdade, os mesmos grupos se movem concertados, visando o mesmo resultado: dar um Golpe de Estado e derrubar um governo leg\u00edtimo eleito com base numa plataforma popular. Na fic\u00e7\u00e3o e na vida real, o desfecho \u00e9 id\u00eantico. A diferen\u00e7a \u00e9 que, no livro, a conspira\u00e7\u00e3o \u00e9 mantida em segredo at\u00e9 sua conclus\u00e3o. J\u00e1 aqui, sabemos muito bem, o conluio n\u00e3o s\u00f3 vem sendo transmitido ao vivo como \u00e9 feito \u00e0s claras desde o in\u00edcio. E, para nossa tristeza, essa \u00f3pera bufa e surreal ainda n\u00e3o acabou. Continua sendo exibida e explorada por pol\u00edticos de todos os matizes todos os dias, uma vez que os objetivos principais \u2013 a elimina\u00e7\u00e3o de Lula da vida p\u00fablica e a destrui\u00e7\u00e3o do PT como alternativa eleitoral progressista vi\u00e1vel \u2013 ainda n\u00e3o foram atingidos. Infelizmente, para n\u00f3s no Brasil, a realidade do golpe \u00e9 sentida concretamente, todos os dias. Antes, f\u00f4ssemos fic\u00e7\u00e3o. Antes, Um Golpe Bem Brasileiro fosse apenas um romance.<\/p>\n<p>Voltando ao campo da fic\u00e7\u00e3o, eis algumas informa\u00e7\u00f5es (reais) importantes, para quem for encarar o livro (infelizmente, apenas em ingl\u00eas): como a estrutura burocr\u00e1tica brit\u00e2nica \u00e9 bem diferente da brasileira, \u00e9 preciso levar em conta algumas dessas peculiaridades, para que n\u00e3o haja confus\u00e3o na cabe\u00e7a do leitor. L\u00e1, o que aqui chamamos de Ministro de Estado, \u00e9 conhecido por Secret\u00e1rio de Estado (Secretary of State). O problema \u00e9 que eles tamb\u00e9m t\u00eam o cargo de Ministro de Estado (Minister of State). Este \u00faltimo se reporta \u00e0quele. Hierarquicamente abaixo dos dois, encontra-se o Subsecret\u00e1rio Parlamentar de Estado (Parliamentary Under Secretary of State ou simplesmente Parliamentary Secretary). Al\u00e9m disso, h\u00e1 o Secret\u00e1rio Permanente (Permanent Secretary ou Permanent Under Secretary of State), cargo ocupado por funcion\u00e1rios mais graduados do servi\u00e7o p\u00fablico, que se encarregam de administrar o dia a dia dos respectivos Departamentos\/Minist\u00e9rios. E, para aumentar ainda mais a confus\u00e3o, os minist\u00e9rios l\u00e1 podem ser chamados tanto de Minist\u00e9rio (Ministry of Justice, por exemplo) quanto de Departamento (como o Department for Business, Energy &amp; Industrial Strategy). Com o Brexit (que, obviamente, n\u00e3o entra no escopo do livro), criaram at\u00e9 um Departamento para a Sa\u00edda da Uni\u00e3o Europeia (Department for Exiting the European Union)!<\/p>\n<p>Outro dado curioso a respeito da obra \u00e9 que, com a exce\u00e7\u00e3o do DI5, que foi uma maneira que o autor encontrou de evitar citar o MI5 (o Servi\u00e7o de Seguran\u00e7a Interna Brit\u00e2nico), todos os nomes de locais, pr\u00e9dios e estabelecimentos s\u00e3o reais. Portanto, o Annabel\u2019s \u00e9 o nome de um clube e restaurante sofisticado no centro de Londres, o Athenaeum \u00e9 o nome de um clube privado tamb\u00e9m em Londres, e assim por diante. Todos existem (ou existiram) de verdade. Por isso, quem quiser matar a curiosidade e ver a apar\u00eancia real desses locais, pode faz\u00ea-lo por meio de uma pesquisa na Internet.<\/p>\n<p>J\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 miniss\u00e9rie hom\u00f4nima \u2013 excelente, por sinal \u2013, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que buscou ser fiel \u00e0 trama original, divergindo, por\u00e9m, em dois aspectos: no livro, parte do enredo se centra numa usina nuclear. Na miniss\u00e9rie, esse foco \u00e9 transferido para o arsenal nuclear. E os finais do romance e da miniss\u00e9rie tamb\u00e9m seguem dire\u00e7\u00f5es distintas. Outro elemento importante aos interessados na obra audiovisual: aos olhos do p\u00fablico de hoje, acostumado com alta defini\u00e7\u00e3o, efeitos especiais, a\u00e7\u00e3o incessante e di\u00e1logos acelerados, a miniss\u00e9rie parecer\u00e1 arrastada e de baixa qualidade. Recomenda-se tentar relevar esses dois \u201cru\u00eddos\u201d. Deixe-se absorver pela trama, respeitando seu ritmo original. Com isso, acredito, consegue-se extrair o m\u00e1ximo proveito da obra.<\/p>\n<p>Apesar de serem fruto de outra era \u2013 estamos falando, afinal de contas, de um outro mundo, no auge da Guerra Fria, quando as diferen\u00e7as entre esquerda e direita eram visivelmente demarcadas \u2013, tanto o livro quanto a miniss\u00e9rie s\u00e3o prescientes, na medida em que, a despeito de nos mostrarem um golpe fict\u00edcio num Reino Unido que n\u00e3o mais existe, baseiam-se em fatos que, mais tarde, se provariam verdadeiros. Vale a pena aqui darmos a palavra ao autor, Chris Mullin, na introdu\u00e7\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o de 2017 de Um Golpe Bem Brit\u00e2nico:<\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 edi\u00e7\u00e3o de 2017\u00b3<\/strong><\/p>\n<p>No mesmo dia das recentes elei\u00e7\u00f5es gerais \u2013 8 de junho de 2017 \u2013, o Daily Telegraph publicou um artigo de capa, alertando que a elei\u00e7\u00e3o de Jeremy Corbyn poderia ser algo \u201cextremamente arriscado para o pa\u00eds\u201d. O artigo prosseguia, \u201c\u2026 em outra \u00e9poca, ele teria sido investigado ativamente pelo MI5. N\u00e3o podemos depositar o destino da Gr\u00e3-Bretanha em suas m\u00e3os.\u201d<br \/>\nO autor desse texto era Sir Richard Dearlove, um ex-chefe do MI6 e um dos respons\u00e1veis por nos empurrar para a cat\u00e1strofe iraquiana, um tema no qual o discernimento de Corbyn provou-se superior ao dele. At\u00e9 ler esse texto, achava que os dias em que os servi\u00e7os de seguran\u00e7a e informa\u00e7\u00f5es interferiam na vida pol\u00edtica brit\u00e2nica eram coisa do passado. Agora, j\u00e1 n\u00e3o tenho tanta certeza.<\/p>\n<p>Um Golpe Bem Brit\u00e2nico foi concebido h\u00e1 quase quarenta anos, sob uma atmosfera pol\u00edtica que, ao menos at\u00e9 recentemente, era muito diversa daquela que predomina atualmente. Em outubro de 1980, estava num trem, retornando da confer\u00eancia do Partido Trabalhista em Blackpool com Stuart Holland, que havia sido rec\u00e9m-eleito Membro do Parlamento (MP) por Lambeth Vauxhall, e Tony Banks e Peter Hain, que mais tarde viriam a se tornar MPs tamb\u00e9m. Est\u00e1vamos discutindo como o Establishment reagiria \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de um governo trabalhista de esquerda. Nesses dias distantes, Margareth Thatcher estava \u00e0 frente do governo brit\u00e2nico, mas ainda n\u00e3o havia consolidado seu dom\u00ednio sobre o poder. O Partido Trabalhista desfrutava de bons n\u00fameros nas pesquisas de opini\u00e3o, e havia uma possibilidade concreta de que, nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es, os trabalhistas fossem liderados por Tony Benn. A imprensa de direita estava entrando em frenesi com essa possibilidade. \u201cN\u00e3o se trata mais de se, mas sim de quando\u201d, gritava uma manchete de um dos jornais dos Harmsworth acima de uma foto de p\u00e1gina inteira de Tony Benn. Coroando tudo isso, o an\u00fancio de que os norte-americanos estavam planejando instalar m\u00edsseis de cruzeiro em suas bases brit\u00e2nicas havia dado novo \u00e2nimo \u00e0 Campanha pelo Desarmamento Nuclear (CDN).<\/p>\n<p>\u201cUm bom tema para um romance\u201d, observou um dos meus companheiros, fazendo com que Peter Hain revelasse que ele e um amigo estavam fazendo circular junto a editores um esbo\u00e7o de um romance que tratava exatamente desse assunto. Mas Stuart Holland havia dado um passo al\u00e9m. Ele disse que, naquele ver\u00e3o, havia datilografado, \u00e0 beira de uma piscina na Gr\u00e9cia, os cap\u00edtulos iniciais de um romance sobre o mesmo assunto. Apesar disso, acabei chegando \u00e0 frente de todos, mas por uma margem muito pequena. Anos mais tarde, Peter Hardiman Scott, um ex-correspondente pol\u00edtico s\u00eanior da BBC, me disse que, quando Um Golpe Bem Brit\u00e2nico foi publicado, ele j\u00e1 havia escrito dois ter\u00e7os de um romance baseado numa premissa similar. O livro dele era t\u00e3o extraordinariamente parecido que, depois de consultar seu editor, ele decidiu abandonar a obra. Dei muita sorte. O resultado poderia muito facilmente ter sido o oposto.<\/p>\n<p>Um Golpe Bem Brit\u00e2nico foi publicado no outono de 1982 e atraiu algum interesse. Na \u00e9poca, eu trabalhava no seman\u00e1rio de esquerda Tribune, e vend\u00edamos o livro por meio de um an\u00fancio na \u00faltima p\u00e1gina do jornal. O primeiro pedido veio da embaixada norte-americana e foi seguido por um convite para almo\u00e7ar com o Ministro, a autoridade mais importante depois do embaixador. O romance foi convenientemente achincalhado nas colunas de correspondentes do The Times e, com isso, por um breve per\u00edodo, as vendas na livraria da elite londrina, a Hatchards, em Piccadilly, superaram aquelas da livraria de esquerda, a Collets (desde ent\u00e3o, percebi que, quando se trata de vender livros, uma condena\u00e7\u00e3o p\u00fablica de alto n\u00edvel vale tanto quanto meia d\u00fazia de cr\u00edticas positivas). A primeira tiragem em capa dura vendeu rapidamente e foi seguida por uma modesta tiragem em brochura. O interesse posterior poderia ter desaparecido, n\u00e3o fosse a ocorr\u00eancia de eventos que reavivaram a aten\u00e7\u00e3o pelo livro.<\/p>\n<p>Em agosto de 1985, o Observer revelou que um membro do MI5, o Brigadeiro Ronnie Stoneham, podia ser encontrado na sala de n\u00famero 105 da Broadcasting House (sede da BBC), literalmente carimbando \u00e1rvores de natal de ponta cabe\u00e7a nas fichas cadastrais dos funcion\u00e1rios da emissora que ele considerasse ideologicamente inadequados. Aqueles que leram ou assistiram a Um Golpe Bem Brit\u00e2nico sabem que o meu diretor do MI5, Sir Peregrine Craddock, tamb\u00e9m avaliava funcion\u00e1rios da BBC, al\u00e9m de ter um espi\u00e3o no conselho geral da CDN. Mais tarde, uma dissidente do MI5 revelou que realmente tinha havido um espi\u00e3o desse tipo. Seu nome era Harry Newton. Finalmente, em 1987, Peter Wright, um agente aposentado do MI5, causou furor com a alega\u00e7\u00e3o de que um grupo de agentes do MI5, do qual ele fazia parte, havia tramado sabotar o governo de Harold Wilson. De repente, a possibilidade de que o Establishment brit\u00e2nico pudesse conspirar com seus amigos do outro lado do Atl\u00e2ntico n\u00e3o podia mais ser rejeitada como sendo paranoia da esquerda.<\/p>\n<p>Em 1988, o Channel Four transmitiu uma miniss\u00e9rie baseada no livro. Nela, o meu primeiro ministro foi maravilhosamente interpretado pelo excelente ator Ray McAnally e acabou ganhando v\u00e1rios pr\u00eamios BAFTA e um Emmy. Depois disso, o interesse pela obra diminuiu. Ap\u00f3s os esc\u00e2ndalos da d\u00e9cada de 1980, o MI5 passou por uma faxina (\u201cn\u00f3s nos livramos de v\u00e1rios pesos mortos\u201d, um Secret\u00e1rio do Interior conservador confidenciou para mim certa vez) e parou de se imiscuir na vida pol\u00edtica brit\u00e2nica. Sob Tony Blair, o Partido Trabalhista retornou de maneira determinada para o centro do espectro pol\u00edtico brit\u00e2nico e foi calorosamente recebido pelo Establishment, ou pela maioria dele.<\/p>\n<p>Com a ascens\u00e3o de Jeremy Corbyn, de repente, Um Golpe Bem Brit\u00e2nico voltou a chamar a aten\u00e7\u00e3o. Inicialmente, a possibilidade de um governo Corbyn parecia t\u00e3o remota que a ideia de que ele pudesse ser v\u00edtima de um golpe do establishment parecia n\u00e3o passar de uma fantasia deliciosa. Com o resultado das recentes elei\u00e7\u00f5es gerais, por\u00e9m, o que antes parecia inimagin\u00e1vel, agora \u00e9 uma possibilidade distinta. N\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel imaginar que ele possa ser o primeiro ministro na virada da d\u00e9cada. Ainda assim, o meu instinto continua dizendo que, apesar de muito barulho, o sistema deixar\u00e1 que os eventos sigam seu curso. Mas nunca se sabe. Com Trump na Casa Branca e uma parte consider\u00e1vel da nossa suposta liberdade de imprensa controlada por ide\u00f3logos dementes e imbecis \u2013 como Richard Dearlove \u2013 fazendo barulho, tudo \u00e9 poss\u00edvel. Bom proveito.<\/p>\n<p>Chris Mullin<br \/>\nAgosto de 2017<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Notas<\/p>\n<p>1 No Reino Unido, a propriedade cruzada de meios de meios de comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 proibida por lei. Assim, n\u00e3o existem ali monop\u00f3lios midi\u00e1dicos. Mas h\u00e1, sim, grandes grupos jornal\u00edsticos no pa\u00eds.<\/p>\n<p>2 Somente agora, com a recente ascens\u00e3o de Jeremy Corbyn \u00e0 lideran\u00e7a trabalhista, \u00e9 que est\u00e1 havendo uma reaproxima\u00e7\u00e3o do partido com suas origens.<\/p>\n<p>3 Publicado com a expressa autoriza\u00e7\u00e3o do autor.<\/p>\n<p>Yorkshire Tea \u00e9 leitor e colaborador do Duplo Expresso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA Very British Coup\u201d (Um Golpe Bem Brit\u00e2nico) de Chris Mullin, um ex-pol\u00edtico ingl\u00eas do Partido Trabalhista, foi originalmente publicado em 1982. Mais tarde, o livro foi transformado numa miniss\u00e9rie hom\u00f4nima, inicialmente transmitida pelo canal ingl\u00eas Channel 4, em 1988. Al\u00e9m de ter sido exibida em mais de 30 pa\u00edses, a miniss\u00e9rie foi premiad\u00edssima, conquistando alguns pr\u00eamios BAFTA e um Emmy.<\/p>\n","protected":false},"author":30,"featured_media":91777,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,20,733],"tags":[737,65,109,739,738],"class_list":["post-91782","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-home","category-politica-internacional","category-yorkshire-tea","tag-chris-mullin","tag-deep-state","tag-golpe","tag-golpe-midiatico","tag-labour-party"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/91782","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=91782"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/91782\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/91777"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=91782"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=91782"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=91782"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}