{"id":86384,"date":"2016-04-12T10:18:00","date_gmt":"2016-04-12T12:18:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.duploexpresso.com\/?p=86384"},"modified":"2016-04-12T10:18:00","modified_gmt":"2016-04-12T12:18:00","slug":"parabola-multi-sincretica-de-duas-tribos-em-guerra-por-romulus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=86384","title":{"rendered":"Par\u00e1bola multi-sincr\u00e9tica de duas tribos em guerra, por Romulus"},"content":{"rendered":"<p>\n          <img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"\/sites\/default\/files\/admin\/guerra1.jpg\" style=\"width: 650px; height: 435px;\"\/>\n        <\/p>\n<p>\n          <strong><br \/>\n            <span style=\"font-size:16px;\">Por Romulus<\/span><br \/>\n          <\/strong>\n        <\/p>\n<p>Ao ler o \u201cXadrez\u201d de hoje de Luis Nassif, lembrei-me de algo que aconteceu comigo algum tempo atr\u00e1s. Ainda n\u00e3o consegui determinar exatamente a rela\u00e7\u00e3o entre as duas coisas. Talvez os leitores do blog possam me ajudar. Se estiverem dispostos e sentindo-se generosos para comigo, ap\u00f3s lerem o post \u201c<a href=\"http:\/\/jornalggn.com.br\/noticia\/o-xadrez-da-segunda-rodada-do-impeachment\">O xadrez da segunda rodada do impeachment<\/a>\u201d, por favor passem ao relato que segue.<\/p>\n<p>*********<\/p>\n<p>Um \u00edndio velho, &#8220;aculturado&#8221; desde que veio para a &#8220;civiliza\u00e7\u00e3o&#8221; na meia idade, decidiu permitir-se um capricho na senioridade: pegar um avi\u00e3o para vir conhecer, in loco, o chocolate su\u00ed\u00e7o. Ouvira dizer que o cacau a 100% dos Alpes era o que mais lembrava a bebida sagrada dos primos Astecas de outrora.<\/p>\n<p>Sabia que haveria de ter nessa terra estranha algu\u00e9m que falasse a sua l\u00edngua. Resolveu procura-lo ent\u00e3o nas redes sociais e em blogs (eta, \u00edndio antenado!). O destino fez com que de todos os muitos lus\u00f3fonos vivendo nestas paragens, ele viesse a encontrar n\u00e3o outro que a mim, imaginem voc\u00eas. Ficamos amigos e tivemos longas conversas depois que ele aqui chegou em sua busca pelo chocolate.<\/p>\n<p>Vendo minha ang\u00fastia atual, acendeu o insepar\u00e1vel cachimbo e contou-me uma par\u00e1bola, uma dessas hist\u00f3rias cheias de simbologias e significados ocultos. Hist\u00f3rias das quais extra\u00edmos met\u00e1foras e extrapolamos algumas conclus\u00f5es. Talvez para a vida. Ou quem sabe n\u00e3o. Como quem me contou \u00e9 \u00edndio sim mas tamb\u00e9m brasileiro \u2013 e aculturado \u2013 a par\u00e1bola est\u00e1 banhada no sincretismo, esse dom do nosso povo de sintetizar a tese e a ant\u00edtese e criar algo novo, que n\u00e3o \u00e9 nem uma coisa nem outra. N\u00e3o estranhem: por sincr\u00e9tica, a par\u00e1bola tem floresta, \u00edndio, cruzada santa, cemit\u00e9rio ind\u00edgena amaldi\u00e7oado, almas penadas, exorcismos neopentecostais de TV e outros encontros fortuitos que s\u00f3 se d\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>Ainda interessados? Ent\u00e3o vamos \u00e0 hist\u00f3ria que me contou o s\u00e1bio \u00edndio, <strong>vov\u00f4 Jararaca-sentada<\/strong>:<\/p>\n<p><strong>Duas tribos<\/strong> lutavam com unhas e dentes por uma mesma floresta. Os dois <strong>povos se odiavam<\/strong> desde tempos imemoriais. Mas, temendo a <strong>m\u00fatua aniquila\u00e7\u00e3o<\/strong>, os respectivos <strong>caciques e xam\u00e3s <\/strong>encontravam-se secretamente na cachoeira, onde o barulho das \u00e1guas abafava as conversas que n\u00e3o deviam dali escapar. Formulavam vers\u00f5es sucessivas de um pacto de sangue que finalmente pudesse ser aceito pelos dois caciques.<\/p>\n<p>A guerra era &#8220;santa&#8221;. Uma <strong>cruzada<\/strong> do &#8220;<strong>bem contra o mal<\/strong>&#8220;. Mas poderia trazer tamb\u00e9m a aniquila\u00e7\u00e3o total. Com o <strong>pacto de sangue <\/strong>que propunham, a guerra poderia ser evitada. Guerra de exterm\u00ednio, bem entendido, mas um exterm\u00ednio em uma gloriosa causa. Os m\u00e1rtires haveriam de ir todos para o c\u00e9u, cria a maioria.<\/p>\n<p>A partir do tal pacto, as perdas humanas das tribos dali por diante seriam limitadas a pequenas rusgas na mata fechada. Somente quando houvesse encontros fortuitos entre os respectivos grupos de ca\u00e7adores. Mas isso era algo do jogo desde que Tup\u00e3 Krishina criara o mundo.<\/p>\n<p>A <strong>(re-)&#8221;pactua\u00e7\u00e3o&#8221;<\/strong> entre caciques e xam\u00e3s n\u00e3o seria vit\u00f3ria nem derrota total. Era meia vit\u00f3ria \/ meia derrota &#8211; para ambos os lados. Ningu\u00e9m sairia com o que queria. Ao contr\u00e1rio, todos sairiam meio vencedores e meio perdedores. Mas <strong><em>sairiam<\/em><\/strong>. Ponto.<\/p>\n<p>O pr\u00eamio por lutar exclusivamente pela &#8220;vit\u00f3ria total&#8221; \u2013 causa justa e permitida pelas regras e costumes das tribos &#8211; poderia (disse-me o \u00edndio: \u201cpoderia\u201d&#8230; no <strong>condicional<\/strong>&#8230;) ser a <strong>vit\u00f3ria naquela &#8220;cruzada&#8221;<\/strong>&#8230; mas <strong>vit\u00f3ria de Pirro<\/strong>. Quem viesse a ser a reencarna\u00e7\u00e3o amaz\u00f4nica desse antigo general continuaria cacique, caso fosse o \u00fanico que continuasse de p\u00e9 ao final. Isto \u00e9: depois de lavar o pecado da terra com o sangue dos \u00edndios justos naquela luta infernal. Esse seria o sacrif\u00edcio supremo a Tup\u00e3 Krishina, que criara seu povo num porre de cauim.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, continuaria cacique. Mas agora de um silencioso cemit\u00e9rio &#8211; e cemit\u00e9rio ind\u00edgena, vejam bem.<\/p>\n<p>Nota: Para que eu compreendesse melhor as implica\u00e7\u00f5es de morar em um \u201cantigo cemit\u00e9rio ind\u00edgena\u201d, o velho \u00edndio recomendou que assistisse ao filme &#8220;Poltergeist&#8221; no Netflix (eta, \u00edndio antenado! (2))<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 hist\u00f3ria, havia mais um detalhe: o &#8220;cacicado&#8221; tinha tempo marcado para terminar: <strong>dali a dois anos e meio<\/strong>. Em tal data o pr\u00f3prio Tup\u00e3 Krishina amea\u00e7ava voltar, desgostoso com o conflito que se arrastava e n\u00e3o saia do impasse.<\/p>\n<p>Em tom solene o meu amigo \u00edndio proclamou: \u201caos homens n\u00e3o \u00e9 dado conhecer o que Tup\u00e3 Krishina far\u00e1\u201d. Dessa forma, n\u00e3o havia xam\u00e3 que pudesse afirmar com tanta anteced\u00eancia o que o severo deus faria dali a dois anos e meio.<\/p>\n<p>Para dificultar ainda mais a decis\u00e3o, havia riscos mesmo na vit\u00f3ria total na tal guerra santa. Os xam\u00e3s dos dois lados mandavam avisar que depois da guerra, independentemente de qual cacique fosse o \u00faltimo a ficar de p\u00e9, as <strong>almas penadas<\/strong> daqueles que ca\u00edssem ao longo dos dias de batalha voraz voltariam para atormentar o cemit\u00e9rio.<\/p>\n<p>O cacique tinha grandes planos para o local. Sonhava v\u00ea-lo coberto de verde novamente. Mas a assombra\u00e7\u00e3o das almas penadas n\u00e3o permitiria que um vasto pomar, sonhado pelo cacique, crescesse no local. Em vingan\u00e7a, essas almas malditas fariam tudo <strong>gorar e secar<\/strong>&#8230; todas as <strong>mudinhas de \u00e1rvore<\/strong>.<\/p>\n<p>Os caciques sabiam por relatos da oralidade que <strong>a oferta de frutos<\/strong> tinha o cond\u00e3o de <strong>pacificar<\/strong> muitas almas em tribos conflagradas. Dos dois lados. De forma que os \u00edndios a quem n\u00e3o faltassem frutas costumavam voltar ao seu ju\u00edzo habitual. N\u00e3o se esperava desses \u00edndios que apelassem para alternativas amalucadas diante do desespero da aus\u00eancia de frutos.<\/p>\n<p>Os caciques imaginavam que, comendo apenas milho velho naqueles anos at\u00e9 o fim do cacicado, n\u00e3o havia pajelan\u00e7a ou tele-exorcismo neopentecostal capaz de impedir as almas penadas de voltarem com tudo, incorporarem nos \u00edndios sobreviventes e <strong>exilarem o cacique e sua fam\u00edlia por 20 anos no m\u00ednimo<\/strong>. O tempo de uma gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assaltavam o cacique grandes d\u00favidas: o que seria melhor para ele? E para sua fam\u00edlia? E para toda a tribo? O cacique teria de escolher entre: (1) a &#8220;cruzada&#8221;, just\u00edssima e moral\u00edssima, ou (2) aquele pacto que faria at\u00e9 sua m\u00e3e cuspir em seu rosto quando voltasse com a &#8220;boa&#8221; nova. Escolheria entre a bendita &#8220;vit\u00f3ria total&#8221;, de Pirro, ou uma meia vit\u00f3ria \/ meia derrota, desde logo alcunhada de &#8220;A Grande Covardia&#8221; ou &#8220;A Vergonha&#8221;.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o<\/strong> pensem que a decis\u00e3o do cacique <strong>era f\u00e1cil<\/strong>. Muito pelo contr\u00e1rio. Anos e anos de imbr\u00f3glio j\u00e1 se somavam, com perda gradual de sangue de lado a lado.<\/p>\n<p>Antes de decidir, ele procurou fil\u00f3sofos na \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d para aconselhar-se. Ao ouvir o relato do cacique, vieram eles com nomes estranhos para encaixar nas op\u00e7\u00f5es, mas cujos significados o cacique estranhamente compreendia. Enunciava um dos fil\u00f3sofos: \u201ca <strong>Pol\u00edtica<\/strong>, goste-se ou n\u00e3o, \u00e9 terreno para <strong>considera\u00e7\u00f5es alheias \u00e0 Lei e \u00e0 moral<\/strong> &#8211; com limites, bem entendido. \u00c9 para os fortes de est\u00f4mago e de f\u00edgado leve, com pele grossa e <strong>mem\u00f3ria fraca<\/strong>, que facilmente esquecem estocadas dos que at\u00e9 ontem eram tidos como inimigos\u201d.<\/p>\n<p>O cacique compreendeu, mas disse que seria dif\u00edcil explicar isso aos seus na tribo. O fil\u00f3sofo ofereceu ent\u00e3o uma tradu\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica para aquela tal de pol\u00edtica: \u201c<strong>\u00e9 a arte de intuir \u2013 olhando tudo em volta &#8211; quando se est\u00e1 cacifado para meter o dedo no olho do advers\u00e1rio e ganhar terreno e quando se est\u00e1 cacifado apenas para levar dedada no pr\u00f3prio olho e recolher-se ao seu canto. E em sil\u00eancio. <\/strong>Inclusive <strong>momentos h\u00e1 em que n\u00e3o se furam os olhos de ningu\u00e9m, porque ambos concordam em amarrar as pr\u00f3prias m\u00e3os e a ficar parados no mesmo lugar.<\/strong><\/p>\n<p>E, de repente, sem me contar o final daquele conflito, o \u00edndio partiu para os finalmentes. Arrematou ele o relato com uma \u201c<strong>moral<\/strong>\u201d<strong> da hist\u00f3ria<\/strong>: \u201cquem tem dificuldade de aceitar essa realidade, que n\u00e3o se aventure nessa tal pol\u00edtica. Que <strong>n\u00e3o pe\u00e7a para ser cacique<\/strong>. Preserve a liberdade de se limitar a jogar o jogo de acordo com o que os seus fil\u00f3sofos chamam de moral e Lei\u201d.<\/p>\n<p>Ao ouvir o fim do relato do velho Jararaca-sentada, j\u00e1 com os l\u00e1bios e a l\u00edngua enegrecidos pelo cacau amargo a 100%, cheguei a uma conclus\u00e3o. Disse-lhe: \u201colha, \u2018seu\u2019 Jararaca-sentada, o chocolate fica por minha conta. Foi mais do que pago por esse seu relato t\u00e3o cheio de peso. N\u00e3o consigo nem sorrir nem chorar ao ouvi-lo. Mas ele me traz uma conclus\u00e3o: essa tal de pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 mesmo para mim. Odeio injusti\u00e7as. N\u00e3o consigo v\u00ea-las e aceit\u00e1-las calado. Para mim a escolha sempre seria fazer o que \u2018\u00e9 certo\u2019, n\u00e3o o que \u00e9 \u2018necess\u00e1rio\u2019. Ali\u00e1s, \u2018seu\u2019 Jararaca-sentada, concluo nossa conversa dizendo que a sua narrativa me fez lembrar do nosso pa\u00eds natal no momento atual. N\u00e3o sei por que, mas enquanto o Sr. falava eu sonhava acordado e via a floresta como o Brasil. Que loucura, n\u00e3o? Deve ter sido esse vinho branco de Valais que pedimos para acompanhar o chocolate\u201d.<\/p>\n<\/p>\n<p>\n          <strong>Fim?<\/strong>\n        <\/p>\n<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[583],"tags":[],"class_list":["post-86384","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-romulus-maya-posts-antigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/86384","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=86384"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/86384\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=86384"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=86384"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=86384"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}