{"id":87246,"date":"2018-01-29T13:00:32","date_gmt":"2018-01-29T15:00:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.duploexpresso.com\/?p=87246"},"modified":"2019-01-31T18:27:10","modified_gmt":"2019-01-31T20:27:10","slug":"cidades-invisiveis-passagens-secretas-tribunais-medievais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=87246","title":{"rendered":"Cidades Invis\u00edveis, Passagens Secretas, Tribunais Medievais"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Carlos Krebs*, para o Duplo Expresso<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ord\u00e1lia<\/strong> \u00e9 uma pr\u00e1tica da Idade M\u00e9dia onde submetia-se o acusado pela pr\u00e1tica de um crime a um desafio por uma for\u00e7a da natureza. Assim, para afirmar sua inoc\u00eancia, ele passava por uma prova envolvendo dor ou perigo \u2013 andar sobre uma trilha em brasa, mergulhar a m\u00e3o em \u00e1gua fervente, submergir o corpo em uma fonte d&#8217;\u00e1gua quase congelante. Se inocente, o ju\u00edzo de Deus <em>(judicium Dei)<\/em> intercederia como se um milagre ocorresse; se culpado, as consequ\u00eancias e afli\u00e7\u00f5es j\u00e1 estavam impostas pela for\u00e7a suprema.<\/p>\n<figure id=\"attachment_102646\" aria-describedby=\"caption-attachment-102646\" style=\"width: 1594px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-102646 size-full\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/1-Austrian-National-Library.png\" alt=\"\" width=\"1594\" height=\"708\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/1-Austrian-National-Library.png 1594w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/1-Austrian-National-Library-300x133.png 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/1-Austrian-National-Library-768x341.png 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/1-Austrian-National-Library-1024x455.png 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1594px) 100vw, 1594px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-102646\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Austrian National Library&#8221; por Stefan Steinbauer | Wien AUT (2017), sob licen\u00e7a Creative Commons<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Minha <strong>mem\u00f3ria<\/strong> mais antiga envolvendo Arquitetura talvez seja a compuls\u00e3o por desenhar passagens secretas. Elas estavam presentes em uma s\u00e9rie de desenhos, filmes de suspense, livros de mist\u00e9rio. Ainda crian\u00e7a, apaixonei-me pela ideia de fazer projetos delas nos cantos de cadernos.<\/p>\n<p>Aqueles quadros enormes de pessoas com os olhos remov\u00edveis, onde no corredor detr\u00e1s da parede podia observar-se quem estava na sala. Uma estante repleta de livros em que, puxando-se um, uma passagem era aberta. A tocha em um t\u00fanel, que acionada como alavanca, permitia um desvio no caminho. Escadas secretas sob o piso, acessos a cavernas dezenas de metros abaixo de castelos e mans\u00f5es.<\/p>\n<p>O fasc\u00ednio estava muito longe da exist\u00eancia f\u00edsica destes lugares. O que <strong>desejava<\/strong> era a possibilidade de driblar o previs\u00edvel. Sonhava com o escape da realidade, a insubordina\u00e7\u00e3o com as regras da vida.<\/p>\n<p>Mas a gente cresce, a raz\u00e3o pisa firme sobre as fantasias da inf\u00e2ncia e sobra pouco espa\u00e7o para sair da linha. Quando cheguei na Faculdade de Arquitetura e, de repente, ganhei a oportunidade de ler um manual inteirinho de passagens secretas: &#8220;<strong>As Cidades Invis\u00edveis<\/strong>&#8220;, de \u00cdtalo Calvino (1972).<\/p>\n<p>Este escritor cubano\/italiano fez uso do m\u00edtico comerciante e explorador veneziano Marco Polo como um contador de hist\u00f3rias descrevendo cidades que jamais encontrar\u00edamos em um mapa convencional. Com um registro peculiar, seu narrador percorre o vasto imp\u00e9rio de Kublai Khan \u2013 o Rei dos T\u00e1rtaros \u2013 at\u00e9 a corte na atual Beijing, capital da China. Ao mesmo tempo que dominava a imensid\u00e3o da \u00c1sia, o imperador era recluso na sua cidade. A vis\u00e3o de seus dom\u00ednios vinha do olhar de muitos correspondentes espalhados. E todos estes falavam de cidades como n\u00f3s estamos habituados a ouvir: localiza\u00e7\u00e3o, geografia, etnia, atividades, interesses, linhas cruzadas.<\/p>\n<p><em>\u201cO Grande Khan possui um atlas em que est\u00e3o reunidos os mapas de todas as cidades: as que repousam as suas muralhas sobre bases s\u00f3lidas, as que ca\u00edram em ru\u00ednas e foram tragadas pela areia, as que existir\u00e3o um dia e em cujos lugares hoje n\u00e3o h\u00e1 nada al\u00e9m de tocas de lebres.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Menos Marco Polo. Ele prendia a aten\u00e7\u00e3o do rei porque suas cidades fant\u00e1sticas n\u00e3o poderiam ser localizadas, assinaladas, povoadas. Elas estiveram l\u00e1 ao longo da sua passagem, mas n\u00e3o existiriam sen\u00e3o pelo seu testemunho. Sua descri\u00e7\u00e3o de 55 cidades usa como mapa, como cartografia da narrativa, elementos et\u00e9reos como a mem\u00f3ria, o desejo, a vis\u00e3o, o cont\u00ednuo ou o oculto.<\/p>\n<p>S\u00e3o essas passagens secretas que levavam o rei mongol da dinastia Yuan para muito al\u00e9m de seus muros. Ou trouxeram para sua corte a riqueza que nenhum coletor de impostos seria capaz de oferecer. A simbologia para a abstra\u00e7\u00e3o, o afeto e o amor que devemos perceber sempre ao percorremos nossa trilha. Ao menos este foi o acionamento secreto que me permiti ao folhear cada p\u00e1gina do livro.<\/p>\n<p>E como seria a Porto Alegre se cada um dos brasileiros que presenciaram in loco o julgamento do ex-presidente na semana passada tivesse um rei a corresponder? O que eles teriam a dizer de l\u00e1? Ser\u00e1 que o lugar da v\u00e9spera era o mesmo da lembran\u00e7a do dia? Como os olhos da legalidade poderiam perder-se do calend\u00e1rio, dos nomes, da folha timbrada? Como destacavam-se em nomes e olhos?<\/p>\n<p>A minha Porto Alegre seria como a <strong>delgada Sophronia<\/strong> de Calvino, a cidade dividida em duas. Uma metade que sempre esteve l\u00e1, no conjunto de pr\u00e9dios do Alto da Bronze, no granito da Catedral e na estatu\u00e1ria dos cemit\u00e9rios, nos vidros dos poderes p\u00fablicos, desde muito antes das gentes ocuparem estes lugares. E a outra metade, aquela do monta e desmonta. A constru\u00edda na mem\u00f3ria do mais lindo p\u00f4r-do-sol , a dos vendedores de algod\u00e3o doce cor-de-rosa-e-azul-anil no Parque da Reden\u00e7\u00e3o, a de um espet\u00e1culo na beira do rio.<\/p>\n<figure id=\"attachment_102647\" aria-describedby=\"caption-attachment-102647\" style=\"width: 1594px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-102647 size-full\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/2-Sophronia-Zaira.png\" alt=\"\" width=\"1594\" height=\"708\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/2-Sophronia-Zaira.png 1594w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/2-Sophronia-Zaira-300x133.png 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/2-Sophronia-Zaira-768x341.png 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/2-Sophronia-Zaira-1024x455.png 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1594px) 100vw, 1594px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-102647\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Cidade de Sophronia&#8221; (esq) pelo arquiteto \u00a9 David Fleck SCO (2015), da s\u00e9rie ilustrada de &#8220;Invisible Cities&#8221; e &#8220;Cidade de Z\u00e1ria&#8221; (dir) pela arquiteta \u00a9 Karina Puente Frantzen, PER (2016), de seu projeto pessoal de ilustrar todas as cidades do livro<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma parte que \u00e9 o muro do Cais e os front\u00f5es neocl\u00e1ssicos, e a outra que dura o tempo de um Gre-Nal e depois vai embora. E como seria a sua descri\u00e7\u00e3o? Como seria a Porto Alegre de voc\u00ea que observou pela janela permitida nas imagens da televis\u00e3o ou internet? Voc\u00ea que transp\u00f4s o pa\u00eds e ficou algumas horas encaixotado naquele julgamento, o que viu ou descreve?<\/p>\n<p>No final da Antiguidade o Direito Romano estava consolidado, e era ponto comum a necessidade da apresenta\u00e7\u00e3o de provas ao se acusar algu\u00e9m por um crime. Mas, de repente, por um lapso-tempo, fomos jogados em uma corte da Idade M\u00e9dia. Assistimos \u2013 em sil\u00eancio perplexo \u2013 uma tr\u00edade empilhar palavras e frases e elegias e odaras ao republicanismo jur\u00eddico nacional.<\/p>\n<p>Um discurso monoc\u00f3rdio que distorceu tanto a palavra para ela tornar-se prova, que isso passou a ser <strong>a verdadeira ord\u00e1lia<\/strong>: somente uma interven\u00e7\u00e3o clara da manifesta\u00e7\u00e3o divina \u2013 um raio fulminante, ou uma profus\u00e3o de bolinhas de gude na boca dos julgadores \u2013 seria capaz de inocentar Lula.<\/p>\n<figure id=\"attachment_102648\" aria-describedby=\"caption-attachment-102648\" style=\"width: 1594px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-102648 size-full\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/3-A-King-Dictating-The-Law-Detail.png\" alt=\"\" width=\"1594\" height=\"708\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/3-A-King-Dictating-The-Law-Detail.png 1594w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/3-A-King-Dictating-The-Law-Detail-300x133.png 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/3-A-King-Dictating-The-Law-Detail-768x341.png 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/3-A-King-Dictating-The-Law-Detail-1024x455.png 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1594px) 100vw, 1594px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-102648\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o de &#8220;A King Dictating The Law&#8221; (esq) e detalhe da p\u00e1gina no The British Library | London GBR (entre1275 e 1325), sob licen\u00e7a Creative Commons<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lan\u00e7ando m\u00e3o de realmente avaliarem o caso sob a luz da t\u00e9cnica penal, o que tinha nome de julgamento transformou-se em com\u00edcio pol\u00edtico sobre uma senten\u00e7a-decreto. Uma senten\u00e7a com fundo falso. A ratifica\u00e7\u00e3o do lugar-comum dos corredores da Rep\u00fablica, onde a cada tanto corta-se a cabe\u00e7a do povo para deixar claro: as institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o ali para funcionar, apenas para garantir o sistema. O rito, as togas e o extrapolar da Carta Magna s\u00e3o apenas o loteamento de um lugar invis\u00edvel dentro do mapa das cidades cont\u00ednuas. A das torres de plumas, que se erguem tocando nuvens para que o vento lhes desmanchem. Pensamos que suas ruas e meandros est\u00e3o l\u00e1, mas desaparecem ao menor sinal da verdade.<\/p>\n<p>Ingenuidade a minha pensar que as cidades possam ser justas quando sentimos temor naquilo que dever\u00edamos depositar respeito. Para projetar passagens secretas eu deveria ter estudado o Direito, n\u00e3o Arquitetura!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><em><strong>* Carlos Krebs<\/strong>\u00a0\u00e9 arquiteto, cin\u00e9filo, explorador de sinapses, conector de pontinhos, e mais um que acredita que o Brasil ainda tem tudo para dar certo.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha mem\u00f3ria mais antiga envolvendo Arquitetura talvez seja a compuls\u00e3o por desenhar passagens secretas. Elas estavam presentes em uma s\u00e9rie de desenhos, filmes de suspense, livros de mist\u00e9rio. Ainda crian\u00e7a, apaixonei-me pela ideia de fazer projetos delas nos cantos de cadernos. O fasc\u00ednio estava muito longe da exist\u00eancia f\u00edsica destes lugares. O que desejava era a possibilidade de driblar o previs\u00edvel. 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