{"id":89325,"date":"2018-02-26T04:07:54","date_gmt":"2018-02-26T07:07:54","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=89325"},"modified":"2019-01-31T19:48:07","modified_gmt":"2019-01-31T21:48:07","slug":"qualquer-lugar-deveria-ser-um-jardim-de-rosas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=89325","title":{"rendered":"Qualquer lugar deveria ser um Jardim de Rosas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Carlos Krebs*, para o Duplo Expresso<\/strong><\/p>\n<p>No \u00faltimo texto publicado procurei fazer um pequeno paralelo entre pol\u00edticas habitacionais implementadas no mesmo ano de 1964 na Su\u00e9cia (<strong><em>Miljonprogrammet<\/em><\/strong> \u2013 Programa do Milh\u00e3o) e no Brasil (<strong>BNH\/SFH<\/strong> \u2013 Banco Nacional de Habita\u00e7\u00e3o \/ Sistema Financeiro de Habita\u00e7\u00e3o). Usei dois conjuntos habitacionais daquela \u00e9poca para isso: o distrito de Roseng\u00e5rd, em Malm\u00f6 (SWE) e o bairro Cidade 2000, em Fortaleza (BRA). Hoje vamos retroceder um pouco mais no tempo para poder avan\u00e7ar mais adiante\u2026<\/p>\n<p>\u2013\u2013\u2013\u2013\u2013<\/p>\n<p>Nos pa\u00edses europeus que experimentaram um r\u00e1pido processo de industrializa\u00e7\u00e3o, levando das \u00e1reas rurais para as cidades um grande contingente populacional, houve um &#8220;v\u00e1cuo regulat\u00f3rio&#8221; nas quest\u00f5es referentes aos direitos humanos. Principalmente na quest\u00e3o da moradia. A habita\u00e7\u00e3o dividia-se entre a oferta das companhias privadas, o interesse dos propriet\u00e1rios de f\u00e1bricas ou a a\u00e7\u00e3o de filantropos. Pa\u00edses com o forte h\u00e1bito do compromisso social e religioso deram o passo inicial para que funda\u00e7\u00f5es tomassem a frente na realiza\u00e7\u00e3o destas constru\u00e7\u00f5es. A organiza\u00e7\u00e3o de como as pessoas viveriam dava-se em torno do n\u00facleo habitacional.<\/p>\n<p>Mas a combina\u00e7\u00e3o entre injusti\u00e7as e discrimina\u00e7\u00f5es com as pessoas, a sa\u00fade dos trabalhadores e a propaga\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as contagiosas (que sempre ultrapassavam os limites entre as vers\u00f5es suja e limpa da mesma cidade) oportunizaram a cria\u00e7\u00e3o de sistemas regulat\u00f3rios para as moradias. Foi o caso da Holanda, por exemplo, com o <strong>Woningwet<\/strong> em 1901, pa\u00eds que ainda hoje conta com 35% dos seus alugu\u00e9is voltados para &#8220;moradia social&#8221;. Isso permitiu diferentes vis\u00f5es de como organizar as rela\u00e7\u00f5es entre as for\u00e7as de trabalho e o capital em um arranjo produtivo e rent\u00e1vel. Muitas formas de &#8220;como morar&#8221; surgiram ou foram experimentadas, embora sempre em quantidade insuficiente para impedir que as pessoas da classe trabalhadora vivessem em condi\u00e7\u00f5es pouco mais que prec\u00e1rias ou marginalizadas.<\/p>\n<p>No Brasil, a industrializa\u00e7\u00e3o nem chegara ainda, mas as principais cidades do pa\u00eds entravam no s\u00e9culo XX carregando o passivo oriundo de um regime escravocrata. Enquanto a Europa tentava regular o parcelamento e uso do solo urbano, nosso pa\u00eds vivia sob a \u00e9gide da <strong>Lei das Terras<\/strong> (1850), estabelecida durante o segundo Imp\u00e9rio para favorecer os grandes propriet\u00e1rios e manter a concentra\u00e7\u00e3o da propriedade nas m\u00e3os de poucos.<\/p>\n<p>Isto repetia-se nas cidades, onde apenas no per\u00edodo do Estado Novo de Get\u00falio Vargas iniciou-se uma altera\u00e7\u00e3o. Com a reestrutura\u00e7\u00e3o das caixas previdenci\u00e1rias de algumas categorias profissionais, a extens\u00e3o das garantias trabalhistas e a expans\u00e3o da atua\u00e7\u00e3o dos Institutos de Aposentadoria e Pens\u00f5es (IAPs) para as \u00e1reas da alimenta\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e habita\u00e7\u00e3o, as primeiras a\u00e7\u00f5es concretas de implementa\u00e7\u00e3o de conjuntos residenciais apareceram.<\/p>\n<figure id=\"attachment_89328\" aria-describedby=\"caption-attachment-89328\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-89328\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/1-Implantac\u0327o\u0303es-IAPI-Pedregulho-1024x455.png\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"355\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/1-Implantac\u0327o\u0303es-IAPI-Pedregulho-1024x455.png 1024w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/1-Implantac\u0327o\u0303es-IAPI-Pedregulho-300x133.png 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/1-Implantac\u0327o\u0303es-IAPI-Pedregulho-768x341.png 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/1-Implantac\u0327o\u0303es-IAPI-Pedregulho.png 1594w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-89328\" class=\"wp-caption-text\">Imagem 1 e 2 &#8220;Tipologias na Vila do IAPI&#8221; por \u00a9 Alberto Xavier e Ivan Mizouguchi (1987), imagem 3 &#8220;Vista A\u00e9rea da Vila do IAPI&#8221; por \u00a9 Almanaque Ga\u00facho (sem data) | projeto original Arq. Jos\u00e9 Otac\u00edlio Saboia Ribeiro e projeto final Eng\u00ba Marcos Kruter, Porto Alegre (1942-1954), e imagens 4 e 5 &#8220;Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes (Pedregulho)&#8221; | projeto Arq. Affonso Eduardo Reidy, Rio de Janeiro (1947-1958)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Entre v\u00e1rios exemplos de implementa\u00e7\u00e3o de conjuntos residenciais no pa\u00eds, apresento dois: a Vila do Instituto de Aposentadoria e Pens\u00f5es dos Industri\u00e1rios \u2013 <strong>IAPI<\/strong>, em Porto Alegre, e o Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes \u2013 <strong>Pedregulho<\/strong>, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>No conjunto de Porto Alegre, o projeto foi gestado no Rio de Janeiro pelo Arq. Jos\u00e9 Otac\u00edlio Saboia Ribeiro (NA2), e posteriormente &#8220;regionalizado&#8221; pelos engenheiros Edmundo Gardolinski e Marcus Kruter. Diferente de outros projetos constru\u00eddos no pa\u00eds, a vers\u00e3o habitacional ga\u00facha era bem mais conservadora que o padr\u00e3o modernista largamente empregado em outros estados. A Vila do IAPI estava muito mais pr\u00f3xima dos bairros-jardim ingleses, ou da proposta de cidade-jardim de Ebenezer Howard.<\/p>\n<p>Apesar de praticamente descartada pela corrente hegem\u00f4nica na cr\u00edtica arquitet\u00f4nica do pa\u00eds, o sucesso do empreendimento foi vis\u00edvel. Isso ocorreu pela facilidade em ser aceito pela popula\u00e7\u00e3o que o ocupou (e que se identificava com sua tipologia), por sua integra\u00e7\u00e3o ao sistema vi\u00e1rio desde a \u00e9poca da inaugura\u00e7\u00e3o, e sua capacidade de resili\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao crescimento observado naquela regi\u00e3o da cidade. Projetado inicialmente com 1.625 unidades, foi reinaugurado por Vargas com 2.533, em 1954.<\/p>\n<p>J\u00e1 no Rio de Janeiro, o projeto do Pedregulho concebido pelo arquiteto Affonso Reidy no bairro oper\u00e1rio carioca de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, correspondia a vanguarda do pensamento arquitet\u00f4nico e urban\u00edstico defendido pelos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna \u2013 CIAMs. Plasticamente perfeitos, os pr\u00e9dios deste conjunto eram ajustados \u00e0 geografia do lugar e apresentavam uma sofistica\u00e7\u00e3o na solu\u00e7\u00e3o de seus detalhes. Projetado inicialmente para abrigar 570 fam\u00edlias, o projeto ficou incompleto e ofereceu apenas 328 unidades aos funcion\u00e1rios do ent\u00e3o Distrito Federal.<\/p>\n<p>Infelizmente, o d\u00e9ficit habitacional brasileiro sempre for\u00e7ou que se buscasse o caminho das respostas r\u00e1pidas, tentando construir mais em menos tempo. Os dois exemplos acima, preocupados em encontrar solu\u00e7\u00f5es apropriadas para uma realidade e um momento, s\u00f3 puderam ser replicadas parcialmente em outras d\u00e9cadas. Voltando ao presente, vamos observar brevemente tr\u00eas empreendimentos que poderiam indicar-nos uma dire\u00e7\u00e3o do que perseguir no Brasil, ou o que poderia constar na pauta de reinvindica\u00e7\u00f5es da habita\u00e7\u00e3o de interesse social.<\/p>\n<figure id=\"attachment_89329\" aria-describedby=\"caption-attachment-89329\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-89329\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/2-Housing-Examples-1024x455.png\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"355\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/2-Housing-Examples-1024x455.png 1024w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/2-Housing-Examples-300x133.png 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/2-Housing-Examples-768x341.png 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/2-Housing-Examples.png 1594w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-89329\" class=\"wp-caption-text\">Imagem 1 &#8220;Torre Pla\u00e7a Europa&#8221; por \u00a9 Jordi Surroca | projeto Arqs. Roldan + Berengu\u00e9, Barcelona, SPA (2005), imagens e projeto 2 e 3 &#8220;Willhavana&#8221; por \u00a9 Arq. Iwo Borkowicz (POL), Havana, CUB (2016), e imagens 4 e 5 &#8220;Habita\u00e7\u00e3o Monterrey&#8221; por \u00a9 Ramiro Ramirez | projeto Arq. Alejandro Aravena (CHI), Santa Catarina, MEX (2010)<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Torre Pla\u00e7a Europa | R + B (SPA)\u00a0<\/strong>O pr\u00e9dio (imagem 1) de 75 unidades encomendado pela INCAS\u00d2L atrav\u00e9s de concurso p\u00fablico vencido pelo escrit\u00f3rio dos hisp\u00e2nicos <strong>Roldan e Berengu\u00e9<\/strong> em 2005, apresenta caracter\u00edsticas no objeto arquitet\u00f4nico que poderiam ser replicadas em outras situa\u00e7\u00f5es, tornando vi\u00e1vel que se construa mais com a mesma quantidade de recursos:<\/p>\n<p>1. Bloco com dois planos de fachadas e ventila\u00e7\u00e3o cruzada;<\/p>\n<p>2. Medidas incorporadas de redu\u00e7\u00e3o de custos de constru\u00e7\u00e3o com ado\u00e7\u00e3o de produtos naturais e reciclados (85%) e recicl\u00e1veis (100%);<\/p>\n<p>3. Redu\u00e7\u00e3o do uso de energia<\/p>\n<p>4. Sistema de fachada pr\u00e9-industrializado<\/p>\n<p>5. Uso de materiais simples empregados de forma inusitada;<\/p>\n<p>6. Uso de fachada ventilada com elimina\u00e7\u00e3o de pontes t\u00e9rmicas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Habita\u00e7\u00e3o Monterrey \u2013 ELEMENTAL (MEX<\/strong>) Conjunto residencial (imagens 4 e 5) com 70 unidades no M\u00e9xico, projetado em 2010 pelo escrit\u00f3rio do arquiteto chileno <strong>Alejandro Aravena<\/strong>, vencedor do pr\u00eamio Pritzker em 2016. Alguns quesitos extremamente interessantes:<\/p>\n<p>1. O poder p\u00fablico entrega ao futuros propriet\u00e1rios a parte &#8220;dura&#8221; da obra em 40m2 \u2013 banheiros, cozinha, escada e paredes de sustenta\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>2. Os futuros propriet\u00e1rios poder\u00e3o customizar e concluir como quiserem de acordo com seu tipo \u2013 at\u00e9 58m2 ou nos duplex, at\u00e9 76m2;<\/p>\n<p>3. O projeto \u00e9 de dom\u00ednio p\u00fablico, assim como outros tr\u00eas disponibilizados pelo escrit\u00f3rio, e qualquer pessoa pode utilizar livremente tanto o projeto executado quanto todos os seus detalhes construtivos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Willavana \u2013 Iwo Borkowicz (POL)\u00a0<\/strong>Projeto desenvolvido por este polon\u00eas \u2013 vencedor do Pr\u00eamio Jovem Talento Arquitet\u00f4nico 2016 por seu trabalho de mestrado em uma universidade belga, com um projeto no setor da Havana Vieja, em Cuba. Assim como em qualquer empreendimento no mundo real, este arquiteto apresenta a viabilidade do neg\u00f3cio antes de apresentar solu\u00e7\u00f5es arquitet\u00f4nicas. Ali\u00e1s, neste caso, os cinco prot\u00f3tipos apresentados n\u00e3o interessam quanto \u00e0 materialidade que normalmente pensamos na constru\u00e7\u00e3o. Seus pontos inovadores:<\/p>\n<p>1. Aborda a quest\u00e3o do d\u00e9ficit habitacional de praticamente 10% da popula\u00e7\u00e3o da ilha caribenha vinculando a uma causa, n\u00e3o como consequ\u00eancia;<\/p>\n<p>2. Enxerga em outro problema \u2013 a falta de infraestrutura hoteleira \u2013 a solu\u00e7\u00e3o para a moradia;<\/p>\n<p>3. Extrapola a possibilidade de que os habitantes hoje possuem de locar quartos aos turistas, e com isso oferece uma real capacidade de recupera\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o de pr\u00e9dios hist\u00f3ricos degradados.<\/p>\n<figure id=\"attachment_89331\" aria-describedby=\"caption-attachment-89331\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-89331\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/3-Res-Anayde-Beiriz-\u2013-Versa\u0303o-Alternativa-Arq.-Marcos-Suassuna-1024x455.png\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"355\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/3-Res-Anayde-Beiriz-\u2013-Versa\u0303o-Alternativa-Arq.-Marcos-Suassuna-1024x455.png 1024w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/3-Res-Anayde-Beiriz-\u2013-Versa\u0303o-Alternativa-Arq.-Marcos-Suassuna-300x133.png 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/3-Res-Anayde-Beiriz-\u2013-Versa\u0303o-Alternativa-Arq.-Marcos-Suassuna-768x341.png 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/3-Res-Anayde-Beiriz-\u2013-Versa\u0303o-Alternativa-Arq.-Marcos-Suassuna.png 1594w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-89331\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Vis\u00e3o Geral da Implanta\u00e7\u00e3o Alternativa&#8221; \u2013 Residencial Aneyde Beiriz por \u00a9 Arq. Marco Suassuna (2011), baseado no projeto desenvolvido pela Secretaria Municipal de Habita\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Pessoa (2010-2012) como a primeira obra do PMCMV no estado da Para\u00edba<\/figcaption><\/figure>\n<p>Olhando para o Brasil, \u00e9 dif\u00edcil achar que neste momento em que tantos direitos adquiridos estejam em questionamento, possamos pensar em pol\u00edtica habitacional. Mas eu afirmo que ela \u00e9 essencial! E n\u00e3o estou pensando sozinho.<\/p>\n<p>O arquiteto <strong>Marco Suassuna<\/strong> recebeu men\u00e7\u00e3o honrosa na X edi\u00e7\u00e3o do pr\u00eamio Jovens Profissionais em 2011 com sua cr\u00edtica ao primeiro condom\u00ednio doPrograma Minha Casa Minha Vida \u2013 PMCMV na Para\u00edba, em Jo\u00e3o Pessoa. Ainda em execu\u00e7\u00e3o, ele ofereceu uma dura reflex\u00e3o n\u00e3o somente \u00e0 qualidade do projeto oferecido pela Secretaria Municipal de Habita\u00e7\u00e3o, mas ao programa como replicador edifica\u00e7\u00f5es com baixa qualidade arquitet\u00f4nica, m\u00e1 localiza\u00e7\u00e3o, com baixo aproveitamento do solo e alto custo agregado de infraestrutura (excesso de arruamento para ve\u00edculos e extens\u00e3o da rede de servi\u00e7os). Para as 584 unidades do projeto entregues em 2012, ele reprojetou o conjunto com 824 unidades, 60 boxes de com\u00e9rcio local, espa\u00e7os de conviv\u00eancia e oferta de servi\u00e7os fundamentais para quem viveria ali (t\u00e3o distante do centro) n\u00e3o poderia abrir m\u00e3o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s um hiato na produ\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00e3o de interesse social no pa\u00eds entre o fim do BNH em 1986 e a implanta\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio das Cidades em 2003, a quest\u00e3o da moradia novamente foi inserida na agenda pol\u00edtica do pa\u00eds, mas com consequ\u00eancias bastante previs\u00edveis para urbanistas e planejadores.<\/p>\n<p>Mas antes de ser uma pol\u00edtica habitacional, o PMCMV serviu como um modelo de neg\u00f3cio onde definem-se as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas que viabilizam determinado projeto. As atribui\u00e7\u00f5es de cada uma das partes s\u00e3o claras: O governo federal oferece o recurso financeiro a baixo custo e um leque de isen\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias; o governo municipal diminui o valor imobili\u00e1rio e, por consequ\u00eancia, o IPTU da \u00e1rea; o setor privado procura estas glebas de terra para desenvolver projetos e negocia diretamente com as administra\u00e7\u00f5es municipais; e o agente financeiro (tamb\u00e9m do governo federal, atrav\u00e9s da CEF, ou conveniado a ela) procede a an\u00e1lise t\u00e9cnico-financeira destes projetos, e libera os recursos de acordo com aquilo que os bancos entendem por &#8220;boas pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Como modelo de neg\u00f3cio voltado a aquecer a economia, foi uma jogada sensacional. Lembremos que o &#8220;mercado&#8221; estava muito assustado com a crise provocada pela bolha americana em 2008, justamente no setor imobili\u00e1rio. Mas as unidades habitacionais foram planejadas como estat\u00edstica, n\u00e3o como lugar. Como lugar, na minha opini\u00e3o, seria interessante pensar no trip\u00e9 equivalente entre a\u00a0<strong>cidade criativa<\/strong>, a\u00a0<strong>cidade verde<\/strong> e a\u00a0<strong>cidade para as pessoas<\/strong>.<\/p>\n<p>A <strong>cidade criativa<\/strong> \u00e9 aquela em que o desenvolvimento urbano \u00e9 planejado e fiscalizado pelo poder p\u00fablico, e n\u00e3o por quem obt\u00e9m lucro com a transmiss\u00e3o da propriedade. N\u00e3o que ele seja indesej\u00e1vel, mas ele deve atuar como aplicador da pol\u00edtica p\u00fablica, n\u00e3o o condutor dela. Os objetivos desta cidade seriam:<\/p>\n<p>A. Cria\u00e7\u00e3o de ambiente vi\u00e1vel para a diversidade das atividades econ\u00f4micas;<\/p>\n<p>B. Associar o desenvolvimento esparso de atividades comercial e produtiva, associadas \u00e0s \u00e1reas residenciais de forma a diminuir as dist\u00e2ncias trabalho-casa;<\/p>\n<p>C. Potencializar recursos de forma a que a cidade n\u00e3o s\u00f3 produza produtos, mas tamb\u00e9m seja capaz de desenvolver conhecimento e servir como polo de sustenta\u00e7\u00e3o para quem nela vive.<\/p>\n<p>A <strong>cidade verde<\/strong> \u00e9 aquela em que se alinha como priorit\u00e1ria a manuten\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o do ambiente natural, de forma que este seja usufru\u00eddo pelos habitantes amparados pela economia \u2013 o inverso do que normalmente se assiste. Como objetivos, nesta cidade observar\u00edamos:<\/p>\n<p>A. Est\u00edmulo da cria\u00e7\u00e3o de uma qualidade ambiental em que as pessoas (e n\u00e3o o poder p\u00fablico) tomem para si a defesa de seu ecossistema, cuidando do solo, da \u00e1gua e ar com base em seu interesse de preserva\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>B. Uso racional do parcelamento do solo de forma a otimizar os recursos naturais, o uso energ\u00e9tico, a densidade e ocupa\u00e7\u00f5es, ao inv\u00e9s de seguir um modelo num\u00e9rico padr\u00e3o de \u00edndices que servem apenas ao patrimonialismo;<\/p>\n<p>C. Estabelecer planos e crit\u00e9rios simples para o desenvolvimento econ\u00f4mico das regi\u00f5es urbanas sempre qualificando o espa\u00e7o p\u00fablico e o ambiente natural, planejando de forma integrada infraestrutura, servi\u00e7os, transporte e ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A <strong>cidade para as pessoas<\/strong>, aquela onde a rua \u00e9 o principal espa\u00e7o p\u00fablico, onde a cidade acontece e por onde se encontra a identifica\u00e7\u00e3o do eu e do nosso. Nesta cidade, os objetivos s\u00e3o mais pr\u00f3ximos ao que ter\u00edamos de direito:<\/p>\n<p>A. Qualidade do ambiente constru\u00eddo, onde a Arquitetura e a Engenharia se abra\u00e7am ao Design em um esfor\u00e7o conjunto, nunca em carreiras-solo;<\/p>\n<p>B. Preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria urbana e da hist\u00f3ria do lugar para proporcionar empatia e identifica\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>C. Escala de constru\u00e7\u00e3o, onde a altura dos pr\u00e9dios proporcione a sensa\u00e7\u00e3o de conforto para quem circula, n\u00e3o de opress\u00e3o e sombra;<\/p>\n<p>D. Casa para qualquer um!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Precisamos pensar que nossa <strong>necessidade<\/strong> de habitar n\u00e3o \u00e9 incomum, n\u00e3o \u00e9 \u00fanica, n\u00e3o \u00e9 extraordin\u00e1ria. A minha e a sua necessidade habitam o mesmo lugar de troca que a do cidad\u00e3o do outro lado da rua. Aquela l\u00e1, que ali n\u00e3o tem roupa, mais al\u00e9m nem comida ou teto. Enquanto ele \u2013 mesmo l\u00e1 longe \u2013 n\u00e3o for sequer um dado estat\u00edstico. As pessoas n\u00e3o s\u00e3o os tijolinhos que se empilham\u2026 Porque nas cidades de verdade, pessoas n\u00e3o se contam; pessoas encontram-se! Qualquer dia desses, a gente se v\u00ea ao vivo, \u00e0 cores e abra\u00e7os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><em><strong>* Carlos Krebs\u00a0<\/strong>\u00e9 arquiteto, cin\u00e9filo, explorador de sinapses, conector de pontinhos, e mais um que acredita que o Brasil ainda tem tudo para dar certo.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na primeira parte publicada, procurei fazer um pequeno paralelo entre pol\u00edticas habitacionais implementadas no mesmo ano de 1964 na Su\u00e9cia (Miljonprogrammet \u2013 Programa do Milh\u00e3o) e no Brasil (BNH\/SFH \u2013 Banco Nacional de Habita\u00e7\u00e3o \/ Sistema Financeiro de Habita\u00e7\u00e3o). Usei dois conjuntos habitacionais daquela \u00e9poca para isso: o distrito de Roseng\u00e5rd, em Malm\u00f6 (SWE) e o bairro Cidade 2000, em Fortaleza (BRA). Hoje vamos retroceder um pouco mais no tempo para poder avan\u00e7ar mais adiante, passando pelos conjuntos do IAPI (Porto Alegre) e Pedregulho (Rio de Janeiro), al\u00e9m de alguns exemplos internacionais contempor\u00e2neos.<\/p>\n","protected":false},"author":30,"featured_media":89326,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[593,592,2],"tags":[602,604,603,600,601,587],"class_list":["post-89325","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-carlos-krebs","category-comentaristas","category-home","tag-cidade-criativa","tag-cidade-para-as-pessoas","tag-cidade-verde","tag-iapi","tag-pedregulho","tag-politica-habitacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/89325","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=89325"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/89325\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/89326"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=89325"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=89325"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=89325"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}